José
Guimarães: O bolsonarismo transformou o machismo em identidade política
sociedade
brasileira se levanta e dá um basta ao feminicídio e a todo tipo de violência
contra as mulheres. A violência contra as mulheres é uma ferida aberta no
Brasil, que não cicatriza. Pulsa, lateja, sangra silenciosa nas esquinas, em
casa, em cada atitude do machismo estrutural há séculos.
A
violência de gênero não é um acidente. É um projeto histórico de sociedade, um
pacto tácito que organiza as relações sociais e que nos últimos anos foi
alimentado pela retórica de ódio, pela misoginia, pelo desprezo pela vida
humana, presentes no discurso do bolsonarismo e da extrema direita.
Isso
está traduzido em números. Entre 2015 e 2024, ao menos 11.859 mulheres foram
assassinadas por razões de gênero no Brasil, quase quatro por dia. No ano, o
feminicídios praticamente triplicou, passando de 535 para 1.259 casos, segundo
dados oficiais reunidos pelo Ministério da Justiça e analisados pelas
instituições públicas que se dedicam à proteção às mulheres.
A
violência não cresce do nada. Ela brota onde a palavra pública legitima o
rebaixamento da mulher, líderes políticos tratam agressões como piadas, e o
Estado se omite ou retrocede em políticas de proteção, como aconteceu no
governo Bolsonaro.
Nesse
período, o Brasil assistiu a uma naturalização inédita da brutalidade. O que
antes era vergonha virou bandeira, o que acontecia na sombra ganhou palanque.
Em
2022, mais de 18 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência
física, psicológica, sexual, moral, patrimonial e todas as formas de agressão
cresceram em relação às pesquisas anteriores, segundo estudo “Visível e
Invisível”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Em
2023, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou um estupro a cada
seis minutos no país, com 88,7% das vítimas do sexo feminino. Como dizia Clarice Lispector, a linguagem
cria realidades. Quando a palavra pública se torna armadilha, o resultado é
devastador.
O
bolsonarismo transformou o machismo em identidade política. Repetiu, sem pudor,
que mulheres são inimigas quando se rebelam, quando denunciam, quando
sobrevivem à violência.
O
discurso de ódio, machista, misógino, amplificado como uma sirene de distorção
moral, validou o agressor doméstico, armou a mão violenta e alimentou o
ressentimento dominante do patriarcado.
No
mesmo período, o Brasil viu o aumento alarmante de feminicídios, violência
psicológica, assédios e ameaças digitais. Em 2020, 1.351 mulheres foram vítimas
de feminicídio; em 2021 foram 1.319, uma mulher assassinada a cada sete horas;
em 2022 esse número subiu para 1.437, sendo 61,1% de mulheres negras. Em 2023, o total chegou a cerca de 1.460
casos, a maior marca já registrada desde a tipificação do crime, o que
consolida uma escalada que atravessa os anos em que a extrema direita fez da
misoginia um programa político.
Criou-se
um ambiente onde a mulher não é apenas alvo, mas símbolo de libertação a ser
destruído. Lembremos que a política não é neutra. Quando o Estado desdenha de
políticas de proteção, desmonta serviços públicos, corta verbas de abrigos,
descredibiliza movimentos feministas e estimula o armamento civil, ele se torna
cúmplice da violência.
Cada
vez que a extrema direita relativiza agressões, ataca a Lei Maria da Penha ou
insinua que feminismo é inimigo da família, ela envia ao país um recado brutal:
mulheres não importam.
Mas a
resistência nos ensina que a democracia sem igualdade de gênero não se
sustenta. Precisamos reconhecer que o combate à violência contra a mulher é
tarefa coletiva, que exige Estado forte, políticas públicas robustas, educação
transformadora, cultura de paz e coragem moral. Não há futuro democrático sem a
igualdade de gênero.
A
pesquisa “Visível e Invisível” mostra que 37% das brasileiras sofreram algum
tipo de violência em apenas um ano, e que só uma em cada quatro vítimas procura
ajuda ou registra denúncia: o silêncio ainda é parte do crime.
Com o
governo Lula, o Brasil recuperou essa direção ética, reconstruiu políticas de
proteção, amplia o número de casas-abrigo, fortalece delegacias especializadas,
garante autonomia econômica às mulheres.
Logo no
início do governo Lula, o Ministério das Mulheres foi recriado e, em agosto de
2023, o Decreto nº 11.640 instituiu o Pacto Nacional de Prevenção aos
Feminicídios, voltado a enfrentar todas as formas de discriminação, misoginia e
violência de gênero.
Em
2024, o Plano de Ação do Pacto lançou 73 medidas, com orçamento previsto de R$
2,5 bilhões, incluindo campanhas permanentes, formação de profissionais de
segurança, saúde e educação, ampliação de casas-abrigo, Centros de Referência e
monitoramento eletrônico de agressores.
O
governo retomou e expandiu a Casa da Mulher Brasileira. Há obras em andamento e
a meta é chegar a 40 unidades até 2026, com atendimento integrado, delegacia,
defensoria, Ministério Público, abrigo e apoio psicossocial no mesmo espaço.
Ao
mesmo tempo, o Estado reestrutura a porta de entrada das denúncias. Em 2024, o
Ligue 180 realizou mais de 750 mil atendimentos, cerca de 2 mil por dia e
recebeu 691 mil ligações, alta de 21,6% em relação ao ano anterior. A maioria
dos relatos trata de violência psicológica (mais de 100 mil casos), seguida de
violência física e patrimonial; mais de 52% das denunciantes se declaram
negras, revelando o cruzamento entre racismo e sexismo. Esses números não significam mais violência,
mas mais disposição para romper o silêncio, à medida que o Estado sinaliza
acolhimento e responsabilidade.
Minha
contribuição como parlamentar, no Congresso Nacional, tem sido lutar contra as
propostas da extrema direita de retrocesso ao processo civilizatório e propor
medidas de proteção e defesa da igualdade de gênero. Apresentei 26 projetos em
defesa da igualdade de direitos das mulheres, sobre punição aos agressores e
proteção imediata às mulheres.
Precisamos
enfrentar a violência digital e responsabilizar, sem hesitação, quem promove a
misoginia como arma política. O país precisa reeducar-se, desaprender a
brutalidade, desaprender a naturalização da dor. Não é possível tratar como
“opinião” aquilo que, na prática, autoriza o feminicídio, o estupro, o
espancamento cotidiano.
Democracia
não combina com o espetáculo da humilhação. Não há liberdade possível onde o
machismo governa e a extrema direita celebra a violência como método. O que
está em jogo não é apenas a proteção das mulheres, mas o próprio sentido de
civilização que escolhemos: ou seguimos alimentando a política do ódio, ou
consolidamos um pacto de vida em que nenhuma mulher seja sacrificada para que o
patriarcado continue dominando.
O que
querem, é retroceder ao século XIX, quando a mulher era propriedade, escrava,
subjugada pela violência sexual institucionalizada. Mas, há uma reação contra o
atraso organizado, que aponta o caminho da democracia.
O
Presidente Lula nos convocou para um grande mutirão em defesa das mulheres. O
Brasil precisa virar essa triste página de nossa história, para que a paz, a
harmonia, a convivência amorosa cheguem aos lares em todo o país.
• Presídio com ar-condicionado para uns,
água racionada para outros. Por Jessica Santos
Ao ser
encarcerado, o “chão de fábrica” dos golpistas do 8 de janeiro – as tais
velhinhas cristãs e outros cidadãos de bem – encontrou a realidade carcerária
do país. Não foram poucas as vezes que ouvimos acusações de comida ruim e
condições precárias vindas dos novos integrantes do mundo penitenciário
brasileiro. Esses presos recebem constantes visitas de parlamentares da
extrema-direita,os mesmos que vivem dizendo que presos só têm regalias e agora
levam adiante a preocupação com os direitos humanos dessa pobre gente.
Essas
visitas são cobertas pela mídia hegemônica e compadecem a sociedade em prol
daqueles pobres pais, mães e avós de família que foram para Brasília para
“apenas” vandalizar patrimônio público e pedir por um golpe. Apenas para
expressar seu desejo pelo fim do Estado Democrático de Direito. Apenas pessoas
idosas com bíblias, batons e garrafas d´água nas mãos que passeavam por
Brasília e, casualmente, teriam causado estragos ao patrimônio público e
atacado agentes de segurança.
Como
mostramos na semana passada, no presídio de Caiuá (SP), o fato de os presos
terem pedido uma reunião com a diretoria foi tratado como motim, mesmo com
relatos de caco de vidro e gilete na comida, que já costumava vir azeda. Você
não vai ver isso no telejornal antes da novela. E, se ver, receberá a versão
travestida de “presídio sufoca motim de presos”, que é a do Estado.
Pouco
importa se as violações já foram denunciadas e fotografadas pela Defensoria
Pública, conforme minha colega, a repórter Catarina Duarte, apurou em sua
reportagem. Pouco importa se essas pessoas ficam sem água para beber e para
suas necessidades básicas das 18h às 6h.
<><>
O que a TV não mostra sobre os presídios
Em
reportagem publicada pela Ponte em setembro, as jornalistas Mariana Rosetti e
Paola Churchill mostraram que as mulheres encarceradas em São Paulo usam panos,
colchões e camisetas como absorvente porque nem sempre recebem os kits que
deveriam ser fornecidos pelo Estado. Os relatos foram levantados em inspeções
da própria Defensoria Pública, um órgão do Estado. No CPD do Butantã, na cidade
mais rica do país, as mulheres recebem apenas um pacote com oito absorventes ao
entrarem na unidade, sem reposição.
O
acesso das mulheres encarceradas a atendimento ginecológico é escasso. Algumas
com penas maiores passam o final da vida menstrual e o começo da menopausa sem
atenção, denunciaram as repórteres. No segundo semestre de 2024, só havia 24
ginecologistas para as quase 30 mil mulheres presas em todo Brasil, de acordo
com dados do governo federal. Isso você não vê em jornalões ou no feed de parlamentares – de todo espectro
político –, que não se importam, não visitam, nem chamam atenção a essa
situação.
Há
algumas semanas, a Ponte recebeu denúncias de que a Penitenciária de Taiúva, no
interior de São Paulo, estava condicionando a saída temporária de presos ao
pagamento de um determinado valor em Pix, mesmo para aqueles que as famílias se
comprometeram a irem buscar. Alguns familiares chegaram a pegar empréstimo.
Pouco antes da reportagem do meu colega Paulo Batistella ir ao ar, a
administração do presídio retirou do ar um site informal por meio do qual eram
orientados os depósitos exigidos.
Ao
longo de 11 anos — e com o apoio de movimentos de familiares de pessoas
encarceradas, que nos trazem essas denúncias —, já denunciamos que pessoas com
deficiência eram mantidas na prisão, em vez de estarem em prisão domiciliar,
mostramos pessoas que morreram na prisão e que a família só soube por email,
ouvimos outros que estavam doentes e não recebiam atendimento adequado, presas
com marcas de infecção por vermes em sua pele, pessoas com marcas de violência,
casos de envenenamento por dedetização com morte e diversas outras denúncias
sobre as condições das penitenciárias no Brasil.
A frase
“todo presídio tem um pouco de tumbeiro” expressa uma realidade: a de que a
estrutura escravista está vivíssima em nossa sociedade. E quando se traz a
dimensão racial da questão, fica mais escandaloso. Afinal, o Brasil tem um
milhão de pessoas presas – o que nos faz a terceira maior população carcerária
do planeta –, das quais 69% são negras.. A tortura e a fome sempre foram
instrumentos contra o corpo negro, fosse o escravizado ou o livre; a não vida é
o que a sociedade brinda, independentemente de você estar preso ou livre. Sendo
negra ou negro, a chance de essa ser sua sina é maior.
Os
direitos humanos – celebrados internacionalmente no último dia 10 de dezembro –
só servem quando a classe média branca deixa seus bairros abastados e vai para
a cadeia. Essa gente vai para o “presídio dos famosos” e vira até documentário
e série. E depois vão seguir sua vida, de certa forma. Os outros, os
invisibilizados, seguem sob o signo de algum tipo de não vida, não emprego, não
oportunidade. Independentemente de seus atos pregressos, eles não deixam de ser
humanos e têm direito ao básico para viver sua pena. Mas dizer isso soa quase
pueril diante de uma sociedade violenta e punitivista.
Ao fim
e ao cabo, seguiremos firmes no propósito de visibilizar denúncias. Afinal,
enquanto uns reclamam do barulho do ar-condicionado, outros só estão pedindo
água para beber.
Fonte:
Fórum/Ponte Jornalismo

Nenhum comentário:
Postar um comentário