Brasil
vê na Rússia um eixo contra a pressão dos EUA na região?
Em uma
longa ligação telefônica na última quarta-feira (15), os presidentes do Brasil,
Luiz Inácio Lula da Silva, e da Rússia, Vladimir Putin, discutiram a
importância de reforçar a coordenação entre os dois países como resposta às
tensões provocadas pelos Estados Unidos na América do Sul.
A
conversa ocorreu por iniciativa da chancelaria brasileira e, conforme
comunicado divulgado por ambos os governos, teve como foco a atual situação na
Venezuela. Na ocasião, Lula e Putin destacaram "as abordagens fundamentais
compartilhadas pela Rússia e pelo Brasil para garantir a soberania estatal e os
interesses nacionais da República Bolivariana", segundo o Kremlin.
Nesse
contexto, os dois líderes também concordaram em coordenar esforços
internacionais para reduzir as tensões no país sul-americano por meio da
Organização das Nações Unidas (ONU) e do BRICS, fóruns que Moscou e Brasília
veem como centrais para a defesa do multilateralismo. Já nesta quinta-feira
(15), durante discurso, Putin voltou a mencionar a aproximação com o Brasil,
que classificou como parceiro estratégico na construção de um sistema
internacional cada vez mais multipolar e "verdadeiramente equitativo".
Membro
da diretoria do Fórum para Tecnologia Estratégica do BRICS e doutoranda em
ciência política pela Universidade de Brasília (UnB), Isabela Rocha afirma à
Sputnik Brasil que o diálogo direto entre Brasília e Moscou ocorre em um
momento em que o Brasil é pressionado a rever sua postura na política externa.
Segundo
a especialista, a leitura de que o país poderia se manter distante das disputas
geopolíticas globais perdeu sustentação diante da escalada de tensões na
América do Sul. "Se a gente ficar toda hora hesitando porque está com medo
da forma como os Estados Unidos vão reagir, eles vão continuar fazendo o que
bem quiserem", destaca.
Na
avaliação da pesquisadora, a crise na Venezuela escancarou os limites dessa
estratégia de neutralidade, uma vez que a atuação dos Estados Unidos no país
vizinho extrapola a retórica diplomática e assume contornos mais amplos. Para
Rocha, trata-se de uma estratégia de Washington que pode ser classificada como
"guerra híbrida", que envolve não apenas ações militares, mas também
ataques comerciais coordenados, como sanções e tarifas.
A
pesquisadora ressalta ainda que esse tipo de ação produz impactos que vão além
das fronteiras venezuelanas. Nesse sentido, aponta que "quando se olha
para a forma como as instituições internacionais, como a própria ONU, estão
sendo descredibilizadas e deixaram de ser um mecanismo de mediação há
anos", percebe-se que esse movimento é instrumentalizado por Washington a
seu favor.
Aliado
a isso, a especialista avalia que o presidente Nicolás Maduro, que segue preso
em Nova York e será julgado nos EUA, ocupa uma posição central na crise e
cumpre também uma função estratégica. "O Maduro vivo é uma ferramenta dos
Estados Unidos para dar continuidade à operação que se iniciou de maneira
cinética, no caso, com a invasão, o bombardeio e o sequestro", afirma.
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Rússia como contrapeso na América do Sul
Diante
desse cenário, a aproximação com a Rússia surge, segundo Rocha, como um
movimento de cálculo estratégico por parte do Brasil, já que Moscou compartilha
de uma mesma visão sobre os desafios globais. "A crise na Ucrânia não está
para se resolver tão cedo, muito menos a da Venezuela", opina, ao avaliar
que esse quadro tende a fortalecer articulações fora do eixo tradicional
liderado pelos Estados Unidos.
Rocha
acrescenta que o fortalecimento de instituições regionais e multilaterais
aparece como alternativa para ampliar a margem de manobra do Brasil. Segundo
ela, o que se pode esperar é que "Lula consiga fortalecer as instituições
brasileiras, também as instituições do Mercosul, com o apoio da Rússia e da
China".
A
pesquisadora também critica o que classifica como excesso de cautela da
diplomacia brasileira nos últimos anos. Para ela, "grande parte disso foi
por estarem com medo da retaliação norte-americana", o que acabou
limitando ações mais assertivas por parte do Brasil e do próprio Mercosul.
Na
avaliação final, Rocha alerta que a pressão externa tende a se intensificar,
independentemente da postura adotada por Brasília. "Os Estados Unidos vão
retaliar e vão agir de maneira agressiva", diz. Por isso, conclui que
"talvez já tenha passado da hora" de o Brasil assumir de forma mais
clara seu papel como potência regional e atuar para se resguardar diante da
ofensiva de Washington.
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Rússia e Brasil compartilham visão sobre uma ordem mundial multipolar, destaca
Putin
Rússia
desenvolve relações estreitas com muitos países da América Latina, enfatizou o
prsidente russo, Vladimir Putin, nesta quinta-feira (15), durante um discurso
no Kremlin.
Putin
destacou que a Rússia e Brasil compartilham visão sobre uma ordem mundial
multipolar. O presidente russo declarou que Moscou e Brasília são parceiras de
visão na construção de um sistema internacional multipolar. A cooperação entre
os dois países avança constantemente e se fortalece com novos projetos
conjuntos.
"Nossos
dois países, que estiveram na origem do BRICS, são parceiros consistentes e
compartilham as ideias semelhantes na criação de uma ordem mundial multipolar
verdadeiramente equitativa", disse o presidente russo.
Diplomacia
dá lugar a ações unilaterais e perigosas, afirmou o líder russo. Cada vez mais,
a diplomacia é substituída por medidas unilaterais, quando alguns países tentam
impor sua vontade e ditar como outros devem viver, afirmou o presidente russo
Vladimir Putin.
Segundo
ele, dezenas de países enfrentam hoje o caos e a ausência de lei, sem possuírem
recursos suficientes para se proteger.
O
presidente da Rússia, afirmou também que a Rússia segue firmemente comprometida
com os princípios de uma ordem mundial multipolar.
Confira
outros destaques da declaração do presidente russo:
🔶 Moscou sempre adotou e continuará
adotando uma política ponderada e construtiva;
🔶 Rússia defende o reforço do papel
central da ONU nos assuntos globais;
🔶 Moscou está disposta a manter
relações abertas com aqueles que estiverem prontos para cooperar;
🔶 É necessário exigir o cumprimento do
direito internacional por todos os membros da comunidade global;
🔶 A segurança de alguns países não pode
ser garantida às custas de outros.
• EUA entendem consequências da escalada
das tensões com Cuba, afirma historiador
Os
Estados Unidos avaliam cautelosamente todos os seus passos possíveis em relação
a Cuba, porque entendem que o povo cubano nunca permitirá ser invadido, disse o
professor da Faculdade de Filosofia e História da Universidade de Havana Pável
Alemán.
Na
avaliação do historiador cubano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
tenta tomar decisões cautelosas em relação a Cuba porque compreende a prontidão
do povo cubano para lutar contra qualquer agressão externa, custe o que custar.
"Os
Estados Unidos devem considerar seriamente as consequências da escalada das
tensões [com Cuba]. Embora o povo cubano seja pacífico e trabalhador, está
disposto a correr grandes riscos para não se submeter a nenhuma potência",
disse Alemán.
Segundo
o historiador, é por isso que Washington, como principal opção, continua
buscando o isolamento econômico de Cuba na arena regional, construindo uma
aliança com governos que compartilham sua estratégia de segurança nacional,
tentando dificultar o comércio da ilha e, em particular, o fornecimento de
petróleo.
"Independentemente
das diferenças que temos entre nós, existe um conceito de pátria que está acima
da rivalidade política e das diferenças ideológicas", acrescentou o
interlocutor da agência.
Após a
invasão da Venezuela pelos EUA em 3 de janeiro e o sequestro do presidente
venezuelano Nicolás Maduro, Trump descartou a realização de uma operação
semelhante em Cuba, dizendo que o governo da ilha poderia cair até sem isso.
No
domingo (11), ele disse que não haveria "mais petróleo ou dinheiro para
Cuba da Venezuela" e pediu a Havana que fizesse um acordo com os Estados
Unidos "antes que seja tarde demais".
Ao
mesmo tempo, nesta quinta-feira (15), a representante oficial do Ministério das
Relações Exteriores, Maria Zakharova, afirmou que Moscou classifica como
inaceitável o uso de linguagem baseada em chantagem e ameaças em relação à
"Ilha da Liberdade", seu povo e seu governo.
• Venezuela quer fazer parte da nova ordem
liderada pelos BRICS, afirma filho de Maduro
O
compromisso do país sul-americano tem sido, há muitos anos, construir um mundo
multipolar, no qual a Venezuela possa figurar — nas palavras de Hugo Chávez —
como uma "potência média", disse o deputado Nicolás Maduro Guerra,
filho do presidente venezuelano Nicolás Maduro, à Sputnik nesta quinta-feira
(15).
"Nosso
único pecado é sonhar que um mundo melhor é possível, sonhar em fechar a brecha
da desigualdade", comentou o parlamentar, que acrescentou que Rússia e
China se consolidaram como duas grandes potências do século XXI, assim como o
Brasil, ao qual classificou como "o gigante sul-americano".
Sobre o
sequestro do pai após o ataque dos Estados Unidos contra o país, o deputado
afirmou que "Maduro não se entregou, Maduro não se vendeu, Maduro não
entregou o país". Na ocasião, o presidente venezuelano foi levado para
Nova York, onde segue preso acusado de crimes ligados ao narcotráfico.
Após o
episódio, a então vice-presidente Delcy Rodríguez foi nomeada chefe interina do
Executivo venezuelano. Mais cedo, a dirigente apresentou no parlamento local um
projeto para reformar a Lei de Hidrocarbonetos da Venezuela que permitirá que
"fluxos de investimentos sejam incorporados a novos campos [petrolíferos]
onde nunca houve investimento e a campos onde não há infraestrutura".
Na
ocasião, disse ainda que a Venezuela tem o direito de manter relações com a
China, a Rússia e Cuba, e que a agenda energética entre seu país e os Estados
Unidos não é nova. "A Venezuela tem o direito de manter relações com a
China, com a Rússia, com Cuba, com o Irã, com todos os povos do mundo, e também
com os Estados Unidos, fazendo isso de maneira respeitosa", pontuou.
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Venezuela tentou aderir ao BRICS em 2024
Em meio
às discussões sobre novas adesões ao BRICS em 2024, a entrada da Venezuela como
membro-pleno foi vetada na época pelo Brasil, quando o assessor-chefe da
Assessoria Especial do Presidente da República do Brasil, Celso Amorim,
declarou que o país "não contribuiria" para um melhor funcionamento
do grupo.
"O
BRICS é um bloco contra-hegemônico, é um bloco a favor do multilateralismo, e o
Brasil não poderia sustentar racionalmente esse veto. É irracional, é de ódio,
de inveja. Esse veto nega a essência do BRICS, e é por isso que pensamos,
espero que não, que o Itamaraty não se torne o cavalo de Troia do BRICS",
declarou à época Delcy Rodríguez.
Fonte:
Sputnik Brasil

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