Preto,
pobre e vagabundo
Exceção
feita aos craques do Corinthians, a grande maioria dos pretos é pobre. Para
quem considera que os pobres são pobres porque são vagabundos, preto e
vagabundo acabam virando praticamente sinônimos, com a honrosa exceção feita
aos craques do Corinthians e aos nossos dóceis, fiéis e descartáveis serviçais
pretos.
E,
mesmo com o amor e os cuidados que as amas de leite negras possam dispensar a
seus filhos naturais – entre o trabalho como empacotadeiras nas Casas Bahia –,
garantindo o investimento narcísico necessário ao desenvolvimento da autoestima
nos seres humanos, quando as crianças negras se depararem com o mundo branco
que as cerca, o “seu mundo” vai ruir.
Nossa,
calma! Pega leve – esse cara branco deve estar de mal com a vida. Deve odiar a
si mesmo, diriam as pessoas que nunca ouviram falar em amar o próximo como a si
mesmo e que sentir a dor do outro é o que nos define como humanos. Mas,
lembre-se, sempre pode ser pior (assim como, também, sempre pode ser melhor).
Poderíamos escrever um artigo com o título “Preto, pobre, vagabundo e bandido”,
citando o documentário Relatos do Front, o artigo Guerra civil e a chacina nos
complexos da Penha e do Alemão em outubro de 2025.
Nascido
na Palestina, imigrei para o Brasil em 1953, aos dois anos de idade. E sempre
gostei muito de me relacionar com o diferente, porque só o diferente é que pode
ampliar a nossa condição humana. Eu morava no Bom Retiro e não lembro quantos
anos tinha quando ouvi falar do Corinthians pela primeira vez. Me disseram que
era o time do povo – então não tive dúvida e, mesmo sendo perna de pau,
justiceiro e avesso a competições, assumi a identidade corinthiana. Hoje me
defino como palestino budista, xangô e corinthiano.
Uma
amiga negra, quando criança, fazia tudo certinho e não entendia porque não era
selecionada para o papel de anjinho na procissão – hoje é líder feminista
negra. Um amigo demorou muito para “descobrir” que era preterido em seleções
para trabalho por ser negro – ele acreditava que era uma questão de mérito.
Outra amiga negra era barrada no processo de alugar um apartamento logo após o
primeiro (e último) contato pessoal.
Fico
imaginando o impacto de um curta-metragem com brancos e pretos em lugares
trocados: solícitos subalternos brancos
recebendo ordens de um arrogante empresário preto; empregadas brancas fazendo a
faxina, cozinhando e servindo a patrões pretos; babás loiras uniformizadas
levando crianças pretas para tomar sol na praça etc.
A
participação de mulheres no mercado de trabalho tem crescido. Contudo, parte
significativa dos encargos para as mulheres continua sendo o de empregadas
domésticas e cuidadoras e, nem seria preciso dizer, a maior parte destes postos
são ocupados por mulheres negras. De acordo com os dados da PNAD/IBGE para o
primeiro trimestre de 2025, o nível de ocupação das mulheres era de 48%,
enquanto entre os homens alcançava 68%.
A
participação das trabalhadoras domésticas (que inclui as cuidadoras) – com ou
sem registro – correspondia a 12% do total de mulheres ocupadas, percentual
significativamente superior ao dos homens, de apenas 1%. As mulheres
representavam 91% do total de empregos domésticos, sendo que 63% desses postos
eram ocupados por mulheres negras (autodeclaradas).
O
trabalho de empregadas domésticas é naturalizado entre a classe média no
Brasil. Existem mesmo brancas feministas que sequer pensam em realizar serviços
domésticos – não têm tempo para isso. E elas se orgulham muito em propiciar
empregos para as negras, que cuidam das casas e dos filhos das madames, além de
suas próprias casas e filhos.
Quando
a Sueli Carneiro descobriu que eu fazia todo o serviço doméstico em casa,
molhava no tanque e secava no fogão, além do trabalho acadêmico e de cuidar de
três filhos pequenos, ela disse, “as brancas fazem as pretas de mulher”.
A
desigualdade racial no Brasil só passou a ganhar destaque na agenda oficial do
país em 1995, com a posse do presidente Fernando Henrique Cardoso, sociólogo
estudioso da questão negra no Brasil e discípulo de Florestan Fernandes (que
partiu em agosto do mesmo ano). Em 20 de novembro de 1995, por ocasião da
comemoração dos 300 anos de Zumbi, foi criado o Grupo de Trabalho
Interministerial para a Valorização da População Negra e, no discurso proferido
durante a cerimônia de instalação do Grupo, em 27 de fevereiro de 1996, o
presidente declarou, para constrangimento das elites do país, que “existe sim
preconceito no Brasil”.
Em 2000
e 2001, a preparação do Brasil para a III Conferência Mundial contra o Racismo,
Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata de agosto-setembro de
2001 em Durban, África do Sul, serviu como catalisador oficial da temática
racial em nível nacional. Na ocasião, diversas propostas e medidas de ação
afirmativa para o setor público foram apresentadas no Brasil, de bolsas de
estudo para cursos preparatórios a cotas para universidades, empregos públicos
e em empresas prestadoras de serviços ao setor público.
Em
2004, os pareceristas double-blind de uma pesquisa que desenvolvemos e que, nas
considerações finais, defendia as políticas de ações afirmativas no país,
ficaram apreensivos: “a questão política relevante é saber se essa estratégia
de combate ao racismo, através da radicalização da racialização já existente –
e portanto sancionando-a, com a demarcação de raças distintas – é o melhor
caminho para o povo brasileiro”.
Apesar
de discordarem fundamentalmente do nosso paradigma “racialista ortodoxo”
(achavam que éramos todos negros), aceitaram o artigo, com a “sugestão” de
excluir algumas das afirmações mais pesadas, que acatamos, porque, caso
contrário, o trabalho não seria publicado. Na universidade em que desenvolvemos
a pesquisa, 22 dos 25 programas de pós-graduação não eram simplesmente contra
as ações afirmativas – divertiam-se em fazer piadinhas racistas infames.
A mídia
impressa, apesar de reconhecer a existência de desigualdades raciais no Brasil,
era contra a implantação das ações afirmativas. Frente às políticas concretas
direcionadas a alterar o quadro de desigualdade racial reinante no país, a
convivência cordial com um sistema racial injusto parecia preferível a qualquer
mudança nas relações de poder em vigor. Nos editoriais, a imprensa argumentava
que era “contra as cotas raciais por motivos filosóficos e práticos”.
Afirmava
que “todos os cidadãos devem ser tratados de forma igual”; que “não é tão
simples definir, especialmente num país miscigenado como o Brasil, quem é e
quem não é negro”; sugeria “substituir cotas raciais por cotas econômicas”; e,
por fim, considerava que “corre-se o risco de afetar a qualidade da instituição
universitária”. Danuza Leão, em texto publicado em 11 de abril de 2004, no
jornal Folha de S. Paulo, declarou que é impossível definir quem é e quem não é
negro no Brasil, exaltou os negros lindos de pele brilhante e disse que “um
branquinho pobre, feioso, com um cabelinho ruim e a pele de um cinza meio
embaçado, não vai achar a menor graça em se declarar negro”.
É com
grande alegria que hoje vejo as universidades brasileiras começarem a assumir a
cara do país. Evidentemente, estou me referindo ao corpo discente, porque ainda
vai levar algum tempo para a fotografia do coletivo do corpo docente ser
revelada em branco e preto.
E o
Corinthians, o que tem a ver com isso? Em novembro de 2025, o Núcleo de Estudos
do Corinthians – NECO reinaugurou o Museu do Povo, que conta A História Preta
do Corinthians, com um megaevento que, em clima de festa, colocou em pauta o
enfrentamento ao racismo no país. Vai Corinthians!
Fonte:
Por Samuel Kilsztajn, em A Terra é Redonda

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