Sara
York: A chuva das tragédias - de Cláudio Castro, Yuri Moura, a marcha
bolsonarista e o raio em Brasília
Em um
país onde tragédias ambientais, obras mal executadas e espetáculos políticos se
sucedem sem elaboração pública, a Justiça julga, nesta semana, o deputado
estadual Yuri Moura por fiscalizar intervenções precárias em Petrópolis,
enquanto, em Brasília, um raio atinge apoiadores reunidos para uma marcha
bolsonarista. Entre processos, desastres e encenações, o Brasil segue
transformando memória em incômodo - e o esquecimento em política
de Estado.
O
Brasil não desmorona de uma vez.
Ele se
desfaz em parcelas.
Uma
encosta mal contida.
Um rio
adoecido.
Um
prédio implodido.
Uma
imagem falsa circulando.
E,
entre tudo isso, o esquecimento.
Nesta
semana, em pleno recesso do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o deputado
estadual Yuri Moura será julgado por ter feito aquilo que sua função exige:
fiscalizar. Estar ao lado das vítimas. Denunciar uma obra emergencial que, anos
depois da tragédia climática de Petrópolis, ainda não garantiu segurança às
famílias da Rua Nova.
A
acusação partiu do governador Cláudio Castro. O motivo: um vídeo gravado em
2023, no qual Yuri, ao lado dos moradores, chamou a obra de "porca" e
denunciou corrupção, atrasos e abandono institucional.
O que
está em julgamento, portanto, não é apenas uma fala.
É o
direito à memória. É o direito de não aceitar que a reconstrução vire
maquiagem.
Sobre a
política do esquecimento
A
lógica é conhecida. O desastre acontece.
As
câmeras chegam. As promessas são feitas.
As
obras emergenciais começam. O tempo passa.
A
imprensa se afasta. As vítimas permanecem.
E quem
insiste em voltar ao local vira incômodo.
Fiscalizar
vira sinonimo de afronta.
Lembrar
torna-se perturbação.
Denunciar
implanta um crime.
O caso
da Rua Nova revela isso com precisão, pois é uma obra de mais de R$ 80 milhões,
iniciada em 2022, que não resolveu a insegurança geológica. Relatórios
técnicos, ações do Ministério Público, vistorias da Defesa Civil e novas
intervenções federais confirmam que o risco nunca foi plenamente eliminado.
Mas
quem responde judicialmente é justamente quem denunciou.
O país
apaga seus próprios rastros
No
último domingo, em Brasília, o Torre Palace Hotel foi implodido. Em minutos,
virou poeira. O fotojornalista Luis Gustavo Nova registrou tudo em timelapse: a
destruição limpa, organizada e protocolar.
Sem
ruído, sem memória e sem ritual!
Como se
apagar fosse sempre mais fácil que cuidar.
Pouco
antes, uma imagem gerada por inteligência artificial circulou mostrando o
Teatro Procópio Ferreira sendo demolido. Era falsa. Mas funcionou como ensaio
simbólico. Vai nos acostumando à perda.
Vai
treinando o nosso olhar para o apagamento.
Mariana,
Brumadinho, Petrópolis
O poeta
Pedro Paulo Gomes Pereira escreve:
"Dizer
esses nomes não é localizar no mapa.
É tocar
num ponto em que o mundo cedeu."
Mariana.
Brumadinho. Petrópolis.
Não
foram acidentes.
Foram
escolhas repetidas.
Barragens
frágeis. Encostas negligenciadas.
Obras
mal feitas. Fiscalizações ignoradas.
A lama,
o deslizamento, o colapso - tudo já
estava anunciado.
O que
falta, quase sempre, é vontade política para impedir.
A
judicialização da memória
O
julgamento de Yuri Moura, marcado às pressas, durante o recesso, revela algo
mais profundo que é a tentativa de disciplinar a lembrança.
Não se
processa apenas um parlamentar.
Processa-se
a insistência.
Uma
insistência em voltar, em ouvir, em registrar, em cobrar.
E
principalmente em não deixar passar!
Num
país que normaliza tragédias, lembrar é subversivo.
E como
sustentar o céu
O poema
de Pedro Paulo termina com um aviso:
"Sustentar
o céu não é cálculo.
É
responsabilidade."
Cuidar
de territórios, de vidas, de histórias, não é favor, mas um dever.
Quando
obras emergenciais viram soluções permanentes.
Quando
vítimas viram números.
Quando
denunciantes viram os réus.
Quando
imagens falsas substituem os fatos.
Algo
essencial já se perdeu, e nós sabemos o que é apesar de muitas vezes não saber
nomear…
O que
está realmente em julgamento
Nesta
semana, a Justiça julga um deputado estadual, enquanto, nas terras distritais,
um deputado federal é elevado à condição de santo por meio de uma
marcha-cortina de fumaça que tenta encobrir sua ligação com o banco Master.
Mas o
país se julga a si mesmo.
Julga:
como
trata suas vítimas.
como
responde às tragédias.
como
protege quem fiscaliza.
como
preserva sua memória.
A
pergunta não é se Yuri Moura será condenado ou absolvido.
A
pergunta é outra:
quantos
mundos ainda estamos dispostos a deixar cair para que tudo continue
"funcionando"?
E por
último, quem fala tanto de Deus, recebe uma resposta:
"Um
raio atingiu um grupo reunido próximo ao Memorial JK, na área central de
Brasília, durante um temporal, deixando feridos. As pessoas aguardavam a
chegada de uma marcha de apoiadores de Bolsonaro e foram encaminhadas aos
hospitais de Base e da Asa Norte."
• Quando um raio não é apenas um raio. Por
Moisés Mendes
Fracassarão
todos os que tentarem abordar as consequências do raio na aglomeração de
Nikolas Ferreira em Brasília, se usarem as ferramentas de alguma racionalidade.
Porque
nada do que é racional funciona para a extrema direita que tentou contatos com
marcianos para aplicar o golpe e cantou o hino para pneus.
Dizem,
como crítica mais previsível, que Nikolas Ferreira, se fosse de fato um líder,
teria evitado um ajuntamento em meio a uma chuvarada. É um argumento usual e
razoável.
Também
podem dizer que autoridades da segurança deveriam ter interditado o local e
determinado, e não apenas orientado, que os manifestantes se afastassem dos
equipamentos que contribuíram para a formação do raio.
Nada
disso terá repercussão alguma entre o bolsonarismo. Ninguém da extrema direita
mobilizada por Nikolas irá admitir que o comício deveria ter sido dispersado.
Ninguém
do bolsonarismo irá atribuir responsabilidade alguma a Nikolas e aos
organizadores da caminhada. Mesmo que só líderes do segundo time tenham
participado da empreitada.
Também
não funcionam entre eles as abordagens de parte das esquerdas, como ironia
religiosa, de que o raio foi um aviso divino ao fascismo sem limites.
Eles
entenderão que o acontecido foi sim uma mensagem a fiéis dedicados à defesa do
líder preso, mas para que perseverem, mesmo com raios e trovoadas.
Não é
preciso se esforçar muito para prever que o bolsonarismo dará ao episódio tons
de dramaticidade bíblica.
Pouco
antes da descarga elétrica, Michelle Bolsonaro havia publicado essa mensagem de
fé nas redes sociais: "É um evento pacífico, ordeiro, conduzido por
Deus".
Os
bolsonaristas, os que estavam em Brasília e os que acompanhavam de longe, têm
certeza de que o significado transcendente do episódio vai favorecê-los sempre.
É
possível até que alguns vejam Nikolas com o poder de atrair raios, para testar
a fé dos seus seguidores, que caminharam mais de 200 quilômetros (enquanto ele
parava em hotéis) até a provação imposta por Deus.
E Deus
não foi introduzido por Michelle na caminhada. Ele estava com os caminhantes
desde o começo, em Paracatu. Deus está sempre com a extrema direita, mas vem
falhando em eleições, golpes e romarias em defesa de anistias.
Um
raio, nessas situações e com esses personagens como pastores de rebanhos, nem
sempre será apenas um raio.
• Raio em ato de Nikolas encobre racha
antigo da direita. Por Esmael Morais
O raio
que caiu durante o ato liderado por Nikolas Ferreira, em Brasília, desviou os
holofotes da disputa real que estava em curso. Não se tratava de enfrentar o
presidente Lula, favorito nas pesquisas para as eleições de outubro. O conflito
exposto ali é outro e vem de antes. A briga pela hegemonia da direita no
pós-Bolsonaro.
A
manifestação seguiu exatamente o roteiro planejado. Marcha longa, concentração
na capital e discurso direcionado ao próprio campo conservador. O episódio do
raio, com dezenas de feridos, não mudou o sentido do protesto. Apenas encobriu,
temporariamente, a disputa interna que já estava posta.
Essa
tensão não é nova. O Blog do Esmael registrou, há exatamente um ano, o início
da guerra geracional entre Jair Bolsonaro (PL) e Nikolas Ferreira (PL-MG). De
um lado, o ex-presidente, inelegível até 2030, tentando manter o controle do
bolsonarismo e do PL. Do outro, o deputado mais votado do país em 2022, com
base jovem, discurso próprio e força digital que independe do aval do padrinho
político.
Desde
então, os atritos se acumulam.
Bolsonaro
passou a atacar a chamada “direita limpinha” e a criticar candidatos jovens e
inexperientes, recados direcionados a Nikolas. O deputado, por sua vez, avançou
sobre terrenos sensíveis, como a articulação para reduzir a idade mínima ao
Senado, movimento visto no bolsonarismo como ameaça direta ao controle do
partido.
A
marcha que terminou em Brasília deve ser lida dentro desse contexto.
Oficialmente, o ato foi apresentado como protesto contra decisões do
Judiciário. Na prática, funcionou como vitrine eleitoral e ensaio de
reorganização interna. Pré-candidatos sem agenda nos estados se aproximaram de
Nikolas em busca de visibilidade e sobrevivência política.
O Blog
do Esmael já mostrou que a caminhada virou ponto de encontro de ambições. O
raio não interrompeu o projeto. Apenas desviou a atenção pública da disputa que
realmente interessa à extrema direita.
Pesquisas
indicam Lula como favorito em outubro. A margem para uma virada da oposição é
estreita. A direita sabe disso. Por isso, a energia política não está
concentrada no Planalto, mas na reorganização do campo conservador para o ciclo
seguinte.
É nesse
espaço que Nikolas se projeta.
Ele já
não atua como herdeiro do bolsonarismo. Avança como antagonista. Sua força vem
das redes sociais, do engajamento permanente e de um discurso que disputa o
mesmo eleitorado que Bolsonaro mobilizou por anos, agora sem pedir autorização.
A
composição do ato deixou isso evidente. Havia bolsonaristas fiéis, renegados
arrependidos, novatos sem base consolidada e pré-candidatos preocupados com o
próprio futuro. O elo entre eles não foi ideológico. Foi cálculo.
A
marcha também sinaliza a formação de uma bancada informal. Caso parte dos nomes
que orbitam Nikolas se eleja, o deputado mineiro poderá contar com um grupo
mais leal a ele do que ao bolsonarismo tradicional. Isso desloca o centro de
comando da extrema direita.
O raio
trouxe risco físico, comoção e imagens fortes. Politicamente, funcionou como
cortina. Encobriu, mas não anulou, a disputa central.
Nikolas
caminhou até Brasília com um objetivo claro. Consolidar-se como polo
alternativo e se posicionar como principal adversário do bolsonarismo no
horizonte de 2030.
O
episódio climático não criou o racha. Ele apenas desviou o foco de uma disputa
que já vinha sendo travada há pelo menos um ano. A direita brasileira entrou em
fase de divisão aberta. O protesto teve pouco a ver com Lula. Foi mais um
capítulo da guerra interna pelo comando do campo conservador.
• O final eletrizante da caminhada de
Nikolas Ferreira. Por Ricardo Nêggo Tom
O mês
de janeiro parece estar destinado aos acontecimentos mais escatológicos da
política do Brasil. Depois do 8 de janeiro de 2023, quando os bolsonaristas
tentaram dar um golpe de Estado no país, o dia 25 de janeiro de 2026 entra para
a história como o dia em que Deus perdeu a paciência com a legião de demônios e
espíritos obsessores que compõem a extrema-direita brasileira, e mandou um raio
para acordar o gado de sua distopia política e social. A reação do divino
criador é compreensível e justificável, afinal, ele está vendo o quanto país
melhorou sob o governo Lula, depois de ter comido o pão com leite condensado
que Bolsonaro amassou, sob o governo do diabo que hoje está repreendido na
Papudinha.
Observando
a caminhada organizada por Nikolas Ferreira para libertar criminosos e prender
novamente o Brasil nas grades do fascismo, Deus se lembrou que em 2021, durante
o governo do hoje presidiário, o Brasil voltou a figurar no mapa da fome da
ONU, com 2,5% da população sofrendo de subalimentação segundo relatório da
entidade. Os analistas associaram o aumento da fome a fatores como a política
econômica, índice de desemprego, redução da renda e desmonte de políticas de
segurança alimentar entre 2019 e 2022. Mas Deus sabia que a maldade do então
governante era o que determinava tão drástica situação. E nenhum desses seres
trevosos que caminhavam ao lado de Nikolas reclamava da situação.
Deus
também se lembrou que enquanto muitos disputam algum resquício de proteína na
fila do osso, Jair Bolsonaro aparecia comendo uma picanha de R$ 1.700,00, e
dizendo para aqueles que não podiam comer carne em função da alta do produto,
que comessem ovos ou tainha. Deus também não se esqueceu que durante um
encontro com empresários, em São Paulo, Bolsonaro chegou a ironizar o fato de o
brasileiro querer comer picanha e filé mignon, dizendo que “não tem filé mignon
para todo mundo”, sugerindo que tais cortes não eram para todos e corroborando
com a disparidade social existente no país. “Que filho da puta”, reagiu
humanamente o criador naquela oportunidade, enquanto anotava no caderninho as
pérolas que o então presidente soltava contra o seu próprio povo.
Deus
que não se deixa escarnecer, também se lembrou que no governo Lula o país saiu
novamente do mapa da fome, e os preços de alimentos como arroz, feijão, leite e
a carne – que registravam aumentos expressivos entre 2019 e 2022 – baixaram
consideravelmente. Deus também está observando que desde que assumiu a
presidência em 2023, Lula vem cumprindo com o que havia prometido. Reduziu a
taxa de desemprego, a fome, o índice de desigualdade e a inflação, e isentou de
imposto de renda quem ganha até R$ 5 mil. “Por que essa gente quer derrubar
esse governo, se ele faz coisas boas para o povo”, perguntou Deus a São Pedro,
enquanto assistia à chegada da marcha de Nikolas Ferreira em Brasília. “O
senhor deve saber melhor do que eu”, respondeu São Pedro, lembrando a Deus que
Lula ainda planejava acabar com a escala 6x1 para que os trabalhadores tivessem
mais qualidade de vida.
Um
filme foi passando na cabeça de Deus quando, de repente, ele deu um grito:
“Acabou, porra!”, e pediu para que São Pedro fizesse chover torrencialmente em
Brasilia. “Pode ser granizo, senhor?”, instigou o porteiro do céu. Deus olhava
atentamente a movimentação bolsonarista na Praça do Cruzeiro, e já não
aguentava mais ouvir o seu nome ser invocado para auxiliar desocupados,
golpistas e criminosos. São Pedro, que também já estava farto das loucuras
daquela gente, botou mais pilha no chefe: “Eles gostam da sua versão mais
radical, senhor.”, disse ele. Deus coçou a barba e ordenou: “Aumenta a chuva e
inclui uns ventos também. Se eles gostam da minha versão antigo testamento, vou
fazer com que eles se sintam num dilúvio” E assim fez São Pedro, apontando para
o lado e mostrando a Deus que Michelle Bolsonaro havia chegado no evento. “Ah,
não! Agora é que o meu domingo vai para o brejo. Essa mulher não para de chamar
meu nome em vão”, lamentou Deus.
Vendo
que a coisa iria piorar e que Nikolas Ferreira acabara de iniciar uma oração
pela libertação dos presos do 08/01 – incluindo Jair Bolsonaro – Deus toma uma
drástica decisão: “Manda um raio, Pedro” Ao ouvir a ordem do chefe, São Pedro
tentou ponderar: “Senhor, inocentes podem ficar feridos ou até morrer” Deus não
se compadeceu do apelo e mandou o santo seguir com a missão. “Eu já matei
tantos inocentes na Bíblia, não vai ser essa raça de víboras que eu irei
poupar” São Pedro insistiu: “Tem certeza, senhor?”, e começou a sentir a ira de
Deus na própria pele. “Quem você pensa que é para me dizer o que devo ou não
fazer? Pensa que eu esqueci que tu já me negaste por três vezes?” Constrangido,
São Pedro pediu perdão ao chefe e foi preparar o raio. “E vê se não erra o alvo
dessa vez, hein?”, alertou Deus, se lembrando de quando São Pedro ficou
encarregado de atingir a Casa Branca e acertou residências próximas a sede do
governo dos EUA.
Raio
pronto e alvo na mira, Deus em sua misericórdia ainda pede para que Pedro
espere mais um pouquinho para ver se rola algum arrependimento entre os
manifestantes, mas o santo alerta para a chegada de Carlos Bolsonaro com uma
camisa escrito “Bolsonaro Free”. Poliglota de nascença, Deus ironiza a frase na
blusa do filho do capitão: “Se até o filho quer se ver livre do pai, quem sou
eu para salvá-lo” Enquanto o gado continuava debaixo de forte chuva, Deus
zapeava o monitor do mundo quando parou na câmera dos EUA e viu mais um cidadão
estadunidense ser morto pela polícia de Donald Trump. Revoltado, se dirigiu a
Pedro, pediu que preparasse outro raio e sentenciou: “Quando acabar aí, o
laranjão é o próximo”, e foi para os seus aposentos. Ao ouvir um estrondo,
gritou de lá: “Eu sabia que você ia errar de novo, Pedro. É como diz o ditado:
quer bem feito, faça você mesmo” E Deus lamentou o fato de que um raio não cai
duas vezes no mesmo lugar. E nós também. Acorda, Brasil!
Fonte:
Brasil 247

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