Adultização
e captura da infância
Desde
que o trabalho de @Felca0 sobre a exposição, monetização e violação do direito
de menores na internet atingiu repercussão nacional, furando bolhas nas redes,
o termo adultização passou ao centro do debate público, ao cerne das disputas
narrativas.
Como
toda questão contemporânea que ganha espaço nas redes sociais – que capturaram
o que antes se chamava de opinião pública –, algum aspecto viral acaba por
fagocitar outras determinações da questão. Assim, abarcado pelas redes, o
assunto ganha visibilidade, porém rapidamente se torna esquecido, jogado no
cesto dos assuntos descartáveis.
É
preciso, contudo, recordar que, por traz das questões suscitadas nas últimas
semanas, a infância, por conseguinte, as crianças são alvo não apenas de
influencers, mas de uma sociedade regredida em seus aspectos mais
determinantes. Não é de hoje que as crianças são alvo e ao mesmo tempo escudo
de finalidades políticas espúrias.
Se as
crianças são adultizadas, é preciso questionar o que mudou no comportamento dos
adultos. As campanhas contra o espantalho da “ideologia de gênero” foram o
primeiro sintoma disso. Na maioria das vezes se focou nas questões de gênero e
de educação, desconsiderando que também estava em disputa certa concepção de
infância.
Desse
modo, é preciso compreender a adultização não apenas como “exposição precoce de
crianças a comportamentos, reponsabilidades e expectativas que deveriam ser
reservados aos adultos”, como se tem feito, mas como invasão, manipulação e
quase aniquilamento daquilo que podemos considerar como sendo próprio do mundo
de sentido infantil. Uma esfera autônoma e diferente em relação ao mundo
adulto: com pensamento, ações e sentimentos próprios. Ou seja, a exposição é
apenas o elemento mais visível.
Apesar
do reconhecimento de tal diferença, o mundo adulto sempre se mantém como um
manipulador sutil da esfera infantil, pois se espera que as crianças sejam
preparadas não apenas para se adaptar ao que um dia será delas – o mundo adulto
– mas também que reproduzam o mundo de seus pais. Sob este aspecto, elas nunca
deixaram, na prática, de ser consideradas como adultos em miniatura.
Já que
se trata de um ser em relação ao qual se confunde proteção e cuidado com tutela
opressiva, para a maioria dos adultos é impossível conceber o mundo infantil no
horizonte de certa liberdade, pois suas próprias infâncias foram gestadas
também sob controle.
Por
isso, quando se diz que “menino veste azul e menina veste rosa”, tem-se um
exemplo de repetição da invasão do mundo dos adultos sobre o mundo infantil,
que acaba sendo violado em seu aspecto simbólico. Não é isso também um tipo de
adultização, justamente por aqueles que se arvoram como defensores das
crianças? Transferem para o mundo infantil a obsessão adulta pelas demarcações
sociais de gênero.
A
adultização diz também sobre o modo como atualmente o mundo dos adultos faz uma
feroz compressão do tempo, no qual tudo deve ser para agora, não respeitando
tempos psíquicos distintos, ou mesmo o tempo biológico do corpo. Assim como são
apressados os tempos da produção, pois tudo deve ser feito para consumo
imediato; também se requer que as crianças assumam o quanto antes o
comportamento dos adultos. Ou melhor, aquilo que estes consideram como sendo o
comportamento padrão aceitável: sua mais fidedigna repetição.
Basta
lembrar que antes do trabalho de @Felca0, um dos assuntos virais era o
missionário e pastor mirim Miguel. Numa rápida consulta aos comentários das
notícias sobre a proibição de suas pregações – proibição recomendada pelo
Conselho Tutelar –, constata-se que uma maioria era contra a medida, por
considerar que o jovem nada mais era que “um instrumento de Deus”.
Enxergam
no adolescente missionário aquilo que se espera de um pastor adulto
experimentado: pregações, louvores e curas. Os cristãos parecem esquecer que as
pregações públicas de Jesus só aconteceram depois dos 30 anos.
Não
basta adultizar em nome da fé. Se formos à religião de nosso tempo – o
neoliberalismo – veremos adultos aplaudindo que crianças de dez anos de idade
falem como se fossem empreendedores, investidores da bolsa. Já vai longe o
tempo do brincar de banco imobiliário, quando se perdiam fichas nos tabuleiros,
agora as crianças não brincam de ter dinheiro de mentirinha, mas são
incentivadas a investir de fato. Devem pensar, agir e sentir como adultos. Ou
seja, trata-se de uma mutação antropológica completa. Crianças que sabem
investir, mas não sabem brincar.
Não
considerar abjetos os adultos violadores que incentivam crianças coach de
investimentos é já ter se rendido à lógica de que não há separação entre o
mundo infantil e o mundo adulto. É adultizar sem perceber; da forma mais
perversa, por naturalização.
A
concepção de infância como conquista social, elaborada a partir do século XVIII
e que se consolidou apenas no século XX, vai se esgarçando como bem comum
nestas duas primeiras décadas de século. Na atual configuração do
neoliberalismo, as crianças passam a ser, de novo – como antes do século XVIII
–, adultos em miniatura. Nada estranho para um sistema que em seu começo se
aproveitou do trabalho infantil, explorando crianças até a morte. Hoje,
matam-nas aos poucos em vida, não permitindo que exista, de fato, um mundo
infantil.
Fonte:
Por Fran de Oliveira Alavina, em A Terra é Redonda

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