Melatonina
para crianças: uma tendência perigosa
O uso
de melatonina por crianças pequenas cresceu de forma expressiva nos últimos
anos, embora não existam evidências consistentes de benefício ou segurança a
longo prazo para a maioria dessa população. A conclusão é de uma revisão
publicada na revista Jama Network Open, que analisou estudos sobre o uso do
hormônio do sono em crianças de até 6 anos. O trabalho aponta um cenário
considerado preocupante pelos autores: aumento de prescrições, uso prolongado e
aumento de casos de ingestão acidental e intoxicação, especialmente em países
onde o produto é vendido sem receita.
A
revisão reuniu 19 estudos publicados entre 2000 e 2025, incluindo pesquisas
observacionais de longo prazo e ensaios clínicos. Os dados observacionais,
vindos principalmente de registros da Escandinávia, da Austrália e de centros
de toxicologia dos Estados Unidos e de Portugal, indicam crescimento contínuo
da prescrição de melatonina para crianças pequenas. Em alguns países, o aumento
chegou a ser cinco vezes maior em pouco mais de uma década.
Também
chamou a atenção dos autores, do Centro Médico da Universidade de Kansas e da
Universidade da Cidade de Kansas, nos Estados Unidos, a duração do uso: entre
40% e 50% das crianças continuavam recebendo melatonina dois a três anos após a
primeira prescrição, período superior ao avaliado nos ensaios clínicos. No
Brasil, o produto não é indicado para menores de 19 anos (veja quadro), por
isso não há dados sobre o consumo entre crianças e adolescentes. Um
levantamento da Google divulgado recentemente mostra, porém, a popularidade da
substância no país: a procura por "melatonina" no buscador aumentou
150% nos últimos cinco anos.
Overdose
Segundo
a revisão de artigos, a melatonina já é a principal substância envolvida em
exposições medicamentosas não supervisionadas e em casos de overdose atendidos
em emergências pediátricas nos Estados Unidos. Dados analisados no estudo
mostram que o número desses episódios cresceu cinco vezes entre 2009 e 2021,
com aceleração recente. Embora a maioria das ocorrências resulte em efeitos
leves, há registros de quadros graves e até mortes, o que transformou o tema em
um problema de saúde pública.
O
artigo também diz que, nos estudos experimentais sobre o uso de melatonina por
crianças, os benefícios foram restritos. Os ensaios incluíram apenas crianças
com distúrbios neurológicos ou do neurodesenvolvimento, como o transtorno do
espectro autista (TEA). Nesses casos, mostraram redução do tempo necessário
para adormecer. Os autores, no entanto, não encontram estudos que avaliassem a
eficácia do hormônio em crianças com desenvolvimento típico, nem pesquisas
robustas sobre efeitos a longo prazo em aspectos como crescimento, puberdade ou
saúde metabólica.
"É
importante destacar que em bebês e crianças com desenvolvimento típico há
poucos estudos de boa qualidade, o que significa que não é possível afirmar com
segurança que a melatonina seja eficaz, segura ou até mesmo necessária nesses
casos", afirma a neuropediatra Renata Gobetti, membro da Sociedade
Brasileira de Neurologia Infantil. "Também faltam dados robustos sobre os
efeitos do uso prolongado, especialmente em fases críticas do desenvolvimento
infantil, quando ocorrem mudanças hormonais e maturação do ritmo
biológico", alerta.
Suplemento
O
trabalho destaca, ainda, diferenças importantes entre países. Em locais onde a
melatonina é vendida como suplemento alimentar, como nos Estados Unidos, os
casos de intoxicação cresceram rapidamente, impulsionados, em parte, por
apresentações atrativas para crianças, como gomas mastigáveis. Já em países
onde o uso é mais regulado, como os nórdicos, o problema central é o uso
prolongado além do recomendado, muitas vezes sem reavaliações clínicas
regulares.
"Para
crianças pequenas, intervenções comportamentais devem ser sempre a primeira
abordagem para problemas de sono", afirmaram os autores. "Rotinas
regulares, redução do tempo de tela antes de dormir e orientação familiar têm
eficácia comprovada e não envolvem riscos medicamentosos", escreveram.
Os
distúrbios do sono são relativamente comuns entre crianças e adolescentes.
"Essa é uma das queixas mais frequentes nos consultórios de pediatria,
especialmente nos primeiros cinco anos de vida", atesta Renata Gobetti.
"Basicamente, todos os distúrbios do sono categorizados e classificados
para o adulto podem acontecer na criança, embora com manifestações clínicas
diferentes", esclarece Letícia Soster, neurologista Infantil,
neurofisiologista clínica e médica do sono, membro da Academia Brasileira do
Sono (ABS).
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Defasagem
Segundo
as especialistas, até 30% de meninos e meninas podem apresentar algum
transtorno do tipo, embora Soster acredite que o percentual esteja
desatualizado. A recomendação das médicas é que se busque a causa primária da
dificuldade da criança dormir e/ou permanecer dormindo, além de investir em
estratégias que criem uma rotina adequada do sono.
"Muitas
possibilidades podem estar inseridas nessa queixa 'o meu filho não dorme'. Ao
compreender essa etiologia e os fatores que estão impactando o sono, é possível
construir um plano terapêutico eficaz, que sempre deve incluir estratégias
comportamentais e higiene de sono como pilares do tratamento", reforça
Gobetti. Ela ressalta também a necessidade de buscar conhecimento adequado
sobre o sono infantil. "É preciso entender o que é ou não é esperado para
cada faixa etária e como o sono se organiza ao longo do desenvolvimento."
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Autismo
Nos
pacientes pediátricos, o uso da melatonina pode ser indicado para crianças com
transtorno do espectro autista (TEA). "Estima-se que entre 50% e 80% das
crianças com TEA tenham algum tipo de insônia. Um dos fatores que levam a essa
dificuldade com o sono é a produção de melatonina, que tende a se encontrar
deficitária nesses casos", esclarece o psicólogo clínico Miguel Bunge,
autor do livro Criação Consciente.
Quando
há deficiência na produção do hormônio, é mais difícil iniciar o sono. Segundo
Bunge, no caso de crianças com TEA, um estudo constatou a redução de quase 50%
nos minutos para adormecer após um ano de tratamento com a melatonina. Também
houve melhoras em outros parâmetros como redução dos despertares noturnos.
"Dessa forma, o uso de melatonina com o devido acompanhamento médico pode
ser uma estratégia importante para a qualidade de vida da criança com autismo e
de seus familiares. O sono é um dos mais importantes reguladores de
humor."
O
psicólogo clínico diz que, assim como o recomendado para crianças com
desenvolvimento típico, no caso daquelas com TEA, as medidas comportamentais
são fundamentais na regulação do sono. "Entre elas, destaca-se a rotina:
mesmo horário para acordar e para dormir, incluindo aos finais de semana e
férias." Outras providências são a redução da iluminação e o controle de
estímulos como jogos, sons e brincadeiras horas antes da hora de dormir.
Fonte:
Correio Braziliense

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