A
confissão que chocou país em caso misterioso de sequestro de pastor
Quando
Susanna Liew se colocou diante das câmeras de TV na Suprema Corte de Kuala
Lumpur (Malásia) em novembro, ela descreveu o momento como um "marco
histórico e emocionante".
"Hoje…
a Suprema Corte proferiu uma decisão que confirma o que há muito acreditávamos:
que o pastor Raymond Koh foi vítima de uma grave injustiça", afirmou a
mulher de 69 anos, com a voz trêmula, naquela noite.
Foi uma
vitória jurídica duramente conquistada e ao mesmo tempo impressionante em um
caso que se tornou um dos maiores mistérios da Malásia.
Quase
nove anos antes, o marido de Liew havia sido sequestrado por homens mascarados,
em plena luz do dia. O rapto foi registrado por câmeras de vigilância e manteve
o país em dúvida por anos.
A
Suprema Corte decidiu que a divisão especial da polícia levou Raymond Koh e
responsabilizou tanto a polícia quanto o governo da Malásia pelo primeiro caso
de desaparecimento forçado da história do país analisado por um tribunal.
Durante
anos, Liew lutou para descobrir o que aconteceu com o marido, passando de
esposa de um pastor comum para uma ativista incansável.
Ela
talvez nunca saiba ao certo por que o seu marido foi levado, mas duas
investigações oficiais independentes concluíram que a polícia via o pastor como
uma ameaça ao islã, religião majoritária na Malásia.
Em
entrevista à BBC pouco depois da vitória judicial, Liew disse que foi movida
pela busca por justiça.
Como
captura de Nicolás Maduro pelos EUA pode influenciar ações de Rússia e China
"Uma
voz [dentro de mim] disse… 'Então eles o levaram em segredo, eu vou contar isso
ao mundo inteiro'."
Em 13
de fevereiro de 2017, pouco depois das 10h, o pastor Raymond Koh, então com 63
anos, saiu da casa da família para encontrar amigos.
Quando
ele deixava a residência, em um bairro tranquilo de Kuala Lumpur, uma fila de
veículos utilitários esportivos e motocicletas avançou rapidamente em direção
ao seu carro.
Homens
mascarados, vestidos de preto, saltaram dos veículos. Estilhaços de vidro
voaram por toda parte quando eles quebraram uma das janelas do carro de Koh e
arrancaram o pastor de dentro do veículo. Em seguida, eles o colocaram à força
em um dos carros do grupo e fugiram, levando também o carro de Koh.
O
sequestro durou apenas alguns segundos. Foi tão dramático que uma testemunha
que dirigia logo atrás de Koh afirmou mais tarde que pensou se tratar da
gravação de um filme.
Nos
dias seguintes, os filhos de Koh bateram de porta em porta em busca de pistas
sobre o desaparecimento do pai e descobriram que câmeras de vigilância de duas
casas haviam registrado todo o incidente.
Ao
assistir às imagens, a família percebeu que não se tratava de um sequestro
comum. A ação foi meticulosa e bem coordenada. Além disso, eles não receberam
pedido de resgate nem foram contatados por sequestradores.
Alguns
meses antes, em novembro de 2016, um ativista chamado Amri Che Mat, do Estado
de Perlis, no norte do país, havia sido sequestrado de maneira quase idêntica.
A
família de Koh procurou a imprensa, e as imagens das câmeras de segurança se
espalharam rapidamente após serem publicadas online por um jornal local.
A
pressão da opinião pública por respostas levou a Comissão de Direitos Humanos
da Malásia, órgão independente criado pelo Parlamento, a abrir uma
investigação. Posteriormente, o governo também instaurou uma apuração separada.
Muitos
passaram a especular que a divisão especial da polícia, principal agência de
inteligência e segurança interna da Malásia, estivesse envolvida.
A
polícia, no entanto, negou qualquer participação, e seu chefe chegou a pedir
publicamente que as pessoas "por favor, se calassem" para que as
autoridades pudessem investigar o desaparecimento em paz.
Meses
depois, ao fim das investigações, a polícia afirmou que Koh havia sido levado
por uma quadrilha de tráfico de drogas. Em outro desdobramento, um motorista de
Uber chegou a ser preso sob acusação de sequestro, mas a denúncia acabou sendo
arquivada. Ambas as linhas de investigação foram posteriormente consideradas
não críveis pela comissão de direitos humanos no relatório final do caso.
Enquanto
isso, o desaparecimento de Koh cobrou um preço alto da família.
Liew
passou a vender joias artesanais para pagar as contas, ao mesmo tempo em que
recorreu às economias e a doações para custear a universidade da filha mais
nova.
Ela
afirma que esperava encontrar solidariedade por parte da polícia. Em vez disso,
na noite em que registrou o desaparecimento do marido, diz ter sido interrogada
por cinco horas sobre a possibilidade de Koh ter tentado converter muçulmanos
ao cristianismo. "Fiquei muito traumatizada."
Mais
tarde, durante a audiência da investigação da comissão de direitos humanos, o
policial responsável pelo interrogatório declarou que havia recebido ordens de
seus superiores para seguir essa linha de apuração porque Koh era pastor.
Em
2011, Koh havia sido acusado de apostasia, abandono público de uma religião ou
renúncia da fé, o que é crime em um país de maioria muçulmana como a Malásia,
após organizar uma festa em uma igreja da qual participaram também alguns
muçulmanos.
Ele foi
investigado por autoridades islâmicas, mas nenhuma medida foi adotada. Koh e a
família sempre negaram que ele estivesse tentando converter muçulmanos.
Nos
anos seguintes ao desaparecimento do marido, afirma Liew, ela sentiu que
"a polícia não foi transparente na investigação e, em alguns momentos,
chegou a nos atrapalhar na busca pela verdade, criando pistas falsas".
A
família sustenta há muito tempo que as teorias apresentadas pela polícia foram
tentativas de encobrir o envolvimento das próprias autoridades no sequestro.
A BBC
procurou a polícia da Malásia para comentar as acusações. Até a publicação da
reportagem, não houve resposta.
À
medida que a busca por respostas se arrastava, todos na família passaram a
enfrentar quadros de depressão, diz Liew. Ela ainda sofre de crises de pânico e
transtorno de estresse pós-traumático.
Mas
então houve uma reviravolta.
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O carro e a confissão
Numa
noite de maio de 2018, um homem apareceu na casa de Norhayati, esposa de Amri
Che Mat, o ativista que havia sido sequestrado em 2016.
Identificando-se
como sargento da polícia, ele trouxe uma informação chocante: a divisão
especial da polícia da Malásia havia, de fato, sequestrado o marido dela (Amri
Che Mat) e também Raymond Koh.
Segundo
o policial, a polícia acreditava que Koh tentava converter muçulmanos ao
cristianismo e que Amri Che Mat estava difundindo o islamismo xiita, proibido
na Malásia, país de maioria sunita.
O
sargento da polícia afirmou que decidiu contar o que havia acontecido porque
considerava errado o que a divisão especial tinha feito.
O
relato de Norhayati sobre essa confissão foi investigado pela comissão de
direitos humanos e acabou considerado crível. Embora o sargento tenha negado
posteriormente ter feito a confissão, a comissão concluiu que a negativa estava
repleta de inconsistências.
Depois,
surgiu um carro dourado.
Uma
testemunha do sequestro de Koh relatou ter visto um Toyota Vios dourado, um
veículo semelhante havia sido avistado perto da casa de Amri Che Mat antes de
seu desaparecimento. O sargento também mencionou a presença de um carro dourado
nos dois sequestros.
Os
investigadores da comissão de direitos humanos rastrearam o veículo até um
homem em Kuala Lumpur que trabalhava para a divisão especial.
Em
abril de 2019, a comissão concluiu que a divisão especial foi responsável pelos
sequestros de Raymond Koh e Amri Che Mat. Segundo o relatório, os dois homens
foram "alvos das autoridades religiosas e da polícia por alegações de
envolvimento em atividades contrárias ao islã na Malásia".
O
documento chocou os malaios, e parte da população passou a exigir
responsabilização. Meses depois, o governo abriu sua própria investigação, cujo
conteúdo só se tornou público após Liew e Norhayati entrarem na Justiça para
ter acesso aos dados.
A
investigação governamental chegou a uma conclusão semelhante, atribuindo o caso
a "policiais desonestos e irresponsáveis".
O
relatório também apontou um "principal suspeito": Awaludin bin Jadid,
alto funcionário da divisão especial que chefiava a unidade responsável por
combater o extremismo social. O texto registra que ele tinha "visões
extremas" contra o islamismo xiita e o cristianismo e que, em discursos
públicos, retratava ambas as religiões como ameaças ao islã.
A BBC
tentou contato com Awaludin, hoje aposentado, para comentar as conclusões. Até
a publicação da reportagem, não houve resposta.
Anteriormente,
Awaludin havia negado qualquer envolvimento no desaparecimento de Amri Che Mat
e afirmou que a força-tarefa governamental responsável pelo relatório era
"tendenciosa" contra ele.
Em
2020, Liew entrou com uma ação civil em seu nome e no do marido desaparecido
contra vários altos oficiais da polícia, a Polícia Real da Malásia e o governo
do país.
Ela os
responsabilizava pelo desaparecimento forçado de Koh — que envolve o sequestro
e a ocultação de seu paradeiro — e exigiu que revelassem onde ele está.
No mês
passado, um juiz da Suprema Corte concluiu que, entre os oficiais de polícia
citados na ação e a Polícia Real da Malásia, "um ou mais" foram
responsáveis pelo sequestro de Raymond Koh e por uma "conspiração que
resultou em danos".
Como se
tratava de funcionários públicos atuando sob a autoridade do Estado, "o
governo deve responder pelos danos causados" e, portanto, tinha
"responsabilidade indireta", afirmou o juiz.
Além de
conceder a Liew uma indenização de vários milhões de ringgits (moeda oficial da
Malásia) por danos emocionais, o juiz determinou o pagamento de 10 mil ringgits
(cerca de R$ 11 mil) por cada dia de desaparecimento a um fundo fiduciário até
que seu paradeiro seja revelado.
Até o
momento, esse valor já ultrapassou 32 milhões de ringgits (cerca de R$ 35
milhões), e o montante final deve se tornar a maior indenização da história da
Malásia. Os recursos do fundo, que só serão liberados quando o paradeiro de Koh
for divulgado, provavelmente irão para Liew e seus filhos.
Norhayati,
que também entrou com uma ação judicial, venceu o processo e recebeu uma
indenização de vários milhões de ringgits.
O
governo, no entanto, recorre das decisões, alegando haver "questões
relacionadas a obrigações financeiras" e a necessidade de "defender o
princípio da justiça universal".
Também
afirmou que a polícia segue investigando os sequestros.
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'Paralisados pelo luto'
Liew
espera que o governo desista do recurso. "Eu me sentiria muito cansada se
tivesse de passar por tudo isso novamente", disse à BBC.
A
família já está exausta pela "incerteza de não saber onde o pastor Raymond
está… é como se estivéssemos paralisados pelo luto e não conseguíssemos seguir
em frente".
"Se
soubéssemos que ele está morto e tivéssemos o corpo, ao menos poderíamos
enterrá-lo e seguir. Mas, neste momento, estamos em um limbo. Não sabemos: ele
está morto ou vivo? E isso nos afeta muito."
Liew se
emocionou ao pensar na possibilidade de o marido estar morto. "Vai ser
muito difícil aceitar isso", afirmou, acrescentando que "quer manter
a esperança" de que o marido esteja vivo.
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'Estamos paralisados pelo luto', diz Susanna Liew, esposa de Koh
Legenda
da foto,'Estamos paralisados pelo luto', diz Susanna Liew, esposa de Koh
Mas o
tempo tem ajudado a família a se recompor. Inspirada pelos terapeutas que a
ajudaram a enfrentar a depressão, Liew vem se preparando para se tornar uma
terapeuta.
Contar
sua história também foi uma "catarse", disse. Ao longo dos anos, ao
viajar pelo mundo para chamar atenção para o caso do marido, ela se tornou uma
crítica contundente dos desaparecimentos forçados. Em 2020, os Estados Unidos
concederam a ela a medalha internacional Mulheres de Coragem.
"Eu
nunca imaginei que estaria neste lugar. Oito anos atrás, eu era apenas uma dona
de casa e uma pessoa discreta", disse.
Liew
também chegou a um momento de virada no plano pessoal: ela perdoou os homens
que acredita terem levado o seu marido.
Durante
o julgamento, ao ver os réus da ação prestarem depoimento, no início "eu
sentia vontade de apertar o pescoço deles. Eu estava com raiva".
"Mas
percebi que, quando fiquei frente a frente com o principal suspeito, não senti
ódio… Quero estar realmente correta e pura diante de Deus, sem nenhuma sombra
ou escuridão na minha vida."
O
perdão, no entanto, não significa que ela vá interromper a busca por justiça.
Ela
agora pede que as autoridades criem um órgão disciplinar para fiscalizar a
conduta policial, além de uma comissão de inquérito e uma força-tarefa para
identificar todas as pessoas envolvidas no sequestro do marido.
Até
agora, nenhum dos policiais citados na ação judicial foi preso ou punido. Um
deles chegou a ser promovido.
"O
que realmente queremos é que a verdade e a justiça prevaleçam, que os
responsáveis sejam responsabilizados e que possamos ter um encerramento
adequado", afirmou. "Isso significa saber onde está o pastor Raymond
Koh."
Fonte:
Por Tessa Wong, da BBC News em Kuala Lumpur (Malásia)

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