sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Sara York: A chuva das tragédias - de Cláudio Castro, Yuri Moura, a marcha bolsonarista e o raio em Brasília

Em um país onde tragédias ambientais, obras mal executadas e espetáculos políticos se sucedem sem elaboração pública, a Justiça julga, nesta semana, o deputado estadual Yuri Moura por fiscalizar intervenções precárias em Petrópolis, enquanto, em Brasília, um raio atinge apoiadores reunidos para uma marcha bolsonarista. Entre processos, desastres e encenações, o Brasil segue transformando memória em incômodo-e o esquecimento em política de Estado.

O Brasil não desmorona de uma vez.

Ele se desfaz em parcelas.

Uma encosta mal contida.

Um rio adoecido.

Um prédio implodido.

Uma imagem falsa circulando.

E, entre tudo isso, o esquecimento.

Nesta semana, em pleno recesso do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o deputado estadual Yuri Moura será julgado por ter feito aquilo que sua função exige: fiscalizar. Estar ao lado das vítimas. Denunciar uma obra emergencial que, anos depois da tragédia climática de Petrópolis, ainda não garantiu segurança às famílias da Rua Nova.

A acusação partiu do governador Cláudio Castro. O motivo: um vídeo gravado em 2023, no qual Yuri, ao lado dos moradores, chamou a obra de "porca" e denunciou corrupção, atrasos e abandono institucional.

O que está em julgamento, portanto, não é apenas uma fala.

É o direito à memória. É o direito de não aceitar que a reconstrução vire maquiagem.

Sobre a política do esquecimento

A lógica é conhecida. O desastre acontece.

As câmeras chegam. As promessas são feitas.

As obras emergenciais começam. O tempo passa.

A imprensa se afasta. As vítimas permanecem.

E quem insiste em voltar ao local vira incômodo.

Fiscalizar vira sinonimo de afronta.

Lembrar torna-se perturbação.

Denunciar implanta um crime.

O caso da Rua Nova revela isso com precisão, pois é uma obra de mais de R$ 80 milhões, iniciada em 2022, que não resolveu a insegurança geológica. Relatórios técnicos, ações do Ministério Público, vistorias da Defesa Civil e novas intervenções federais confirmam que o risco nunca foi plenamente eliminado.

Mas quem responde judicialmente é justamente quem denunciou.

O país apaga seus próprios rastros

No último domingo, em Brasília, o Torre Palace Hotel foi implodido. Em minutos, virou poeira. O fotojornalista Luis Gustavo Nova registrou tudo em timelapse: a destruição limpa, organizada e protocolar.

Sem ruído, sem memória e sem ritual!

Como se apagar fosse sempre mais fácil que cuidar.

Pouco antes, uma imagem gerada por inteligência artificial circulou mostrando o Teatro Procópio Ferreira sendo demolido. Era falsa. Mas funcionou como ensaio simbólico. Vai nos acostumando à perda.

Vai treinando o nosso olhar para o apagamento.

Mariana, Brumadinho, Petrópolis

O poeta Pedro Paulo Gomes Pereira escreve:

"Dizer esses nomes não é localizar no mapa.

É tocar num ponto em que o mundo cedeu."

Mariana. Brumadinho. Petrópolis.

Não foram acidentes.

Foram escolhas repetidas.

Barragens frágeis. Encostas negligenciadas.

Obras mal feitas. Fiscalizações ignoradas.

A lama, o deslizamento, o colapso-tudo já estava anunciado.

O que falta, quase sempre, é vontade política para impedir.

A judicialização da memória

O julgamento de Yuri Moura, marcado às pressas, durante o recesso, revela algo mais profundo que é a tentativa de disciplinar a lembrança.

Não se processa apenas um parlamentar.

Processa-se a insistência.

Uma insistência em voltar, em ouvir, em registrar, em cobrar.

E principalmente em não deixar passar!

Num país que normaliza tragédias, lembrar é subversivo.

E como sustentar o céu

O poema de Pedro Paulo termina com um aviso:

"Sustentar o céu não é cálculo.

É responsabilidade."

Cuidar de territórios, de vidas, de histórias, não é favor, mas um dever.

Quando obras emergenciais viram soluções permanentes.

Quando vítimas viram números.

Quando denunciantes viram os réus.

Quando imagens falsas substituem os fatos.

Algo essencial já se perdeu, e nós sabemos o que é apesar de muitas vezes não saber nomear…

O que está realmente em julgamento

Nesta semana, a Justiça julga um deputado estadual, enquanto, nas terras distritais, um deputado federal é elevado à condição de santo por meio de uma marcha-cortina de fumaça que tenta encobrir sua ligação com o banco Master.

Mas o país se julga a si mesmo.

Julga:

como trata suas vítimas.

como responde às tragédias.

como protege quem fiscaliza.

como preserva sua memória.

A pergunta não é se Yuri Moura será condenado ou absolvido.

A pergunta é outra:

quantos mundos ainda estamos dispostos a deixar cair para que tudo continue "funcionando"?

E por último, quem fala tanto de Deus, recebe uma resposta:

"Um raio atingiu um grupo reunido próximo ao Memorial JK, na área central de Brasília, durante um temporal, deixando feridos. As pessoas aguardavam a chegada de uma marcha de apoiadores de Bolsonaro e foram encaminhadas aos hospitais de Base e da Asa Norte."

•        Quando um raio não é apenas um raio. Por Moisés Mendes

Fracassarão todos os que tentarem abordar as consequências do raio na aglomeração de Nikolas Ferreira em Brasília, se usarem as ferramentas de alguma racionalidade.

Porque nada do que é racional funciona para a extrema direita que tentou contatos com marcianos para aplicar o golpe e cantou o hino para pneus.

Dizem, como crítica mais previsível, que Nikolas Ferreira, se fosse de fato um líder, teria evitado um ajuntamento em meio a uma chuvarada. É um argumento usual e razoável.

Também podem dizer que autoridades da segurança deveriam ter interditado o local e determinado, e não apenas orientado, que os manifestantes se afastassem dos equipamentos que contribuíram para a formação do raio.

Nada disso terá repercussão alguma entre o bolsonarismo. Ninguém da extrema direita mobilizada por Nikolas irá admitir que o comício deveria ter sido dispersado.

Ninguém do bolsonarismo irá atribuir responsabilidade alguma a Nikolas e aos organizadores da caminhada. Mesmo que só líderes do segundo time tenham participado da empreitada.

Também não funcionam entre eles as abordagens de parte das esquerdas, como ironia religiosa, de que o raio foi um aviso divino ao fascismo sem limites.

Eles entenderão que o acontecido foi sim uma mensagem a fiéis dedicados à defesa do líder preso, mas para que perseverem, mesmo com raios e trovoadas.

Não é preciso se esforçar muito para prever que o bolsonarismo dará ao episódio tons de dramaticidade bíblica.

Pouco antes da descarga elétrica, Michelle Bolsonaro havia publicado essa mensagem de fé nas redes sociais: "É um evento pacífico, ordeiro, conduzido por Deus".

Os bolsonaristas, os que estavam em Brasília e os que acompanhavam de longe, têm certeza de que o significado transcendente do episódio vai favorecê-los sempre.

É possível até que alguns vejam Nikolas com o poder de atrair raios, para testar a fé dos seus seguidores, que caminharam mais de 200 quilômetros (enquanto ele parava em hotéis) até a provação imposta por Deus.

E Deus não foi introduzido por Michelle na caminhada. Ele estava com os caminhantes desde o começo, em Paracatu. Deus está sempre com a extrema direita, mas vem falhando em eleições, golpes e romarias em defesa de anistias.

Um raio, nessas situações e com esses personagens como pastores de rebanhos, nem sempre será apenas um raio.

•        Raio em ato de Nikolas encobre racha antigo da direita. Por Esmael Morais

O raio que caiu durante o ato liderado por Nikolas Ferreira, em Brasília, desviou os holofotes da disputa real que estava em curso. Não se tratava de enfrentar o presidente Lula, favorito nas pesquisas para as eleições de outubro. O conflito exposto ali é outro e vem de antes. A briga pela hegemonia da direita no pós-Bolsonaro.

A manifestação seguiu exatamente o roteiro planejado. Marcha longa, concentração na capital e discurso direcionado ao próprio campo conservador. O episódio do raio, com dezenas de feridos, não mudou o sentido do protesto. Apenas encobriu, temporariamente, a disputa interna que já estava posta.

Essa tensão não é nova. O Blog do Esmael registrou, há exatamente um ano, o início da guerra geracional entre Jair Bolsonaro (PL) e Nikolas Ferreira (PL-MG). De um lado, o ex-presidente, inelegível até 2030, tentando manter o controle do bolsonarismo e do PL. Do outro, o deputado mais votado do país em 2022, com base jovem, discurso próprio e força digital que independe do aval do padrinho político.

Desde então, os atritos se acumulam.

Bolsonaro passou a atacar a chamada “direita limpinha” e a criticar candidatos jovens e inexperientes, recados direcionados a Nikolas. O deputado, por sua vez, avançou sobre terrenos sensíveis, como a articulação para reduzir a idade mínima ao Senado, movimento visto no bolsonarismo como ameaça direta ao controle do partido.

A marcha que terminou em Brasília deve ser lida dentro desse contexto. Oficialmente, o ato foi apresentado como protesto contra decisões do Judiciário. Na prática, funcionou como vitrine eleitoral e ensaio de reorganização interna. Pré-candidatos sem agenda nos estados se aproximaram de Nikolas em busca de visibilidade e sobrevivência política.

O Blog do Esmael já mostrou que a caminhada virou ponto de encontro de ambições. O raio não interrompeu o projeto. Apenas desviou a atenção pública da disputa que realmente interessa à extrema direita.

Pesquisas indicam Lula como favorito em outubro. A margem para uma virada da oposição é estreita. A direita sabe disso. Por isso, a energia política não está concentrada no Planalto, mas na reorganização do campo conservador para o ciclo seguinte.

É nesse espaço que Nikolas se projeta.

Ele já não atua como herdeiro do bolsonarismo. Avança como antagonista. Sua força vem das redes sociais, do engajamento permanente e de um discurso que disputa o mesmo eleitorado que Bolsonaro mobilizou por anos, agora sem pedir autorização.

A composição do ato deixou isso evidente. Havia bolsonaristas fiéis, renegados arrependidos, novatos sem base consolidada e pré-candidatos preocupados com o próprio futuro. O elo entre eles não foi ideológico. Foi cálculo.

A marcha também sinaliza a formação de uma bancada informal. Caso parte dos nomes que orbitam Nikolas se eleja, o deputado mineiro poderá contar com um grupo mais leal a ele do que ao bolsonarismo tradicional. Isso desloca o centro de comando da extrema direita.

O raio trouxe risco físico, comoção e imagens fortes. Politicamente, funcionou como cortina. Encobriu, mas não anulou, a disputa central.

Nikolas caminhou até Brasília com um objetivo claro. Consolidar-se como polo alternativo e se posicionar como principal adversário do bolsonarismo no horizonte de 2030.

O episódio climático não criou o racha. Ele apenas desviou o foco de uma disputa que já vinha sendo travada há pelo menos um ano. A direita brasileira entrou em fase de divisão aberta. O protesto teve pouco a ver com Lula. Foi mais um capítulo da guerra interna pelo comando do campo conservador.

•        O final eletrizante da caminhada de Nikolas Ferreira. Por Ricardo Nêggo Tom

O mês de janeiro parece estar destinado aos acontecimentos mais escatológicos da política do Brasil. Depois do 8 de janeiro de 2023, quando os bolsonaristas tentaram dar um golpe de Estado no país, o dia 25 de janeiro de 2026 entra para a história como o dia em que Deus perdeu a paciência com a legião de demônios e espíritos obsessores que compõem a extrema-direita brasileira, e mandou um raio para acordar o gado de sua distopia política e social. A reação do divino criador é compreensível e justificável, afinal, ele está vendo o quanto país melhorou sob o governo Lula, depois de ter comido o pão com leite condensado que Bolsonaro amassou, sob o governo do diabo que hoje está repreendido na Papudinha.

Observando a caminhada organizada por Nikolas Ferreira para libertar criminosos e prender novamente o Brasil nas grades do fascismo, Deus se lembrou que em 2021, durante o governo do hoje presidiário, o Brasil voltou a figurar no mapa da fome da ONU, com 2,5% da população sofrendo de subalimentação segundo relatório da entidade. Os analistas associaram o aumento da fome a fatores como a política econômica, índice de desemprego, redução da renda e desmonte de políticas de segurança alimentar entre 2019 e 2022. Mas Deus sabia que a maldade do então governante era o que determinava tão drástica situação. E nenhum desses seres trevosos que caminhavam ao lado de Nikolas reclamava da situação.

Deus também se lembrou que enquanto muitos disputam algum resquício de proteína na fila do osso, Jair Bolsonaro aparecia comendo uma picanha de R$ 1.700,00, e dizendo para aqueles que não podiam comer carne em função da alta do produto, que comessem ovos ou tainha. Deus também não se esqueceu que durante um encontro com empresários, em São Paulo, Bolsonaro chegou a ironizar o fato de o brasileiro querer comer picanha e filé mignon, dizendo que “não tem filé mignon para todo mundo”, sugerindo que tais cortes não eram para todos e corroborando com a disparidade social existente no país. “Que filho da puta”, reagiu humanamente o criador naquela oportunidade, enquanto anotava no caderninho as pérolas que o então presidente soltava contra o seu próprio povo.

Deus que não se deixa escarnecer, também se lembrou que no governo Lula o país saiu novamente do mapa da fome, e os preços de alimentos como arroz, feijão, leite e a carne – que registravam aumentos expressivos entre 2019 e 2022 – baixaram consideravelmente. Deus também está observando que desde que assumiu a presidência em 2023, Lula vem cumprindo com o que havia prometido. Reduziu a taxa de desemprego, a fome, o índice de desigualdade e a inflação, e isentou de imposto de renda quem ganha até R$ 5 mil. “Por que essa gente quer derrubar esse governo, se ele faz coisas boas para o povo”, perguntou Deus a São Pedro, enquanto assistia à chegada da marcha de Nikolas Ferreira em Brasília. “O senhor deve saber melhor do que eu”, respondeu São Pedro, lembrando a Deus que Lula ainda planejava acabar com a escala 6x1 para que os trabalhadores tivessem mais qualidade de vida.

Um filme foi passando na cabeça de Deus quando, de repente, ele deu um grito: “Acabou, porra!”, e pediu para que São Pedro fizesse chover torrencialmente em Brasilia. “Pode ser granizo, senhor?”, instigou o porteiro do céu. Deus olhava atentamente a movimentação bolsonarista na Praça do Cruzeiro, e já não aguentava mais ouvir o seu nome ser invocado para auxiliar desocupados, golpistas e criminosos. São Pedro, que também já estava farto das loucuras daquela gente, botou mais pilha no chefe: “Eles gostam da sua versão mais radical, senhor.”, disse ele. Deus coçou a barba e ordenou: “Aumenta a chuva e inclui uns ventos também. Se eles gostam da minha versão antigo testamento, vou fazer com que eles se sintam num dilúvio” E assim fez São Pedro, apontando para o lado e mostrando a Deus que Michelle Bolsonaro havia chegado no evento. “Ah, não! Agora é que o meu domingo vai para o brejo. Essa mulher não para de chamar meu nome em vão”, lamentou Deus.

Vendo que a coisa iria piorar e que Nikolas Ferreira acabara de iniciar uma oração pela libertação dos presos do 08/01 – incluindo Jair Bolsonaro – Deus toma uma drástica decisão: “Manda um raio, Pedro” Ao ouvir a ordem do chefe, São Pedro tentou ponderar: “Senhor, inocentes podem ficar feridos ou até morrer” Deus não se compadeceu do apelo e mandou o santo seguir com a missão. “Eu já matei tantos inocentes na Bíblia, não vai ser essa raça de víboras que eu irei poupar” São Pedro insistiu: “Tem certeza, senhor?”, e começou a sentir a ira de Deus na própria pele. “Quem você pensa que é para me dizer o que devo ou não fazer? Pensa que eu esqueci que tu já me negaste por três vezes?” Constrangido, São Pedro pediu perdão ao chefe e foi preparar o raio. “E vê se não erra o alvo dessa vez, hein?”, alertou Deus, se lembrando de quando São Pedro ficou encarregado de atingir a Casa Branca e acertou residências próximas a sede do governo dos EUA.

Raio pronto e alvo na mira, Deus em sua misericórdia ainda pede para que Pedro espere mais um pouquinho para ver se rola algum arrependimento entre os manifestantes, mas o santo alerta para a chegada de Carlos Bolsonaro com uma camisa escrito “Bolsonaro Free”. Poliglota de nascença, Deus ironiza a frase na blusa do filho do capitão: “Se até o filho quer se ver livre do pai, quem sou eu para salvá-lo” Enquanto o gado continuava debaixo de forte chuva, Deus zapeava o monitor do mundo quando parou na câmera dos EUA e viu mais um cidadão estadunidense ser morto pela polícia de Donald Trump. Revoltado, se dirigiu a Pedro, pediu que preparasse outro raio e sentenciou: “Quando acabar aí, o laranjão é o próximo”, e foi para os seus aposentos. Ao ouvir um estrondo, gritou de lá: “Eu sabia que você ia errar de novo, Pedro. É como diz o ditado: quer bem feito, faça você mesmo” E Deus lamentou o fato de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. E nós também. Acorda, Brasil!

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: