Maria
Luiza Falcão: Natureza do crescimento recente do Brasil
O
Brasil voltou a crescer, mas de forma contida e ainda insuficiente diante do
atraso econômico e social acumulado. Após um período de estagnação,
deterioração institucional e aprofundamento das vulnerabilidades sociais, o
terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (Lula 03) conseguiu interromper a
trajetória de declínio e recolocar a economia em movimento. Trata-se menos de
um ciclo robusto de expansão e mais de uma recuperação cautelosa, marcada por
limites estruturais persistentes. O desemprego caiu, a pobreza extrema foi
reduzida e o investimento público voltou a desempenhar algum papel, ainda que
em escala aquém do necessário para uma transformação de maior dimensão.
Esses
resultados são reais e politicamente relevantes. Mas, exatamente por isso, a
pergunta que se impõe não é conjuntural nem personalizável. Ela é histórica e
estrutural: crescer para quem, em um país marcado por uma das mais altas
concentrações de renda e riqueza do mundo?
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A desigualdade brasileira como herança estrutural
A
desigualdade no Brasil não é produto de um governo específico nem de um ciclo
econômico isolado. Ela é resultado de uma formação histórica marcada pela
escravidão, pela concentração fundiária, por um Estado patrimonialista, por um
sistema tributário regressivo e por uma financeirização persistente. Trata-se
de uma desigualdade que se reproduz mesmo em períodos de crescimento justamente
porque está inscrita na forma como o excedente econômico é apropriado.
Ao
longo da história recente, o país conheceu fases de expansão econômica que
conviveram com manutenção — ou até aprofundamento — da concentração de renda e
riqueza. O crescimento, por si só, nunca foi suficiente para alterar esse
padrão. Sem políticas distributivas de envergadura e sem transformação da
estrutura produtiva, a expansão tende a reforçar hierarquias existentes.
É nesse
registro que deve ser analisado o ciclo atual.
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Crescimento recente e seus efeitos sociais
O atual
governo conseguiu frear um processo de deterioração econômica e social do
período que precedeu o Lula 03, a desastrosa experiência do governo do aloprado
e perigoso Jair Messias Bolsonaro e seu clã, que afrontava o Estado de Direito,
suas Instituições Democráticas e as conquistas sociais.
No seu
desgoverno, entre 2019 e 2022, a economia brasileira apresentou crescimento
médio próximo de zero, incapaz de recuperar o atraso acumulado desde a recessão
de 2015–2016.
Assim,
a retomada moderada da atividade, o reaquecimento do mercado de trabalho e a
reconstrução de políticas sociais produziram efeitos imediatos sobre as camadas
mais vulneráveis da população. A valorização do salário mínimo e a recuperação
de programas de transferência de renda tiveram impacto direto sobre pobreza,
insegurança alimentar e renda disponível.
O
aumento do investimento público, em especial por meio do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC), reintroduziu a infraestrutura como eixo de
desenvolvimento, com efeitos positivos sobre emprego, demanda regional e
encadeamentos produtivos. Ainda assim, a escala desse esforço permanece
limitada frente às necessidades históricas do país.
Nada
disso é trivial em um Brasil que havia naturalizado a austeridade permanente
como virtude macroeconômica.
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Crescimento orientado por missões: a Nova Indústria Brasil
Esse
novo ciclo de crescimento não é espontâneo nem desordenado. Ele está ancorado
em uma inflexão conceitual relevante: a retomada do planejamento produtivo por
meio do programa Nova Indústria Brasil, estruturado a partir da lógica do
crescimento orientado por missões.
Diferentemente
de políticas industriais fragmentadas, a abordagem por missões parte da
definição explícita de objetivos estratégicos capazes de mobilizar investimento
público e privado, orientar o crédito, articular inovação e induzir mudanças
estruturais. O crescimento deixa de ser tratado como simples resultado do
equilíbrio macroeconômico e passa a ser concebido como processo deliberado de
transformação produtiva.
As
missões definidas — envolvendo transição energética, saúde, infraestrutura
sustentável, transformação digital, defesa, soberania alimentar e adensamento
produtivo — buscam elevar o conteúdo tecnológico da produção, melhorar a
qualidade do emprego e criar bases mais sólidas para a redução das
desigualdades no médio prazo. O desafio é que essa estratégia opera sob fortes
restrições macroeconômicas, o que limita seu alcance transformador.
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O PAC como braço material das missões
O
crescimento orientado por missões encontra no Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC) seu principal instrumento material. Investimentos em
infraestrutura, energia, transportes, saneamento, habitação e mobilidade urbana
criam demanda estável, ativam cadeias produtivas nacionais e reduzem
desigualdades regionais.
O PAC
funciona, assim, como política industrial indireta. Ele cria escala,
previsibilidade e aprendizado produtivo, além de reduzir custos sistêmicos que
historicamente penalizam a produção no Brasil. Sempre que o investimento
público foi coordenado, a indústria respondeu. Sempre que colapsou, a estrutura
produtiva se enfraqueceu.
O
limite desse esforço não está no instrumento, mas no ambiente em que ele opera.
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O limite estrutural: crescer não basta
Reconhecer
os avanços do ciclo atual não significa ignorar seus limites históricos. A
melhora das condições sociais ocorre em um contexto ainda marcado por elevada
concentração de renda e riqueza no topo da pirâmide, forte poder do sistema
financeiro e uma estrutura tributária que segue penalizando o trabalho mais do
que o patrimônio.
A
desigualdade de riqueza permanece praticamente intocada. Rendas financeiras
seguem amplamente protegidas, grandes patrimônios são pouco tributados e a
regressividade fiscal limita o alcance redistributivo do crescimento. Trata-se
de um desafio estrutural, não de uma omissão conjuntural do governo.
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Geopolítica, financeirização e compressão das margens nacionais
A
pergunta fundamental “crescer para quem?” precisa hoje ser formulada em um
contexto internacional profundamente distinto daquele que marcou ciclos
anteriores de expansão brasileira. O mundo no qual o Brasil tenta crescer é
mais fragmentado, mais protecionista e mais instável. A nova geopolítica desde
o primeiro mandato de Donald Trump não representa uma anomalia passageira, mas
a consolidação de uma ordem internacional menos cooperativa e mais conflitiva.
Guerras
comerciais, uso explícito de tarifas como instrumento de política externa,
enfraquecimento das instituições multilaterais e politização das cadeias
globais de valor reduziram o espaço para estratégias passivas de inserção
internacional. O comércio deixou de ser regido prioritariamente por regras
previsíveis e passou a ser subordinado a disputas de poder, segurança nacional
e interesses geopolíticos.
Para
economias periféricas e semiperiféricas como a brasileira, isso significa menos
margem para crescer por inércia e maior custo para sustentar estratégias
baseadas apenas em commodities ou integração subordinada.
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Novo contexto
Esse
novo cenário internacional agrava problemas internos históricos. A
financeirização global intensificada, combinada com políticas monetárias
restritivas nos países centrais, pressiona fluxos de capitais, limita políticas
domésticas e reforça a lógica rentista. Ao mesmo tempo, a disputa tecnológica
entre grandes potências estreita ainda mais o espaço para estratégias de
desenvolvimento tardio.
O
crescimento tímido brasileiro não é apenas reflexo de cautela doméstica. Ele
também expressa a compressão objetiva das margens de manobra impostas por um
sistema internacional mais instável, financeirizado e desigual.
É nesse
contexto que políticas orientadas por missões e investimento público coordenado
deixam de ser opção ideológica e passam a ser condição mínima de sobrevivência
econômica.
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Crescimento, distribuição e democracia
Em
sociedades profundamente desiguais, a questão distributiva não é apenas
econômica. Ela é democrática. Quando o crescimento é tímido e melhora
indicadores sem alterar estruturas de poder econômico, cria-se uma tensão
silenciosa entre expectativas sociais e transformações efetivas.
Democracias
se fortalecem quando conseguem traduzir crescimento em mobilidade social,
ampliação de oportunidades e redução consistente das desigualdades. Quando isso
não ocorre, o risco não é apenas econômico, mas político: frustração difusa,
desmobilização e abertura de espaço para discursos autoritários travestidos de
eficiência.
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Um avanço relevante: alívio tributário na base
A
recente decisão do governo de aliviar a tributação sobre quem ganha até cinco
salários mínimos, ampliando a faixa de isenção e reduzindo a carga sobre a base
da pirâmide social, foi uma medida engenhosa com impacto distributivo imediato
- melhora a renda disponível das famílias trabalhadoras e reforça o consumo
popular.
Esse
avanço corrige parcialmente uma das distorções mais perversas do sistema
tributário brasileiro. Ao mesmo tempo, evidencia o tamanho do desafio restante:
aliviar a base é necessário, mas insuficiente enquanto rendas altas, patrimônio
e ganhos financeiros permanecerem praticamente blindados.
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Eleições e o teste histórico à frente
Às
vésperas das próximas eleições, a política de valorização do salário mínimo
reaparece como divisor de águas do debate distributivo. Não como lembrança
nostálgica, mas como evidência concreta de que escolhas políticas importam. Foi
sob os governos do PT que o salário mínimo deixou de ser mero indexador nominal
e passou a funcionar como instrumento ativo de redistribuição, dinamização do
mercado interno e redução da desigualdade de renda.
Defender
essa política hoje não é repetir o passado, mas afirmar um compromisso mínimo
com a democracia social em um país de rendas estruturalmente comprimidas. Ao
mesmo tempo, o próprio legado do salário mínimo impõe uma cobrança: ele mostrou
que é possível redistribuir, mas também revelou os limites de fazê-lo sem
enfrentar a concentração de riqueza no topo.
O
debate eleitoral que se avizinha não será apenas sobre crescer mais ou menos,
mas sobre se o crescimento continuará elevando a base enquanto preserva os
privilégios do andar de cima — ou se avançará, finalmente, para uma
redistribuição mais profunda de renda, riqueza e poder econômico.
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A insanidade é do capitalismo, e não exclusividade de
Trump. Por Jair de Souza
Um dos
temas mais veiculados nos meios de comunicação nos últimos dias refere-se a uma
suposta insanidade mental que estaria acometendo o atual presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump.
Não há
dúvidas de que a gestão do atual mandatário da potência estadunidense está se
caracterizando pela consecução de crimes abomináveis contra os povos de outras
nações, assim como contra a população de seu próprio país. Porém, creio que
atribuir a culpa principal por todas essas perversidades à insanidade mental de
seu dirigente máximo é muito mais uma rota de fuga das verdadeiras causas do
que uma preocupação real na busca de eliminar os problemas.
Além do
mais, a imposição da ideia de que as horrendas atrocidades que estão sendo
perpetradas são devidas a deficiências no funcionamento mental do comandante do
sistema pode ser algo muito útil quando se quer isentar o próprio sistema de
quaisquer responsabilidades. Não nos esqueçamos de que isto já ocorreu com
outra conhecida figura histórica, menos de um século atrás. Após a fragorosa
derrota da máquina de guerra da Alemanha nazista pelas forças lideradas pela
União Soviética, muitos daqueles que até então tinham prestado total apoio às
empreitadas de Hitler, de repente, passaram a acusá-lo de ser megalomaniaco e
único culpado por tudo de maligno que o nazismo havia causado.
Para
ter clareza do que acaba de ser dito, basta rever a história e prestar atenção
e comparar o papel desempenhado por grandes corporações, como Siemens, Krupp,
Volkswagen, etc., durante o período em que o poder nazista se impunha com as
posições por eles adotadas depois da acachapante derrota sofrida. Assim,
enquanto o vento soprava a favor, todo o grande capital germânico estava
alinhado unissonamente a seu Führer, mas quando este e seu projeto foram
derrotados e suas pretensões supremacistas impedidas de seguir adiante, as
grandes corporações, através de seus meios de comunicação, trataram de se
desvencilhar de todos os vínculos visíveis com o sistema derrotado. Em
consequência, todas as desgraças causadas foram atribuídas à loucura de Hitler.
Entretanto,
em lugar de acreditar que intrincados e poderosos sistemas estatais são levados
a adotar práticas tão monstruosamente cruéis por influência e determinação
exclusivas de uma só pessoa é, simplesmente, inverter a ordem dos fatores. Nem
Hitler nem Mussolini, por mais loucos, megalomaníacos ou ditatoriais que
fossem, teriam conduzido os rumos da Alemanha e da Itália se não tivessem
contado efetivamente com o apoio de grupos de forças significativos. Se eles
ousassem tomar medidas que contrariassem os interesses de todos os grupos de
poder não permaneceriam sequer um dia no comando de seus países. E por que a
coisa seria diferente no caso de Trump e os Estados Unidos?
O certo
é entender que são as forças reais existentes que requerem o comando do sistema
seja exercido por alguém que esteja disposto a levar adiante os projetos de seu
interesse. Por isso, nesta etapa em que os conglomerados capitalistas dos
Estados Unidos estão perdendo terreno para competidores de outras nações,
especialmente para a China, as “demências” de Donald Trump parecem vir muito a
calhar em seu intuito de impedir a consumação de sua perda de hegemonia.
Como o
setor mais agressivo do grande capital estadunidense na atualidade está
composto pelos megaconglomerados da comunicação digital (as conhecidas
bigtechs), são eles que parecem dar o mais significativo aval às
“intempestivas” ações trumpistas, visto que são os que mais têm a ganhar com a
persistência do clima de belicosidade. É que sua íntima associação com a
indústria armamentista torna a guerra um negócio altamente lucrativo para eles.
Em
outro momento, as forças dominantes do grande capital gringo viam suas
perspectivas de realização de negócios mais bem representadas em uma figura que
aparentava ter alto grau de senilidade. E era assim porque, independentemente
dessa circunstância, os centros de decisões em tudo o que dizia respeito a seus
interesses estavam firmemente sob seu controle.
Pelo
que tentamos expor até aqui, é a insanidade do sistema do imperialismo
capitalista que provoca as grandes tragédias que estamos padecendo. Portanto,
não faz sentido protestar contra o desequilíbrio mental de Donald Trump, se não
tivermos clareza de que figuras como ele são produtos dos próprios sistemas em
que estão inseridos. Em consequência, se quisermos de fato impedir que tamanhas
“loucuras” continuem ocorrendo, precisamos nos empenhar numa luta para pôr fim
ao sistema que depende de tal “insanidade” para existir. Em outras palavras, a
luta principal deve ser travada contra o imperialismo.
Fonte:
Brasil 247

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