Identidade
Digital: A Colômbia sob o colonialismo de dados
Os
sistemas biométricos têm se expandido e as identidades digitais, meios pelos
quais o cidadão se identifica oficialmente e autentica documentos, representam
uma nova fronteira. O Sul Global, em especial, é visto como um “campo de
testes” pelas big techs que fornecem essas tecnologias, que ironicamente
enfrentam resistências em seus países de origem.
Um
exemplo é o que acontece na Colômbia, que recentemente implantou a Cédula
Digital Colombiana, funcionando como uma identidade digital e também como
autenticador. O documento integra diversos serviços governamentais, permite
assinar documentos, realizar autenticação bancária e é necessário para acessar
políticas públicas.
Uma
parceria entre o órgão de registro civil colombiano (Registraduría Nacional del
Estado Civil ou RNEC) e a empresa de francesa IDEMIA define a infraestrutura de
identificação do país há mais de duas décadas. Essa relação revela uma profunda
integração que transcende os interesses públicos e privados.
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Problemas encontrados na Cédula Digital
Há uma
contradição no que se refere responsabilidade de quem controla os dados
pessoais da Cédula Digital Colombiana. Legalmente, esse papel caberia à RNEC,
mas, em nenhum momento, a IDEMIA é citada nas licenças, nas lojas de
aplicativos ou documentos apresentados aos usuários. No entanto, a investigação
técnica da Karisma demonstrou que há comunicação intermitente com os servidores
da multinacional durante o uso do aplicativo. Além disso, há outros traços
deixados que remetem aos termos de uso nos servidores da IDEMIA, permitindo,
inclusive, compartilhamento de dados para fins de marketing.
Encontrar
essas evidências não seria surpreendente, já que a IDEMIA foi contratada para
isso pelo Estado colombiano. A questão é que existem diversos pontos obscuros
nessa relação, como quem é responsável pelo tratamento e controle dos dados dos
cidadãos. Toda a infraestrutura da IDEMIA, incluindo os servidores, opera em
servidores da Amazon fora do território colombiano, e isso entraria em conflito
com a lei de proteção de dados do país.
Essas
preocupações levantam questões sobre soberania digital e sobre o colonialismo
de dados, envolvendo o tratamento de dados de pessoais e até compartilhado fora
de suas fronteiras. E o problema não parece estar restrito só à Colômbia. A
mesma empresa já estabeleceu negócios com o Chile, Indonésia, Botsuana, Líbia,
Chade, Mali, Nigéria, Quênia e Costa do Marfim. Nesses países, os governos
criaram ou modificaram seus sistemas de identidade para utilizar as
infraestruturas proprietárias da empresa francesa.
Isso
gera dependência por meio de parcerias público-privadas para o estabelecimento
dos sistemas locais de identificação e autenticação, segundo Lopez-Solano e
Castañeda.
Mas há
outros problemas encontrados pela investigação da Fundação Karisma. No código
dos arquivos de configuração, há menção de “nível baixo” para a segurança dos
dados biométricos utilizados no aplicativo. Essas evidências não são exatamente
provas de qualquer vazamento de dados, mas indicam que a proteção dos dados dos
cidadãos pode estar frágil na infraestrutura da IDEMIA.
Por
fim, verificou-se a existência de rastreadores – conhecidos como SDKs – que
permitem monitorar ações ou modos de utilização do aplicativo. Esses
rastreadores não são mencionados nos termos de uso do aplicativo e, para
piorar, identificou-se que alguns deles estão relacionados a serviços externos,
como os do Google, indicando uma possível transferência de informações para
outras big techs.
Segundo
o relatório da Karisma: (…) “sua presença pode permitir o rastreamento de
usuários e a transmissão de dados para empresas do setor de marketing, o que
representa riscos significativos em termos de privacidade e proteção de dados
pessoais.” Ainda que esses rastreadores sejam uma herança do aplicativo-mãe da
empresa e que não estejam sendo utilizados, o mais razoável seria uma limpeza
do código desnecessário para o fornecimento da tecnologia a um novo cliente.
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Capitalismo de vigilância no Sul Global
A
Cédula Digital colombiana se enquadra como um bom exemplo no eixo de pesquisa
que OplanoB classifica como “capitalismo de vigilância no Sul Global”. Esse
eixo foca na análise da centralidade econômica e nas razões do sucesso desse
fenômeno do Capitalismo de Vigilância no Sul Global. Também permite refletir
sobre as relações entre big techs do Norte, sejam elas europeias ou
estadunidenses, e como essas parcerias são amplificadas em um espaço geográfico
de “testes” para expandir suas tecnologias de coleta, processamento e
vigilância, a despeito de da soberania dos países ou de seus cidadãos.
A
utilização de identificação digital não é uma exclusividade da Colômbia,
OplanoB já reportou vários aspectos referentes ao caso da Índia e o seu robusto
sistema Adahar, onde questões de limites entre público e privado também são
temas de várias pesquisas, como o texto “Sistema de identificação biométrica da
Índia faz elo entre passado colonial e nacionalismo tecno-cultural”. O caso
latino-americano, no entanto, evidencia uma questão mais preocupante de uma
empresa do Norte explorando os dados num país do Sul Global.
Fonte:
Por Fabricio Solagna, em Outras Palavras

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