sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Memorial Brumadinho: memória e luta por justiça sete anos após a tragédia

O silêncio que hoje marca a cidade de Brumadinho, em Minas Gerais, contrasta com a violência que, em poucos minutos, transformou a rotina em tragédia. Em 25 de janeiro de 2019, às 12h28, a barragem B1 da mina do Córrego do Feijão, da mineradora Vale, se rompeu. A lama se espalhou rapidamente, destruiu tudo pelo caminho e tirou a vida de 272 pessoas, entre elas dois nascituros.

A maioria das vítimas era formada por trabalhadores da própria mina – pessoas que conheciam a rotina do local e estavam diretamente expostas a riscos que foram ignorados pela Vale S.A. e pela TÜV SÜD, empresa alemã responsável por atestar a segurança da barragem.

Essa quietude que hoje envolve o território, no entanto, não apaga o dado central revelado pelas investigações nos meses seguintes: a tragédia não foi inesperada. Como mostrou uma reportagem da revista piauí, a forma como a barragem se rompeu evidenciava que os riscos eram conhecidos e que os problemas estruturais foram ignorados pela mineradora.

É diante desse sofrimento coletivo que surgiu o Memorial Brumadinho – não como um monumento encerrado em si mesmo, mas como um espaço de memória viva. Pensado a partir da escuta dos familiares das vítimas e da comunidade, o Memorial não pretendia fechar o luto, mas reconhecê-lo e nomeá-lo. Cada vítima ali lembrada tinha história, rosto e trajetória.

O espaço transformou o número 272 em nomes próprios e, a partir deles, devolveu humanidade às vidas interrompidas. Cada pessoa soterrada nesse crime ambiental carregava desejos, vínculos, afetos e objetos cotidianos. Na Sala Memória, esses vestígios ganham lugar, permitindo que a lembrança sobreviva à lama e que o silêncio não se converta em esquecimento.

O Memorial é administrado pela Fundação Memorial de Brumadinho, uma instituição de direito privado e sem fins lucrativos, criada em 2023 a partir de um acordo firmado entre o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a Vale e a Avabrum (Associação dos Familiares das Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão). O projeto arquitetônico foi feito por Gustavo Penna Arquitetos Associados. O arranjo institucional assegura a participação e a representatividade das pessoas atingidas na governança do sítio de memória, reconhecendo seu papel central na preservação da história e na condução do espaço. Este é resultado de uma luta da Avabrum. Nayara, a presidente da Associação, explicou que tudo começou a partir de uma experiência violenta vivida por Kenya Lamounier, que perdeu o marido, Adriano Lamounier, – embora já existisse um grupo articulado, foi ela quem deu o pontapé inicial para a criação do Memorial. Ao ir ao Instituto Médico Legal para buscar os segmentos corpóreos de Adriano, ela se deparou com uma situação devastadora: praticamente não havia nada para ser entregue. Foi informada de que, caso surgissem novos segmentos corpóreos, ela teria duas opções – enterrá-los em uma vala comum em Belo Horizonte ou retirá-los posteriormente para um novo sepultamento.

“Na época, ela tinha dois filhos adolescentes e não queria que eles passassem por mais esse sofrimento. Os corpos foram dilacerados, triturados pela lama. Minerados, literalmente”, explica a presidente da Avabrum.

Após a ida ao IML, a familiar começou a articular a ideia de ser criado um lugar onde garantisse a guarda desses restos corpóreos. O espaço deveria contar a história da tragédia sem maquiagem, sem filtro, a partir da voz dos familiares. “O que a Vale sempre tentou fazer foi maquiar a tragédia, suavizar responsabilidades, apagar violências. Mas, o que nós queríamos era registrar essa história no nosso tom, no tom de quem perdeu”, disse Nayara.

O processo da elaboração do projeto trouxe muitas dificuldades com a empresa responsável pelo crime ambiental, que queria ser dona do Memorial, prestar “homenagem” às pessoas que ela mesma matou. Foram três anos de disputa constante, com inúmeras reuniões, mediações do Ministério Público e envolvimento do Estado. Mas, desde o início, a ideia do Memorial era que ele contasse a verdadeira história da tragédia e garantisse a guarda digna dos segmentos corpóreos, sendo administrado junto aos familiares das vítimas.

“Isso era urgente. Havia um caminhão frigorífico parado na porta do IML com restos mortais de várias vítimas. Nossos familiares saíram para trabalhar. Tinham nome, identidade, CPF. Não havia – e não há – justificativa alguma para que fossem tratados dessa forma”, completa Nayara.

Quando o prédio começou a ficar pronto, surgiram novos conflitos em torno do conteúdo expográfico e da gestão do espaço. A Vale tentou se impor como gestora, criando grupos que, na prática, esvaziavam a autonomia dos familiares. Diante disso, eles decidiram vetar o uso de nomes, imagens e qualquer autorização que legitimasse essa condução.

Assim, construiu-se um novo modelo de gestão: a criação de uma fundação independente responsável pelo Memorial. A Vale teve que se comprometer, em termo firmado, a concluir a obra, aportar recursos pelos primeiros cinco anos, sem qualquer intervenção no seu uso, e constituir um fundo de investimento cujo rendimento hoje torna possível a manutenção e a independência de gestão do espaço pela Fundação Memorial de Brumadinho.

“Quando a Fundação assumiu, começamos um trabalho profundo de revisão do conteúdo do memorial. O projeto original narrava a história sob a perspectiva da empresa. Nós refizemos tudo: textos, pesquisas, vídeos, abordagem histórica”, explicou Fabíola.

As diretoras contaram que antes a expografia começava no momento do rompimento, como se não houvesse anteceden tes. Ignorava a história da mineração em Minas Gerais, a existência dos povos originários, o histórico de exploração do território e os inúmeros rompimentos de barragens anteriores, muitos deles sequer noticiados.

Com a revisão dos materiais, começaram falando que Brumadinho não nasceu da mineração, que havia uma cidade com tradição agrícola, vida econômica própria e comunidades vivas antes da chegada das mineradoras. “Incluímos Mariana, incluímos outros desastres, incluímos o risco permanente em que o estado ainda vive. Mostramos como, mesmo após dois grandes rompimentos, a legislação segue fragilizada, capturada pelo lobby da mineração, com multas que não impedem tragédias e órgãos como a Agência Nacional de Mineração precarizados”, disse a diretora presidente.

O principal objetivo era dar centralidade à luta dos familiares: a travessia do luto para a luta por justiça, memória e verdade. Sete anos depois da tragédia, ainda há duas vítimas desaparecidas.

“Foi um processo permanente de negociação e de enfrentamento com a Vale para que a narrativa fosse fiel aos fatos e à perspectiva dos atingidos. Eu sinto que, até hoje, a Vale se ressente profundamente de não ter a gestão do Memorial. E não é apenas a gestão em si: ela não tem voz pública sobre o Memorial. A empresa não pode se apresentar como responsável pelo espaço, não pode colocar sua logomarca aqui, não pode usar o Memorial como vitrine de um suposto processo de reparação. Para os familiares, isso é fundamental. Para a empresa, seria um ativo simbólico enorme – algo que ela perdeu”, afirma Fabíola.

Durante todos esses anos e até hoje, existe um acompanhamento muito atento da Vale sobre tudo o que é feito no local. Um exemplo dado pela presidente da Fundação foi a revisão do estudo de sustentabilidade financeira que a própria empresa havia elaborado: “Quando assumimos, percebemos que havia uma série de elementos fundamentais que não estavam previstos e, por isso, o orçamento precisou ser ampliado”.

Para a gestão, o Memorial é entendido como um sítio de memória e consciência. Um lugar onde a tragédia aconteceu, onde a lama passou exatamente, nos fundos do memorial. “A partir dessa compreensão, passamos a tratá-lo como um museu memorial, dentro da definição do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), com todas as exigências museológicas que isso implica”, conclui Fabíola.

Ao transformar o espaço em um museu memorial, a direção passou a desenvolver um trabalho educativo permanente: formação de professores, agentes culturais, agentes de turismo; mediação dos conteúdos; produção contínua de pesquisa para alimentar a expografia e trazer as múltiplas camadas dessa história. É um espaço vivo, em permanente construção.

A arquitetura também expressa isso. O prédio é impactante desde a chegada. A drusa logo na entrada, o pavilhão fragmentado, os recortes, a cor do concreto – que utiliza um pigmento extraído do rejeito da barragem – tudo remete diretamente à tragédia. Quando se desce pela fenda, onde estão escritos os nomes de todas as vítimas junto ao Ipê, símbolo do Memorial Brumadinho, há uma sensação física de atravessar a ruptura que se abriu no momento do rompimento.

“Às vezes, as pessoas perguntam: ‘Mas precisava ser um lugar tão bonito, tão impressionante?’. Precisava, sim. Precisava ser forte, potente, provocar impacto. A beleza, aqui, não é decorativa – ela é uma ferramenta para que as pessoas compreendam a dimensão do que aconteceu”, explica Fabíola.

No Memorial existem duas salas. A primeira, chamada de Testemunho, traz o trabalho do Corpo de Bombeiros, as buscas arriscadas, inéditas pela dimensão do desastre, e a repercussão nacional e internacional do crime. Há ainda a Sala Memória, dedicada às 272 vítimas. Para construí-la, a Fundação responsável pelo projeto passou quase dois meses ouvindo familiar por familiar, recebendo objetos pessoais que representassem quem eram aquelas pessoas. Na sala, encontram-se alguns pertences como luvas de goleiro, alianças encontradas no meio da lama, objetos simples, mas carregados de significado.

Um ponto central, explicado por Vanessa, vice-presidente, diz respeito ao processo de translado dos segmentos corpóreos, sua transferência para o memorial e ao termo firmado junto ao IML. Esse percurso exigiu a criação de procedimentos inéditos, tanto por parte da administração pública quanto de iniciativas privadas, para lidar com uma situação absolutamente devastadora como a de Brumadinho.

Segundo a vice-presidente, o próprio termo elaborado pelo IML foi concebido para garantir segurança jurídica à administração pública diante daquele cenário. Sua assinatura permitia, por exemplo, que o instituto não comunicasse automaticamente familiares identificados sobre novos achados, evitando que segmentos fossem enterrados contra a vontade da família. Para isso, houve consulta prévia ao Ministério Público, assegurando a legalidade do procedimento e a tranquilidade jurídica dos agentes públicos envolvidos.

Para que os segmentos pudessem ser levados ao Memorial, também foi necessária a aprovação de uma lei municipal pela Câmara de Brumadinho, que reconheceu o caráter sui generis da instituição como espaço de guarda de segmentos corpóreos, sem se configurar como cemitério. De natureza museológica e cultural, essa especificidade está claramente descrita em seu objeto social.

Além disso, foi instaurado um processo judicial específico para a obtenção de alvará que autorizasse o IML a realizar o translado dos segmentos para o Memorial. Todos esses trâmites foram burocráticos, complexos e absolutamente singulares, refletindo o caráter inédito da situação enfrentada.

O marido de Nayara, Everton Lopes Pereira, de 32 anos, foi uma das vítimas do crime ambiental provocado pela mineradora – ele era funcionário da Vale desde os seus 21 anos. A presidente da Avabrum conta que a cidade antes era muito diferente: “Um interior onde todo mundo conhecia todo mundo. Havia dificuldades, como em qualquer lugar, mas existia um sentimento de pertencimento, de tranquilidade. A gente se sentia feliz vivendo ali”.

Após o rompimento as coisas mudaram. Nayara conta que a Vale injeta dinheiro na cidade e isso, automaticamente, divide a população. “Antes, as pessoas recebiam um salário mínimo; depois, esse valor foi reduzido pela metade. Esse dinheiro criou divisões profundas. Eu acredito, sinceramente, que isso faz parte de uma estratégia da empresa”. E a presidente da Associação finaliza: “Brumadinho não é um lugar onde se vive. É um lugar onde se sobrevive. Especialmente para nós, familiares das vítimas. A gente escuta de tudo: que a Vale é “mãe”, que é uma empresa boazinha, que ajuda as pessoas. As pessoas fazem festa quando recebem esse dinheiro – um dinheiro que, para nós, custou a vida dos nossos. É dinheiro de sangue”.

A cidade também sofreu grandes impactos ambientais. Hoje, a população bebe água mineral. A água local foi contaminada: nascentes, lençóis freáticos, tudo foi atingido. A Vale é obrigada a fornecer água à cidade. Em algumas regiões, só há abastecimento por caminhão-pipa. Por esse motivo, as pessoas se tornam reféns disso e ainda mais dependentes da mineradora.

A sede de Brumadinho só não foi ainda mais afetada porque a água vem do Rio Manso, que fica mais distante. Se não fosse isso, o problema atingiria também Belo Horizonte. Já as regiões rurais, como Tejuco e Parque da Cachoeira, que dependiam de água de mina, tiveram suas fontes contaminadas. Por isso, a Vale fornece água até hoje.

Em Mário Campos, a população vive da agricultura. As hortas eram irrigadas com a água do rio. Hoje, isso não é mais possível. A Vale envia caminhões-pipa para irrigação. Mesmo assim, há desconfiança. As pessoas têm medo de consumir alimentos dessas regiões: não sabem se o solo está contaminado, se a água está segura.

A Avabrum surgiu para lutar por essas injustiças, por essas “pequenas coisas” que ficaram para trás e que a empresa se recusava a reconhecer. “Nós nos encontramos quando o Ministério Público do Trabalho chamou as famílias para negociar a indenização. Cerca de 20 ou 30 dias após o rompimento, todos os familiares foram reunidos na Câmara Municipal de Brumadinho. A Vale fez uma proposta, o Ministério Público apoiou essa oferta e nos disse que cabia a nós decidir. Estávamos todos em completo desespero. Foi ali que começamos a identificar pessoas que viviam a mesma dor que a nossa. Algumas nós já tínhamos encontrado antes, na porta do IML, passando exatamente pelo mesmo sofrimento. Mas o verdadeiro gatilho para a criação da associação aconteceu depois, quando uma das atuais diretoras da Associação, a Andresa – mãe de vítima, que perdeu o único filho, de 26 anos – era vereadora na época e hoje é prefeita de Mário Campos. Ela foi convidada para participar de uma reunião na ONU. Quando chegou lá, não conseguiu entrar, porque não representava uma instituição, uma associação ou um órgão formal. Era apenas uma familiar de vítima, uma pessoa física”, explicou Nayara.

A partir desse momento criaram uma que desse peso político, voz e legitimidade. Foi assim que surgiu a Avabrum, criada oficialmente em agosto de 2019. “Desde então, estamos em uma luta constante, porque não nos foi tirada apenas a vida dos nossos familiares, mas também vários direitos. Para você ter uma ideia, as vítimas não tiveram direito ao FGTS. A lei dizia que, em caso de morte por acidente de trabalho, era como se a pessoa tivesse pedido demissão. Tivemos que lutar para que a Vale reconhecesse que eles não pediram demissão – eles foram mortos. Foi uma briga longa até conseguirmos que o FGTS fosse pago”, conclui a presidente da associação.

Nayara conta que havia vítimas que já estavam aposentadas, mas continuavam trabalhando para completar o FGTS. Morreram e não tiveram acesso a esse direito. Além disso, explica: “Nossa luta é permanente. Nós não somos especialistas; somos familiares de vítimas que foram jogados nessa situação. Quando a Vale se senta à mesa, ela traz dezenas de profissionais: advogados, economistas, técnicos de alto nível. Do outro lado, estão pais, mães e irmãos. Ainda assim, com muito esforço, temos conseguido avançar”.

Outra batalha longa foi o reconhecimento do chamado dano-morte. A empresa dizia que as vítimas não sofreram, que não houve tempo de dor. Mas existem relatos de pessoas encontradas sem sinais de lama no corpo, que morreram por asfixia. Mesmo assim, foram anos de luta até que esse dano fosse reconhecido – e ainda assim, sem poder usar esse termo oficialmente, para não criar precedentes jurídicos.

A presidente finaliza falando sobre o diálogo que os familiares das vítimas têm com o Memorial. “Especialmente na questão do luto e da memória, eu acredito que o memorial cumpre muito bem esse papel. O luto vai nos acompanhar pelo resto da vida, principalmente porque muitos corpos nunca foram encontrados. Nós não enterramos os nossos. Para nós, eles estão aqui no memorial e continuam lá, na lama, até hoje. A área de busca hoje é da Polícia Civil, uma área de crime, de tragédia”.

O luto permanece, mas a memória foi preservada. Representando cada familiar através de sua fala, Nayara mostra que o Memorial conseguiu eternizar essa história, que era exatamente o que cada familiar gostaria. Eles não queriam que aquela fosse apenas mais uma tragédia da mineração, mas sim que a violência fosse lembrada, reconhecida e nunca esquecida.

No próximo dia 25 de janeiro, o Memorial completa um ano de portas abertas. Logo na entrada do prédio, ao centro do espaço, encontram-se os cristais que simbolizam as 272 pessoas que perderam a vida em 2019.

Esse simbolismo nasce de uma declaração do então presidente da Vale, à época do crime ambiental, ao afirmar que a mineradora era a “joia” do Brasil. A fala provocou profunda revolta entre os familiares das vítimas, para quem as verdadeiras joias sempre foram aqueles que morreram em decorrência do crime ambiental.

No dia 25 de janeiro de 2026, exatamente às 12h28, o cristal central estará alinhado de modo que, ao incidir a luz do sol, toda a sala seja iluminada. O gesto marca o horário do rompimento e presta homenagem às vítimas e aos seus familiares.

 

Fonte: Maíra Oliveira Graça da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil

 

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