“Fé
e família”: entenda a conexão entre o bolsonarismo e a extrema-direita russa
No
contexto russo, o “bolsonarismo” é frequentemente apresentado como uma vitrine
de tradicionalismo e soberania por grupos específicos ligados à agenda da
direita: enfatizam os seus valores conservadores, “patriotismo” e “ideais
familiares”, enquanto a orientação econômica e a dependência externa ficam
relegadas ao segundo plano. Esses grupos demonstram interesse pelo “estilo de
vida” de Bolsonaro, ignorando as contradições entre seus slogans de valores e
seu programa neoliberal. Antes de tudo, é preciso separar duas coisas que
aparecem muitas vezes misturadas no debate público. Uma é a retórica midiática,
saturada de referências a “valores tradicionais”, moral e família, amplificada
por plataformas e comentaristas conservadores e ultradireitistas. Outra, bem
diferente, são os mecanismos concretos de ação: a articulação política, o uso
de recursos financeiros, a atuação de redes de influência e a produção de
iniciativas legais voltadas a promover essas ideias na prática. Apesar de as
palavras chamarem atenção e renderem manchetes, são as decisões institucionais
e os fluxos de recursos que mostram o que, de fato, está sendo feito. Para
fazer essa crítica, é necessário anunciar o nosso ponto de partida. Este artigo
é escrito a partir das perspectivas do eurasianismo clássico de esquerda, no
qual a ideia de soberania civilizacional é inseparável da justiça social, do
anti-imperialismo e da prioridade dos interesses da maioria trabalhadora sobre
grupos elitistas e corporativos.
Partimos
da tese de que a versão contemporânea “duginiana” do neo-eurasianismo não
representa um desenvolvimento, mas uma substituição da tradição eurasiana: o
“eurasianismo” de Dugin toma emprestados elementos centrais de teorias
ultradireitistas e do populismo de direita ocidentais, mascarando-os com uma
retórica antiglobalista e “multipolar”. A partir dessa perspectiva, o
nacionalismo russo contemporâneo não se apresenta como um projeto político
autônomo, mas como uma versão local do populismo de direita global, inclusive
do trumpismo, adaptada ao contexto russo e apoiada por parte das elites
econômicas e ideológicas. É nessa lógica que as figuras de Donald Trump e Jair
Bolsonaro adquirem um significado especial para os círculos conservadores de
direita russos: são utilizadas como símbolos de “resistência de valores”,
enquanto sua política socioeconômica real e sua dependência do capital global
são completamente ignoradas. Analisamos o fenômeno do bolsonarismo como uma
substituição esvaziadora de valores: ele explora a linguagem da tradição, da fé
e da moral, transformando-as em instrumento de mobilização política e em
disfarce para um discurso socialmente neoliberal, elitista e, em última
instância, anti-soberano.
Nos
últimos anos, o discurso conservador da extrema-direita russa usurpou e reduziu
o termo “multipolaridade” a uma fórmula ideológica desprovida de conteúdo
social e anti-imperialista. A “multipolaridade” serve cada vez mais não como
instrumento de crítica ao capitalismo global e às hierarquias, mas como
cobertura retórica para projetos elitistas e de populismo de direita. Em função
disso, no âmbito deste artigo, o termo “multipolaridade”, ao analisar a
retórica da direita russa e das estruturas estrangeiras a ela vinculadas, será
conscientemente colocado entre aspas. Isso não é feito para negar o conceito em
si, mas para distinguir sentidos fundamentalmente distintos: de um lado, a
multipolaridade autêntica como projeto de esquerda anti-hegemônico, e de outro,
a sua versão ideologizada e reduzida, utilizada no discurso midiático de
direita. Nosso objetivo é descrever os nós de contato e as pontes ideológicas
entre o campo da extrema-direita brasileira e correntes a ele próximas —
incluindo a apropriação da imagem de Bolsonaro — e as estruturas
ultradireitistas e conservadoras de direita russas. No centro da análise estão
a recepção russa da imagem de Bolsonaro como “tradicionalista”, a linha
duginiana e o papel da organização Nova Resistência como plataforma-chave para
contatos transnacionais, bem como o vínculo “Tsargrad – Malofeev – movimento
russófilo” como infraestrutura de coordenação internacional.
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O bolsonarismo na visão da direita russa: a suposta “tradição” no lugar da
economia
É
necessário esclarecer separadamente a diferença na compreensão do próprio termo
“nacionalismo” nos contextos russo e brasileiro. Na Rússia, essa palavra é
historicamente marcada por um trauma profundo ligado à experiência da Grande
Guerra Patriótica, quando a Alemanha nazista e seus aliados, agindo sob slogans
de superioridade nacional e racial, exterminaram cerca de 27 milhões de
cidadãos soviéticos, incluindo eslavos e outros grupos étnicos. Como resultado,
na cultura política russa, o termo “nacionalismo” foi, durante décadas,
percebido como algo suspeito e perigoso, enquanto a noção mais aceitável e
neutra de identidade coletiva passou a ser expressa pelo termo “patriotismo”.
No Brasil, a situação é diferente. O nacionalismo ali não está historicamente
associado à experiência de extermínio em massa e, por isso, pode ser entendido
como uma forma de autoidentificação cultural ou política que não carrega
automaticamente um sentido agressivo ou excludente.
Respeitando
esse contexto, não se questiona o direito da sociedade brasileira de utilizar
sua própria linguagem conceitual. No entanto, é justamente essa diferença de
memória histórica e de semântica que torna particularmente problemático o
transplante transnacional de ideologemas de direita: as mesmas palavras e
símbolos passam a significar coisas distintas, mas são usados como se seu
conteúdo fosse universal.
No
discurso dos círculos da direita russa, Bolsonaro é mencionado principalmente
no contexto dos “valores espirituais”. No encontro no Kremlin em 16 de
fevereiro de 2022, Bolsonaro encerrou seu discurso com as palavras: “O mundo é
a nossa casa, e Deus está acima de todos nós”, e em seguida destacou:
“Compartilhamos valores comuns, como a crença em Deus e a defesa da família.
Também somos solidários a todos aqueles países que querem e se empenham pela
paz”. A fórmula “fé e família” funciona como marcador retórico mobilizado por
círculos ultradireitistas russos ao interpretar, de maneira seletiva, a
política brasileira. Esse marcador retórico é extremamente conveniente para a
mobilização conservadora de direita na Rússia: diante dos problemas
demográficos e espirituais, a problematização da economia parece secundária, e
o “aliado mais próximo” é definido através do prisma dos valores tradicionais.
Ao mesmo tempo, é importante enfatizar que, no nível da posição oficial da
liderança russa, não existe uma identificação ideológica pessoal com o
bolsonarismo. O presidente da Rússia evitou publicamente expressar simpatias
pessoais por Bolsonaro como figura política e destacou de forma consistente o
caráter pragmático das relações com o Brasil. Em suas declarações, ele falou
sobre a necessidade de manter vínculos bons e respeitosos tanto com Bolsonaro
quanto com Lula, partindo do princípio da não ingerência nos assuntos internos
e da escolha soberana do povo brasileiro. Assim, as simpatias pelo bolsonarismo
se formam principalmente no ambiente midiático conservador de direita e no
campo pericial e ideológico, e não são impostas diretamente pela mais alta
liderança política do país.
A mídia
conservadora russa rapidamente explorou a imagem de Bolsonaro como um fenômeno
da “onda de direita antiglobalista”. Assim, o portal russo de notícias online
Tsargrad, de viés conservador, já em 2018 publicou o artigo “Putin precisa de
um ‘Trump tropical’?”, no qual o novo presidente do Brasil foi chamado de
“Trump tropical” e se discutia se ele se tornaria um “amigo de Moscou”.
Conforme descrito aqui, o próprio site Tsargrad se posiciona como o
“departamento ideológico” do grupo de mídia Tsargrad, ligado ao empresário
Konstantin Malofeev: A Rússia é uma
grande potência ortodoxa com uma história milenar. A Igreja Russa é a base do
nosso Estado… Moscou é a Terceira Roma. A família é a união entre um homem e
uma mulher… A preservação do povo é a principal tarefa do Estado.Tsargrad –
Ideologia Nesse pano de fundo ideológico, Bolsonaro se encaixa como um herói da
resistência antiliberal ao Ocidente, o que permite ao Tsargrad apresentar uma
pretensão de soberania econômica sob uma ótica antiliberal, embora, na prática,
essas pretensões apenas reproduzam a retórica da elite russa, e não o programa
econômico de Bolsonaro. Neste sentido, o Tsargrad criou uma moldura midiática
em que Bolsonaro aparece como um representante marcante de uma tendência
“tradicionalista” e “soberana”. Ao mesmo tempo, o foco nos “valores
tradicionais” desvia convenientemente a atenção da agenda socioeconômica de
Bolsonaro, que permanece como um “ponto cego”.
Nas
análises pró-direita russas, raramente se levanta a questão de que, por trás
dos atraentes slogans de familiaridade e patriotismo, há um curso radicalmente
neoliberal: privatização em massa, desregulamentação e ampla dependência
externa. Apenas comentaristas liberais ocasionalmente apontaram a combinação
“valores tradicionalistas mais economia liberal”, mas na ótica conservadora de
direita isso praticamente não se torna objeto de crítica. O baixo nível de
sofisticação política da audiência, em termos gerais, também contribui para a
formação dessa moldura midiática. Para uma parte significativa do cidadão comum
russo, o Brasil continua sendo um país distante e pouco imaginável, localizado
a milhares de quilômetros da Rússia, com uma estrutura social, uma história e
uma dinâmica política diferentes.
Nessas
condições, a mídia ultradireitista e conservadora de direita obtém a
possibilidade de construir uma imagem simplificada e idealizada de um líder
estrangeiro, sem enfrentar uma verificação crítica por parte do público. A
política socioeconômica real de Bolsonaro, as especificidades do capitalismo
brasileiro e o grau de dependência externa do país ficam fora do campo de
visão, o que facilita a transformação do bolsonarismo em um símbolo abstrato de
“tradição” e “antiglobalismo”, desligado do contexto concreto.
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Dugin e a Nova Resistência: ideias, traduções, plataformas
A Nova
Resistência é um dos principais parceiros brasileiros da União da Juventude
Eurasiana (UJE) de Dugin e da rede eurasianista mais ampla. As relações de
aliança entre essa organização e as estruturas associadas a Aleksandr Dugin
estão bem documentadas e têm caráter estável. Em particular, foi justamente por
meio de projetos editoriais e intelectuais ligados à Editora Austral que se
institucionalizou no Brasil a recepção do corpus de ideias duginianas, desde a
“Quarta Teoria Política” até a concepção do neo-eurasianismo, acompanhada de
contatos públicos regulares e da participação pessoal de Dugin em eventos
voltados ao público brasileiro. Outro nó importante de contatos foram as
conferências internacionais regulares. Por exemplo, a Nova Resistência, em
conjunto com Dugin, o Movimento Eurasiano Internacional e o Thinkers’ Forum
chinês, organizou a “Conferência Global sobre Multipolaridade” em 29 de abril
de 2023. No site da Nova Resistência consta que o evento foi “executado em
conjunto pela organização política brasileira Nova Resistência, pelo filósofo
russo Aleksandr Dugin, pelo Movimento Internacional de Russófilos e o centro de
estudos chinês Thinkers’ Forum”.
Na
programação, como principais palestrantes, figuram Nikolay Malinov (presidente
do Movimento Rusófilo Internacional e presidente do Movimento Rusófilo Nacional
na Bulgária), Aleksandr Dugin (presidente do Movimento Eurasiano Internacional,
diretor do Instituto Tsargrad) e Raphael Machado (diretor da Nova Resistência,
idealizador da conferência). A conferência ocorreu de forma online, com mais de
uma centena de participantes de mais de 60 países. Por fim, o próprio Dugin se
dirige pessoalmente ao público brasileiro por meio desse tipo de evento. Assim,
o portal Paideuma.tv publicou uma mensagem em vídeo de Dugin para a Conferência
Ibero-Americana e Caribenha sobre Multipolaridade, realizada em 8 de julho de
2023 e co-organizada pela Nova Resistência e por movimentos parceiros da
Plataforma Ibero-Americana do Centro Multipolar Internacional. Na saudação,
Dugin analisa detalhadamente o “logos ibero-americano” e a “identidade” da
região. No contexto russo, o principal elo entre a Nova Resistência e o meio eurasiano
é a UEJ, uma estrutura com uma história complexa e turbulenta. O autor deste
artigo teve a sorte de conhecer pessoalmente e manter relações amistosas com um
dos líderes-chave do período inicial da UEJ, Pavel Zarifullin, que chefiou a
organização até 2009.
Foi
justamente Zarifullin um dos poucos que tentou combinar o eurasianismo com
orientações de esquerda e sociais, e acabou deixando a UEJ por não aceitar o
fortalecimento da guinada à direita e a retórica tradicionalista cada vez mais
rígida. Hoje, Pavel Zarifullin continua sendo um eurasianista de esquerda
coerente e honesto, o que por si só evidencia a diversidade interna de uma
tradição que Dugin, na prática, usurpou. A UEJ passou por uma transformação
curiosa: de uma organização juvenil combativa do início dos anos 2000, que
realizava ações de rua, performances políticas e intervenções provocativas,
para um clube elitista de jovens tradicionalistas de direita, especialmente a
partir do início dos anos 2010. A atividade foi substituída por um fechamento
intelectualizado e por certo esnobismo: a UEJ tornou-se mais um espaço de
hierarquia simbólica e de demonstração de lealdade a determinados códigos da
direita do que uma força política viva. Foi nessa forma tardia, como um círculo
de “jovens de elite” com simbologia eurasiana, mas sem capacidade própria de
mobilização, que a UEJ passou a manter vínculos estáveis com a Nova
Resistência. A convergência aparece na retórica, no estilo visual e no papel de
curadores e intermediários que operam num mesmo ecossistema. Isso já diz menos
respeito a um movimento juvenil autônomo e mais a uma espécie de “arquitetura”
ideológica transnacional: um conjunto de sinais, referências e canais que
sincroniza discursos entre países.
Do
ponto de vista da velha esquerda russa, o projeto Nova Resistência muitas vezes
parece caricatural. Trata-se de uma imagem excessivamente idealizada, até
vulgarmente romantizada da Rússia, que na realidade, com todo o respeito,
simplesmente não existe. A imagem da Rússia ali é idealizada a partir de vídeos
no YouTube, Instagram e afins, mas sem a essência principal. Isso não é
russofilia, mas antes um desserviço à Rússia, pois o estrangeiro cria
expectativas infladas e nem sempre consegue lidar com a realidade. Ainda assim,
para os duginianos e para os nacionalistas de inclinação monárquica, essa
construção é conveniente: ela acrescenta uma aparência de “globalidade”, cria a
ilusão de apoio internacional e permite retransmitir suas ideias de volta à Rússia
com o selo de “aprovação estrangeira”. Nesse sentido, a Nova Resistência é um
espelho invertido dos nossos liberais eurocêntricos: ambos se pensam a partir
de um “fora” idealizado. Uns importam a Europa como medida de distinção; outros
importam a Rússia como reserva de sentido, autoridade e grandeza. Aqui, a
Terceira Roma ocupa o lugar que, para os eurocêntricos, costuma ser do café
vienense. Já no discurso ideológico, frequentemente veiculado em outras
plataformas russas associadas ao círculo duginiano, Bolsonaro aparece como um
dos elementos de uma onda global de populismo de direita que, até 2022, em
grande medida simpatizava com Putin. Nesses materiais, utiliza-se o conceito de
multipolaridade como a luta dos “grandes espaços” (Estados-civilização) contra
a hegemonia ocidental.
Bolsonaro
é mencionado nesse panorama como representante da “civilização cristã” ou de
uma virada conservadora de direita, ao lado de Trump, Orbán e outros. Convém
observar que o texto não discute o que o bolsonarismo significa para os
brasileiros, nem o que ele representa para a própria Nova Resistência ou para
Dugin, que em 2018 recusou apoiá-lo nas eleições. O foco recai sobre o modo
como sua figura é apropriada no meio ultradireitista russo, frequentemente
deslocada do seu contexto político. Ideologicamente, a linha duginiana e seus
círculos de difusão concentram a atenção em “valores”, “ambições imperiais” e
na “luta contra o globalismo”, nas quais Bolsonaro aparece como apenas um dos
muitos fragmentos de uma narrativa geral. Na prática, observamos a incorporação
de sua imagem em um modelo de populismo de direita russo, cujo centro de
gravidade gira em torno da figura de Trump. É justamente diante dessa lógica
antiliberal, mas ao mesmo tempo capitalista e elitista, que os ultradireitistas
e nacionalistas russos se mostram solícitos, difundindo-a por meio das
ideologemas da “multipolaridade” e dos “Estados-civilização”. E fazem isso com
o apoio tácito de uma parte das elites, para as quais apostar no eixo trumpista
continua sendo uma forma conveniente de se inserir em uma possível nova ordem
mundial. Daí essa tentativa quase servil de correr para o último vagão do trem
de Trump que parte, na esperança de serem reconhecidos como “um dos seus” no
círculo de um globalismo alternativo, mas ainda assim ocidental. Tudo isso fala
inevitavelmente também de um profundo desrespeito para com os próprios
concidadãos. Em vez de formar uma subjetividade política madura e crítica
dentro do país, as pessoas são alimentadas com mitos montados a partir dos
moldes de cultos de personalidade alheios e de guerras ideológicas alheias.
Bolsonaro,
Trump, Orbán transformam-se em ícones para consumo interno, desprovidos de
contexto e de conteúdo. Isso não é apenas empréstimo de imagens, é uma
substituição consciente da realidade por símbolos que são fáceis de vender e
fáceis de controlar. E quanto mais esse jogo avança, maior se torna o abismo
entre a Rússia real e aquela Rússia fantasmática criada pelos teóricos da
direita, não para o futuro, mas para a imagem televisiva.
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Tsargrad, Malofeev, “movimentos”: a infraestrutura da coordenação internacional
O
Tsargrad é a maior organização midiática conservadora de direita da Rússia. Em
sua estrutura existe, de forma institucionalizada, o próprio “Instituto
Tsargrad”, dirigido por Aleksandr Dugin. Isso significa que a linha duginiana
não aparece ali de maneira episódica, mas está oficialmente integrada ao bloco
midiático Malofeev–Tsargrad. Dugin não atua como comentarista convidado, mas
ocupa o cargo de diretor do instituto, o que ressalta o caráter sistêmico dessa
aliança. Como resultado, o conservadorismo monárquico-eclesiástico de Malofeev
e a filosofia eurasiana de Dugin se fundem em um único projeto ideológico,
voltado à produção e à difusão de uma visão de mundo coerente e coordenada. Um
exemplo concreto do cruzamento entre as redes brasileira e russa são as
próprias conferências internacionais. Na programação da Multipolarity
Conference, Konstantin Malofeev é indicado explicitamente entre os
participantes, como fundador da Tsargrad TV e presidente do Tsargrad. Os
organizadores do evento (já mencionados neste texto anteriormente) mantêm com
ele uma conexão institucional e ideológica direta. Isso permite afirmar que a
participação da Nova Resistência não é um episódio marginal ou secundário, mas
está inserida na construção geral: um dos principais organizadores dos
congressos “rusófilos” de 2023–2024 é o próprio Malofeev. Trata-se de uma
“coautoria” direta na coordenação, e não de contatos indiretos ou de interação
por meio de terceiros. A figura de Konstantin Malofeev nesse contexto não é
acidental. Ele pertence ao grupo dos oligarcas russos mais visíveis do final
dos anos 2000, e não à época dos “anos 1990 turbulentos”, como muitas vezes se
simplifica. Durante um longo período, Malofeev (ou estruturas ligadas ao seu
fundo) deteve participação acionária na Rostelecom (provedora de serviços e
produtos digitais na Rússia), e mais tarde tornou-se fundador do projeto
midiático Tsargrad — canal criado com a participação direta do estrategista
político americano Jack Hanick, ex-diretor da Fox News, o que demonstra claramente
que o veículo, desde o início, não foi concebido como um projeto local ou
“autêntico” russo, mas como uma máquina informativa de alta tecnologia,
construída segundo os modelos mais avançados da mídia de direita ocidental.
Paralelamente
ao componente midiático, formou-se também uma superestrutura intelectual, o
Instituto Tsargrad, organizado segundo o modelo clássico de um think tank
elitista. Tendo como diretor Aleksandr Dugin, o instituto passou a ter sua
própria revista analítica, Katehon, além de uma presença estável em plataformas
ideológicas internacionais. Por meio dessas estruturas, promove-se uma versão
específica do “mundo tradicional” e da multipolaridade, que combina retórica de
soberania com formatos políticos e midiáticos ocidentais emprestados. Por fim,
a influência do tema brasileiro também se infiltra em um nível mais simples, o
das mídias “de base”. A partir da década de 2010, na Rússia, primeiro na rede
social nacional VKontakte (popularmente conhecida no Brasil como VK) e depois
no Telegram, formou-se gradualmente uma rede estável de canais midiáticos de
direita.
É
fundamental notar que essas plataformas, desde o início, se posicionaram como
conservadoras-monárquicas e “baseadas em valores”, distanciando-se
deliberadamente da simbologia e da retórica neonazista explícita. Até o início
da operação militar especial, ocupavam um nicho relativamente estreito, mais
elitista, voltado a uma audiência ideologicamente motivada, porém numericamente
limitada.
A
partir de 2022, esse ambiente midiático ganhou um segundo fôlego. Canais antes
dispersos passaram a se organizar em uma rede mais aberta e interconectada,
trocando ativamente pautas, argumentos e referências simbólicas. Canais
conservadores no Telegram, de orientação “monárquica”, utilizam regularmente
argumentos da política brasileira para disputas internas. Por exemplo, o canal
“Filhos da Monarquia” (criado por Roman Antonovsky, escritor e blogueiro russo
controverso) repetidas vezes contrapôs Bolsonaro e Lula, marcando “os seus” e
“os outros” de forma esquemática: o “Bolsonaro de direita” como “nosso aliado”
e o “Lula de esquerda” como “estranho”, estigmatizando todos os apoiadores da
esquerda como “liberais ou globalistas”. Trata-se simplesmente de radicais
locais que usam casos brasileiros como rótulos ideológicos. De maneira
semelhante, em segmentos desse ecossistema midiático, reaparecem periodicamente
materiais de fontes brasileiras abertamente pró-bolsonaristas. Ou seja, o
“bolsonarismo” funciona nos círculos de direita russos não apenas por meio de
acordos institucionais ou de coordenação direta, mas também a partir de memes,
retransmissões seletivas e uma “codificação” de valores. A política brasileira
aparece como um recurso simbólico conveniente, utilizado para confirmar uma
moldura ideológica previamente estabelecida, não como objeto de análise.
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Conclusão
Dessa
forma, as conexões entre a extrema-direita russa e o meio de direita brasileiro
se constroem em três níveis. O primeiro nível é simbólico. A imagem de
Bolsonaro como tradicionalista se consolida no espaço midiático desses grupos
por meio do destaque dado à religião, à família e à moral conservadora. Essa
imagem é amplamente reproduzida e apresentada como um marcador universal de
“antiliberalismo”, desligado de um contexto político concreto. O segundo nível
é ideológico. Aqui, o papel central é desempenhado pela linha duginiana e por
seus circuitos de tradução e difusão, mais visíveis nas atividades da Nova
Resistência. A organização traduz textos de Dugin, promove a retórica do ‘mundo
multipolar’ e realiza fóruns com participação dele, o que a posiciona como um
canal de circulação dessas ideias no Brasil. O terceiro nível é
infraestrutural. Ele se forma em torno do Tsargrad e de Konstantin Malofeev.
Projetos midiáticos, o Instituto Tsargrad e os chamados congressos rusófilos de
direita criam canais estáveis por meio dos quais conteúdos produzidos por esses
grupos se conectam a parceiros estrangeiros.
No
ecossistema midiático conservador de direita russo, constrói-se conscientemente
uma imagem enganosa de Jair Bolsonaro. Fala-se de fé, família e tradição, mas
evita-se cuidadosamente mencionar que sua política econômica é, na prática, uma
cópia das reformas neoliberais dos anos 1990, exatamente aquelas que destruíram
a economia russa, empobreceram milhões de pessoas e deixaram um trauma social
profundo. Ao omitir esse fato, parte desses meios de comunicação acaba por
transmitir uma imagem distorcida do Brasil e por deixar em segundo plano a
própria experiência histórica da Rússia. Nesse mesmo espírito, a Nova
Resistência aparece mais como um projeto encenado do que como um movimento
político real. Seus membros acreditam e defendem uma imagem da Rússia construída
por vídeos, símbolos e slogans, uma Rússia abstrata que para o russo médio soa
estranha, distante e pouco reconhecível. Não se trata de interesse pelo país
real, com seus problemas concretos e contradições internas, mas de uma adesão
quase teatral a um mito confortável. Essa idealização não aproxima sociedades
nem cria diálogo real; ela apenas reproduz ilusões, reforça fantasias
ideológicas e presta um desserviço tanto à Rússia quanto ao Brasil. No fim das
contas, estamos diante de um sistema relativamente estável de pontes formadas
por ideias, plataformas e personagens bem concretos. O problema central é
outro: apelos à “tradição” e à “soberania”, quando esvaziados de qualquer
conteúdo social real, transformam-se facilmente em uma marca elitista conveniente,
usada para justificar interesses políticos estreitos e cálculos oportunistas.
Nesse sentido, a utilização da figura de Bolsonaro por grupos da
extrema-direita russa não fortalece a soberania russa, além de ser, em sua
essência, incompatível com os interesses soberanos reais do Estado russo. Sua
orientação econômica neoliberal, sua dependência externa e, sobretudo, sua
disposição para se alinhar à retórica pró-ocidental e abertamente russofóbica
ficam evidentes no contexto da questão ucraniana. Bolsonaro e seu entorno
demonstraram prontidão para se solidarizar com narrativas hostis à Rússia, o
que desmonta por completo a imagem de “aliado natural” construída pela mídia
conservadora russa. A comparação com a posição de Lula é reveladora. Foi Lula
quem se recusou a fornecer armas à Ucrânia e participou das celebrações do 80º
aniversário da vitória do Povo Soviético na Grande Guerra Patriótica. Esse
contraste deixa claro o quanto a idealização de Bolsonaro, promovida por
setores da direita russa, não se baseia em fatos ou interesses estratégicos
reais, mas em símbolos convenientes, slogans vazios e uma leitura profundamente
distorcida da política brasileira.
Fonte:
Diálogos do Sul Global

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