sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Luís Nassif: O imprevisível chegou e a bola está com Lula

A invasão da Venezuela e o sequestro do seu presidente pelos Estados Unidos, joga definitivamente a América Latina na mais profunda imprevisibilidade.

Os sonhos brasileiros, de uma potência soberana e desenvolvida, passam a ser profundamente ameaçados.

Os elementos para o grande salto estavam aí:

# Reservas estratégicas de terras raras.

# Abundância de energia verde.

# Uma boa base científico-tecnológica.

# A parceria potencial com a China e com os BRICS, abrindo as perspectivas de uma cooperação proveitosa.

# A liderança do Sul Global, abrindo enormes possibilidades geopolíticas para o país.

Tudo isso é passado. A invasão da Venezuela marca definitivamente o fim da autonomia das nações, da mediação dos organismos multilaterais, das negociações como saída para os conflitos.

A história está repleta de exemplos, a Pax Romana, a Espanha dos Habsburgo sobre a América Latina, a Guerra dos Ópios, do Império Britânico contra a China, as sucessivas invasões norte-americanos no pós-guerra.

O padrão é sempre o mesmo.

# Ascensão econômica

# Supremacia militar

# Narrativa moral (“civilizar”, “libertar”, “defender”)

# Uso seletivo da força

# Declínio quando o custo supera o benefício

Entra-se na nova quadra com o Brasil partido ao meio.

De um lado, tendo de enfrentar seus demônios internos: a invasão do mercado e do Congresso pelo crime organizado.

Os problemas de governabilidade trazidos pelos apropriação do Congresso pelo crime organizado.

A ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal, facilitada pela falta de um código de conduta no órgão.

Uma mídia sem a menor noção do que seja interesse nacional, sem uma bússola sequer, resultando em uma cobertura caótica e sem discernimento.

O único fator de coesão no país continua sendo Lula, mas sem o reforço de qualquer plano de desenvolvimento sólido, sem qualquer perspectiva de futuro, para propor o grande pacto nacional.

Todos os gestos passivos foram tentados para o grande pacto. Tem-se um governo claramente de centro, respeitador das instituições, empenhado em reconstruir as bases do Estado nacional, atuante nas questões de soberania, quando afrontada pelas ameaças de Trump, e ousando políticas sociais básicas.

Fosse um país minimamente informado, Lula representaria a tal terceira via, que a imprensa vive apregoando e ninguém sabe, ninguém viu. Mas é vítima de um preconceito social típico de republiquetas latino-americanas. Ironiza-se muito o pensamento primário das bancadas bbb (boi, Bíblia e bala), mas o veículo que deveria ser o instrumento dos grandes temas nacionais – a mídia corporativa – compartilha do mesmo primarismo.

E esse primarismo contamina todos os setores da vida nacional. Não existem mais lideranças industriais, comerciais, bancárias, de pequenas e micro empresas. Apenas uma enorme balbúrdia em torno do que é ou não é gastança.

A bola está com Lula, não fosse por suas virtudes, mas pela relevante razão de que somos um país de analfabetos disfuncionais, com cada qual querendo levar seu quinhão sem a menor noção sobre o conjunto.

Lula tem que pensar seu plano de metas, seu New Deal. Anos atrás, no dia do AVC de dona Marise, participei de um evento com Lula. Fiz minha palestra, joguei um monte de provocações para Lula. E o discurso que ele fez continha todos os elementos de um projeto de país: abordava todos os temas relevantes para o país (educação, inovação, integração econômica, saúde) com a linguagem acessível ao cidadão comum. Comentei com um colega que apenas uma bala pararia Lula (parafraseando um dito comum nos tempos de Muhammad Ali).

Depois disso houve a prisão, a volta gloriosa, a administração política de um país partido ao meio. E o veneno bolsonarista espalhado por todos os poros da Nação.

Mas é hora de Lula dar-se conta da necessidade de traçar um projeto que aponte o futuro. Os bons indicadores de 2025 não bastam. Ele tem que colocar o país para pensar o que queremos ser, da mesma maneira que JK com o Plano de Metas e Roosevelt com o New Deal.

•        “O ataque dificilmente teria ocorrido se a Venezuela fosse membro dos BRICS”, diz analista venezuelano

O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump, líder dos Estados Unidos, dificilmente teria acontecido se a Venezuela não tivesse sido rejeitada no BRICS com voto do Brasil sob a presidência de Lula. É o que avalia o escritor, analista político e ativista Juan Ramón Guzmán, que concedeu uma entrevista diretamente da Venezuela à advogada, mestre em Direitos Humanos e doutoranda em Ciências Jurídicas, Dora Nassif, colaboradora do GGN.

Na entrevista, Guzmán atacou duramente o imperialismo, argumentando que o verdadeiro interesse das potências globais é o controle das vastas reservas de petróleo e ouro da Venezuela. Ele também apontou que a instabilidade econômica que atinge o país é fruto de uma “guerra financeira e de sanções econômicas”, e não de falhas internas da gestão atual. O convidado alertou que a queda da soberania venezuelana pode gerar um efeito dominó em toda a América Latina, instando líderes regionais a buscarem união e independência. Ele criticou pontualmente o presidente Lula por ter impedido a entrada da Venezuela nos BRICS, o que, em sua visão, teria esvaziado o cerco de Trump.

“Tenho duas queixas contra Lula. A primeira é que ele se opôs quando Rússia e China já haviam acordado em ter a Venezuela como membro dos BRICS. Se opôs porque ele queria provas das eleições do ano passado, nas quais Maduro venceu. Mas por causa de erro tático, dessa formalidade, isso agora se converteu em um erro estratégico. O ataque dificilmente teria ocorrido – nem o assédio [de Trump à Venezuela] de quase 5 meses – se a Venezuela fosse membro dos BRICS. Há aí um erro tático por parte da burguesia latino-americana, que para agradar aos Estados Unidos, se opôs veementemente, e agora estamos pagando por isso”, avaliou Guzmán.

O segundo erro supostamente cometido por Lula, na visão do analista, foi ter pedido “democratização da participação nas eleições do ano passado”, com a entrada de María Corina Machado. A líder de oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz é considerada uma golpista pelo governo Maduro.

Apesar das críticas, Guzmán elogiou a resposta de Lula ao ataque dos Estados Unidos e ao sequestro de Maduro. Oficialmente, Lula afirmou que os bombardeios à Venezuela “ultrapassam uma linha inaceitável” e representaram uma “afronta gravíssima à soberania”.

<><> Novas eleições

Durante a entrevista, Guzmán explicou que o povo venezuelano não espera por uma nova eleição porque não há, em tese, previsão constitucional. Segundo ele, a norma prevê eleições extraordinárias dentro de 30 dias a partir da vacância do cargo de presidente em hipóteses específicas: quando o presidente renuncia voluntariamente; quando uma junta médica comprova incapacidade mental para seguir no poder, ou quando o presidente recebe uma imputação de delito grave. Na visão de Guzmán, a Constituição não se aplica ao “sequestro violento e abrupto” de Maduro por outro Estado.

Na terça-feira, 7 de janeiro, a Casa Branca afirmou à imprensa que ainda é muito cedo para falar de eleições na Venezuela. Além disso, Guzmán lembrou que um decreto da Venezuela, já avalizado pela Justiça venezuelana, reafirma Maduro como o presidente legítimo no poder, mas na condição de “presidente sequestrado”. Seu mandato termina em 2030. Em sua ausência, governará a vice-presidente Delcy Rodrigues, com apoio do governo Trump – uma prova de que a intenção é criar as condições para explorar ao máximo o petróleo venezuelano, pouco se importando em tirar o chavismo do poder.

<><> Sentimento geral

De acordo com Guzmán, hoje a Venezuela vive um “sentimento geral de indignação e impotência”. “Há uma pequena elite que ficou feliz que se livrou de Maduro”. Mas a grande parte da população ainda não digeriu o ataque dos EUA. Ele contou de um episódio chocante: uma família inteira morreu dentro de um carro que foi atingido por uma das bombas jogada sobre Caracas pelas forças estadunidenses. “A bomba derreteu a família e esse carro como se tivesse caído no fundo de um forno siderúrgico. Transformou-se em líquido, em brasa.”

<><> Cavalo de Tróia

Guzmán ainda disse que o ataque dos EUA só teve sucesso porque, pela primeira vez na história, os norte-americanos contaram com um Cavalo de Tróia. “Para se tomar uma fortaleza, sempre foi necessário ter ajuda interna. Isso aconteceu na Venezuela. Um povo conscientizado, politizado, não pode ser destruído nem pelas forças mais poderosas do mundo. Veja o povo cubano. Veja os palestinos. O que aconteceu na Venezuela, aconteceu porque os imperialistas tiveram ajuda para interceptar aeronaves [que saíram em defesa de Maduro]. Toda a força de segurança de Maduro foi assassinada para se chegar a ele. Os gringos não são gênios, é que eles contaram com cumplicidade interna. O Estado venezuelano tem obrigação de encontrar esses traidores”, disparou o entrevistado.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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