Os
tentáculos do Comando Vermelho na política do Rio de Janeiro, segundo as
investigações
Nos
últimos quatro meses de 2025, o presidente da Assembleia Legislativa do Estado
do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União), outro deputado estadual,
TH Joias (MDB), e o desembargador Macário Ramos Júdice Neto foram presos no Rio
de Janeiro, com autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo
Tribunal Federal (STF).
Todos
eles são acusados de beneficiar, direta ou indiretamente, os negócios do
Comando Vermelho (CV) – uma das principais facções de tráfico de drogas do
país.
As
defesas de Bacellar e Macário alegam inocência – o primeiro diz não ter atuado
para obstruir a investigação, enquanto o segundo diz não ter encontrado
Bacellar no dia anterior à operação, nem conversado sobre o assunto. O advogado
de TH Joias diz que não teve acesso à decisão judicial.
As
investigações continuam, com possibilidades de também chegar a outros escalões
de poder no Estado do Rio, avalia o sociólogo Daniel Hirata, do Grupo de
Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF (Geni/UFF).
Escândalos
envolvendo políticos que mantém relações próximas com criminosos não são
novidade no Rio de Janeiro.
Em
2009, a CPI das milícias apontou que vereadores da cidade do Rio e deputados
estaduais colaboravam com grupos paramilitares. O Estado já teve cinco
ex-governadores presos – todos acusados de corrupção ou irregularidades
administrativas.
Outros
casos estamparam o noticiário: a deputada Flordelis, acusada de matar o marido;
o vereador Jairinho, investigado pela morte de seu enteado, o menino Henry
Borel; Chiquinho Brazão, suspeito de ser o mandante do assassinato da vereadora
Marielle Franco.
Mais
recentemente, a ex-deputada Lucinha virou ré por envolvimento com milícias.
Nenhum
havia ainda, no entanto, sido indiciado por suspeitas de envolvimento com o CV.
"O
que é novidade aqui é que, no Rio de Janeiro, a investigação sempre fica nos
escalões mais baixos, como o policial que vaza informações sobre operações a
criminosos", afirma Hirata.
"Mas
agora estamos falando de um deputado estadual, um desembargador, que é um juiz
de segunda instância, e o presidente da Alerj."
As
investigações apontam, por enquanto, apenas TH Joias como membro do grupo
criminoso. Mas, de acordo com a decisão do STF, o vazamento de informações pode
indicar um esforço de Bacellar para evitar a exposição de outros "agentes
políticos" ligados ao CV – e preservar os vínculos com a facção.
Além
disso, até poucos meses atrás, Bacellar era um dos principais aliados do
governador Cláudio Castro (PL) e influenciava em decisões ligadas à segurança
pública.
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As conexões do CV com a Alerj
O fio
dessa história começou a ser puxado com a prisão de Tiego Raimundo de Oliveira
Santos, o TH Joias, em setembro, na Operação Zargun.
Criado
na Zona Norte do Rio, no morro do Fubá, ele é filho de um ourives e se tornou
popular por vender joias para celebridades. Mas não fazia dinheiro só com as
vendas lícitas de joias, segundo as autoridades.
Em
2017, TH foi acusado pela Polícia Civil de lavar dinheiro para o Terceiro
Comando Puro (TCP), facção rival do Comando Vermelho e que emerge como terceira
força do crime organizado do país, e chegou a ter prisão preventiva decretada.
Em nota
enviada à revista Veja, em 2024, ele disse que as acusações estavam "sendo
esclarecidas na Justiça, uma vez que seu nome foi indevidamente associado a
fatos que não são compatíveis com a sua curva de vida e trajetória
profissional".
Mesmo
sob a suspeita de ligação com grupos armados, TH conseguiu mais de 15 mil votos
na eleição de 2022, e ficou como segundo suplente de deputado estadual pelo
MDB.
Em maio
de 2024, após a morte de Otoni de Paula Pai e a decisão do primeiro suplente,
Rafael Picciani, de permanecer como secretário de Esportes do governo de
Cláudio Castro, TH Joias assumiu o mandato na Alerj.
Pouco
mais de um ano depois, a Polícia Federal (PF) acusou o deputado de ser membro
importante do CV. Segundo a investigação, o deputado ajudava na lavagem de
dinheiro do grupo criminoso, intermediava a compra de armas e drones e se
reunia diretamente com a cúpula da facção para alinhar planos.
Os
investigadores indicaram ainda que ele transitava com facilidade entre
ambientes institucionais e mantinha relações políticas consolidadas, mesmo
sendo integrante de uma organização criminosa.
Na
manhã da operação contra TH Joias, Cláudio Castro demitiu Rafael Picciani da
Secretaria de Esportes, e ele reassumiu como deputado estadual, automaticamente
retirando seu suplente do cargo.
A
decisão impediu que a Alerj analisasse a manutenção ou a cassação do mandato do
parlamentar preso, como prevê a legislação. A manobra chamou atenção de
Alexandre de Moraes, que citou o caso na decisão que levou Bacellar à prisão.
Segundo
a Polícia Federal, a estratégia teve como objetivo "desvincular a imagem
da Alerj do investigado TH Joias que, como é de conhecimento público, era
aliado político e presença constante em eventos institucionais dos poderes
Executivo e Legislativo".
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Influência na presidência da Alerj e no Judiciário
Com o
celular de TH Joias, a PF descobriu que Bacellar, então presidente da Alerj,
sabia da operação contra o colega e o alertou. Bacellar orientou o deputado a
tirar tudo da casa.
"Ô
presida! Não tem como levar não, irmão. Pô, como é que leva?! Tem como levar
não, irmão. Esses filhas das puta vão roubar as carnes, hein?", disse TH
Joias a Bacellar, a quem também se referia como 01, em vídeo encontrado pelos
investigadores.
Enquanto
assistia do celular, em outro imóvel, a entrada dos policiais, TH Joias mandou
fotos e vídeos das imagens registradas pelas câmeras, de acordo com a
investigação.
Bacellar
não teria avisado nenhuma autoridade sobre a ligação de TH, embora já soubesse
do mandado de prisão contra o deputado. No dia 3 de dezembro, o presidente da
Alerj foi preso – e alvo de um mandado de busca e apreensão.
"Essa
notícia foi surpreendente, a gente não sabia que ia se romper uma barreira
dessas", diz uma fonte que atua na Alerj.
"Por
outro lado, não é incoerente com o que se tornou o convívio do TH lá dentro,
não só com o Bacellar, mas também com outros deputados. Ele entrou com alguma
rejeição. Mas depois virou amigo dos caras, era um deles."
Bacellar
ficou preso cinco dias. Em 8 de dezembro, a Alerj revogou sua prisão. Alexandre
de Moraes concedeu liberdade, mas com exigências: deixar a presidência da
Alerj, cumprir recolhimento domiciliar, ficar proibido de se comunicar com
outros investigados, usar tornozeleira eletrônica, ter seu porte de arma
suspenso e entregar seus passaportes.
"Essa
revogação [da prisão de Bacellar] mistura níveis de comprometimento", diz
a mesma fonte.
"Tem
deputados do grupo dele, que têm cumplicidade e, provavelmente, até alguma
ciência dessa relação com o TH. Outros não eram próximos a ponto de saber. Mas
ele [Bacellar] estabelece relações: coloca gente em cargos na Alerj, arruma
espaço no governo. Isso gera comprometimento."
Na
Alerj, prossegue a fonte, "tudo funciona com acordos".
"Você
vai presidir mais comissões se votar no candidato a presidente que venceu. Eles
desrespeitam o regimento quando querem. E quem quiser que vá para a
Justiça", afirma.
Procurada
pela BBC News Brasil para comentar a respeito destas declarações, a assessoria
de imprensa da Alerj não respondeu até a publicação desta reportagem.
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'No jantar com o desembargador'
As
buscas em celulares dos acusados levaram as investigações a outro patamar alto
da estrutura de poder do Rio.
A PF
encontrou indícios de que o desembargador Macário Ramos Júdice Neto era o
responsável pelo vazamento da Operação Zargun, que levou à prisão do deputado.
Era ele o relator do processo no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2).
Assim
como TH Joias, Júdice já havia sido alvo de investigações anteriores. Segundo a
PF, ele permaneceu afastado da magistratura por cerca de 18 anos, em razão de
suspeitas de venda de sentenças e envolvimento com bicheiros. O processo
administrativo prescreveu, e o magistrado foi reintegrado ao Judiciário.
As
mensagens analisadas pela PF também indicam, segundo os investigadores, uma
relação de extrema proximidade entre Júdice e Bacellar.
Os dois
trocavam votos de confiança, se tratavam como "irmãos" e declaravam
afeto e admiração. Bacellar nomeou Flávia Ferraço Júdice, esposa do
desembargador, para cargo na secretaria-geral de finanças da Alerj.
Júdice
escolheu Rodrigo Azevedo Tassari para chefiar seu gabinete. Tassari foi nomeado
por Bacellar para exercer um cargo comissionado na Secretaria de Estado de
Governo, quando o deputado era titular da pasta.
No
celular de Bacellar, a polícia encontrou prova de um encontro entre os dois um
dia antes da operação contra TH Joias. Por volta das 22h, Bacellar enviou uma
mensagem informando a uma pessoa que estava "no jantar com o
desembargador". Uma hora antes, TH Joias havia mandado o vídeo brincando
sobre a impossibilidade de levar todas as carnes guardadas no freezer.
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A relação de Bacellar e Castro
O
deputado Rodrigo Bacellar teve uma rápida ascensão na Alerj.
Eleito
pela primeira vez em 2018, pelo Solidariedade, o deputado agradou políticos da
esquerda e da direita.
Foi
indicado pelo então presidente da Casa, André Ceciliano (PT), como relator de
processos importantes, como o que levou o ex-governador Wilson Witzel ao
impeachment.
Com
Castro no poder, ganhou ainda mais espaço: ocupou o cargo de secretário de
Estado de governo e indicou nomes para cargos importantes no Executivo.
Em
2023, após ser reeleito, venceu a disputa para assumir a presidência da Alerj.
Segundo informações divulgadas na imprensa, Bacellar interferiu na escolha de
Castro para o chefe de polícia civil. Em troca da liberação de bilhões do fundo
estadual para o governo, ele teria exigido a troca de comando na civil.
José
Renato Torres, secretário da polícia civil à época, soube pela imprensa que
seria exonerado do cargo e pediu demissão. Castro então nomeou o delegado
Marcus Amim – nome defendido por Bacellar – para o cargo.
Para
isso, o governador precisou mudar uma lei orgânica da Polícia Civil, que
reduzia a obrigatoriedade mínima de 15 anos para 9 anos de serviço. Amim tinha
12 anos de Polícia Civil.
Em
nota, os sindicatos dos delegados do RJ e dos policiais civis do Estado, e a
Associação dos Delegados de Polícia do RJ criticaram a nomeação.
"Infelizmente,
a prática corriqueira de interferências políticas diretas na escolha do chefe
da Polícia Civil pelos mais diversos agentes externos, se tornou tão banal e
escancarada no Estado do Rio de Janeiro que não causa mais sequer surpresa ou perplexidade
a sociedade carioca. Não se pode normalizar e internalizar sem nenhum
questionamento a indicação meramente política para um dos principais cargos da
segurança pública do Estado", afirmaram.
Bacellar
negou a interferência. No ano seguinte, no entanto, quando Amim foi exonerado
do comando da Polícia Civil, o deputado o nomeou para a Superintendência
Militar da Alerj. Amim foi exonerado em 18 de outubro pelo presidente em
exercício da Alerj, Guilherme Delaroli (PL).
A
decisão do STF reforça a influência de Bacellar nas decisões tomadas pelo
governador Cláudio Castro.
"A
representação também aponta a influência exercida por RODRIGO BACELLAR (...)
também no Poder Executivo estadual, onde gere a nomeação de cargos diversos na
Administração Pública, inclusive em setores sensíveis à atuação de organizações
criminosas, como a Polícia Militar e a Polícia Civil".
A
ligação entre o deputado e o governador era tão próxima que Castro citava
Bacellar como seu sucessor no comando do Palácio da Guanabara.
Em maio
de 2025, Castro indicou Thiago Pampulha, vice-governador do Rio, para o cargo
de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. A Alerj aprovou a nomeação.
Sem um
vice oficial, o presidente da Alerj assumiria o governo nas ausências do
titular. E ganharia espaço e visibilidade com a possibilidade de Castro deixar
o cargo de governador, em 2026, para concorrer ao Senado.
"O
que se noticiou largamente é que Thiago Pampulha abriria espaço para Bacellar,
como presidente da Alerj, assumir o governo interinamente, com o afastamento de
Castro para concorrer ao Senado. E, assim, se fazer mais conhecido para
disputar o governo do estado do Rio de Janeiro", lembra Hirata.
Na
primeira ausência de Castro, Bacellar demitiu o então secretário de
transportes, Washington Reis, que apoiava o prefeito do Rio, Eduardo Paes
(PSB), na disputa pelo governo estadual, cargo almejado por Bacellar.
Além da
proximidade de Castro com Bacellar, outro ponto da investigação indica possível
influência do CV no Executivo. Alessandro Pitombeiro Carracena, subsecretário
estadual de defesa do consumidor até o início do ano, também foi preso durante
a Operação Zargun. Segundo a investigação, ele recebia e repassava informações
sobre operações policiais em áreas dominadas pela facção.
Em
nota, a defesa de Carracena repudiou as acusações. "A medida extrema foi
fundamentada exclusivamente em mensagens trocadas entre terceiros, localizadas
no celular do deputado Thiego Raimundo dos Santos Silva, nas quais o nome de
Carracena é mencionado, sem qualquer indício concreto de envolvimento em atos
ilícitos".
A
investigação também aponta tentativas de chefes do CV de cooptar Gutemberg
Fonseca, titular da secretaria de Defesa do Consumidor.
Segundo
o relatório final, obtido pelo jornal Folha de S. Paulo, Fonseca teria se
reunido com Gabriel Dias de Oliveira, o Índio, membro do CV preso no mesmo dia
que Carracena e TH Joias. Apesar de ter "recebido algum tipo de
auxílio", o secretário não teria atendido aos pedidos dos traficantes.
A
secretaria alegou que Gutemberg desconhecia a vida pessoal e o histórico de
Índio. Disse ainda que qualquer contato em eventos públicos teria sido "de
forma absolutamente casual, sem qualquer ciência sobre qualquer envolvimento
ilícito".
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A influência dos grupos armados na política da Baixada
Não é
só no governo estadual que as facções do tráfico tentam se infiltrar. Na última
eleição, Marcos Aquino, do Republicanos, foi o candidato a vereador mais votado
na cidade. Ele é irmão de Luiz Paulo Matos de Aquino, acusado pela polícia de
fazer parte de um grupo local do CV que movimentou mais de R$ 30 milhões em
2025.
O
vereador estava na casa do irmão, em novembro de 2025, quando a polícia cumpria
mandados de prisão na Operação Contenção – Luiz era um dos alvos.
O
vereador não era alvo, mas acabou preso. No carro oficial de Aquino, a polícia
encontrou uma arma irregular e caixas de diversos remédios de uso controlado.
Em nota à revista Veja, a defesa classificou a prisão como arbitrária e
perseguição política. Aquino pagou fiança e deixou a cadeia.
Em
novembro, a polícia civil prendeu outro vereador da cidade, Ernane Aleixo (PL).
Ele é acusado de auxiliar o TCP com suporte logístico ao grupo – fornecendo,
inclusive, máquinas para erguer barricadas. O vereador não se pronunciou sobre
o assunto.
Fonte:
BBC News Brasil

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