quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Terras Indígenas: o inferno que o bolsonarismo legou

Bolsonaro está preso há mais de 50 dias. Mas o bolsonarismo segue vivo na sociedade brasileira e assombra, sobretudo, os povos indígenas e a floresta amazônica. A prisão do ex-presidente não aniquilou a política que ele espalhou. A doutrina continua rondando as Terras Indígenas como uma autorização tácita para invadir, ameaçar, garimpar, grilar, queimar e matar.

No governo Lula, parte do funcionalismo tenta recompor o básico, mas a contradição salta aos olhos. Até porque quem subiu a rampa de mãos dadas com Lula na posse foi o cacique Raoni, não um ruralista de chapéu do centrão. Contudo, no dia a dia, o Planalto não larga a mão do agronegócio e das grandes obras que favorecem o setor e ameaçam povos originários. Essa tensão atravessa o Lula 3 e chega às aldeias.

O caso da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, é exemplar. Ali, invasores seguem tentando reabrir disputa sobre um território já reconhecido, usando atalhos burocráticos e uma memória institucional deformada nos anos Bolsonaro. O que não deu certo na marra passa a ser tentado no papel.

Documentos produzidos no ciclo de desmonte viram munição para ruralistas e parlamentares da extrema direita tentarem empurrar grileiros de volta para dentro de áreas protegidas. Detalhei isso em reportagem publicada recentemente na Repórter Brasil, mostrando como atos e pareceres da Funai no governo Bolsonaro seguem sendo usados contra a retirada de invasores em Rondônia.

O mesmo padrão aparece com ainda mais violência na Terra Indígena Apyterewa, no Pará, por anos o território indígena mais desmatado do País. A desintrusão retirou milhares de invasores e dezenas de milhares de cabeças de gado criadas ilegalmente. Mas a retirada não encerrou o conflito.

Vale explicar que desintrusão é uma operação do Estado para retirar não indígenas que ocupam ilegalmente um território indígena, desmontar estruturas de invasão e tentar garantir que a área volte a ser, de fato, dos povos que têm direito a ela.

No caso de várias terras, essas retiradas foram determinadas e monitoradas pelo Supremo no âmbito da ADPF 709, sigla de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, uma ação usada para obrigar o poder público a evitar ou reparar violações graves de direitos constitucionais.

O problema é o dia seguinte da desintrusão. Na Apyterewa, o pós-desintrusão virou um campo de batalha. Um vaqueiro contratado para apoiar a retirada de gado ilegal levou um tiro no pescoço e morreu em emboscada, há um mês.

Lideranças relatam uma sequência de ataques desde a retomada. A associação indígena cobrou presença permanente do Estado e descreveu o pós-desintrusão como período de riscos elevados.

Retirar invasor é necessário, mas não é suficiente. Se o Estado desmonta a operação e some, o território vira um vazio valioso. E vazios, na Amazônia, costumam ser ocupados por quem tem arma, dinheiro e logística.

Durante a COP30, em Belém, entrevistei a coordenadora de acompanhamento de desintrusão do Ministério dos Povos Indígenas, Julia Ospina Kimbaya. Ela foi direta ao descrever a lógica do crime: quando apertado, ele se desloca. O garimpo não some. Ele muda de endereço.

Essa engrenagem aparece hoje com força na Terra Indígena Sararé, no Mato Grosso, território dos Nambikwara. Com pouca gente e muita pressão externa, a área virou alvo prioritário do garimpo ilegal. Em 2025, foram 1.814 alertas de garimpo ilegal na Sararé, e operações destruíram acampamentos e maquinário.

Quando o garimpo entra, ele não chega sozinho. Vem com pista clandestina, combustível, escavadeira, atravessador e pistoleiro. Se o Estado tira os invasores e sai da área, essa estrutura retorna. Sem uma política permanente de pós-desintrusão, o governo apenas adia o próximo ataque ao território.

Nada disso teria a escala atual se o País não tivesse atravessado quatro anos de desmonte deliberado no governo Bolsonaro. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), no quadriênio 2019–2022 houve 1.133 casos de invasões possessórias, exploração ilegal e danos ao patrimônio em Terras Indígenas, 795 assassinatos de indígenas e 3.552 mortes de crianças indígenas de até quatro anos, além de nenhum avanço do governo federal na demarcação naquele período.

No território Yanomami e Ye’kwana, o mesmo relatório registra 621 mortes de crianças de 0 a 4 anos entre 2019 e 2022. E o governo Bolsonaro foi avisado. Em 2022, a Hutukara Associação Yanomami, entidade criada pelos próprios Yanomami para se fortalecer e cobrar providências do Estado, enviou 21 ofícios a órgãos públicos ao longo de dois anos, alertando para ataques e risco de genocídio.

Bolsonaro nunca escondeu sua visão. Em 1998, ainda deputado, disse que a cavalaria norte-americana foi eficiente ao dizimar seus indígenas e lamentou que o Brasil não tivesse feito o mesmo. Essa ideologia não ficou só no folclore. Foi lida como incentivo.

O ex-presidente está preso por causa da trama golpista. Mas o bolsonarismo continua rondando a Amazônia como um dragão de sete cabeças. Flávio e Michelle Bolsonaro e quatro governadores, Tarcísio, Zema, Ratinho e Caiado, disputam o eleitorado da extrema direita e oferecem, cada um à sua maneira, continuidade política a esse campo.

A sétima cabeça desse dragão se mexe com ares de doutrina. Aldo Rebelo, ex-dirigente do PCdoB e ex-ministro em governos do PT, confirmou que será candidato à Presidência pelo Democracia Cristã, com ato de oficialização anunciado para 31 de janeiro, em São Paulo.

Aliados de Flávio Bolsonaro aventam o nome do ex-comunista como possibilidade de vice. Há tempos, Rebelo circula por debates ligados à Amazônia e é tratado por segmentos do agronegócio como um formulador, alguém que tenta dar verniz nacional a uma agenda que ataca demarcações e defende mineração em terras indígenas.

Lula governa em contradição. Como já escrevi algumas vezes nesta CartaCapital, o Planalto sustenta megaprojetos que atravessam áreas sensíveis e terras indígenas, enquanto tenta, ao mesmo tempo, recompor parte da política indigenista que Bolsonaro desmontou.

Ainda assim, há uma diferença concreta que não cabe no cinismo do “tudo igual”. O Ministério dos Povos Indígenas foi criado no atual governo. Sonia Guajajara chegou à Esplanada com trajetória no movimento indígena e com vínculo à Apib, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.

O cocar da ministra na mesa de reuniões institucionaliza a disputa e, em muitos momentos, serve como barreira interna contra a lógica que Bolsonaro transformou em governo. Isso não apaga críticas, nem elimina contradições do mandato de Guajajara, mas muda o papel do Estado.

Nas Terras Indígenas, essa diferença pode significar a sobrevivência. O dragão de sete cabeças continua rondando. A pergunta do ano é se o Brasil vai permitir que ele volte ao centro do poder e trate, mais uma vez, os povos indígenas como obstáculo a ser removido.

•        Governo do Brasil alcança 9 mil operações e garimpo ilegal tem queda de 98,77% na Terra Yanomami

Entre março de 2024 e janeiro de 2026, dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), órgão responsável pelo monitoramento ambiental e territorial da Amazônia por meio de imagens de satélite e sistemas de inteligência, indicaram uma redução de 98,77% das áreas de garimpo ativo na Terra Indígena Yanomami. No período de maior pressão (2024), o garimpo ilegal ocupava cerca de 4.570 hectares do território. Ao final de 2025, a área identificada como garimpo ativo havia sido reduzida para 56,13 hectares.

Essa redução territorial teve impacto direto sobre a estrutura econômica do garimpo ilegal, com prejuízos estimados em mais de R$ 642 milhões, atingindo desde os pontos de extração até as rotas de abastecimento e escoamento do ouro.

As 9 mil ações resultam de uma atuação contínua coordenada pela Casa de Governo, em Roraima, envolvendo o Ministério dos Povos Indígenas, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Força Nacional de Segurança Pública, a Polícia Federal, a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a Polícia Judiciária da Força Nacional (PJFN), o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira. As operações se basearam em fiscalização em campo, ações de inteligência, controle do espaço aéreo e fluvial e bloqueio das rotas logísticas utilizadas por invasores.

Como resultado dessas ações, foram inutilizadas 45 aeronaves, 77 pistas de pouso clandestinas e 762 acampamentos, além da apreensão de combustíveis, motores, embarcações e outros equipamentos utilizados na atividade garimpeira.

No mesmo contexto, em 2025, o cerco às rotas logísticas foi intensificado, com ações estratégicas em eixos sensíveis do território, como a região do rio Uraricoera, historicamente utilizada como corredor de acesso por garimpeiros. Nessas áreas, o bloqueio fluvial, a destruição de estruturas ilegais e a presença permanente das forças de segurança reduziram a circulação de invasores.

<><> Apreensão de ouro e mercúrio

No acumulado de 2024 e 2025, foram apreendidos 249 quilos de ouro em Roraima, sendo cerca de 213 quilos apenas em 2025, enfraquecendo diretamente a base financeira que sustenta a cadeia logística do garimpo ilegal, desde a extração até o transporte e o escoamento do minério.

Outro dado relevante foi a apreensão de 232 quilos de mercúrio, insumo fundamental para o funcionamento do garimpo ilegal e diretamente associado à contaminação de rios e do solo. As apreensões ocorreram desde a abertura da Casa de Governo, como parte do controle da cadeia logística do garimpo ilegal.

Além dos efeitos econômicos e operacionais, a diminuição da presença de garimpeiros teve impactos diretos na segurança das comunidades, de equipes de saúde, agentes ambientais e profissionais que atuam na região. Com menos invasores circulando, houve redução de conflitos e a retomada gradual de atividades tradicionais, como as roças e a pesca.

Ao atingir, no início de 2026, a marca de 9 mil ações, o enfrentamento ao garimpo ilegal entra em uma fase de continuidade sistemática, com foco na prevenção de novas tentativas de ocupação, no monitoramento permanente, e em melhorias contínuas no âmbito ambiental e social.

 

Fonte: Carta Capital/MPI

 

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