"É
terrível. Trump está sancionando o retorno à lei da selva", afirma Francis
Fukuyama
O
cientista político americano que previu o fim da história analisa as
consequências da intervenção
dos EUA na Venezuela.
"Os países da OTAN e da UE devem parar de ceder às
pressões do presidente." Longe do fim da história, Francis
Fukuyama teme
o que o futuro lhe reserva: "O ataque na Venezuela deixou claro
que a doutrina Trump é
puro imperialismo,
um retorno à lei da selva motivado unicamente pela sede de
enriquecimento." Por isso, o acadêmico da Universidade
Stanford faz um apelo aos aliados europeus: "Vocês precisam parar com
a política de apaziguamento e fazer todo o possível para contê-la, porque a
próxima vítima pode ser vocês, com uma guerra interna dentro
da OTAN."
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Eis a entrevista.
- Maduro não era
nenhum santo, mas o que está acontecendo após sua prisão?
Trump deixou claro
que seu único objetivo é o petróleo venezuelano. Ele não está
interessado em María Corina
Machado ou
na democracia, mas quer trabalhar com a vice de Maduro, Delcy
Rodríguez, e com o que restou do regime para obter acesso aos recursos do país.
Eu pensei que ele tentaria restaurar o presidente legitimamente
eleito, Edmundo González Urrutia, ao poder, mas não é o caso. Agora, a
verdadeira questão é se Rodríguez terá força suficiente para subjugar as forças
armadas e as gangues criminosas que governam a Venezuela à
vontade de Trump.
- Então o
presidente está buscando um acordo com o regime, para que seja vantajoso
para ele?
Exatamente,
ele quer se entregar a um governo completamente ilegítimo. Isso é um enorme
erro político, porque o problema da Venezuela era o regime,
não Maduro. Não é que Nicolás fosse um gênio do mal e que, uma vez
removido, tudo se resolverá milagrosamente. O problema fundamental era e
continua sendo o regime. Trump pensa que pode manipulá-lo, ainda ameaçando com
o uso da força, para garantir mais alguns contratos para a Chevron ou
outras petrolíferas americanas, mas, ao fazer isso, está colaborando com criminosos.
É terrível; isso é puro imperialismo de tempos desastrosos enterrados
no passado.
- Será que o povo
da Venezuela será obrigado a aceitar isso?
Depende
da coesão das forças de segurança. Havia muitos indícios de insatisfação dentro
do establishment. A maioria dos soldados votou em Machado no ano
passado, enquanto os oficiais têm interesse pessoal em manter o status
quo. Além disso, certamente, muitos dentro do regime se perguntam por que
deveriam colocar Rodríguez à frente do Estado em vez deles. Portanto,
há uma boa chance de essa coalizão se desintegrar e tudo pode acontecer. A
maioria da população, no entanto, não ficará satisfeita, e os refugiados não voltarão
para casa, apenas para se encontrarem na mesma situação de antes.
- A prisão de
Maduro foi legítima?
Certamente
violou a Carta da ONU, mas os Estados Unidos já fizeram isso
muitas vezes antes. O pior serão as consequências para as normas que regem as
relações internacionais, porque os EUA anunciaram abertamente que seu único
interesse é o enriquecimento pessoal. Só queremos petróleo, que foi o motivo
pelo qual todos nos criticaram durante nossas intervenções no Oriente
Médio. Não estamos interessados em democracia, estabilidade ou
desenvolvimento humano, mas apenas em dinheiro. Isso dá permissão para qualquer
outro país fazer o mesmo, já que os EUA estão fazendo. É terrível; Trump está
sancionando o retorno à lei da selva.
- Então, Putin se
sentirá no direito de atacar a Europa e Xi para retomar o controle
de Taiwan?
Sem
dúvida. A Rússia e a China pelo menos tentam justificar
suas reivindicações com base em fundamentos históricos ou políticos, enquanto
os EUA estão ocupando um país estrangeiro sem qualquer aparência de
legitimidade. De agora em diante, qualquer um pode fazer qualquer coisa.
- Por que o
presidente eleito que defendeu o lema "America First"
(Estados Unidos em Primeiro Lugar) agora está abraçando a mudança de
regime?
Não, é
muito pior do que isso. Gostemos ou não, a mudança de regime neoconservador
baseava-se em valores como a disseminação da liberdade e da democracia. Com o
retorno de Trump à Casa Branca, a política
externa americana não
tem mais princípios; apenas sua psicologia pessoal importa. Ele se viu com uma
ferramenta poderosa para conseguir o que quer — as forças armadas americanas —
e está usando-a. Agora, ele está mirando no Irã, em Cuba e
na Groenlândia. Durante a campanha
eleitoral, ele prometeu isolacionismo, mas com ele, os EUA estão
se tornando a força mais desestabilizadora do mundo. Estou realmente preocupado
com o que acontecerá a seguir.
- Mas não seria
isso uma traição ao seu movimento MAGA, pelo qual ele corre o risco de
pagar caro?
Depende
de como as coisas se desenrolarem.
Se Gaza, Venezuela e Irã permanecerem
instáveis, arrastando os EUA para seus conflitos, haverá uma grande
revolta não apenas no mundo dos apoiadores de Trump, mas também entre pessoas
como eu. Se, no entanto, ele tiver sorte e as coisas se acalmarem, sua base o
aceitará, mesmo que seja contra o intervencionismo.
- As eleições de
meio de mandato de novembro darão o veredito?
Sim,
com certeza.
Qual
é a sua expectativa para o próximo passo?
Ele
está falando muito sobre a Groenlândia.
- Mas isso seria
atacar um país membro da OTAN.
Sim, e
essa é uma questão interessante: como se aplicaria a defesa comum prevista
no Artigo 5? Presumo que, se
atacasse, o resto da Aliança se oporia e tentaria mediar. Mas não conseguiriam
impedi-lo, e assim teríamos uma guerra entre dois membros da OTAN.
- Isso não seria
uma receita para a Terceira Guerra Mundial, talvez incentivando a Rússia e
a China a atacarem?
Não
sei, nunca estivemos numa área como esta antes. Mas tudo pode acontecer.
- O governo odeia
os europeus e até incluiu isso na estratégia nacional, mas será que os
aliados poderiam fazer algo para evitar o pior?
Em
termos de resistência material, não creio que possam fazer muito, mas os países
da OTAN e da UE precisam parar de tentar agradar Trump. A estratégia deles
até agora tem sido a de apaziguamento. Algumas barras de ouro, por um lado, e
um prêmio por ser um grande pacificador, por outro, na esperança de que ele
recue de algumas de suas piores ameaças. Acho que isso precisa parar em algum
momento, e esse momento é agora. Precisamos ter a coragem de reafirmar nossos
princípios, de dizer que o que ele está fazendo está errado, que não o apoiamos
e que nos oporemos a ele de todas as formas possíveis. Todos, mas especialmente
aqueles em posições de liderança, precisam ser mais firmes e não tentar se
adaptar a essa situação. Caso contrário, serão as próximas vítimas.
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EUA, o herói vilão. Por Luiz Marques
Ao
desrespeitar os organismos multilaterais e as leis que regulam as relações
entre as nações, os Estados Unidos já não disfarçam que o imperialismo sempre
teve por base a força das armas, uma tradição que remonta a uma lição
maquiaveliana – o “Príncipe” deve preferir ser temido e não amado. A cooperação
com a ONU, Unesco, Clube de Paris e assim por diante serviu de fachada enquanto
perdurou a Guerra Fria. Havia que defender a “sociedade aberta” em
contraposição à “cortina de ferro”.
Após a
autodissolução da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), que os
trotskistas não consideravam socialistas ou soviéticas, instala-se o poder
unipolar no mundo. Se antes os EUA exerciam uma hegemonia moral, cultural,
econômica e comercial, para além de militar, a partir daí as coisas mudam. O
desleixo no redimensionamento interno dos efeitos do processo de
desindustrialização ocidental, em busca de mão de obra barata, afugentou
empresas e empregos. A opção imediatista para maximizar a mais-valia dos
trabalhadores ajudou no salto que tornou a China um player vencedor.
A
emblemática articulação para a criação do BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China),
em 2006, que culmina na primeira cúpula oficial em 2009, e a inclusão da África
do Sul em 2011 no BRICS, aciona o sinal amarelo. Os EUA passam a perder
mercados. O que não se resolve por decreto ou tarifaços. Um parque industrial
gera um habitus para o labor que não se transplanta, de
repente, para outra geografia. Demora para ser reconstituído. Em 2024 e 2025, o
grupo alternativo ao Fórum Econômico Mundial, de Davos, se expande com a
entrada do Egito, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e
outros parceiros. De maneira que, hoje, a multipolaridade de poder é uma
realidade concreta. O BRICS possui até um banco para que seus membros não
necessitem recorrer, nas crises periódicas do capitalismo, ao Fundo Monetário
Internacional (FMI) ou ao Banco Mundial com suas contrapartidas de austeridade
fiscal. O BRICS cresceu. Representa quase metade da população humana (3,9
bilhões de habitantes) e em torno de 40% do PIB mundial, o equivalente a US$ 31
trilhões. Tem um peso incontornável no tabuleiro das disputas geopolíticas.
Para tristeza do modelo decadente, é a pedra no caminho das caducas ambições
imperialistas. Vive sua fase terminal com aparelhos, resta-lhe o aparato
bélico.
O
sequestro do presidente da Venezuela Nicolás Maduro, o bombardeio de surpresa
em um país soberano sem prévia declaração de guerra e sem a devida aprovação do
Congresso não é um sinal de vigor, senão de desespero. O imperialismo decidiu
contrariar os versos do poeta nascido no Missouri, e encerrar seu ciclo com
explosões, não com suspiros. Deputados democratas já pedem o impeachment do
autocrata Donald Trump, pela barbeiragem típica de um ditador em um regime de
exceção. Inconcebível em um Estado de direito democrático que se pretenda um
paradigma de democracia para os dois hemisférios, na Idade Contemporânea. Neste
sentido, a grande nação também foi sequestrada na fatídica madrugada de 3 de
janeiro de 2026. Seus sonhos e ilusões que pareciam sólidos desmancharam no ar
caribenho.
O
grande país perdeu o moral, a alma e a máscara. Agiu como o Japão ao atacar a
base naval de Pearl Harbor, que marcou o início da participação dos EUA no
conflito contra as Potências do Eixo. Para analistas, este foi o erro trágico
da tríade liderada pela Alemanha. No cômputo final, tombaram 20 milhões de
russos, 8 milhões de alemães, 6 milhões de judeus, 3 milhões de japoneses, e
500 mil italianos, o mesmo contingente de norte-americanos.
As
manifestações de protesto contra a ação neocolonialista nas principais cidades
do mapa-múndi, incluindo Caracas e Nova York, em breve dirão se o erro trouxe
uma farsa ou outra tragédia. Há indícios de que a soberba japonesa,
reatualizada na arrogância norte-americana faz, de novo, do suposto herói o
vilão de um filme de quinta categoria. Difícil imaginar que o século XXI aceite
regredir ao estado de natureza hobbesiano. Se o fizer, o mal será multiplicado
graças aos avanços tecnológicos para a produção em larga escala da destruição.
A humanidade se especializou na produção não presencial da morte.
A
extrema direita latino-americana de modo explícito apoia a ação militar, ilegal
e imoral. A mídia corporativa com um pouco mais de recato enfatiza o caráter
autoritário, quiçá totalitário, do Palácio de Miraflores, a censura à imprensa,
a prisão de opositores, a escassez de mercadorias, o desemprego, a inflação,
etc. Comentários que, sob muitos aspectos, poderiam ser sem exagero dirigidos à
Casa Branca, em Washington. Donald Trump desdenha o cuidado com o planeta, nega
a existência do Antropoceno e a crise climática, tanto que não compareceu à
COP-30, em Belém. Não contente, joga no lixo o direito internacional e as
mediações para garantir a possibilidade de uma paz global. Ao contrário,
provoca outros conflitos armados, já são sete ou oito no curto mandato, dando
continuidade ao esporte predileto de seus pares nativos desde 1945. Vale a lei
do mais forte de quem reúne mais bombas nucleares estocadas no porão. O governante
ruivo merecia o Prêmio Nobel, mas da Beligerância e da Litigância de Má Fé.
Na
entrevista coletiva comemorativa, o número de citações em que o mentor político
do sequestro usou o termo “petróleo” (dezessete vezes) foi uma confissão cínica
– deixou evidente a intenção – mais do que hipócrita porque não ocultou o
verdadeiro motivo. Sobre a “democracia”, um silêncio obsequioso. Não era
momento para demagogia. O ato em nome das grandes petroleiras do Norte merece
total repúdio e transforma as american elites em reles ladrões
de combustível fóssil. É o que é a Doutrina Monroe aplicada no momento. Neste
cenário tenebroso, em que o país vizinho está sob um monumental cerco
belicista, há que se defender as prerrogativas que protegem o princípio da
autodeterminação de cada nação para evitar a disseminação do retrocesso
civilizacional, com “a guerra de todos contra todos”. Se os valores da
Revolução Bolivariana se desgastaram no decorrer do governo de Nicolás Maduro e
a oposição não é confiável, urge uma repactuação da sociedade civil na
Venezuela. Avalizada por uma transição democrática, efetivada com ampla
participação social. O governo de Donald Trump não pode recuperar a hegemonia
perdida pelos EUA. A marcha da história para fundar uma nova ordem
internacional alicerçada em bases morais, jurídicas e políticas não vai parar
por sua vontade. Uma comunidade de povos com respeito mútuo entre os
participantes é a utopia concreta para o futuro imediato. Nosso dever é
estimular um “levante de consciências”, para usar a expressão de Gerhard
Ritter, autor do livro Xeque-mate ao ditador, no qual investiga as
condições em que se forma a resistência alemã sob o nazifascismo. A alusão não
é gratuita. Os nossos são igualmente tempos sombrios. Faz escuro sim, porém
seguimos em frente.
¨
A Venezuela sob ataque e o chavismo na encruzilhada. Por
Rômulo Paes de Sousa
Após
semanas de agressões militares pontuais na costa venezuelana, na madrugada de 3
de janeiro de 2026 cerca de 150 aeronaves norte-americanas bombardearam alvos
militares em Caracas e Higuerote, culminando no sequestro do presidente do país
e de sua esposa. A ação, rápida e devastadora, deixou o mundo perplexo. Embora
os Estados Unidos possuam um longo histórico de intervenções na América do Sul
— inclusive na própria Venezuela —, esta foi a primeira vez que utilizaram
diretamente suas tropas em uma ação militar dessa natureza. Até então, sua
atuação se dava sobretudo por meio do financiamento e do apoio a forças
políticas direitistas locais. O episódio também sinaliza que o presidente
Donald Trump abandonou definitivamente a diretriz proclamada em seu primeiro
mandato, segundo a qual buscaria encerrar guerras, e não promovê-las.
Próximo
às 14 horas (horário de Brasília), no mesmo dia da captura de Nicolás Maduro e
de sua esposa, Cilia Flores, o presidente Trump, acompanhado dos secretários
Marco Rubio (Estado) e Peter Hegseth (Defesa), além do general Dan Caine (chefe
do Estado-Maior Conjunto), concedeu uma coletiva para esclarecer as motivações
do ataque e indicar os próximos passos da ação na Venezuela. Em uma leitura
autoindulgente e vacilante, marcada por uma argumentação confusa, as
autoridades civis transmitiram quatro mensagens centrais: (1) tratou-se de uma
operação de captura, razão pela qual não teria sido necessária autorização do
Congresso norte-americano; ainda assim, as tropas permaneceriam no país pelo
tempo considerado necessário para garantir uma “transição justa”; (2) os custos
da intervenção, de caráter prolongado, seriam financiados pela exploração do
petróleo venezuelano, o que também permitiria compensar supostos prejuízos
sofridos pelos EUA e por seus cidadãos em decorrência de expropriações
realizadas por governos venezuelanos; (3) a solução político-administrativa
para evitar um vácuo de poder não passaria pela líder da oposição, Maria Corina
Machado, considerada desprovida de respaldo interno; nesse contexto, foi feito
um aceno à então presidente interina Delcy Rodríguez, desde que aceitasse os
termos impostos pela nova e desinstitucionalizada Pax Americana;
(4) os Estados Unidos, amparados por sua força econômica, política, cultural e
militar, se arrogam o direito de definir unilateralmente onde, quando e como
agir para garantir seus interesses nacionais.
A
comparação com a guerra do Iraque é inevitável: uma justificativa falsa para a
intervenção, a expectativa de rápida estabilização política e uma confiança
excessiva na superioridade bélica como instrumento garantidor dessa
estabilidade, em flagrante desconhecimento das complexidades sociopolíticas
locais. Assim como no Iraque, a intervenção na Venezuela removeu de forma
célere o topo da direção política do país. Diferentemente do caso iraquiano,
contudo, Trump sinaliza disposição para negociar com as forças hegemônicas
locais. Indica aceitar um governo liderado por Delcy Rodríguez, desde que o
controle da exploração de todo o petróleo venezuelano seja transferido à
Chevron e a empresas associadas. O principal problema dessa proposta reside na
reação dos diversos atores políticos internos, incluindo setores mais
radicalizados do chavismo e a ludibriada oposição. Ao descartar Maria Corina
Machado de um eventual governo de transição, Trump envia aos chavistas o sinal
de que está disposto a pagar o preço necessário para manter o regime em
funcionamento, desde que seus interesses estratégicos sejam preservados.
O ano
de 2026 começou de forma turbulenta no continente americano. O Congresso dos
Estados Unidos foi reduzido a uma instância meramente homologadora de um
presidente que opera acima da lei. A governança global encontra-se em
frangalhos, tanto pela incapacidade das instituições criadas no pós-guerra de
mediar conflitos regionais quanto pelo apoio explícito de vários países da
América Latina a uma ação militar que viola a soberania de um país vizinho.
Caso essa empreitada tenha êxito, o que impediria os EUA de se apropriarem,
amanhã, das reservas da Guiana? O Judiciário norte-americano ainda poderá
enfrentar uma situação embaraçosa: julgar Maduro e Flores por narcoterrorismo
enquanto o remanescente aparato chavista seguiria governando a Venezuela em
colaboração com Washington. Para o Brasil, os riscos são múltiplos. Mais uma
vez, o país se mostra dividido quanto à leitura de riscos à sua soberania. A
oposição oscila entre o apoio aberto à intervenção norte-americana e uma
condenação discreta, acompanhada da responsabilização dos governos petistas
pela sobrevida do chavismo. O governo brasileiro, por sua vez, vê sua
autoridade regional contestada e enfrenta dificuldades para confrontar as ações
dos EUA, em um contexto de enfraquecimento do bloco de países soberanos da
região. Contudo, há um papel que o Brasil poderá vir a desempenhar na crise
venezuelana. Por ser o maior país da América Latina e vizinho do país sob
ataque, o governo do Brasil pode funcionar como mediador para a reorganização
política da Venezuela. O demais grandes países sul-americanos, Argentina e
Colômbia, estão agastados demais com alguma das partes para ocupar esse papel. Os
editoriais dos principais jornais brasileiros condenaram a agressão à
Venezuela, elogiaram a postura do presidente Lula e defenderam a realização
imediata de eleições. Quem acompanhou atentamente as entrevistas das
autoridades norte-americanas, desde 3 de janeiro, percebeu que a democracia não
integra o roteiro traçado pela administração Trump para a Venezuela. O país
encontra-se quase paralisado, à espera dos desdobramentos dos próximos dias. O
chavismo está diante de uma encruzilhada histórica: colaborar para sobreviver
ou se lançar em desvantagem em uma guerra assimétrica. A decisão não será
fácil, nem pode tardar. O frágil Estado venezuelano encontra-se por um triz.
Fonte:
Entrevista para Paolo Mastrolilli, em La
Repubblica/A Terra é Redonda/Outras Palavras

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