sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Brasil vê na Rússia um eixo contra a pressão dos EUA na região?

Em uma longa ligação telefônica na última quarta-feira (15), os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Rússia, Vladimir Putin, discutiram a importância de reforçar a coordenação entre os dois países como resposta às tensões provocadas pelos Estados Unidos na América do Sul.

A conversa ocorreu por iniciativa da chancelaria brasileira e, conforme comunicado divulgado por ambos os governos, teve como foco a atual situação na Venezuela. Na ocasião, Lula e Putin destacaram "as abordagens fundamentais compartilhadas pela Rússia e pelo Brasil para garantir a soberania estatal e os interesses nacionais da República Bolivariana", segundo o Kremlin.

Nesse contexto, os dois líderes também concordaram em coordenar esforços internacionais para reduzir as tensões no país sul-americano por meio da Organização das Nações Unidas (ONU) e do BRICS, fóruns que Moscou e Brasília veem como centrais para a defesa do multilateralismo. Já nesta quinta-feira (15), durante discurso, Putin voltou a mencionar a aproximação com o Brasil, que classificou como parceiro estratégico na construção de um sistema internacional cada vez mais multipolar e "verdadeiramente equitativo".

Membro da diretoria do Fórum para Tecnologia Estratégica do BRICS e doutoranda em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB), Isabela Rocha afirma à Sputnik Brasil que o diálogo direto entre Brasília e Moscou ocorre em um momento em que o Brasil é pressionado a rever sua postura na política externa.

Segundo a especialista, a leitura de que o país poderia se manter distante das disputas geopolíticas globais perdeu sustentação diante da escalada de tensões na América do Sul. "Se a gente ficar toda hora hesitando porque está com medo da forma como os Estados Unidos vão reagir, eles vão continuar fazendo o que bem quiserem", destaca.

Na avaliação da pesquisadora, a crise na Venezuela escancarou os limites dessa estratégia de neutralidade, uma vez que a atuação dos Estados Unidos no país vizinho extrapola a retórica diplomática e assume contornos mais amplos. Para Rocha, trata-se de uma estratégia de Washington que pode ser classificada como "guerra híbrida", que envolve não apenas ações militares, mas também ataques comerciais coordenados, como sanções e tarifas.

A pesquisadora ressalta ainda que esse tipo de ação produz impactos que vão além das fronteiras venezuelanas. Nesse sentido, aponta que "quando se olha para a forma como as instituições internacionais, como a própria ONU, estão sendo descredibilizadas e deixaram de ser um mecanismo de mediação há anos", percebe-se que esse movimento é instrumentalizado por Washington a seu favor.

Aliado a isso, a especialista avalia que o presidente Nicolás Maduro, que segue preso em Nova York e será julgado nos EUA, ocupa uma posição central na crise e cumpre também uma função estratégica. "O Maduro vivo é uma ferramenta dos Estados Unidos para dar continuidade à operação que se iniciou de maneira cinética, no caso, com a invasão, o bombardeio e o sequestro", afirma.

<><> Rússia como contrapeso na América do Sul

Diante desse cenário, a aproximação com a Rússia surge, segundo Rocha, como um movimento de cálculo estratégico por parte do Brasil, já que Moscou compartilha de uma mesma visão sobre os desafios globais. "A crise na Ucrânia não está para se resolver tão cedo, muito menos a da Venezuela", opina, ao avaliar que esse quadro tende a fortalecer articulações fora do eixo tradicional liderado pelos Estados Unidos.

Rocha acrescenta que o fortalecimento de instituições regionais e multilaterais aparece como alternativa para ampliar a margem de manobra do Brasil. Segundo ela, o que se pode esperar é que "Lula consiga fortalecer as instituições brasileiras, também as instituições do Mercosul, com o apoio da Rússia e da China".

A pesquisadora também critica o que classifica como excesso de cautela da diplomacia brasileira nos últimos anos. Para ela, "grande parte disso foi por estarem com medo da retaliação norte-americana", o que acabou limitando ações mais assertivas por parte do Brasil e do próprio Mercosul.

Na avaliação final, Rocha alerta que a pressão externa tende a se intensificar, independentemente da postura adotada por Brasília. "Os Estados Unidos vão retaliar e vão agir de maneira agressiva", diz. Por isso, conclui que "talvez já tenha passado da hora" de o Brasil assumir de forma mais clara seu papel como potência regional e atuar para se resguardar diante da ofensiva de Washington.

<><> Rússia e Brasil compartilham visão sobre uma ordem mundial multipolar, destaca Putin

Rússia desenvolve relações estreitas com muitos países da América Latina, enfatizou o prsidente russo, Vladimir Putin, nesta quinta-feira (15), durante um discurso no Kremlin.

Putin destacou que a Rússia e Brasil compartilham visão sobre uma ordem mundial multipolar. O presidente russo declarou que Moscou e Brasília são parceiras de visão na construção de um sistema internacional multipolar. A cooperação entre os dois países avança constantemente e se fortalece com novos projetos conjuntos.

"Nossos dois países, que estiveram na origem do BRICS, são parceiros consistentes e compartilham as ideias semelhantes na criação de uma ordem mundial multipolar verdadeiramente equitativa", disse o presidente russo.

Diplomacia dá lugar a ações unilaterais e perigosas, afirmou o líder russo. Cada vez mais, a diplomacia é substituída por medidas unilaterais, quando alguns países tentam impor sua vontade e ditar como outros devem viver, afirmou o presidente russo Vladimir Putin.

Segundo ele, dezenas de países enfrentam hoje o caos e a ausência de lei, sem possuírem recursos suficientes para se proteger.

O presidente da Rússia, afirmou também que a Rússia segue firmemente comprometida com os princípios de uma ordem mundial multipolar.

Confira outros destaques da declaração do presidente russo:

🔶 Moscou sempre adotou e continuará adotando uma política ponderada e construtiva;

🔶 Rússia defende o reforço do papel central da ONU nos assuntos globais;

🔶 Moscou está disposta a manter relações abertas com aqueles que estiverem prontos para cooperar;

🔶 É necessário exigir o cumprimento do direito internacional por todos os membros da comunidade global;

🔶 A segurança de alguns países não pode ser garantida às custas de outros.

•        EUA entendem consequências da escalada das tensões com Cuba, afirma historiador

Os Estados Unidos avaliam cautelosamente todos os seus passos possíveis em relação a Cuba, porque entendem que o povo cubano nunca permitirá ser invadido, disse o professor da Faculdade de Filosofia e História da Universidade de Havana Pável Alemán.

Na avaliação do historiador cubano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenta tomar decisões cautelosas em relação a Cuba porque compreende a prontidão do povo cubano para lutar contra qualquer agressão externa, custe o que custar.

"Os Estados Unidos devem considerar seriamente as consequências da escalada das tensões [com Cuba]. Embora o povo cubano seja pacífico e trabalhador, está disposto a correr grandes riscos para não se submeter a nenhuma potência", disse Alemán.

Segundo o historiador, é por isso que Washington, como principal opção, continua buscando o isolamento econômico de Cuba na arena regional, construindo uma aliança com governos que compartilham sua estratégia de segurança nacional, tentando dificultar o comércio da ilha e, em particular, o fornecimento de petróleo.

"Independentemente das diferenças que temos entre nós, existe um conceito de pátria que está acima da rivalidade política e das diferenças ideológicas", acrescentou o interlocutor da agência.

Após a invasão da Venezuela pelos EUA em 3 de janeiro e o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, Trump descartou a realização de uma operação semelhante em Cuba, dizendo que o governo da ilha poderia cair até sem isso.

No domingo (11), ele disse que não haveria "mais petróleo ou dinheiro para Cuba da Venezuela" e pediu a Havana que fizesse um acordo com os Estados Unidos "antes que seja tarde demais".

Ao mesmo tempo, nesta quinta-feira (15), a representante oficial do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, afirmou que Moscou classifica como inaceitável o uso de linguagem baseada em chantagem e ameaças em relação à "Ilha da Liberdade", seu povo e seu governo.

•        Venezuela quer fazer parte da nova ordem liderada pelos BRICS, afirma filho de Maduro

O compromisso do país sul-americano tem sido, há muitos anos, construir um mundo multipolar, no qual a Venezuela possa figurar — nas palavras de Hugo Chávez — como uma "potência média", disse o deputado Nicolás Maduro Guerra, filho do presidente venezuelano Nicolás Maduro, à Sputnik nesta quinta-feira (15).

"Nosso único pecado é sonhar que um mundo melhor é possível, sonhar em fechar a brecha da desigualdade", comentou o parlamentar, que acrescentou que Rússia e China se consolidaram como duas grandes potências do século XXI, assim como o Brasil, ao qual classificou como "o gigante sul-americano".

Sobre o sequestro do pai após o ataque dos Estados Unidos contra o país, o deputado afirmou que "Maduro não se entregou, Maduro não se vendeu, Maduro não entregou o país". Na ocasião, o presidente venezuelano foi levado para Nova York, onde segue preso acusado de crimes ligados ao narcotráfico.

Após o episódio, a então vice-presidente Delcy Rodríguez foi nomeada chefe interina do Executivo venezuelano. Mais cedo, a dirigente apresentou no parlamento local um projeto para reformar a Lei de Hidrocarbonetos da Venezuela que permitirá que "fluxos de investimentos sejam incorporados a novos campos [petrolíferos] onde nunca houve investimento e a campos onde não há infraestrutura".

Na ocasião, disse ainda que a Venezuela tem o direito de manter relações com a China, a Rússia e Cuba, e que a agenda energética entre seu país e os Estados Unidos não é nova. "A Venezuela tem o direito de manter relações com a China, com a Rússia, com Cuba, com o Irã, com todos os povos do mundo, e também com os Estados Unidos, fazendo isso de maneira respeitosa", pontuou.

<><> Venezuela tentou aderir ao BRICS em 2024

Em meio às discussões sobre novas adesões ao BRICS em 2024, a entrada da Venezuela como membro-pleno foi vetada na época pelo Brasil, quando o assessor-chefe da Assessoria Especial do Presidente da República do Brasil, Celso Amorim, declarou que o país "não contribuiria" para um melhor funcionamento do grupo.

"O BRICS é um bloco contra-hegemônico, é um bloco a favor do multilateralismo, e o Brasil não poderia sustentar racionalmente esse veto. É irracional, é de ódio, de inveja. Esse veto nega a essência do BRICS, e é por isso que pensamos, espero que não, que o Itamaraty não se torne o cavalo de Troia do BRICS", declarou à época Delcy Rodríguez.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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