Floriano
Pesaro: A nova desordem global e o teste de 2026
O ano
de 2026 não deve ser compreendido como mais um capítulo turbulento da política
internacional. Ele se impõe como um marco de transição estrutural, em que a
ordem global deixa de cumprir sua principal função, organizar expectativas,
reduzir incertezas e oferecer previsibilidade mínima aos Estados, às economias
e às sociedades. As instituições permanecem formalmente em funcionamento, os
tratados seguem vigentes e as alianças continuam sendo evocadas, mas o seu
poder real de coordenação se esvazia de forma acelerada.
Vivemos
um momento em que as regras sobrevivem, porém já não orientam decisões
estratégicas. O sistema internacional não entra em colapso, torna-se
disfuncional. E isso representa um risco maior do que a ruptura aberta, pois
normaliza a instabilidade como estado permanente e reduz os incentivos à
cooperação de longo prazo.
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Nesse
contexto, os Estados Unidos deixam de atuar como eixo estabilizador do sistema
e passam a ser um de seus principais vetores de incerteza. A reorganização
interna do Estado americano, marcada pela redução dos freios institucionais,
pela concentração decisória e pela politização explícita da economia, produz um
ambiente de imprevisibilidade estrutural. O poder passa a ser exercido de forma
mais direto, menos normatizado e menos previsível, com impactos que se irradiam
para além de suas fronteiras.
Ao
mesmo tempo, a disputa estratégica entre Estados Unidos e China deixa de ser
apenas ideológica ou comercial e assume uma dimensão material profunda. A China
consolida sua liderança em baterias, energia limpa, veículos elétricos,
infraestrutura e inteligência artificial aplicada. Trata-se do controle das
bases físicas e tecnológicas do século XXI. Em contrapartida, os Estados Unidos
reforçam sua aposta em petróleo, gás e instrumentos tradicionais de poder
econômico. A disputa deixa de ser apenas por mercados e passa a ser pela
arquitetura do futuro.
A
retomada explícita da lógica da Doutrina Monroe amplia ainda mais as tensões,
sobretudo no hemisfério ocidental. Não se trata mais de proteção regional, mas
de controle direto, por meio de coerção política, econômica e estratégica. Esse
movimento reduz o espaço de autonomia dos países latino-americanos e eleva a
volatilidade regional, em um ambiente com menos mediação diplomática e maior
imposição de interesses.
Na
Europa, o cenário é de paralisia simultânea. França, Alemanha e Reino Unido
enfrentam crises políticas que não se limitam a governos específicos. O que
está em curso é o enfraquecimento do centro político europeu, incapaz de
formular consensos estratégicos duradouros. A União Europeia deixa de ser um
ator geopolítico coeso e passa a funcionar como espaço de disputa, vulnerável a
pressões externas e fragmentações internas.
No
front oriental, a guerra envolvendo a Rússia se transforma. O conflito se
afasta das trincheiras convencionais e se espalha por múltiplas frentes,
ataques cibernéticos, sabotagens, drones, desinformação e operações híbridas. A
reação da OTAN, ainda que calibrada, eleva o risco de escaladas não
intencionais em um ambiente onde a distinção entre guerra e paz se torna cada
vez mais difusa.
No
plano econômico, avança um capitalismo de Estado à americana, no qual
subsídios, tarifas, contratos e políticas industriais passam a responder mais à
lógica política do que à racionalidade econômica. Empresas alinhadas ao poder
são protegidas, enquanto aquelas percebidas como críticas tornam-se
vulneráveis. O mercado deixa de ser árbitro e passa a ser instrumento.
A
China, por sua vez, enfrenta uma armadilha deflacionária persistente. Incapaz
de reativar plenamente sua demanda interna, tenta exportar sua crise para o
resto do mundo por meio de excesso de capacidade, produtos baratos e pressão
competitiva sobre indústrias globais. O resultado é o aumento de respostas
protecionistas e a fragmentação das cadeias globais de comércio.
Nesse
ambiente, até mesmo estruturas concebidas para oferecer estabilidade perdem
eficácia. O acordo comercial da América do Norte, o USMCA, sobrevive como
arcabouço formal, mas já não organiza expectativas. Ele não colapsa, porém
deixa de oferecer previsibilidade. As regras permanecem, mas deixam de orientar
decisões estratégicas de longo prazo, ampliando a incerteza para empresas e
investidores.
A
disputa por recursos estratégicos também se intensifica, e a água emerge como
novo instrumento de poder. Barragens, controle de fluxos, escassez e
dependência hídrica passam a ser fatores centrais de pressão entre Estados. Os
conflitos deixam de girar apenas em torno da posse do recurso e passam a
envolver, sobretudo, a capacidade de regular o acesso.
Nesse
cenário de erosão da ordem internacional, o Brasil ocupa uma posição singular.
Distante dos principais focos de conflito militar, dotado de vastos recursos
naturais, matriz energética limpa, capacidade agroindustrial e tradição
diplomática reconhecida, o país reúne condições raras de atuar como fator de
equilíbrio em um sistema cada vez mais fragmentado. A liderança do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, com sua experiência acumulada, legitimidade
internacional e reconhecida capacidade de interlocução, constitui um ativo
estratégico. Em um mundo marcado por desconfiança, coerção e unilateralismo, o
Brasil volta a ser percebido como espaço de diálogo, mediação e construção de
pontes, tanto no Sul Global quanto nas relações com Estados Unidos, Europa e
China. Trata-se de uma política externa pragmática, baseada na defesa do
multilateralismo, da autonomia estratégica e da busca por soluções negociadas.
Por
fim, a inteligência artificial deixa de ser apenas um tema tecnológico e se
consolida como risco sistêmico. A busca por retorno rápido leva empresas a
adotarem modelos extrativos, substituindo abordagens sustentáveis. O impacto da
IA torna-se social, político e institucional, ampliando assimetrias,
concentrando poder e tensionando democracia.
• Jayati Ghosh: Geopolítica em perspectiva
gângster
Há
método por trás da aparente loucura da abordagem — transacional e baseada em
esferas de influência – de Donald Trump, em relação à geopolítica e à economia
global. Em nenhum momento essa lógica ficou mais clara do que no sequestro
ilegal do presidente venezuelano Nicolás Maduro e em seus esforços contínuos
para garantir o controle das reservas de petróleo do país.
No
cerne da revitalização da Doutrina Monroe por Trump – ou a “Doutrina Donroe”,
como ele a renomeou – reside a crença de que os Estados Unidos podem agir com
impunidade dentro de seu autodefinido “quintal”, e que outras grandes
potências, particularmente a China, podem fazer o mesmo nos seus. Ao mesmo
tempo, os EUA reservam-se o direito de promover seus interesses estratégicos
onde quer que julguem conveniente, inclusive na Groenlândia.
Essa
abordagem – apropriadamente descrita pelo economista indiano Prabhat Patnaik
como “imperialismo gangster” – remonta às raízes coloniais do capitalismo,
quando as hierarquias explícitas entre povos e entidades políticas eram
baseadas no poder relativo.
Deixando
de lado as profundas questões morais e legais levantadas pela estratégia de
Trump, será que ela realmente pode funcionar? Será que dividir o mundo entre as
grandes potências pode gerar um ambiente mais estável e dinâmico em um momento
em que a economia global parece cada vez mais volátil e sem rumo?
Se a
história serve de guia, a resposta é não. Ao longo dos últimos dois séculos, o
capitalismo oscilou entre períodos de intenso conflito entre estados rivais e
fases em que uma única superpotência dominante atuava como legisladora e
executora das leis. No século XIX, esse papel foi desempenhado pelo Reino
Unido, que construiu um império colonial maior do que os de seus rivais
europeus. Desde meados do século XX, os Estados Unidos ocupam amplamente essa
posição.
Embora
a hegemonia nunca tenha significado a ausência de guerra, ela limitou os
grandes conflitos inter-imperialistas, do tipo dos que precederam a Primeira
Guerra Mundial, descritos por Vladimir Lenin como guerras em que o capital
privado apoiado pelo Estado lutava pelo controle do território econômico. A
relativa estabilidade, na medida em que existia, repousava sobre uma combinação
de poderio militar esmagador e uma estrutura de regras e instituições globais
concebidas para manter as rivalidades geopolíticas sob controle.
Hoje,
porém, o alcance imperial dos Estados Unidos está tanto estressado quanto em
declínio. A agenda de política externa de Trump baseia-se na visão de que,
embora a globalização liderada pelos EUA tenha servido aos interesses do
capital americano – especialmente o financeiro –, seus retornos diminuíram com
a ascensão de potências emergentes como a China. Sua solução proposta é confiar
na dominância militar e no poder econômico residual para garantir o controle
direto sobre recursos e mercados em regiões que ele considera estarem dentro da
esfera de influência exclusiva dos Estados Unidos. Isso significa abandonar até
mesmo a pretensão de uma ordem internacional baseada em regras, remover a
fachada de promoção da democracia e dos direitos humanos e exibir
descaradamente uma doutrina antiquada de apropriação de recursos baseada na lei
do mais forte.
Mesmo
em seus próprios termos, é improvável que essa estratégia tenha sucesso. Embora
seja claramente desastrosa para os trabalhadores norte-americanos e as pequenas
empresas, ela também alimenta a instabilidade e prejudica os interesses de
longo prazo das grandes corporações dos EUA. Os recursos econômicos não estão
contidos em esferas de controle distintas e os mercados, por sua própria
natureza, se sobrepõem. Disputas sobre acesso, fronteiras e controle são,
portanto, inevitáveis quando uma potência tenta afirmar sua dominância em todas
as frentes, o que aumenta a probabilidade de grandes guerras.
Sem
dúvida, alguns segmentos do mundo corporativo norte-americano têm muito a
ganhar. O complexo militar-industrial, por exemplo, obteve lucros enormes com
as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Mas outros interesses poderosos
sairão perdendo. As corporações multinacionais que dependem de cadeias de
suprimentos verticalmente desintegradas e geograficamente dispersas serão
afetadas; as instituições financeiras acostumadas a fluxos de capital
transfronteiriços relativamente irrestritos verão suas oportunidades
diminuírem; e as grandes empresas de tecnologia, que dependem do acesso a dados
do mundo todo, se verão excluídas de importantes mercados estrangeiros.
O
governo Trump buscou administrar essas contradições por meio de uma série de
exigências coercitivas impostas a diversos parceiros comerciais. Mas, embora a
intimidação de Trump possa gerar algumas concessões de curto prazo, ela é
profundamente contraproducente. Muitos países, incluindo aliados de longa data,
já estão buscando reduzir sua dependência dos EUA formando novas coalizões em
torno de preocupações específicas.
Esses
problemas são agravados pela agenda econômica mais ampla de Trump, que continua
priorizando combustíveis fósseis em detrimento de tecnologias emergentes como
energias renováveis, veículos elétricos e armazenamento de energia em baterias.
Como resultado, as empresas norte-americanas não possuem as economias de escala
dinâmicas necessárias para a competitividade a longo prazo. Bolhas
especulativas alimentadas por modelos de IA superestimados e criptomoedas são
substitutos inadequados para investimentos sustentados e liderança tecnológica.
Além de
suas falhas econômicas, tratar a América Latina como o “quintal” dos Estados
Unidos provavelmente provocará resistência popular. Os EUA têm um longo
histórico de tentativas de dominar a região por meio de intervenções militares,
apoio a ditaduras militares e sanções. Esses esforços não envelheceram bem e,
com a desigualdade e a insegurança econômica aumentando em grande parte da
América Latina, as condições já estão propícias para convulsões sociais e
políticas.
As
consequências também serão sentidas nos EUA, mas o resto do mundo não pode se
dar ao luxo de esperar que Trump — ou um futuro governo — mude de rumo. A
cautela demonstrada por alguns líderes europeus não é a solução, assim como a
agressão reativa ou o recuo para um isolacionismo voltado para dentro.
Dada a
dimensão e a urgência dos desafios globais atuais, fica claro que confrontar o
imperialismo gangster de Trump exige cooperação internacional que não dependa
do consentimento dos EUA. A ação coletiva deixou de ser opcional. Para combater
a ameaça representada por uma Washington descontrolada, é o único caminho
viável.
Fonte:
Brasil 247/Outras Palavras

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