sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Floriano Pesaro: A nova desordem global e o teste de 2026

O ano de 2026 não deve ser compreendido como mais um capítulo turbulento da política internacional. Ele se impõe como um marco de transição estrutural, em que a ordem global deixa de cumprir sua principal função, organizar expectativas, reduzir incertezas e oferecer previsibilidade mínima aos Estados, às economias e às sociedades. As instituições permanecem formalmente em funcionamento, os tratados seguem vigentes e as alianças continuam sendo evocadas, mas o seu poder real de coordenação se esvazia de forma acelerada.

Vivemos um momento em que as regras sobrevivem, porém já não orientam decisões estratégicas. O sistema internacional não entra em colapso, torna-se disfuncional. E isso representa um risco maior do que a ruptura aberta, pois normaliza a instabilidade como estado permanente e reduz os incentivos à cooperação de longo prazo.

Play Video

Nesse contexto, os Estados Unidos deixam de atuar como eixo estabilizador do sistema e passam a ser um de seus principais vetores de incerteza. A reorganização interna do Estado americano, marcada pela redução dos freios institucionais, pela concentração decisória e pela politização explícita da economia, produz um ambiente de imprevisibilidade estrutural. O poder passa a ser exercido de forma mais direto, menos normatizado e menos previsível, com impactos que se irradiam para além de suas fronteiras.

Ao mesmo tempo, a disputa estratégica entre Estados Unidos e China deixa de ser apenas ideológica ou comercial e assume uma dimensão material profunda. A China consolida sua liderança em baterias, energia limpa, veículos elétricos, infraestrutura e inteligência artificial aplicada. Trata-se do controle das bases físicas e tecnológicas do século XXI. Em contrapartida, os Estados Unidos reforçam sua aposta em petróleo, gás e instrumentos tradicionais de poder econômico. A disputa deixa de ser apenas por mercados e passa a ser pela arquitetura do futuro.

A retomada explícita da lógica da Doutrina Monroe amplia ainda mais as tensões, sobretudo no hemisfério ocidental. Não se trata mais de proteção regional, mas de controle direto, por meio de coerção política, econômica e estratégica. Esse movimento reduz o espaço de autonomia dos países latino-americanos e eleva a volatilidade regional, em um ambiente com menos mediação diplomática e maior imposição de interesses.

Na Europa, o cenário é de paralisia simultânea. França, Alemanha e Reino Unido enfrentam crises políticas que não se limitam a governos específicos. O que está em curso é o enfraquecimento do centro político europeu, incapaz de formular consensos estratégicos duradouros. A União Europeia deixa de ser um ator geopolítico coeso e passa a funcionar como espaço de disputa, vulnerável a pressões externas e fragmentações internas.

No front oriental, a guerra envolvendo a Rússia se transforma. O conflito se afasta das trincheiras convencionais e se espalha por múltiplas frentes, ataques cibernéticos, sabotagens, drones, desinformação e operações híbridas. A reação da OTAN, ainda que calibrada, eleva o risco de escaladas não intencionais em um ambiente onde a distinção entre guerra e paz se torna cada vez mais difusa.

No plano econômico, avança um capitalismo de Estado à americana, no qual subsídios, tarifas, contratos e políticas industriais passam a responder mais à lógica política do que à racionalidade econômica. Empresas alinhadas ao poder são protegidas, enquanto aquelas percebidas como críticas tornam-se vulneráveis. O mercado deixa de ser árbitro e passa a ser instrumento.

A China, por sua vez, enfrenta uma armadilha deflacionária persistente. Incapaz de reativar plenamente sua demanda interna, tenta exportar sua crise para o resto do mundo por meio de excesso de capacidade, produtos baratos e pressão competitiva sobre indústrias globais. O resultado é o aumento de respostas protecionistas e a fragmentação das cadeias globais de comércio.

Nesse ambiente, até mesmo estruturas concebidas para oferecer estabilidade perdem eficácia. O acordo comercial da América do Norte, o USMCA, sobrevive como arcabouço formal, mas já não organiza expectativas. Ele não colapsa, porém deixa de oferecer previsibilidade. As regras permanecem, mas deixam de orientar decisões estratégicas de longo prazo, ampliando a incerteza para empresas e investidores.

A disputa por recursos estratégicos também se intensifica, e a água emerge como novo instrumento de poder. Barragens, controle de fluxos, escassez e dependência hídrica passam a ser fatores centrais de pressão entre Estados. Os conflitos deixam de girar apenas em torno da posse do recurso e passam a envolver, sobretudo, a capacidade de regular o acesso.

Nesse cenário de erosão da ordem internacional, o Brasil ocupa uma posição singular. Distante dos principais focos de conflito militar, dotado de vastos recursos naturais, matriz energética limpa, capacidade agroindustrial e tradição diplomática reconhecida, o país reúne condições raras de atuar como fator de equilíbrio em um sistema cada vez mais fragmentado. A liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com sua experiência acumulada, legitimidade internacional e reconhecida capacidade de interlocução, constitui um ativo estratégico. Em um mundo marcado por desconfiança, coerção e unilateralismo, o Brasil volta a ser percebido como espaço de diálogo, mediação e construção de pontes, tanto no Sul Global quanto nas relações com Estados Unidos, Europa e China. Trata-se de uma política externa pragmática, baseada na defesa do multilateralismo, da autonomia estratégica e da busca por soluções negociadas.

Por fim, a inteligência artificial deixa de ser apenas um tema tecnológico e se consolida como risco sistêmico. A busca por retorno rápido leva empresas a adotarem modelos extrativos, substituindo abordagens sustentáveis. O impacto da IA torna-se social, político e institucional, ampliando assimetrias, concentrando poder e tensionando democracia.

•        Jayati Ghosh: Geopolítica em perspectiva gângster

Há método por trás da aparente loucura da abordagem — transacional e baseada em esferas de influência – de Donald Trump, em relação à geopolítica e à economia global. Em nenhum momento essa lógica ficou mais clara do que no sequestro ilegal do presidente venezuelano Nicolás Maduro e em seus esforços contínuos para garantir o controle das reservas de petróleo do país.

No cerne da revitalização da Doutrina Monroe por Trump – ou a “Doutrina Donroe”, como ele a renomeou – reside a crença de que os Estados Unidos podem agir com impunidade dentro de seu autodefinido “quintal”, e que outras grandes potências, particularmente a China, podem fazer o mesmo nos seus. Ao mesmo tempo, os EUA reservam-se o direito de promover seus interesses estratégicos onde quer que julguem conveniente, inclusive na Groenlândia.

Essa abordagem – apropriadamente descrita pelo economista indiano Prabhat Patnaik como “imperialismo gangster” – remonta às raízes coloniais do capitalismo, quando as hierarquias explícitas entre povos e entidades políticas eram baseadas no poder relativo.

Deixando de lado as profundas questões morais e legais levantadas pela estratégia de Trump, será que ela realmente pode funcionar? Será que dividir o mundo entre as grandes potências pode gerar um ambiente mais estável e dinâmico em um momento em que a economia global parece cada vez mais volátil e sem rumo?

Se a história serve de guia, a resposta é não. Ao longo dos últimos dois séculos, o capitalismo oscilou entre períodos de intenso conflito entre estados rivais e fases em que uma única superpotência dominante atuava como legisladora e executora das leis. No século XIX, esse papel foi desempenhado pelo Reino Unido, que construiu um império colonial maior do que os de seus rivais europeus. Desde meados do século XX, os Estados Unidos ocupam amplamente essa posição.

Embora a hegemonia nunca tenha significado a ausência de guerra, ela limitou os grandes conflitos inter-imperialistas, do tipo dos que precederam a Primeira Guerra Mundial, descritos por Vladimir Lenin como guerras em que o capital privado apoiado pelo Estado lutava pelo controle do território econômico. A relativa estabilidade, na medida em que existia, repousava sobre uma combinação de poderio militar esmagador e uma estrutura de regras e instituições globais concebidas para manter as rivalidades geopolíticas sob controle.

Hoje, porém, o alcance imperial dos Estados Unidos está tanto estressado quanto em declínio. A agenda de política externa de Trump baseia-se na visão de que, embora a globalização liderada pelos EUA tenha servido aos interesses do capital americano – especialmente o financeiro –, seus retornos diminuíram com a ascensão de potências emergentes como a China. Sua solução proposta é confiar na dominância militar e no poder econômico residual para garantir o controle direto sobre recursos e mercados em regiões que ele considera estarem dentro da esfera de influência exclusiva dos Estados Unidos. Isso significa abandonar até mesmo a pretensão de uma ordem internacional baseada em regras, remover a fachada de promoção da democracia e dos direitos humanos e exibir descaradamente uma doutrina antiquada de apropriação de recursos baseada na lei do mais forte.

Mesmo em seus próprios termos, é improvável que essa estratégia tenha sucesso. Embora seja claramente desastrosa para os trabalhadores norte-americanos e as pequenas empresas, ela também alimenta a instabilidade e prejudica os interesses de longo prazo das grandes corporações dos EUA. Os recursos econômicos não estão contidos em esferas de controle distintas e os mercados, por sua própria natureza, se sobrepõem. Disputas sobre acesso, fronteiras e controle são, portanto, inevitáveis quando uma potência tenta afirmar sua dominância em todas as frentes, o que aumenta a probabilidade de grandes guerras.

Sem dúvida, alguns segmentos do mundo corporativo norte-americano têm muito a ganhar. O complexo militar-industrial, por exemplo, obteve lucros enormes com as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Mas outros interesses poderosos sairão perdendo. As corporações multinacionais que dependem de cadeias de suprimentos verticalmente desintegradas e geograficamente dispersas serão afetadas; as instituições financeiras acostumadas a fluxos de capital transfronteiriços relativamente irrestritos verão suas oportunidades diminuírem; e as grandes empresas de tecnologia, que dependem do acesso a dados do mundo todo, se verão excluídas de importantes mercados estrangeiros.

O governo Trump buscou administrar essas contradições por meio de uma série de exigências coercitivas impostas a diversos parceiros comerciais. Mas, embora a intimidação de Trump possa gerar algumas concessões de curto prazo, ela é profundamente contraproducente. Muitos países, incluindo aliados de longa data, já estão buscando reduzir sua dependência dos EUA formando novas coalizões em torno de preocupações específicas.

Esses problemas são agravados pela agenda econômica mais ampla de Trump, que continua priorizando combustíveis fósseis em detrimento de tecnologias emergentes como energias renováveis, veículos elétricos e armazenamento de energia em baterias. Como resultado, as empresas norte-americanas não possuem as economias de escala dinâmicas necessárias para a competitividade a longo prazo. Bolhas especulativas alimentadas por modelos de IA superestimados e criptomoedas são substitutos inadequados para investimentos sustentados e liderança tecnológica.

Além de suas falhas econômicas, tratar a América Latina como o “quintal” dos Estados Unidos provavelmente provocará resistência popular. Os EUA têm um longo histórico de tentativas de dominar a região por meio de intervenções militares, apoio a ditaduras militares e sanções. Esses esforços não envelheceram bem e, com a desigualdade e a insegurança econômica aumentando em grande parte da América Latina, as condições já estão propícias para convulsões sociais e políticas.

As consequências também serão sentidas nos EUA, mas o resto do mundo não pode se dar ao luxo de esperar que Trump — ou um futuro governo — mude de rumo. A cautela demonstrada por alguns líderes europeus não é a solução, assim como a agressão reativa ou o recuo para um isolacionismo voltado para dentro.

Dada a dimensão e a urgência dos desafios globais atuais, fica claro que confrontar o imperialismo gangster de Trump exige cooperação internacional que não dependa do consentimento dos EUA. A ação coletiva deixou de ser opcional. Para combater a ameaça representada por uma Washington descontrolada, é o único caminho viável.

 

Fonte: Brasil 247/Outras Palavras

 

Nenhum comentário: