sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Sul Global, Ocidente e uma encruzilhada: construir cooperação ou prosseguir à guerra nuclear

“Quanto mais nos aproximamos da paz, mais desesperados ficam os belicistas”, comentou Kirill Dmitriev em seu perfil no X em 25 de novembro último. O negociador especial da Rússia se referia ao pânico que se desencadeou entre a gangue de loucos belicosos encabeçada pelos britânicos, que preferem fazer o mundo explodir a perder sua aposta bélica na Ucrânia.

Um dia depois, em 26 de novembro, durante sua videoconferência semanal, a ativista política alemã Helga Zepp-LaRouche comentou a questão: “O nível de pânico na Europa é um bom indicador de que a realidade no campo de batalha está impondo a necessidade de pôr fim a esta guerra.”

Os representantes da “coalizão dos dispostos” (a matar) se reuniram em 23 de novembro em Genebra com o neoconservador Marco Rubio e o desacreditado assessor presidencial ucraniano Andrii Yermak para fazer crer, a quem quiser acreditar, que ainda têm algum controle sobre o resultado da guerra. Na prática, porém, o pânico entre eles se espalhou, e alguns dias depois a agência Bloomberg publicou um artigo sobre uma suposta transcrição de uma chamada telefônica vazada em 14 de outubro entre o enviado presidencial estadunidense Steve Witkoff e o assessor do Kremlin Yuri Ushakov. Nela, ambos discutem um possível plano de paz de 20 pontos e como conseguir o apoio do presidente Donald Trump. A mídia ocidental imediatamente gritou, de maneira previsível e em uníssono, que o vazamento demonstra o controle da Rússia sobre as negociações dos Estados Unidos e que Witkoff é um títere russo.

As respostas vindas da Rússia ao artigo em questão ecoam os comentários que o ministro das Relações Exteriores, Serguéi Lavrov, havia feito dias antes sobre o vazamento do próprio plano, ao afirmar: “Os que estão orquestrando este alvoroço não escondem seu desejo de minar os esforços [de paz] de Trump e gostariam de modificar seu plano conforme lhes convém”. Já o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, comentou: “Provavelmente, os apelos que defendem a destituição de Witkoff têm como objetivo principal sabotar os esforços em andamento para alcançar uma solução pacífica. É claro que muitas pessoas não hesitarão em usar qualquer meio para perturbar este processo.”

<><> Lucrar com a guerra ou refundar o sistema

Em seu livro War Is a Racket (A guerra é um negócio sujo, em tradução livre), o general de divisão Smedley Butler escreveu: “Passei 33 anos e quatro meses no serviço militar ativo e, durante esse período, dediquei a maior parte do meu tempo a ser um matador de alto nível para as grandes empresas, Wall Street e os banqueiros. Em resumo, fui um mafioso, um gângster a serviço do capitalismo.”

O que Butler experimentou por dentro foi a maneira pela qual o sistema financeiro mundial utilizou o poderio militar estadunidense para servir às necessidades do sistema colonial. Helga Zepp-LaRouche explicou como isso funciona hoje:

A contínua proliferação de mais sistemas de armas, combinada com a bolha da inteligência artificial, do bitcoin e das moedas estáveis, é neste momento o único lugar no Ocidente onde se obtêm ganhos reais. Mas tudo se baseia na destruição da economia real… Na economia liberal, quando uma empresa demite 10 mil pessoas, as ações sobem. Por quê? Porque a chamada rentabilidade da empresa aumenta. Mas isso destrói a economia real; destrói postos de trabalho. Do mesmo modo, com os investimentos no setor militar, destroem-se ativos físicos reais necessários em outras áreas. Basta olhar ao nosso redor, nos Estados Unidos ou na Europa, para ver o colapso da infraestrutura, as escolas sem reparo, a falta de energia barata.Helga Zepp-LaRouche

Um relatório da Reserva Federal dos Estados Unidos, de 5 de novembro, revela parte desse panorama: a dívida total das famílias estadunidenses disparou até alcançar a cifra recorde de US$ 18,6 trilhões no terceiro trimestre de 2025, enquanto a inadimplência nos saldos dos cartões de crédito (em máximas históricas), nos empréstimos para a compra de automóveis, nos empréstimos estudantis e nas hipotecas cresce a um ritmo alarmante. As pessoas estão sendo devoradas vivas por um sistema de guerra financeira que está prestes a explodir.

Então, qual é a saída? O fato é que, em tempos tão intensos como os que estamos vivendo agora, quando o perigo de uma guerra nuclear está tão próximo quanto a possibilidade de pôr fim à própria guerra, é possível uma enorme mudança de paradigma. Precisamente porque o sistema está desmoronando, porque a maioria das pessoas no mundo já não está disposta a continuar aceitando um sistema imperial cruel que se desfaz, soluções como submeter todo o sistema financeiro a uma reorganização por falência ao estilo da Lei Glass-Steagall — como propôs Lyndon LaRouche em seu artigo de 2014 “Quatro leis novas para salvar os Estados Unidos já!” — poderiam ser colocadas em prática: um passo crucial para recuperar o sistema bancário a serviço dos interesses legítimos da humanidade.

Mas agora não é hora de ficar à margem: a história não é um esporte para espectadores. “Acho que ainda não estamos fora de perigo”, advertiu Zepp-LaRouche:

E por isso considero que temos que intensificar absolutamente nossas atividades. Faço um apelo: este não é um momento histórico para ser complacente e apenas observar. Temos que utilizar todas as vias possíveis para convencer as pessoas de que precisamos superar a geopolítica. Chegamos a um momento da história em que a ideia de que é preciso enfraquecer continuamente o oponente porque é preciso ter um inimigo… ou que necessariamente existe um jogo de soma zero em que um ganha e o outro perde — todas essas ideias são realmente obsoletas e antiquadas. É preciso substituí-las por uma nova forma de pensar que coloque à frente os interesses comuns da humanidade. Uma vez que haja acordo sobre isso… os problemas restantes poderão ser resolvidos… Temos que voltar à diplomacia como mecanismo de solução de conflitos, porque, na era das armas nucleares, deveria ser óbvio para qualquer pessoa que a guerra como meio de resolver conflitos deve ser abandonada para sempre.Helga Zepp-LaRouche

<><> Cooperação para um novo paradigma ou extinção da humanidade

Essa evidente dedicação das nações do Ocidente à geopolítica, ao antigo e moribundo sistema de controle imperial de algumas nações e povos sobre outros, é a maior ameaça para a humanidade hoje em dia, e dado que agora coloca em risco nossa extinção em uma guerra nuclear, é também a maior ameaça de toda a história da humanidade.

O empenho incessante e psicótico das elites europeias e da OTAN anglo-estadunidense na militarização da sociedade, para desencadear uma guerra com a Rússia, a maior potência nuclear, a qualquer preço, é uma demonstração muito relevante disso.

Há alguns meses, as pessoas mais sensatas condenaram a tentativa desesperada de Zelenski e de seus controladores de conseguir que o Presidente Donald Trump envie mísseis Tomahawk de longo alcance à Ucrânia — mísseis que, como os russos deixaram muito claro, não podem ser operados sem pessoal militar estadunidense — supostamente para “levar Putin à mesa de negociações”. O ex-inspetor de armas da ONU Scott Ritter fez um apelo ao Congresso dos Estados Unidos para que atue de imediato e proíba o envio de tais armas à Ucrânia e o apoio de inteligência para direcionar os mísseis. No início de novembro, Trump rejeitou enviar o arsenal, mas Putin já havia declarado, em seu discurso ao Clube Valdai, em 2 de outubro: “Isso marcaria o começo de uma etapa totalmente nova nessa escalada, inclusive em termos das relações da Rússia com os Estados Unidos.”

A única solução para a série de crises que estouram em todo o mundo é que as nações ocidentais recorram ao melhor de sua natureza, mudem seus axiomas e abandonem o sistema de guerra e conflito geopolítico. Nosso universo não é um mundo hobbesiano no qual todos brigam entre si, mas exatamente o contrário. É o que mostram as nações do Sul Global, do Brics, da Organização de Cooperação de Xangai: apesar da guerra tarifária de Trump, o comércio Sul-Sul cresce ano após ano. Além disso, nessas nações estão surgindo novas iniciativas de cooperação em transporte, energia e agricultura.

“Estou convencido de que devemos criar nosso próprio futuro com base em uma visão soberana do mundo”, afirmou Putin aos participantes do 2º fórum “Inventando o Futuro”, realizado em Moscou de 7 a 8 de outubro. O encontro reuniu 7 mil participantes, de 80 países, com debates sobre uma ampla gama de temas, desde os desafios demográficos até a inteligência artificial e a exploração espacial.

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“Acho que o sinal dos tempos é a cooperação”, reflete Zepp-LaRouche. “Se os países ocidentais enviassem um sinal à maioria global de que têm a intenção de cooperar economicamente, politicamente, culturalmente e em todos os âmbitos, poderíamos iniciar uma nova era da civilização.”

<><> Uma nova ordem mundial nasce na China

Na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCS), realizada em Tianjin entre 31 de agosto e 1º de setembro com representantes de cerca de 42% da população do mundo, surgiu uma nova ordem mundial, independente do Ocidente, fundamentada nos princípios de soberania, não interferência, cooperação econômica mutuamente benéfica e colaboração pacífica. Em um acontecimento de transcendência histórica mundial, China e Índia, os dois países mais povoados, que juntos já representam 35% da população mundial, começaram a cooperar estreitamente entre si e com a Rússia. Reunidos, os países na cúpula da OCS, juntamente com várias organizações interconectadas — como o Brics, a Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR), a União Econômica Eurasiática (UEEA), a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e a União Africana (UA) — representam coletivamente 85% da humanidade.

O surgimento desta nova ordem é uma resposta às tentativas do Ocidente coletivo, após o fim da Guerra Fria, de estabelecer uma ordem mundial unipolar sob o domínio anglo-estadunidense, caracterizada por intermináveis guerras intervencionistas, sanções e tentativas de mudança de regime, o que, em última instância, acabou saindo pela culatra. As nações da Maioria Global estão agora superando uma era de 500 anos de colonialismo e fazendo valer seu direito ao desenvolvimento econômico independente. Isso é possível sobretudo graças à ascensão sem precedentes da China, que oferece aos países do Sul Global um modelo e a cooperação que o Ocidente lhes negou durante séculos.

Por conseguinte, o mundo chegou a um ponto absoluto de inflexão. Podemos continuar com a confrontação geopolítica contra a Rússia e a China, correndo o risco de uma terceira guerra mundial — e desta vez definitiva — ou podemos optar por cooperar com esse novo sistema econômico emergente. Nesse sentido, o presidente Xi Jinping propôs a visão de uma “Comunidade com um futuro compartilhado para a Humanidade”, destacando, em seu discurso de 3 de setembro, na comemoração do 80º aniversário da derrota do Japão: “A humanidade se afogará junta, ou se elevará junta!”

É do interesse fundamental das nações do Ocidente coletivo — que já não estão verdadeiramente unidas — cooperar com os Estados da Maioria Global e enfrentar conjuntamente os grandes desafios que a humanidade tem pela frente: superar a pobreza e o subdesenvolvimento; garantir uma paz mundial duradoura; e assegurar o direito de todas as pessoas deste planeta a desenvolver plenamente seu potencial.

<><> Fim ao genocídio em Gaza

De fato, as extraordinárias decisões tomadas na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) e os profundos avanços rumo a um paradigma de Paz mediante o Desenvolvimento Econômico, possibilitam ao mundo iniciar uma nova era de civilização. Essas mudanças colocam à disposição dos povos uma oportunidade preciosa de criar uma Nova Arquitetura de Segurança e Desenvolvimento Justa, de modo que cada vida humana seja tratada com dignidade e respeito.

Neste contexto global, o professor Jeffrey Sachs propôs, em um artigo publicado no dia 6 de setembro, no Consortium News, ações concretas para mandatários, organizações e representantes das nações, com o objetivo de intervir e deter o genocídio.

<<< Resumimos aqui essas ações:

  1. Pôr fim a todo intercâmbio econômico, comercial, marítimo e aéreo com Israel, como já fez a Turquia;
  2. Todos os Estados membros da ONU que ainda não o tenham feito devem reconhecer o Estado da Palestina;
  3. Os países árabes signatários dos Acordos de Abraham — Bahrein, Marrocos, Sudão e Emirados Árabes Unidos Unidos — devem suspender suas relações diplomáticas com Israel até que termine o cerco a Gaza e o Estado da Palestina seja admitido na ONU;
  4. Suspender Israel da Assembleia General da ONU, como foi feito com o regime do apartheid na África do Sul;
  5. Os Estados membros da ONU devem suspender as exportações de todos os serviços tecnológicos que apoiam a guerra (como Amazon e Microsoft) até que o bloqueio a Gaza seja levantado e o Conselho de Segurança da ONU aprove a admissão da Palestina como membro da organização;
  6. Com base na Resolução 377, “União Pro Paz”, deve-se enviar uma força de proteção da ONU a Gaza e à Cisjordânia. Sachs escreve: “Normalmente, seria o Conselho de Segurança da ONU que ordenaria uma força de proteção, mas, neste caso, os Estados Unidos bloquearão com seu veto o Conselho de Segurança. Mas há outra maneira”.

Além do que foi exposto acima, deve haver um projeto para a reconstrução de toda a região, que necessitará de grande quantidade de energia e água potável. O Plano Oasis, proposto por Lyndon LaRouche em 1975, poderia ser um bom modelo — e seria uma possibilidade real se o Ocidente pudesse abandonar sua destrutiva e míope cruzada pela hegemonia global e, em vez disso, cooperar com a Maioria Global. À televisão paquistanesa, em 7 de outubro, Helga Zepp-LaRouche descreveu o Plano Oasis:

Trata-se de um programa de desenvolvimento econômico não apenas para a reconstrução da Faixa de Gaza, mas para desenvolver economicamente toda a região mediante a obtenção de grandes quantidades de água doce por meio da construção de um sistema de canais. Um canal entre o mar Morto e o mar Vermelho, outro canal entre esses canais, e depois ramificações para criar, finalmente, novos rios artificiais; dessalinizar grandes quantidades de água do oceano; reverdecer o deserto. Minha visão é que, em alguns anos, toda a região, da Índia ao Mediterrâneo, do Cáucaso aos Estados do Golfo, poderia estar reverdecida… Acredito que, se deseja-se mudar a dinâmica da região, é necessária uma visão de futuro na qual todos os jovens, em particular, tenham uma razão para se tornarem cientistas e engenheiros, para formar uma família, para ter a ideia de que esse espetáculo de horror dos últimos dois anos — que vem ocorrendo há muito mais tempo — finalmente chegará ao fim e de que será possível construir um futuro para todos os países da região.

 

Fonte: Redação Schiller Institute

 

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