Os
heróis árabes desconhecidos que salvaram judeus durante o Holocausto
O
centro de memória do Holocausto de Israel, Yad Vashem, já reconheceu mais de 28
mil não judeus por arriscarem a vida para salvar judeus durante o Holocausto.
Apesar
disso, embora milhares tenham sido mortos no Norte da África sob ocupação
nazista, nenhum árabe foi até hoje homenageado como "justo" por ter
salvado um judeu em um país árabe.
"Na
Tunísia, um padeiro árabe deixava diariamente comida extra em sua padaria para
judeus que não tinham cartões de racionamento [de comida]."
"Mulheres
árabes levavam bebês judeus para suas casas e atuavam como amas de leite,
porque não havia comida nem leite disponível."
"Em
Argel, capital da Argélia, uma fatwa [decreto religioso] que proibia muçulmanos
locais de ocupar propriedades judaicas confiscadas foi emitida por clérigos
islâmicos, e eu não encontrei nenhum exemplo de árabe local que tenha
desrespeitado a fatwa depois de emitida."
Essas
são algumas das histórias reunidas por Rob Satloff, diretor-executivo do
Washington Institute (EUA), sobre africanos do Norte do continente que ajudaram
judeus durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Os
nazistas mataram mais de 6 milhões de judeus na Europa, mas também perseguiram
comunidades judaicas no Norte da África, apoiados pelo regime francês
colaboracionista de Vichy, causando morte, deslocamento e perda de
propriedades, embora em escala muito menor do que na Europa.
"Exceto
pelo extermínio, tudo o que mais aconteceu com os judeus na Europa aconteceu
com os judeus nos países árabes", disse Satloff ao BBC World Service.
Segundo
o US Holocaust Memorial Museum (EUA), cerca de 500 mil judeus viviam no
Marrocos, na Argélia, na Tunísia e na Líbia. Satloff estima que o número de
mortos judeus nessas regiões foi entre 4 mil e 5 mil.
<><>
Arriscaram tudo
Fim do
Whatsapp!
Satloff
afirma que três árabes, em especial, merecem ser reconhecidos pelo centro
israelense de memória do Holocausto.
Na
Tunísia, o único país do Norte da África totalmente ocupado pelos nazistas, de
novembro de 1942 a maio de 1943, judeus foram obrigados a usar estrelas
amarelas.
Mas,
quando os nazistas ordenaram que todos os homens judeus se apresentassem para
trabalhos forçados, em Tunis (capital da Tunísia), um deles, Joseph Naccache,
conseguiu escapar.
Décadas
depois, em Paris, ele contou a Satloff, do Washington Institute, como um árabe,
correndo grande risco pessoal, lhe deu abrigo.
"A
SS [polícia nazista] organizou uma batida, uma captura em massa de jovens
judeus, em dezembro de 1942", disse Satloff. "Se você fosse pego
escondendo alguém que estivesse na lista da SS, isso era um crime
terrível."
"[Naccache]
fugiu da batida, tentando escapar, querendo evitar ser levado pelos alemães, e
acabou no hammam [banho público turco] do seu bairro."
O dono
do local, Hamza Abdul Jalil, disse a Naccache que iria protegê-lo e escondê-lo
no porão.
"Eu
não apenas conheci o homem que foi salvo como voltei a Tunis, encontrei o
hammam e conheci o filho do homem que o salvou", disse Satloff ao BBC
World Service.
"Ele
conhecia todos os detalhes. É uma história extraordinária, e eu a ouvi dos dois
lados."
Si Ali
Sakkat, ex-prefeito de Tunis, também arriscou tudo para dar comida e abrigo a
um grupo de judeus que havia escapado de campos de trabalho forçado, em sua
casa de campo, no vale de Zaghouan, a cerca de 55 km da capital.
<><>
'Enfrentou o mal'
Mas a
história favorita de Satloff é a de Khaled Abdul-Wahab, que ouviu um oficial
nazista dizendo que estava de olho em uma mulher judia que o tunisiano
conhecia.
No meio
da noite, Abdul-Wahab resgatou a mulher e a família dela, que estavam
escondidas, levou-as para a sua fazenda, a 30 km de Tunis, e as escondeu em
celeiros e estábulos.
Mas
isso foi apenas o começo pois, antes do fim da ocupação nazista, ele já havia
escondido 20 mulheres e crianças, depois que os homens de suas famílias foram
enviados para trabalhos forçados.
Três
delas pediram posteriormente ao centro de memória do Holocausto de Israel que
reconhecesse Abdul-Wahab, mas o pedido foi rejeitado duas vezes.
Ele
havia sido um "homem nobre", disse o centro, e os depoimentos
descreviam a sua bondade, mas hospedar judeus permanecera legal e eles tinham
ficado na fazenda de Abdul-Wahab com pleno conhecimento dos ocupantes nazistas,
o que o tornava inelegível para o título Righteous Among the Nations (Justo
entre as Nações, em tradução livre), concedido a não judeus que
altruisticamente arriscaram a própria vida para salvar judeus do extermínio
nazista durante o Holocausto.
"Como
a ocupação alemã da Tunísia durou apenas seis meses, os planos para implementar
a solução final [a política nazista de extermínio] ali nunca chegaram a se
concretizar", acrescentou o centro Yad Vashem.
Em
dezembro de 2011, Eva Weisel, escondida por Abdul-Wahab aos 13 anos, escreveu
um artigo no jornal americano New York Times, expressando sua decepção com a
decisão.
"Sei
que pude desfrutar de uma vida longa e plena porque Abdul-Wahab enfrentou o mal
e me salvou, assim como salvou outros membros afortunados da minha
família", disse ela. "Espero que o [centro] Yad Vashem reconsidere o
caso dele antes que não reste ninguém para contar sua história."
<><>
Narrativa 'conveniente'
Dos
mais de 28.000 já agraciados com o título Righteous Among the Nations (Justo
entre as Nações), cerca de 70 são muçulmanos, mas apenas um é árabe (que vivia
na Europa): o médico egípcio Mohamed Helmy, que escondeu uma jovem judia e
ajudou sua família em Berlim.
Embora
as histórias reunidas por Satloff sejam extremamente poderosas, disse Mehnaz
Afridi, diretora do Manhattan University Holocaust, Genocide and Interfaith
Education Center (Centro de Educação sobre Holocausto, Genocídio e Diálogo
Inter-religioso da Universidade de Manhattan, em tradução livre), nos Estados
Unidos, elas contrariam uma narrativa "conveniente".
Afridi
disse à BBC: "Para alguns em Israel, reconhecer resgatadores árabes
complica o cenário político contemporâneo. Para alguns no mundo árabe,
reconhecer que judeus precisaram ser resgatados de nazistas em solo árabe
enfraquece o negacionismo do Holocausto e o relativismo que se tornaram
politicamente úteis".
<><>
'Holocausto iminente'
Afridi
defende que o rei do Marrocos seja reconhecido. "Sob o governo pró-nazista
de Vichy, Marrocos e Tânger foram instruídos a abrigar judeus em campos de
trabalho. Mohammed 5º, rei do Marrocos, recusou as exigências de implementar
leis raciais anti judaicas ou de enviar judeus marroquinos para a França",
afirmou.
No site
do centro Yad Vashem, Jackie Metzger, da sua International School for Holocaust
Studies (Escola Internacional de Estudos sobre o Holocausto), hoje aposentada,
escreve: "Se holocausto significa assassinato em massa, então um
'holocausto' não ocorreu no Norte da África. A história dos judeus nesse
período deve ser corretamente discutida sob a ameaça de um holocausto iminente
que não se materializou".
Mas, em
resposta por escrito à BBC, o centro reconheceu que "o Norte da África faz
parte do Holocausto".
"Os
nazistas pretendiam o mesmo destino para os judeus de lá, assim como para os
judeus da Palestina sob Mandato Britânico e do Oriente Médio, que pretendiam
para os judeus da Europa", afirmou. "Se o norte da África tivesse
sido libertado quando a Polônia foi libertada [1945, em vez de 1943], a maioria
desses judeus talvez não tivesse sobrevivido."
O
centro acrescentou que toda nomeação para reconhecimento recebeu o mesmo nível
de escrutínio, sem viés, mas que seu comitê de avaliação não estava atualmente
"discutindo nenhum caso de socorristas árabes", pois não havia
recebido novos pedidos.
Mesmo
assim, histórias como a de Abdul-Wahab estão atraindo atenção, disse Afridi.
"Em 2009, uma árvore foi dedicada a ele tanto no Adas Israel Garden of the
Righteous, em Washington D.C. (EUA), quanto no Garden of the Righteous
Worldwide (Jardim dos Justos do Mundo, em tradução livre), em Milão (Itália),
com uma cerimônia na presença de sua filha, Faiza", afirmou.
Satloff
concorda. "Tenho muito orgulho de que numerosas organizações e
instituições na América do Norte e na Europa tenham reconhecido a coragem e a
bravura daqueles árabes que se levantaram para proteger judeus durante esse
período", afirmou.
E, com
mais evidências, Satloff mantém a esperança de que possa haver novas
oportunidades de reconhecimento oficial no futuro.
Fonte:
Por Swaminathan Natarajan, para BBC World Service

Nenhum comentário:
Postar um comentário