Fernando
Horta: A bobagem das novas zonas de influência
Circula
nas redes sociais um mapa-múndi com inscrições à mão, aparentemente satírico,
que divide o planeta em três áreas de influência: "me" (Donald Trump)
abarcando as Américas; "Putin" controlando Rússia e Europa; e
"Xi" (Jinping) dominando África e Ásia. O que deveria permanecer como
sátira ganhou endosso de diversos analistas internacionais que passaram a
defender seriamente essa configuração como o futuro da ordem mundial. Trata-se
de uma enorme bobagem analítica que revela profundo desconhecimento sobre a
história dos sistemas internacionais e as transformações estruturais do século
XXI.
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A genealogia das zonas de influência
A noção
de "zonas de influência" tem uma história específica que precisa ser
compreendida antes de aplicá-la levianamente ao presente. Sua origem remonta ao
Tratado da Paz de Augsburgo de 1555, que estabeleceu o princípio cuius regio,
eius religio – "de quem é a região, dele é a religião". Esse arranjo
não tinha ambições imperiais globais; era uma solução pragmática de
sobrevivência para uma Europa dilacerada por guerras religiosas. O príncipe
determinava a confissão de seu território, e quem discordasse que migrasse.
Simples, territorial, limitado.
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Essa
lógica evoluiu nas disputas entre Bourbons e Habsburgos, mas permaneceu
essencialmente europeia e dinástica. A transformação radical viria apenas no
século XX, quando a industrialização redefiniu completamente o sentido de
"influência". Não se tratava mais de religião ou dinastia, mas de
controle sobre produção, fluxos financeiros, tecnologia, matérias-primas e
população. O ápice dessa configuração foi a Guerra Fria, simbolizada
perfeitamente no memorando da partilha entre Stalin e Churchill, onde literalmente
dividiram o mundo em percentuais de influência. O princípio desse sistema era
permitir o controle econômico-produtivo de regiões inteiras, e apenas como
consequência desse controle estabelecia-se certa estabilidade – nunca paz
propriamente dita.
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Cinco razões pelas quais isso não funciona mais
Primeiro:
esse tipo de controle totalizante sobre regiões inteiras é impossível na
economia globalizada do século XXI. Sim, vivemos um recuo da globalização após
a guerra da Ucrânia, com fragmentação de cadeias produtivas e realinhamentos
geopolíticos. Mas essa fragmentação não recria as condições da Guerra Fria. As
interdependências são de outra natureza: chips taiwaneses em sistemas militares
americanos, terras raras chinesas em tecnologia europeia, capitais entrelaçados
em paraísos fiscais, cadeias de valor que atravessam cinco continentes antes de
um produto chegar ao consumidor. Não há mais como "fechar" uma zona
de influência sem colapsar a própria economia do suposto controlador.
Segundo:
no mundo digital, a própria ideia de "zonas de influência
geográficas" se torna obsoleta. A influência hoje é algorítmica, não
territorial. A fronteira que importa não é a linha no mapa, é o protocolo de
internet, o sistema operacional, a plataforma de mídia social, o padrão de
inteligência artificial. A China pode exercer influência sobre jovens
americanos via TikTok de forma muito mais efetiva do que jamais conseguiu
territorialmente. Os EUA moldam comportamentos no Irã através de VPNs e redes
sociais de maneira que nenhum exército conseguiria. Quando a influência se dá
por fluxos informacionais e não por controle territorial, o conceito de
"zona" simplesmente deixa de fazer sentido. Você não estabelece um
checkpoint na entrada do Instagram.
Terceiro:
as assimetrias de interesse e poder não cabem nesse esquema simplista. A
Venezuela significa para os Estados Unidos infinitamente mais do que a Ucrânia
para a Rússia – é quintal geográfico, reservas petrolíferas gigantescas,
questão de segurança hemisférica histórica. Por mais que Rússia e China tentem,
na atual configuração geopolítica, eles jamais conseguiriam impedir que os EUA
continuassem extraindo valor e exercendo pressão sobre territórios que os
analistas pintaram alegremente como "zona russa" ou "zona
chinesa". A América Latina pode estar próxima da China comercialmente, mas
quando os EUA decidem agir – como vimos recentemente –, as margens de manobra
chinesas são limitadíssimas. A ideia de que Xi Jinping "controlaria"
a África inteira quando mal consegue garantir estabilidade no Mar do Sul da
China beira o delírio analítico.
Quarto:
atores médios e regionais não são peças passivas nesse tabuleiro imaginário. O
Japão, com a terceira maior economia do mundo e tratado de segurança com os
EUA, simplesmente não cabe numa "zona chinesa". A Austrália reforçou
laços militares com Washington através do AUKUS. O Brasil e a América Latina
desenvolvem estratégias de autonomia que desafiam qualquer noção de
subordinação total. E mesmo numa análise geográfica básica, a ideia de que
Alemanha e França – potências econômicas, nucleares no caso francês, com
projetos próprios de autonomia estratégica – aceitariam fazer parte de uma
"zona de influência russa" não resiste a cinco minutos de exame
sério. A União Europeia, com todos os seus problemas, não é a Polônia de 1945.
Quinto,
e talvez mais importante: o mundo do século XX morreu simbolicamente quando
Trump atacou a Venezuela e Maduro apareceu vendado em Nova York. Aquilo não foi
apenas uma operação policial espetacular – foi a demonstração de que as
ferramentas tradicionais de ação internacional ficaram obsoletas. A diplomacia
multilateral colapsou, o respeito às soberanias formais evaporou, os protocolos
de ação entre potências deixaram de funcionar. Retirar do baú a empoeirada
ideia de "zonas de influência" para aplicá-la num mundo digital do
século XXI é desconhecer que todos os condicionantes estruturais para que ela
funcionasse estão ausentes.
Não há
mais controle efetivo sobre fronteiras quando a influência é digital. Não há
mais controle sobre fluxos financeiros em tempo de criptomoedas e paraísos
fiscais digitais. Não existe mais diplomacia ativa e atuante como construtora
de ações internacionais quando líderes se comunicam por tweets e ameaças são
feitas por redes sociais. E não há mais respeito automático ao sentido de
potência de certos países quando potências médias têm capacidades assimétricas
de causar danos desproporcionais.
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Conclusão: pensamento novo para Mundo Novo
O
sistema internacional do século XX foi enterrado – e não por acaso, mas por
obsolescência estrutural. Continuar operando com suas categorias analíticas é
como tentar entender a internet usando manuais de telefonia dos anos 1970. É
tecnicamente possível encontrar algumas analogias, mas você perderá
completamente o fenômeno.
É
urgente encontrar novas soluções de ação internacional, novos marcos analíticos
que capturem as especificidades do poder no século XXI: algorítmico, fluido,
assimétrico, digital. Zonas de influência geográficas são relíquias de um mundo
que não existe mais. E tratar sátira como análise séria é sintoma de uma crise
mais profunda: a incapacidade de ler as transformações do presente sem as
lentes empoeiradas do passado.
Fonte:
Brasil 247

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