Se
queres a paz, prepara-te para a guerra
Incapazes
de enxergar seu próprio declínio, EUA abandonaram a hipocrisia. Brasil e
América do Sul precisam construir poder dissuasório. Inclui reequipar forças
armadas, reavaliar adesão ao TNP e (re)assumir o controle sobre as terras
raras, Fernando de Noronha e Alcântara...
A
ninguém escapa que vivemos atualmente uma fase de imensos riscos no mundo
inteiro. Desde a Segunda Guerra Mundial, não se via um quadro geopolítico e
militar tão problemático e perigoso.
A fonte
principal de instabilidade, ameaças e agressões é conhecida. Seria um equívoco,
entretanto, atribuir a Donald Trump a responsabilidade exclusiva pelo que vem
ocorrendo. Antes pudéssemos fazê-lo. Trump é passageiro. Mas o problema é de
natureza estrutural e será, portanto, mais duradouro.
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A tradição imperial dos Estados Unidos
Duas
observações. Primeira: o Império Americano sempre foi intervencionista e
violento. O seu desprezo pela ordem internacional não é de hoje e vem se
manifestando sob diversas formas, até na direção de organizações
internacionais, ao orquestrar o afastamento do primeiro Diretor-Geral da
Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ). E as invasões do
Iraque, da Líbia e da Síria, entre outras, ocorreram sempre com base em
alegações forjadas, impostas ao resto do mundo como verdades.
Não nos
esqueçamos de que abusos e violências ocorreram também durante governos
democratas. O Império não dá trégua. Já Eisenhower denunciava o temível poder
do “complexo militar-industrial”. Mais recentemente, tornou-se de uso corrente
a expressão “deep state” (“estado profundo”), constituído pelo
Departamento de Estado, o Pentágono, o FBI, a CIA, a imprensa corporativa e
poderosos grupos financeiros. O “deep state” atua sob qualquer
presidência e, de fato, manobrou o leme de Clinton, Obama e Biden, tanto como o
dos presidentes republicanos. E nem mesmo as ideias originalmente propostas no
MAGA de Trump parecem lograr sobreviver ao império de tão possante motor.
Antes
de Trump, porém, a ação imperial era protegida por camadas de retórica e
hipocrisia – a hipocrisia que, como escreveu La Rochefoucauld, é “a homenagem
do vício à virtude”. Trump é contra a hipocrisia, sempre foi. Quando atacou a
Venezuela, por exemplo, disse com franqueza que o seu objetivo era
“administrar” o país e passar a controlar o petróleo venezuelano. Em governos
anteriores, operações semelhantes eram justificadas por preocupações com
direitos humanos e democracia. Com Trump, o poder imperial deixou cair todas as
máscaras.
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Uma superpotência em declínio é mais perigosa
Segunda
observação: o fenômeno Trump deve ser visto como a reação de uma
superpotência em declínio, que já não consegue manter a sua hegemonia global
com base na competição econômica, de forma ordeira, obedecendo às regras do
jogo. O governo Trump está desmontando por completo a arquitetura internacional
que os próprios Estados Unidos construíram depois da Segunda Guerra Mundial.
Não vai sobrar nada.
O
recente ataque à Venezuela representa radical violação do Direito Internacional
por parte de Washington. Já não podemos nos enganar: dispondo do maior poderio
militar do planeta, o titubeante hegemon está disposto a utilizá-lo para impor
cruamente sua vontade. Recusa-se a acomodar seus interesses ao quadro jurídico
consagrado, num mundo crescentemente multipolar.
Foi-se
para não voltar o Olimpo no qual viveu sozinho após o desmonte do Pacto de
Varsóvia e o desmanche da União Soviética, cenário internacional em que uma
China, hoje altamente capacitada econômica e militarmente, mantinha ainda
presença discreta. Mas os Estados Unidos resistem ferozmente a adaptar-se a
essa nova realidade mundial. Agora nervoso, o hegemon rasga seus disfarces e
perde os modos ao despertar para um mundo no qual China, Rússia e Sul Global se
fazem ouvir. Com essa franqueza brutal, perde credibilidade e multiplica as
resistências e reações contrária em diversos países.
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Desafios para o Brasil
Como
fica o Brasil nesse admirável mundo novo? O sequestro de Maduro e os planos de
dominação da Venezuela levantam, entre outras, uma questão fundamental para
nosso entorno geográfico: a ausência de meios de defesa nos países
sul-americanos, no Brasil em particular, que permitam exercer algum poder
dissuasório diante da chamada “Doutrina Donroe”. Trazem à tona até mesmo a
questão de nossa participação no Tratado de Não-proliferação Nuclear, ao qual
aderimos em 1998 sem que se tivesse procedido a um verdadeiro e profundo debate
público.
É
imprescindível que retomemos, embora com trágico atraso, o fortalecimento de
nossas Forças Armadas e o estabelecimento de uma verdadeira Base Industrial de
Defesa, com a participação do empresariado nacional e a formação de quadros
especializados. Pensemos no modelo francês da DGA (“Direction générale de
l’armement”).
Tampouco
devemos perder de vista o controle geográfico de recursos minerais e terras
raras, assim como o das rotas e dos fluxos comerciais, questão na qual o
Atlântico Sul assume importância cada vez mais crítica. A chamada Zona de Paz
do Atlântico Sul deve deixar a retórica para tornar-se o foro de um diálogo
mais estratégico entre seus membros, em coordenação com o grupo dos
BRICS. Não se pode dizer hoje, em sã consciência, que o Canal do Panamá seja a
via bicontinental mais confiável.
Por
último, e com não menor urgência, impõe-se abrir debate interno, por um lado
sobre a situação jurídica de nossa Base de Alcântara, mantida curiosamente
distante do noticiário e, por outro, sobre a adoção de política que vise
preservar Fernando de Noronha (nossa Groenlândia?), objeto de recentes e
perturbadoras referências. Tampouco devemos perder de vista as novas
atividades militares estadunidenses no Paraguai, bem como o incômodo que pode,
de uma hora para outra, causar a Washington a presença da nossa população
árabe/palestina na Tríplice Fronteira.
Afirma-se,
às vezes, que o Brasil fez uma aposta existencial na paz. No mundo em que
vivemos, essa aposta na paz pode ser suicida. Continua valendo o antigo lema
romano: Se vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara-te
para a guerra).
O
Brasil perdeu de vista esse princípio básico. E ficamos despreparados para
fazer face aos imensos desafios que nos aguardam. Nosso país é gigantesco, com
amplos e variados recursos naturais. Se for percebido como um gigante de pés de
barro, incapaz de defender-se, será fatalmente objeto de intervenções
estrangeiras.
Essas
intervenções só não ocorrerão se os interesses estrangeiros puderem se impor
via prepostos locais. Já tivemos uma experiência traumática com Bolsonaro.
Vários candidatos da mesma índole se apresentam para disputar a eleição
presidencial de 2026 contra o presidente Lula. Se um deles vencer, Trump terá
um presidente-vassalo no Brasil. Sem disparar um tiro, os Estados Unidos farão
o que quiserem aqui, assim como fazem na Argentina de Milei.
O
ataque à Venezuela e a tentativa de submetê-la a um processo de recolonização
devem ser um estridente wake up call para o Brasil e outros
países, pois levanta a questão essencial da ausência de poder dissuasório.
Poder de dissuasão significa dispor de meios de indicar, de modo crível, que
qualquer ataque ao território nacional implicará perdas expressivas para o país
agressor.
A
construção desse poder de dissuasão mostra-se urgente. Já deveria ter começado
há muito tempo. Importante, entre outras iniciativas, estabelecer ou aprofundar
a cooperação militar com países como China, Rússia, Índia e França. E repensar
as escolas militares, revertendo o trabalho de colonização mental e
subordinação às doutrinas dos Estados Unidos. O Brasil e suas forças armadas
estão também intelectualmente desarmados.
Hoje, o
Brasil é o único dos grandes países do planeta que não dispõe de armamento
nuclear. E as nossas armas convencionais são insuficientes para defender o
território nacional e nossas costas marítimas. Além disso, são fornecidas, em
grande parte, pelos Estados Unidos – mais um ponto de vulnerabilidade militar.
A
situação atual requer ação. Urgente. Bem planejada. Destemida. Temos de nos
opor a um novo diálogo de Melos.
¨
Acordos militares entre Brasil e EUA podem impactar
independência das Forças Armadas brasileiras, diz mídia
Embora
os acordos sobre cooperação técnico-militar entre o Brasil e os EUA
oficialmente sejam confirmados como um instrumento de intercâmbio técnico e
operacional, eles também causam preocupações em tais questões como autonomia,
alinhamento político e os limites da soberania brasileira, alerta a revista
Sociedade Militar.
Tendo
em conta que por muitos anos, o orçamento de defesa dos EUA continua sendo
o maior do mundo, mantendo uma presença militar ativa em várias regiões
estratégicas do planeta, os acordos técnico-militares que o Brasil tem com
Washington causam o risco de alinhamento automático à política externa dos
EUA.
Os autores da
publicação ressaltam que
a perda de opinião política independente brasileira e a adesão aos interesses
estratégicos dos EUA em condições da conjuntura mundial difícil podem se
revelar especialmente em casos de crises regionais e disputas geopolíticas.
"Embora
os tratados assinados pelo Brasil não prevejam subordinação formal, o
compartilhamento de doutrina, tecnologia e padrões operacionais pode, na
prática, gerar dependência estrutural de sistemas, equipamentos e
cadeias logísticas estrangeiras", esclarece o material.
Entre
outras razões pelas quais vale a pena limitar a cooperação técnico-militar
excessiva, os autores destacam a dependência do fornecimento de armas
estrangeiras, o que, em caso de conflito ou tensão diplomática, limitaria
muito a autonomia da tomada de decisões e a liberdade de ação das Forças
Armadas brasileiras.
Os
precedentes da presença norte-americana em países da América Latina que
resultou na influência direta
sobre políticas de segurança e defesa nacionais também
contribuem para a necessidade de redução da dependência da cooperação
militar com os Estados Unidos.
Além
disso, as consequências desses acordos podem afetar tal área sensível da
segurança nacional como a defesa da Amazônia e das regiões
fronteiriças. Em particular, observa-se que aqui a prioridade é não só a
soberania territorial, mas também a proteção de recursos naturais.
"No
Atlântico Sul, área considerada estratégica pelas Forças Armadas
brasileiras, a manutenção de uma postura autônoma é vista como
fundamental para garantir liberdade de ação, especialmente diante do crescente
interesse internacional por rotas marítimas, recursos energéticos e segurança
naval", ressalta o texto.
Na
opinião dos autores do material, para evitar uma submissão de interesses e
perda da independência geopolítica, bem como para excluir a possibilidade de
limitação da margem de manobra estratégica brasileira, todos os acordos de
cooperação militar devem ser constantemente avaliados.
Em
agosto do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou
que o Brasil conseguiu diminuir sua dependência dos Estados Unidos e
construiu fortes laços econômicos com a maioria dos países do mundo.
Fonte: Por
José Maurício Bustani e Paulo Nogueira Batista Jr., em Outras Palavras/Sputnik
Brasil

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