sábado, 31 de janeiro de 2026

“Fé e família”: entenda a conexão entre o bolsonarismo e a extrema-direita russa

No contexto russo, o “bolsonarismo” é frequentemente apresentado como uma vitrine de tradicionalismo e soberania por grupos específicos ligados à agenda da direita: enfatizam os seus valores conservadores, “patriotismo” e “ideais familiares”, enquanto a orientação econômica e a dependência externa ficam relegadas ao segundo plano. Esses grupos demonstram interesse pelo “estilo de vida” de Bolsonaro, ignorando as contradições entre seus slogans de valores e seu programa neoliberal. Antes de tudo, é preciso separar duas coisas que aparecem muitas vezes misturadas no debate público. Uma é a retórica midiática, saturada de referências a “valores tradicionais”, moral e família, amplificada por plataformas e comentaristas conservadores e ultradireitistas. Outra, bem diferente, são os mecanismos concretos de ação: a articulação política, o uso de recursos financeiros, a atuação de redes de influência e a produção de iniciativas legais voltadas a promover essas ideias na prática. Apesar de as palavras chamarem atenção e renderem manchetes, são as decisões institucionais e os fluxos de recursos que mostram o que, de fato, está sendo feito. Para fazer essa crítica, é necessário anunciar o nosso ponto de partida. Este artigo é escrito a partir das perspectivas do eurasianismo clássico de esquerda, no qual a ideia de soberania civilizacional é inseparável da justiça social, do anti-imperialismo e da prioridade dos interesses da maioria trabalhadora sobre grupos elitistas e corporativos.

Partimos da tese de que a versão contemporânea “duginiana” do neo-eurasianismo não representa um desenvolvimento, mas uma substituição da tradição eurasiana: o “eurasianismo” de Dugin toma emprestados elementos centrais de teorias ultradireitistas e do populismo de direita ocidentais, mascarando-os com uma retórica antiglobalista e “multipolar”. A partir dessa perspectiva, o nacionalismo russo contemporâneo não se apresenta como um projeto político autônomo, mas como uma versão local do populismo de direita global, inclusive do trumpismo, adaptada ao contexto russo e apoiada por parte das elites econômicas e ideológicas. É nessa lógica que as figuras de Donald Trump e Jair Bolsonaro adquirem um significado especial para os círculos conservadores de direita russos: são utilizadas como símbolos de “resistência de valores”, enquanto sua política socioeconômica real e sua dependência do capital global são completamente ignoradas. Analisamos o fenômeno do bolsonarismo como uma substituição esvaziadora de valores: ele explora a linguagem da tradição, da fé e da moral, transformando-as em instrumento de mobilização política e em disfarce para um discurso socialmente neoliberal, elitista e, em última instância, anti-soberano.

Nos últimos anos, o discurso conservador da extrema-direita russa usurpou e reduziu o termo “multipolaridade” a uma fórmula ideológica desprovida de conteúdo social e anti-imperialista. A “multipolaridade” serve cada vez mais não como instrumento de crítica ao capitalismo global e às hierarquias, mas como cobertura retórica para projetos elitistas e de populismo de direita. Em função disso, no âmbito deste artigo, o termo “multipolaridade”, ao analisar a retórica da direita russa e das estruturas estrangeiras a ela vinculadas, será conscientemente colocado entre aspas. Isso não é feito para negar o conceito em si, mas para distinguir sentidos fundamentalmente distintos: de um lado, a multipolaridade autêntica como projeto de esquerda anti-hegemônico, e de outro, a sua versão ideologizada e reduzida, utilizada no discurso midiático de direita. Nosso objetivo é descrever os nós de contato e as pontes ideológicas entre o campo da extrema-direita brasileira e correntes a ele próximas — incluindo a apropriação da imagem de Bolsonaro — e as estruturas ultradireitistas e conservadoras de direita russas. No centro da análise estão a recepção russa da imagem de Bolsonaro como “tradicionalista”, a linha duginiana e o papel da organização Nova Resistência como plataforma-chave para contatos transnacionais, bem como o vínculo “Tsargrad – Malofeev – movimento russófilo” como infraestrutura de coordenação internacional.

<><> O bolsonarismo na visão da direita russa: a suposta “tradição” no lugar da economia

É necessário esclarecer separadamente a diferença na compreensão do próprio termo “nacionalismo” nos contextos russo e brasileiro. Na Rússia, essa palavra é historicamente marcada por um trauma profundo ligado à experiência da Grande Guerra Patriótica, quando a Alemanha nazista e seus aliados, agindo sob slogans de superioridade nacional e racial, exterminaram cerca de 27 milhões de cidadãos soviéticos, incluindo eslavos e outros grupos étnicos. Como resultado, na cultura política russa, o termo “nacionalismo” foi, durante décadas, percebido como algo suspeito e perigoso, enquanto a noção mais aceitável e neutra de identidade coletiva passou a ser expressa pelo termo “patriotismo”. No Brasil, a situação é diferente. O nacionalismo ali não está historicamente associado à experiência de extermínio em massa e, por isso, pode ser entendido como uma forma de autoidentificação cultural ou política que não carrega automaticamente um sentido agressivo ou excludente.

Respeitando esse contexto, não se questiona o direito da sociedade brasileira de utilizar sua própria linguagem conceitual. No entanto, é justamente essa diferença de memória histórica e de semântica que torna particularmente problemático o transplante transnacional de ideologemas de direita: as mesmas palavras e símbolos passam a significar coisas distintas, mas são usados como se seu conteúdo fosse universal.

No discurso dos círculos da direita russa, Bolsonaro é mencionado principalmente no contexto dos “valores espirituais”. No encontro no Kremlin em 16 de fevereiro de 2022, Bolsonaro encerrou seu discurso com as palavras: “O mundo é a nossa casa, e Deus está acima de todos nós”, e em seguida destacou: “Compartilhamos valores comuns, como a crença em Deus e a defesa da família. Também somos solidários a todos aqueles países que querem e se empenham pela paz”. A fórmula “fé e família” funciona como marcador retórico mobilizado por círculos ultradireitistas russos ao interpretar, de maneira seletiva, a política brasileira. Esse marcador retórico é extremamente conveniente para a mobilização conservadora de direita na Rússia: diante dos problemas demográficos e espirituais, a problematização da economia parece secundária, e o “aliado mais próximo” é definido através do prisma dos valores tradicionais. Ao mesmo tempo, é importante enfatizar que, no nível da posição oficial da liderança russa, não existe uma identificação ideológica pessoal com o bolsonarismo. O presidente da Rússia evitou publicamente expressar simpatias pessoais por Bolsonaro como figura política e destacou de forma consistente o caráter pragmático das relações com o Brasil. Em suas declarações, ele falou sobre a necessidade de manter vínculos bons e respeitosos tanto com Bolsonaro quanto com Lula, partindo do princípio da não ingerência nos assuntos internos e da escolha soberana do povo brasileiro. Assim, as simpatias pelo bolsonarismo se formam principalmente no ambiente midiático conservador de direita e no campo pericial e ideológico, e não são impostas diretamente pela mais alta liderança política do país.

A mídia conservadora russa rapidamente explorou a imagem de Bolsonaro como um fenômeno da “onda de direita antiglobalista”. Assim, o portal russo de notícias online Tsargrad, de viés conservador, já em 2018 publicou o artigo “Putin precisa de um ‘Trump tropical’?”, no qual o novo presidente do Brasil foi chamado de “Trump tropical” e se discutia se ele se tornaria um “amigo de Moscou”. Conforme descrito aqui, o próprio site Tsargrad se posiciona como o “departamento ideológico” do grupo de mídia Tsargrad, ligado ao empresário Konstantin Malofeev:  A Rússia é uma grande potência ortodoxa com uma história milenar. A Igreja Russa é a base do nosso Estado… Moscou é a Terceira Roma. A família é a união entre um homem e uma mulher… A preservação do povo é a principal tarefa do Estado.Tsargrad – Ideologia Nesse pano de fundo ideológico, Bolsonaro se encaixa como um herói da resistência antiliberal ao Ocidente, o que permite ao Tsargrad apresentar uma pretensão de soberania econômica sob uma ótica antiliberal, embora, na prática, essas pretensões apenas reproduzam a retórica da elite russa, e não o programa econômico de Bolsonaro. Neste sentido, o Tsargrad criou uma moldura midiática em que Bolsonaro aparece como um representante marcante de uma tendência “tradicionalista” e “soberana”. Ao mesmo tempo, o foco nos “valores tradicionais” desvia convenientemente a atenção da agenda socioeconômica de Bolsonaro, que permanece como um “ponto cego”.

Nas análises pró-direita russas, raramente se levanta a questão de que, por trás dos atraentes slogans de familiaridade e patriotismo, há um curso radicalmente neoliberal: privatização em massa, desregulamentação e ampla dependência externa. Apenas comentaristas liberais ocasionalmente apontaram a combinação “valores tradicionalistas mais economia liberal”, mas na ótica conservadora de direita isso praticamente não se torna objeto de crítica. O baixo nível de sofisticação política da audiência, em termos gerais, também contribui para a formação dessa moldura midiática. Para uma parte significativa do cidadão comum russo, o Brasil continua sendo um país distante e pouco imaginável, localizado a milhares de quilômetros da Rússia, com uma estrutura social, uma história e uma dinâmica política diferentes.

Nessas condições, a mídia ultradireitista e conservadora de direita obtém a possibilidade de construir uma imagem simplificada e idealizada de um líder estrangeiro, sem enfrentar uma verificação crítica por parte do público. A política socioeconômica real de Bolsonaro, as especificidades do capitalismo brasileiro e o grau de dependência externa do país ficam fora do campo de visão, o que facilita a transformação do bolsonarismo em um símbolo abstrato de “tradição” e “antiglobalismo”, desligado do contexto concreto.

<><> Dugin e a Nova Resistência: ideias, traduções, plataformas

A Nova Resistência é um dos principais parceiros brasileiros da União da Juventude Eurasiana (UJE) de Dugin e da rede eurasianista mais ampla. As relações de aliança entre essa organização e as estruturas associadas a Aleksandr Dugin estão bem documentadas e têm caráter estável. Em particular, foi justamente por meio de projetos editoriais e intelectuais ligados à Editora Austral que se institucionalizou no Brasil a recepção do corpus de ideias duginianas, desde a “Quarta Teoria Política” até a concepção do neo-eurasianismo, acompanhada de contatos públicos regulares e da participação pessoal de Dugin em eventos voltados ao público brasileiro. Outro nó importante de contatos foram as conferências internacionais regulares. Por exemplo, a Nova Resistência, em conjunto com Dugin, o Movimento Eurasiano Internacional e o Thinkers’ Forum chinês, organizou a “Conferência Global sobre Multipolaridade” em 29 de abril de 2023. No site da Nova Resistência consta que o evento foi “executado em conjunto pela organização política brasileira Nova Resistência, pelo filósofo russo Aleksandr Dugin, pelo Movimento Internacional de Russófilos e o centro de estudos chinês Thinkers’ Forum”.

Na programação, como principais palestrantes, figuram Nikolay Malinov (presidente do Movimento Rusófilo Internacional e presidente do Movimento Rusófilo Nacional na Bulgária), Aleksandr Dugin (presidente do Movimento Eurasiano Internacional, diretor do Instituto Tsargrad) e Raphael Machado (diretor da Nova Resistência, idealizador da conferência). A conferência ocorreu de forma online, com mais de uma centena de participantes de mais de 60 países. Por fim, o próprio Dugin se dirige pessoalmente ao público brasileiro por meio desse tipo de evento. Assim, o portal Paideuma.tv publicou uma mensagem em vídeo de Dugin para a Conferência Ibero-Americana e Caribenha sobre Multipolaridade, realizada em 8 de julho de 2023 e co-organizada pela Nova Resistência e por movimentos parceiros da Plataforma Ibero-Americana do Centro Multipolar Internacional. Na saudação, Dugin analisa detalhadamente o “logos ibero-americano” e a “identidade” da região. No contexto russo, o principal elo entre a Nova Resistência e o meio eurasiano é a UEJ, uma estrutura com uma história complexa e turbulenta. O autor deste artigo teve a sorte de conhecer pessoalmente e manter relações amistosas com um dos líderes-chave do período inicial da UEJ, Pavel Zarifullin, que chefiou a organização até 2009.

Foi justamente Zarifullin um dos poucos que tentou combinar o eurasianismo com orientações de esquerda e sociais, e acabou deixando a UEJ por não aceitar o fortalecimento da guinada à direita e a retórica tradicionalista cada vez mais rígida. Hoje, Pavel Zarifullin continua sendo um eurasianista de esquerda coerente e honesto, o que por si só evidencia a diversidade interna de uma tradição que Dugin, na prática, usurpou. A UEJ passou por uma transformação curiosa: de uma organização juvenil combativa do início dos anos 2000, que realizava ações de rua, performances políticas e intervenções provocativas, para um clube elitista de jovens tradicionalistas de direita, especialmente a partir do início dos anos 2010. A atividade foi substituída por um fechamento intelectualizado e por certo esnobismo: a UEJ tornou-se mais um espaço de hierarquia simbólica e de demonstração de lealdade a determinados códigos da direita do que uma força política viva. Foi nessa forma tardia, como um círculo de “jovens de elite” com simbologia eurasiana, mas sem capacidade própria de mobilização, que a UEJ passou a manter vínculos estáveis com a Nova Resistência. A convergência aparece na retórica, no estilo visual e no papel de curadores e intermediários que operam num mesmo ecossistema. Isso já diz menos respeito a um movimento juvenil autônomo e mais a uma espécie de “arquitetura” ideológica transnacional: um conjunto de sinais, referências e canais que sincroniza discursos entre países.

Do ponto de vista da velha esquerda russa, o projeto Nova Resistência muitas vezes parece caricatural. Trata-se de uma imagem excessivamente idealizada, até vulgarmente romantizada da Rússia, que na realidade, com todo o respeito, simplesmente não existe. A imagem da Rússia ali é idealizada a partir de vídeos no YouTube, Instagram e afins, mas sem a essência principal. Isso não é russofilia, mas antes um desserviço à Rússia, pois o estrangeiro cria expectativas infladas e nem sempre consegue lidar com a realidade. Ainda assim, para os duginianos e para os nacionalistas de inclinação monárquica, essa construção é conveniente: ela acrescenta uma aparência de “globalidade”, cria a ilusão de apoio internacional e permite retransmitir suas ideias de volta à Rússia com o selo de “aprovação estrangeira”. Nesse sentido, a Nova Resistência é um espelho invertido dos nossos liberais eurocêntricos: ambos se pensam a partir de um “fora” idealizado. Uns importam a Europa como medida de distinção; outros importam a Rússia como reserva de sentido, autoridade e grandeza. Aqui, a Terceira Roma ocupa o lugar que, para os eurocêntricos, costuma ser do café vienense. Já no discurso ideológico, frequentemente veiculado em outras plataformas russas associadas ao círculo duginiano, Bolsonaro aparece como um dos elementos de uma onda global de populismo de direita que, até 2022, em grande medida simpatizava com Putin. Nesses materiais, utiliza-se o conceito de multipolaridade como a luta dos “grandes espaços” (Estados-civilização) contra a hegemonia ocidental.

Bolsonaro é mencionado nesse panorama como representante da “civilização cristã” ou de uma virada conservadora de direita, ao lado de Trump, Orbán e outros. Convém observar que o texto não discute o que o bolsonarismo significa para os brasileiros, nem o que ele representa para a própria Nova Resistência ou para Dugin, que em 2018 recusou apoiá-lo nas eleições. O foco recai sobre o modo como sua figura é apropriada no meio ultradireitista russo, frequentemente deslocada do seu contexto político. Ideologicamente, a linha duginiana e seus círculos de difusão concentram a atenção em “valores”, “ambições imperiais” e na “luta contra o globalismo”, nas quais Bolsonaro aparece como apenas um dos muitos fragmentos de uma narrativa geral. Na prática, observamos a incorporação de sua imagem em um modelo de populismo de direita russo, cujo centro de gravidade gira em torno da figura de Trump. É justamente diante dessa lógica antiliberal, mas ao mesmo tempo capitalista e elitista, que os ultradireitistas e nacionalistas russos se mostram solícitos, difundindo-a por meio das ideologemas da “multipolaridade” e dos “Estados-civilização”. E fazem isso com o apoio tácito de uma parte das elites, para as quais apostar no eixo trumpista continua sendo uma forma conveniente de se inserir em uma possível nova ordem mundial. Daí essa tentativa quase servil de correr para o último vagão do trem de Trump que parte, na esperança de serem reconhecidos como “um dos seus” no círculo de um globalismo alternativo, mas ainda assim ocidental. Tudo isso fala inevitavelmente também de um profundo desrespeito para com os próprios concidadãos. Em vez de formar uma subjetividade política madura e crítica dentro do país, as pessoas são alimentadas com mitos montados a partir dos moldes de cultos de personalidade alheios e de guerras ideológicas alheias.

Bolsonaro, Trump, Orbán transformam-se em ícones para consumo interno, desprovidos de contexto e de conteúdo. Isso não é apenas empréstimo de imagens, é uma substituição consciente da realidade por símbolos que são fáceis de vender e fáceis de controlar. E quanto mais esse jogo avança, maior se torna o abismo entre a Rússia real e aquela Rússia fantasmática criada pelos teóricos da direita, não para o futuro, mas para a imagem televisiva.

<><> Tsargrad, Malofeev, “movimentos”: a infraestrutura da coordenação internacional

O Tsargrad é a maior organização midiática conservadora de direita da Rússia. Em sua estrutura existe, de forma institucionalizada, o próprio “Instituto Tsargrad”, dirigido por Aleksandr Dugin. Isso significa que a linha duginiana não aparece ali de maneira episódica, mas está oficialmente integrada ao bloco midiático Malofeev–Tsargrad. Dugin não atua como comentarista convidado, mas ocupa o cargo de diretor do instituto, o que ressalta o caráter sistêmico dessa aliança. Como resultado, o conservadorismo monárquico-eclesiástico de Malofeev e a filosofia eurasiana de Dugin se fundem em um único projeto ideológico, voltado à produção e à difusão de uma visão de mundo coerente e coordenada. Um exemplo concreto do cruzamento entre as redes brasileira e russa são as próprias conferências internacionais. Na programação da Multipolarity Conference, Konstantin Malofeev é indicado explicitamente entre os participantes, como fundador da Tsargrad TV e presidente do Tsargrad. Os organizadores do evento (já mencionados neste texto anteriormente) mantêm com ele uma conexão institucional e ideológica direta. Isso permite afirmar que a participação da Nova Resistência não é um episódio marginal ou secundário, mas está inserida na construção geral: um dos principais organizadores dos congressos “rusófilos” de 2023–2024 é o próprio Malofeev. Trata-se de uma “coautoria” direta na coordenação, e não de contatos indiretos ou de interação por meio de terceiros. A figura de Konstantin Malofeev nesse contexto não é acidental. Ele pertence ao grupo dos oligarcas russos mais visíveis do final dos anos 2000, e não à época dos “anos 1990 turbulentos”, como muitas vezes se simplifica. Durante um longo período, Malofeev (ou estruturas ligadas ao seu fundo) deteve participação acionária na Rostelecom (provedora de serviços e produtos digitais na Rússia), e mais tarde tornou-se fundador do projeto midiático Tsargrad — canal criado com a participação direta do estrategista político americano Jack Hanick, ex-diretor da Fox News, o que demonstra claramente que o veículo, desde o início, não foi concebido como um projeto local ou “autêntico” russo, mas como uma máquina informativa de alta tecnologia, construída segundo os modelos mais avançados da mídia de direita ocidental.

Paralelamente ao componente midiático, formou-se também uma superestrutura intelectual, o Instituto Tsargrad, organizado segundo o modelo clássico de um think tank elitista. Tendo como diretor Aleksandr Dugin, o instituto passou a ter sua própria revista analítica, Katehon, além de uma presença estável em plataformas ideológicas internacionais. Por meio dessas estruturas, promove-se uma versão específica do “mundo tradicional” e da multipolaridade, que combina retórica de soberania com formatos políticos e midiáticos ocidentais emprestados. Por fim, a influência do tema brasileiro também se infiltra em um nível mais simples, o das mídias “de base”. A partir da década de 2010, na Rússia, primeiro na rede social nacional VKontakte (popularmente conhecida no Brasil como VK) e depois no Telegram, formou-se gradualmente uma rede estável de canais midiáticos de direita.

É fundamental notar que essas plataformas, desde o início, se posicionaram como conservadoras-monárquicas e “baseadas em valores”, distanciando-se deliberadamente da simbologia e da retórica neonazista explícita. Até o início da operação militar especial, ocupavam um nicho relativamente estreito, mais elitista, voltado a uma audiência ideologicamente motivada, porém numericamente limitada.

A partir de 2022, esse ambiente midiático ganhou um segundo fôlego. Canais antes dispersos passaram a se organizar em uma rede mais aberta e interconectada, trocando ativamente pautas, argumentos e referências simbólicas. Canais conservadores no Telegram, de orientação “monárquica”, utilizam regularmente argumentos da política brasileira para disputas internas. Por exemplo, o canal “Filhos da Monarquia” (criado por Roman Antonovsky, escritor e blogueiro russo controverso) repetidas vezes contrapôs Bolsonaro e Lula, marcando “os seus” e “os outros” de forma esquemática: o “Bolsonaro de direita” como “nosso aliado” e o “Lula de esquerda” como “estranho”, estigmatizando todos os apoiadores da esquerda como “liberais ou globalistas”. Trata-se simplesmente de radicais locais que usam casos brasileiros como rótulos ideológicos. De maneira semelhante, em segmentos desse ecossistema midiático, reaparecem periodicamente materiais de fontes brasileiras abertamente pró-bolsonaristas. Ou seja, o “bolsonarismo” funciona nos círculos de direita russos não apenas por meio de acordos institucionais ou de coordenação direta, mas também a partir de memes, retransmissões seletivas e uma “codificação” de valores. A política brasileira aparece como um recurso simbólico conveniente, utilizado para confirmar uma moldura ideológica previamente estabelecida, não como objeto de análise.

<><> Conclusão

Dessa forma, as conexões entre a extrema-direita russa e o meio de direita brasileiro se constroem em três níveis. O primeiro nível é simbólico. A imagem de Bolsonaro como tradicionalista se consolida no espaço midiático desses grupos por meio do destaque dado à religião, à família e à moral conservadora. Essa imagem é amplamente reproduzida e apresentada como um marcador universal de “antiliberalismo”, desligado de um contexto político concreto. O segundo nível é ideológico. Aqui, o papel central é desempenhado pela linha duginiana e por seus circuitos de tradução e difusão, mais visíveis nas atividades da Nova Resistência. A organização traduz textos de Dugin, promove a retórica do ‘mundo multipolar’ e realiza fóruns com participação dele, o que a posiciona como um canal de circulação dessas ideias no Brasil. O terceiro nível é infraestrutural. Ele se forma em torno do Tsargrad e de Konstantin Malofeev. Projetos midiáticos, o Instituto Tsargrad e os chamados congressos rusófilos de direita criam canais estáveis por meio dos quais conteúdos produzidos por esses grupos se conectam a parceiros estrangeiros.

No ecossistema midiático conservador de direita russo, constrói-se conscientemente uma imagem enganosa de Jair Bolsonaro. Fala-se de fé, família e tradição, mas evita-se cuidadosamente mencionar que sua política econômica é, na prática, uma cópia das reformas neoliberais dos anos 1990, exatamente aquelas que destruíram a economia russa, empobreceram milhões de pessoas e deixaram um trauma social profundo. Ao omitir esse fato, parte desses meios de comunicação acaba por transmitir uma imagem distorcida do Brasil e por deixar em segundo plano a própria experiência histórica da Rússia. Nesse mesmo espírito, a Nova Resistência aparece mais como um projeto encenado do que como um movimento político real. Seus membros acreditam e defendem uma imagem da Rússia construída por vídeos, símbolos e slogans, uma Rússia abstrata que para o russo médio soa estranha, distante e pouco reconhecível. Não se trata de interesse pelo país real, com seus problemas concretos e contradições internas, mas de uma adesão quase teatral a um mito confortável. Essa idealização não aproxima sociedades nem cria diálogo real; ela apenas reproduz ilusões, reforça fantasias ideológicas e presta um desserviço tanto à Rússia quanto ao Brasil. No fim das contas, estamos diante de um sistema relativamente estável de pontes formadas por ideias, plataformas e personagens bem concretos. O problema central é outro: apelos à “tradição” e à “soberania”, quando esvaziados de qualquer conteúdo social real, transformam-se facilmente em uma marca elitista conveniente, usada para justificar interesses políticos estreitos e cálculos oportunistas. Nesse sentido, a utilização da figura de Bolsonaro por grupos da extrema-direita russa não fortalece a soberania russa, além de ser, em sua essência, incompatível com os interesses soberanos reais do Estado russo. Sua orientação econômica neoliberal, sua dependência externa e, sobretudo, sua disposição para se alinhar à retórica pró-ocidental e abertamente russofóbica ficam evidentes no contexto da questão ucraniana. Bolsonaro e seu entorno demonstraram prontidão para se solidarizar com narrativas hostis à Rússia, o que desmonta por completo a imagem de “aliado natural” construída pela mídia conservadora russa. A comparação com a posição de Lula é reveladora. Foi Lula quem se recusou a fornecer armas à Ucrânia e participou das celebrações do 80º aniversário da vitória do Povo Soviético na Grande Guerra Patriótica. Esse contraste deixa claro o quanto a idealização de Bolsonaro, promovida por setores da direita russa, não se baseia em fatos ou interesses estratégicos reais, mas em símbolos convenientes, slogans vazios e uma leitura profundamente distorcida da política brasileira.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

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