Luís
Nassif: O imprevisível chegou e a bola está com Lula
A
invasão da Venezuela e o sequestro do seu presidente pelos Estados Unidos, joga
definitivamente a América Latina na mais profunda imprevisibilidade.
Os
sonhos brasileiros, de uma potência soberana e desenvolvida, passam a ser
profundamente ameaçados.
Os
elementos para o grande salto estavam aí:
#
Reservas estratégicas de terras raras.
#
Abundância de energia verde.
# Uma
boa base científico-tecnológica.
# A
parceria potencial com a China e com os BRICS, abrindo as perspectivas de uma
cooperação proveitosa.
# A
liderança do Sul Global, abrindo enormes possibilidades geopolíticas para o
país.
Tudo
isso é passado. A invasão da Venezuela marca definitivamente o fim da autonomia
das nações, da mediação dos organismos multilaterais, das negociações como
saída para os conflitos.
A
história está repleta de exemplos, a Pax Romana, a Espanha dos Habsburgo sobre
a América Latina, a Guerra dos Ópios, do Império Britânico contra a China, as
sucessivas invasões norte-americanos no pós-guerra.
O
padrão é sempre o mesmo.
#
Ascensão econômica
#
Supremacia militar
#
Narrativa moral (“civilizar”, “libertar”, “defender”)
# Uso
seletivo da força
#
Declínio quando o custo supera o benefício
Entra-se
na nova quadra com o Brasil partido ao meio.
De um
lado, tendo de enfrentar seus demônios internos: a invasão do mercado e do
Congresso pelo crime organizado.
Os
problemas de governabilidade trazidos pelos apropriação do Congresso pelo crime
organizado.
A
ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal, facilitada pela falta de um código
de conduta no órgão.
Uma
mídia sem a menor noção do que seja interesse nacional, sem uma bússola sequer,
resultando em uma cobertura caótica e sem discernimento.
O único
fator de coesão no país continua sendo Lula, mas sem o reforço de qualquer
plano de desenvolvimento sólido, sem qualquer perspectiva de futuro, para
propor o grande pacto nacional.
Todos
os gestos passivos foram tentados para o grande pacto. Tem-se um governo
claramente de centro, respeitador das instituições, empenhado em reconstruir as
bases do Estado nacional, atuante nas questões de soberania, quando afrontada
pelas ameaças de Trump, e ousando políticas sociais básicas.
Fosse
um país minimamente informado, Lula representaria a tal terceira via, que a
imprensa vive apregoando e ninguém sabe, ninguém viu. Mas é vítima de um
preconceito social típico de republiquetas latino-americanas. Ironiza-se muito
o pensamento primário das bancadas bbb (boi, Bíblia e bala), mas o veículo que
deveria ser o instrumento dos grandes temas nacionais – a mídia corporativa –
compartilha do mesmo primarismo.
E esse
primarismo contamina todos os setores da vida nacional. Não existem mais
lideranças industriais, comerciais, bancárias, de pequenas e micro empresas.
Apenas uma enorme balbúrdia em torno do que é ou não é gastança.
A bola
está com Lula, não fosse por suas virtudes, mas pela relevante razão de que
somos um país de analfabetos disfuncionais, com cada qual querendo levar seu
quinhão sem a menor noção sobre o conjunto.
Lula
tem que pensar seu plano de metas, seu New Deal. Anos atrás, no dia do AVC de
dona Marise, participei de um evento com Lula. Fiz minha palestra, joguei um
monte de provocações para Lula. E o discurso que ele fez continha todos os
elementos de um projeto de país: abordava todos os temas relevantes para o país
(educação, inovação, integração econômica, saúde) com a linguagem acessível ao
cidadão comum. Comentei com um colega que apenas uma bala pararia Lula
(parafraseando um dito comum nos tempos de Muhammad Ali).
Depois
disso houve a prisão, a volta gloriosa, a administração política de um país
partido ao meio. E o veneno bolsonarista espalhado por todos os poros da Nação.
Mas é
hora de Lula dar-se conta da necessidade de traçar um projeto que aponte o
futuro. Os bons indicadores de 2025 não bastam. Ele tem que colocar o país para
pensar o que queremos ser, da mesma maneira que JK com o Plano de Metas e
Roosevelt com o New Deal.
• “O ataque dificilmente teria ocorrido se
a Venezuela fosse membro dos BRICS”, diz analista venezuelano
O
sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelo governo de Donald
Trump, líder dos Estados Unidos, dificilmente teria acontecido se a Venezuela
não tivesse sido rejeitada no BRICS com voto do Brasil sob a presidência de
Lula. É o que avalia o escritor, analista político e ativista Juan Ramón
Guzmán, que concedeu uma entrevista diretamente da Venezuela à advogada, mestre
em Direitos Humanos e doutoranda em Ciências Jurídicas, Dora Nassif,
colaboradora do GGN.
Na
entrevista, Guzmán atacou duramente o imperialismo, argumentando que o
verdadeiro interesse das potências globais é o controle das vastas reservas de
petróleo e ouro da Venezuela. Ele também apontou que a instabilidade econômica
que atinge o país é fruto de uma “guerra financeira e de sanções econômicas”, e
não de falhas internas da gestão atual. O convidado alertou que a queda da
soberania venezuelana pode gerar um efeito dominó em toda a América Latina,
instando líderes regionais a buscarem união e independência. Ele criticou
pontualmente o presidente Lula por ter impedido a entrada da Venezuela nos
BRICS, o que, em sua visão, teria esvaziado o cerco de Trump.
“Tenho
duas queixas contra Lula. A primeira é que ele se opôs quando Rússia e China já
haviam acordado em ter a Venezuela como membro dos BRICS. Se opôs porque ele
queria provas das eleições do ano passado, nas quais Maduro venceu. Mas por
causa de erro tático, dessa formalidade, isso agora se converteu em um erro
estratégico. O ataque dificilmente teria ocorrido – nem o assédio [de Trump à
Venezuela] de quase 5 meses – se a Venezuela fosse membro dos BRICS. Há aí um
erro tático por parte da burguesia latino-americana, que para agradar aos
Estados Unidos, se opôs veementemente, e agora estamos pagando por isso”,
avaliou Guzmán.
O
segundo erro supostamente cometido por Lula, na visão do analista, foi ter
pedido “democratização da participação nas eleições do ano passado”, com a
entrada de María Corina Machado. A líder de oposição venezuelana e vencedora do
Prêmio Nobel da Paz é considerada uma golpista pelo governo Maduro.
Apesar
das críticas, Guzmán elogiou a resposta de Lula ao ataque dos Estados Unidos e
ao sequestro de Maduro. Oficialmente, Lula afirmou que os bombardeios à
Venezuela “ultrapassam uma linha inaceitável” e representaram uma “afronta
gravíssima à soberania”.
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Novas eleições
Durante
a entrevista, Guzmán explicou que o povo venezuelano não espera por uma nova
eleição porque não há, em tese, previsão constitucional. Segundo ele, a norma
prevê eleições extraordinárias dentro de 30 dias a partir da vacância do cargo
de presidente em hipóteses específicas: quando o presidente renuncia
voluntariamente; quando uma junta médica comprova incapacidade mental para
seguir no poder, ou quando o presidente recebe uma imputação de delito grave.
Na visão de Guzmán, a Constituição não se aplica ao “sequestro violento e
abrupto” de Maduro por outro Estado.
Na
terça-feira, 7 de janeiro, a Casa Branca afirmou à imprensa que ainda é muito
cedo para falar de eleições na Venezuela. Além disso, Guzmán lembrou que um
decreto da Venezuela, já avalizado pela Justiça venezuelana, reafirma Maduro
como o presidente legítimo no poder, mas na condição de “presidente
sequestrado”. Seu mandato termina em 2030. Em sua ausência, governará a
vice-presidente Delcy Rodrigues, com apoio do governo Trump – uma prova de que
a intenção é criar as condições para explorar ao máximo o petróleo venezuelano,
pouco se importando em tirar o chavismo do poder.
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Sentimento geral
De
acordo com Guzmán, hoje a Venezuela vive um “sentimento geral de indignação e
impotência”. “Há uma pequena elite que ficou feliz que se livrou de Maduro”.
Mas a grande parte da população ainda não digeriu o ataque dos EUA. Ele contou
de um episódio chocante: uma família inteira morreu dentro de um carro que foi
atingido por uma das bombas jogada sobre Caracas pelas forças estadunidenses.
“A bomba derreteu a família e esse carro como se tivesse caído no fundo de um
forno siderúrgico. Transformou-se em líquido, em brasa.”
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Cavalo de Tróia
Guzmán
ainda disse que o ataque dos EUA só teve sucesso porque, pela primeira vez na
história, os norte-americanos contaram com um Cavalo de Tróia. “Para se tomar
uma fortaleza, sempre foi necessário ter ajuda interna. Isso aconteceu na
Venezuela. Um povo conscientizado, politizado, não pode ser destruído nem pelas
forças mais poderosas do mundo. Veja o povo cubano. Veja os palestinos. O que
aconteceu na Venezuela, aconteceu porque os imperialistas tiveram ajuda para
interceptar aeronaves [que saíram em defesa de Maduro]. Toda a força de
segurança de Maduro foi assassinada para se chegar a ele. Os gringos não são
gênios, é que eles contaram com cumplicidade interna. O Estado venezuelano tem
obrigação de encontrar esses traidores”, disparou o entrevistado.
Fonte:
Jornal GGN

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