Própolis
da Amazônia vira remédio sustentável e renda para o campo
Muito
além de ser um dos cartões-postais da Amazônia, o açaí (Euterpe oleracea) é
reconhecido pela ciência como um “superalimento” por seus antioxidantes,
vitaminas e minerais. A fruta cresce naturalmente no bioma tropical, mas não se
limitou às fronteiras amazônicas: ao longo da história, tornou-se um trunfo
para a bioeconomia brasileira, impulsionando um setor que já movimenta 1 bilhão
de dólares em todo o mundo.
De
forma complementar, um número crescente de pesquisas vem mostrando que as
propriedades do açaí não se restringem ao consumo direto da fruta. Um desses
achados é resultado de um estudo conduzido por cientistas da Empresa Brasileira
de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em parceria com a Universidade Federal do
Pará (UFPA).
Entre
as principais descobertas, pesquisadores identificaram o potencial farmacêutico
de um creme formulado com o própolis de espécies de abelhas sem ferrão, também
chamadas de melíponas. Nativas da Amazônia, muitas dessas espécies polinizam os
açaizais da região.
Ao
estudar uma espécie de abelha amazônica, a abelha-canudo (Scaptotrigona aff.
postica), a pesquisa detectou propriedades curativas e anti-inflamatórias em
substâncias extraídas do própolis, um composto resinoso que o inseto coleta das
árvores e utiliza (após a adição de saliva e enzimas) para preencher fendas e
“selar” os favos de mel. Os testes dermatológicos foram considerados
reveladores. As amostras apresentaram resultados curativos comparáveis aos de
pomadas cicatrizantes disponíveis no mercado, o que, segundo os cientistas,
abre perspectivas positivas para a criação de novos subprodutos.
“O
creme à base de própolis influenciou diretamente o processo de maturação da
lesão e apresentou uma resposta inflamatória mais branda”, diz o estudo,
publicado em outubro de 2024. “Biofármacos, como cremes a partir de própolis,
oferecem vantagens como efeitos colaterais mínimos, baixos resíduos químicos e
conservantes [em níveis] insignificantes.”
Apesar
de muito menos numerosas e conhecidas do que suas famosas “primas” com ferrão —
sobretudo por não produzirem o mel na mesma quantidade e velocidade —, as
melíponas desempenham um papel fundamental na dinâmica da floresta, sendo
responsáveis por importantes serviços ecossistêmicos.
A
pesquisa investigou insetos que vivem ao redor de monoculturas de açaí. O
recorte se justifica: segundo um estudo de 2020, realizado pela Embrapa, pela
UFPA e pela Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), as abelhas sem
ferrão respondem por 60% da polinização dessa espécie de palmeira, sendo
essenciais para a produção do fruto e para toda a cadeia de cultivo.
“Elas
visitam as flores com mais frequência, quase sempre carregam pólen e possuem
colônias mais populosas. São as espécies mais consistentes na polinização do
açaí e podem ser criadas e manejadas”, disse Alistair Campbell, biólogo da
Embrapa e coautor desse estudo.
Daniel
Santiago, também da Embrapa, complementa o raciocínio. Com doutorado em Ciência
Animal, ele estuda abelhas nativas há anos e participou da investigação sobre
melíponas publicada em 2024. Em sua visão, as espécies sem ferrão desenvolveram
uma enorme “afinidade” pelas flores do açaí ao longo do tempo. Essa relação,
por sua vez, trouxe diversos benefícios.
“Isso
tornou o manejo de abelhas sem ferrão [meliponicultura] um elemento essencial
na cadeia produtiva do açaí. A ponto de a cadeia do açaí começar a realmente
demandar abelhas-canudo para a polinização”, disse à Mongabay.
A
pesquisa da qual Santiago fez parte revelou que as qualidades do própolis “rico
em bioativos” produzido pelas melíponas estão atreladas às flores do açaí,
cujas palmeiras criam “um ambiente específico que influencia diretamente as
características e a composição” da resina.
O
apicultor Joaquim dos Reis Rodrigues, morador do município de Concórdia do
Pará, acompanha esse processo com os próprios olhos. Descrevendo-se como um
“pequeno agricultor familiar”, título que ostenta com orgulho, Rodrigues conta
que passou a maior parte da vida profissional em contato com a vida selvagem da
Amazônia.
Em suas
palavras, os animais, as plantas e as frutas “dependem mutuamente um dos
outros”.
“O mel
das abelhas sem ferrão tem diferenciação. Essas abelhas contribuem para o meio
ambiente e, de certa forma, trabalhar com elas é trabalhar por esse propósito
mais profundo”, disse, em entrevista. Segundo o agricultor, o mel “especial”
das abelhas sem ferrão pode ser vendido por até R$ 180 por litro — o
equivalente ao triplo do preço do mel comum.
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Melíponas: vetores da bioeconomia e aliadas da floresta
As
abelhas sem ferrão são abundantes na Amazônia — Santiago estima que 75% de
todas as espécies brasileiras vivam no bioma. Além disso, pesquisas recentes,
conduzidas por diferentes instituições científicas, mostraram que mais de 100
espécies são exclusivas da floresta tropical.
Embora
não sejam as abelhas preferidas para a produção de mel, sua “pequena
contribuição” é conhecida por apresentar características especiais, o que
resulta em uma substância de alto valor bioeconômico e ambiental. Brasil afora,
o mel das melíponas chama a atenção até mesmo da alta gastronomia, sendo
descrito por especialistas do setor como “novo caviar”.
“É um
animal com múltiplas contribuições para o ecossistema e que fornece produtos de
alto valor agregado”, disse Rodrigues.
O
valioso fluido reluzente colhido nos meliponários tende a ser mais líquido e
ácido devido às particularidades de sua composição química, explica a
Associação Brasileira de Estudos das Abelhas. Ele também é menos doce, à medida
que concentra mais água do que açúcar — o que explica sua aplicação em receitas
sofisticadas.
“[O
produto] contém, ainda, um teor natural de bactérias e leveduras,
microrganismos que induzem sua fermentação. Logo, os méis de abelhas sem ferrão
não são tão estáveis quanto o mel da abelha melífera [Apis mellifera, de origem
europeia], característica que demanda tratamento diferenciado”, diz a
associação em seu site oficial.
Em sua
forma final, esse tipo de mel também pode apresentar uma variedade de sabores,
cores e aromas. Esses aspectos variam dependendo da espécie, mas também do
habitat e da estação do ano; de forma geral, isso ocorre porque fatores
biogeográficos exercem grande influência no ambiente da floração que,
posteriormente, será polinizada pelos insetos.
“O
própolis é conhecido há muito tempo por seus efeitos curativos. Ele só ‘perdeu
valor’ após [a descoberta da] penicilina [na década de 1920]. Até então, era
usado para curar feridas de guerra — e sempre foi considerado um bálsamo”,
disse Santiago.
Na
visão do pesquisador, essas nuances químicas, somadas à produção em volumes
menores, são os aspectos que o tornam “um tipo de mel mais ‘gourmet’, ou de
nicho”. Ao mesmo tempo, o “processo único” para se chegar ao produto, segundo o
especialista, também o torna um item “essencial” para toda uma cadeia produtiva
sustentável da Amazônia.
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Novos caminhos rumo a uma economia sustentável
A
ciência tem se lançado em uma busca árdua pelas propriedades desconhecidas dos
produtos sustentáveis fornecidos pelos principais biomas do país. Em muitos
casos, a jornada só é possível graças ao manejo ancestral, abastecido pelo
conhecimento de comunidades indígenas e tradicionais. É o caso do licuri
(Syagrus coronata), palmeira nativa do semiárido nordestino, que já foi
destaque nesta reportagem da Mongabay.
Na
Amazônia, a lista é longa. Entre os exemplos está o jambu (Acmella oleracea),
bastante conhecido por seu efeito de formigamento. A planta, no entanto, é
muito versátil, entrando no radar dos pesquisadores para o desenvolvimento de
óleos, filmes orais de dissolução rápida (que auxiliam no tratamento de
pacientes com câncer) e até enxaguantes bucais sem álcool.
Já no
Arquipélago do Marajó, banhado pela foz do rio Amazonas e pelo Oceano
Atlântico, o esforço científico, o conhecimento ancestral e a biodiversidade se
unem para a produção de um óleo formulado a partir das larvas do besouro da
espécie Speciomerus ruficornis, que se reproduz dentro dos caroços do tucumã
(Astrocaryum aculeatum). Cada vez mais requisitado, o produto tem propriedades
medicinais, antioxidantes e até culinárias.
Hoje em
dia, embora a bioeconomia brasileira ainda encontre obstáculos para superar os
efeitos do desmatamento e do agronegócio, a matriz de sustentabilidade vem
acompanhada de cifras expressivas: relatórios internacionais estimam que o
setor é capaz de gerar até 8 bilhões de dólares em receita para famílias e
comunidades que vivem na Amazônia.
Pesquisadores,
enquanto isso, observam a natureza de perto e buscam preparar o terreno para
futuros avanços no campo científico. Daniel Santiago explica que o trabalho com
as melíponas também tem uma função socioambiental: “redescobrir” o conhecimento
tradicional amazônico e empoderar a agricultura de pequena escala.
“Quando
vimos o impacto das abelhas sem ferrão na polinização, percebemos que a Embrapa
poderia ajudar [os agricultores] a evoluir [suas práticas] para que o número
mínimo de enxames pudesse gerar a mesma produtividade”, disse. “Já estamos
progredindo com a polinização orientada, com técnicas de dispersão e falando de
métodos sistemáticos e eficientes [de meliponicultura]. O própolis vem nesse
contexto.”
Os
impactos positivos dessa relação benéfica também explicam parte da reviravolta
na vida pessoal e profissional de Rubens José Pinon. Conhecido como “Rubinho”,
o empresário e agricultor mora com a família no município de Breu Branco, no
Pará, a cerca de 400 quilômetros de Belém, cidade que recebeu a COP30 em
novembro de 2025.
No
início, Pinon utilizava suas terras para criar gado leiteiro. No entanto, a
dinâmica familiar mudaria completamente com a aprovação do Código Florestal, em
2012 — o que, segundo o proprietário, passou a exigir “maior preservação no uso
da terra”.
De uma
necessidade, surgiu uma ideia. “Naquele momento, pensamos em reflorestar a
área. E percebemos que poderíamos usar árvores frutíferas. Foi quando plantamos
açaí”, disse.
O
plantio de frutas levou Rubinho e sua família a um momento de reflexão. E, a
partir dessa mudança, os Pinon dizem que um verdadeiro horizonte se abriu.
“Aos
poucos, percebemos que precisávamos de agentes polinizadores. Primeiro, com as
abelhas com ferrão; depois vieram as sem ferrão. Esses animais ficavam dentro
da plantação. Por fim, isso levou à ideia de aproveitar o mel produzido por
elas.”
Segundo
o proprietário, a produção de mel das melíponas não poderia, por si só,
complementar a renda familiar, uma vez que rendia menores quantidades da
substância. Foi então que ele e a esposa, Camélia, decidiram examinar os
subprodutos do animal com mais atenção.
“Percebemos
que, apesar de produzir pequenas quantidades de mel e própolis, a qualidade de
ambos era muito boa. Percebemos que o potencial do própolis era enorme. E
quando você está na Amazônia, tem uma variedade imensa de árvores e plantas.
Elas potencializam o própolis”, disse à Mongabay.
Com o
apoio e a orientação de Daniel Santiago e de outras atividades de pesquisa
realizadas pela Embrapa, os Pinon depositaram suas fichas no comércio
sustentável feito a partir da cera “especial” produzida pelas melíponas. Assim,
nasceu um novo negócio.
O
resultado do trabalho familiar com as abelhas, o açaí e seus subprodutos levou
à fundação da AmaBee Cosméticos. O projeto, que tem registro oficial desde
agosto de 2024, foi forjado por meio de parcerias com a Embrapa e o Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), além do Instituto de
Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio) e do
Ministério Público do estado.
Entre
seus carros-chefes, a AmaBee desenvolve produtos dermocosméticos à base de mel
e de própolis, exportando-os para todo o Brasil.
O
catálogo da empresa conta com shampoos, géis, cremes hidratantes e vários tipos
de sabonetes, incluindo uma linha própria para a higiene íntima. Os itens podem
custar entre R$ 10 e R$ 40, excluindo as despesas de frete. Segundo Rubinho,
oito produtos já possuem a certificação da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa). “A empresa está ansiosa para desenvolver novas criações”,
disse.
Muito
além do sucesso nas vendas, o casal valoriza os benefícios socioambientais da
atividade que paga as contas da família. “Quando mexíamos com gado, eu vivia
estressado; a atividade em si era estressante”, relata. “Trabalhávamos duro por
pouco dinheiro. Hoje, vivemos em harmonia com os animais. Quando você trabalha
com abelhas, não se trata apenas de lucro: trata-se de cuidar da natureza ao
redor. Hoje, somos mais felizes. Vivemos em harmonia, sob o mesmo objetivo:
cuidar da natureza, o que também significa cuidar dos outros.”
A rede
de sustentabilidade por meio da qual Rubinho e Camélia desenvolveram seu
sustento também se estende à esfera social. Como puderam colher os frutos de
treinamentos e cursos de capacitação no passado, os Pinon, agora, buscam
“compartilhar o conhecimento” para expandir o setor e aumentar a produção
sustentável.
Atualmente,
a AmaBee promove projetos socioeducativos em diferentes escolas e áreas rurais
de Breu Branco, ensinando novos alunos e pequenos agricultores sobre o manejo
dos meliponários — sempre reforçando os benefícios ecológicos que acompanham a
atividade.
Enquanto
as abelhas se espalham pelos açaizais, a palavra da família segue o mesmo
caminho, levando instrução e valorização ecológica a quem precisa. “Quando
começamos a trabalhar com o açaí e as abelhas, a mudança foi drástica em termos
ambientais. E a natureza nos retribuiu”, disseram.
Fonte:
Mongabay

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