A
Doutrina Monroe e a inserção internacional dos EUA
Avaliamos
que as distintas interpretações da Doutrina Monroe, efetuadas pelos presidentes
Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson, requerem ser compreendidas não como
supostos polos abstratos de uma falsa dicotomia entre isolacionistas e
internacionalistas, mas sim como um conjunto de discursos e de práticas da
política exterior estadounidense em torno de concepções antagônicas acerca da
ordem mundial. O reinício das relações dos EUA com Cuba e o acordo de paz na
Colômbia foram os principais acontecimentos que permitiram ao Secretário de
Estado, John Kerry, anunciar na OEA, em 2013, que “a era da Doutrina Monroe
acabou”. Com o objetivo de se contrapor ao governo anterior, tanto o então
secretário de Estado do governo Trump, Rex Tillerson, como o conselheiro de
Segurança Nacional, John Bolton, enalteceram a Doutrina Monroe como orientação
para as ações dos EUA na América Latina. Muito embora o presidente Joe Biden
não tenha mencionado a doutrina Monroe, alertou, numa clara crítica ao
presidente Trump, que o “continente sul-americano… não é o quintal dos
EUA” e rechaçou a pretensão norte-americana de interferir nos assuntos internos
dos países no Hemisfério Ocidental .
Por
mais de um século, a Doutrina Monroe foi considerada símbolo glorioso da nação
estadunidense com status equivalente à Declaração de Independência, mas depois
da Primeira Guerra Mundial o consenso entre as elites deixou de existir e a
doutrina passou a ser vista, principalmente por membros do Partido Democrata,
como símbolo do intervencionismo militar no Hemisfério Ocidental. De toda
forma, desde que foi anunciada, em 1823, por John Adams, secretário de Estado
do presidente Monroe, a Doutrina Monroe sempre esteve presente, explícita ou
implicitamente, nos debates sobre as estratégias de ação internacional dos EUA
e chama a atenção não ter ainda devida relevância na literatura de Política
Externa dos EUA. A Doutrina Monroe surgiu no momento em que ocorria o
reconhecimento da Independência dos países latino-americanos e tinha como
objetivo se contrapor às possíveis tentativas de recolonização no continente
por parte da Quádrupla Aliança, um alinhamento conservador europeu comprometido
com a manutenção da ordem e o status quo. O governo dos EUA declarou que não
iria admitir qualquer tentativa das nações europeias de “estender seu sistema a
qualquer parte do hemisfério”, e advertiu que qualquer intento nesse sentido
seria considerado uma ameaça à paz e à segurança no continente. Invocando o
princípio de reciprocidade, a mensagem destacava também que os EUA não se
envolveriam em assuntos políticos europeus.
Originalmente
formulada como um princípio da política externa para garantir a soberania dos
Estados, ao não permitir qualquer tipo de intervenção de poderes
extracontinentais nos assuntos do Hemisfério Ocidental, a doutrina ganhou novas
dimensões com o corolário Roosevelt, no início do século XX, quando os EUA se
reafirmavam como potência em ascensão. Em sua redefinição por parte do então
presidente Theodore Roosevelt, a doutrina passou a justificar o direito e o
dever dos EUA de intervir nos assuntos domésticos. das nações no Hemisfério,
não apenas quando houvesse a possibilidade de algum tipo de interferência
europeia, como formulado inicialmente, mas também quando o governo
estadunidense julgasse haver perigo iminente de revoltas políticas ou qualquer
tipo de “desordem”. Desde então, a
doutrina incorporou o caráter intervencionista em seus princípios e o termo
“esfera de influência” passou a ser amplamente utilizado na Política
Internacional para descrever o relacionamento entre os EUA e os outros Estados
no continente americano. Dessa forma, a doutrina Monroe tornou-se o exemplo
mais notável de uma declaração unilateral feita por uma potência, afirmando
explicitamente que uma determinada região deve estar sob sua exclusiva
responsabilidade, abrindo precedente importante para que outras potências
também o fizessem em suas respectivas áreas.
Uma
nova mutação da Doutrina Monroe ocorreu quando o presidente Woodrow Wilson
anunciou, em 22 de janeiro de 1917, que ela deveria se tornar uma doutrina para
o mundo. No entendimento do presidente, não se tratava de transferir a
concepção espacial não intervencionista contida na Doutrina Monroe para outras
regiões no mundo. Pelo contrário, os seus princípios políticos não teriam
fronteiras e poderiam estar presentes em qualquer lugar do mundo sob a
liderança dos EUA, com o propósito de interferir econômica e militarmente em
outros continentes. Mas essa “excepcionalidade” dos EUA se fundamentaria, por
sua vez, na conjugação da Doutrina Monroe com outras doutrinas e princípios Avaliamos
que as interpretações da doutrina Monroe, a partir dos presidentes Theodore
Roosevelt e Woodrow Wilson, devem ser compreendidas não como se faz
frequentemente, situando-as como polos abstratos de uma falsa dicotomia entre
isolacionistas e internacionalistas, mas sim enquanto um conjunto de discursos
e de práticas da política externa dos EUA em torno de concepções antagônicas
sobre Ordem Mundial.
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Esferas de Influência ou Hegemonia?
Theodore
Roosevelt foi o primeiro presidente estadunidense a propor que os EUA deveriam
desempenhar um papel importante na política internacional para além do
Hemisfério Ocidental. Queria evitar, por exemplo, a presença de uma grande
potência na China que viesse a negar aos EUA o acesso ao comércio naquele país.
Para isso, esperava alinhar-se com a Grã-Bretanha para resistir à primazia
russa ou japonesa no Extremo Oriente, alcançando com isso o equilíbrio de
poder. Theodore Roosevelt teve participação decisiva nas negociações que
encerraram a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), bem como no acordo entre a
França e Alemanha referente a uma disputa (1905-1906) sobre a presença no
Marrocos. Por meio do acordo Taft-Katsura (1907), o Japão concordou em
respeitar a presença dos EUA nas Filipinas e, em contrapartida, os EUA
garantiram não causar qualquer tipo de embaraço à presença de tropas militares
japonesas na Coreia. Ou seja, os EUA deveriam exercer o “poder de polícia
internacional” no Hemisfério Ocidental na manutenção da ordem interna dos
países que se mostraram “instáveis”, mas em outras regiões do mundo era preciso
buscar o equilíbrio de poder reconhecendo a existência de esferas de
influência. Após a Guerra
Russo-Japonesa de 1904-05, o representante especial do Japão em Washington teve
um encontro com o Secretário de Estado dos EUA, Robert Lansing, quando então
expôs a ideia do que seria uma Doutrina Monroe para a Ásia. Da mesma forma que
os EUA desfrutavam de uma posição especial no hemisfério ocidental, particularmente
no México e nos países da América Central, o governo japonês julgava que seus
“interesses especiais” deveriam ser reconhecidos na China e países vizinhos,
como a Coreia e a Mongólia, e manifestava preocupação com a influência e/ou
interferência de potências estrangeiras na região. O próprio presidente
Theodore Roosevelt chegou a manifestar seu apoio a uma “Doutrina Monroe
japonesa” para a Ásia, em 1905, e já concordava com a justificativa de que o
Japão estava “defendendo” o Oriente contra incursões europeias. Os secretários
de Estado dos EUA, Bryan e Lansing, também reconheceram oficialmente,
respectivamente em 1915 e 1917, o fato de que o Japão tinha “interesses
especiais” na China, particularmente na parte em que suas possessões são contíguas.
Para o
filósofo e jurista, Carl Schmitt, a Doutrina Monroe foi o primeiro e o exemplo
mais bem-sucedido de um princípio de Großraum defendido pelos
EUA como “uma expressão do direito inalienável à autodefesa”, e que passou a
adquirir validade internacional, sendo formalmente reconhecido no Artigo 21 da
Liga das Nações. De acordo com essa interpretação, a Doutrina Monroe fornecia o
precedente para justificar tanto o Großraum alemão na Europa
Central e Oriental, quanto o japonês na Ásia, estava longe de ser um princípio
abstrato ou difuso, pois continha limites (territoriais) reconhecíveis para sua
aplicação. Após a Alemanha invadir a Tchecoslováquia em 1939, o então ministro
de relações exteriores do Reich alemão, Ribbentrop, explicava que a ação do
governo alemão nada mais era do que a aplicação na Europa dos princípios
originalmente estabelecidos pela Doutrina Monroe, um exercício legítimo do seu
poder dentro Großraum, isto é, uma ordem em que deveria
imperar o reconhecimento mútuo das esferas de influência em substituição à
ordem eurocêntrica tradicional. Durante as sessões na Liga das Nações,
congressistas norte-americanos, em grande parte do partido republicano,
pressionaram o presidente Wilson que acabou cedendo à solicitação de adoção de
uma cláusula especial, pois julgavam que a Sociedade das Nações era
incompatível com a Doctrina Monroe e poderia obrigar os EUA a envolver-se em
conflitos fora do continente. A proposta foi aprovada e resultou no artigo 21: Os
compromissos internacionais, tais como, tratados de arbitragem, e os acordos
regionais como a doutrina de Monroe, que asseguram a manutenção da paz, não são
considerados incompatíveis com nenhuma das disposições do presente Pacto.
O fato
de a Doutrina Monroe ser explicitamente protegida no Pacto da Liga das Nações e
ser colocada no mesmo nível de acordos e compromissos internacionais fez com
que o Japão reivindicasse, novamente, uma doutrina semelhante para a Ásia. Em
sua proposta à Assembleia da Liga das Nações, a delegação japonesa argumentava
que o Japão era “responsável pela manutenção da paz e da ordem no Extremo
Oriente”. O ministro das Relações Exteriores do Japão elogiou o Pacto da Liga
das Nações na medida em que previa o respeito aos “entendimentos regionais” e
enfatizou que o Japão era o “sustentáculo da tranquilidade nessa parte do
mundo”.
A
partir dessas manifestações, é possível concluir que tanto os EUA como o Japão
reivindicavam responsabilidade pela manutenção da ordem regional e, no limite,
teriam a legitimidade para o uso da força para impedir qualquer tipo de
interferência ou ingerência de outros Estados extrarregionais. No entanto, a
posição que prevaleceu na Liga foi que a doutrina Monroe não poderia ser
transferida para outras situações geopolíticas, a não ser que houvesse
permissão e aprovação dos EUA. Portanto, apesar de a Liga se constituir como
organização mundial com princípios universalistas, além de se abster de propor
uma ordenação global do espaço, ao reconhecer a Doutrina Monroe, acabou por
legitimar a concepção da ordenação espacial do hemisfério ocidental, garantindo
excepcionalidade aos EUA.
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As Novas Fronteiras do Comércio Internacional
Entendemos
que qualquer análise que se faça da Doutrina Monroe só pode ser compreendida se
levar em consideração as diversas maneiras pelas quais se realizou sua
articulação com outras doutrinas. Isto é, o corolário da Doutrina Monroe
realizado no momento em que o poder econômico e geopolítico dos EUA estava em
franca ascensão possibilitou incorporar as interpretações da doutrina da Open
Door (Portas Abertas)com o objetivo de garantir a expansão comercial e
resolver rivalidades internacionais de forma pacífica em regiões fora do
hemisfério Ocidental. As Notas da Política de Porta Abertas formuladas pelo
Secretário de Estado do presidente McKinley, John Hay, em 1899, marcaram um
momento decisivo na história das relações internacionais dos EUA, inaugurando o
processo pelo qual se questionava, ao mesmo tempo, a política do “isolacionismo
hemisférico” dos EUA e as zonas econômicas do colonialismo na China. Em sua
fase inicial, a política de Open Door para a Ásia poderia ser considerada como
uma primeira tentativa de resposta dos EUA à falência do sistema internacional
baseado no colonialismo europeu. Sob o argumento da importância de se adotar
regras baseadas na igualdade de tratamento para solucionar conflitos
internacionais, a Open Door preconizava uma China que deveria tratar todos os
países e empresas estrangeiras de forma igualitária. A principal diferença
entre a Open Door na China e o “big stick” nas Américas residia na forma pela
qual os EUA concebiam a Ordem Mundial. A Política de Open Door de Roosevelt baseava-se
em uma apreciação realista das limitações do poder estadunidense, em que se
respeitariam as esferas de influência, até porque avaliava que não havia
recursos militares necessários para se empreender uma política baseada no uso
da força na Ásia, diferentemente da situação do Hemisfério Ocidental.
Quando
Roosevelt deixou o cargo em 1909, analistas, formuladores de políticas e
empresários elogiaram seu Corolário como um modelo de solução para a
estabilidade econômica e política no hemisfério ocidental, já que vislumbrava
um comércio em um hemisfério pacificado e poderia beneficiar os EUA devido à
sua proximidade geográfica com os mercados latino-americanos. A partir das
interpretações que Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson realizaram da obra
escrita por Frederick Turner, “O significado da fronteira na história
americana”, um outro conjunto de ideias veio a se juntar às doutrinas Monroe e
Open Door, resultando na principal força motriz da ação internacional
estadunidense. Em linhas gerais, o livro explicava a evolução da democracia e
da prosperidade da nação em termos da expansão para o oeste. A releitura da
doutrina da Open Door aparecia como uma nova estratégia depois que a fronteira
continental se completou no final do século XIX, pondo fim a um modelo baseado
na desapropriação e incorporação territorial. Durante a campanha presidencial
de 1912, Wilson parafraseou a tese da fronteira: “A marcha para o oeste parou
nas encostas do Pacífico; e agora a trama se complica… Nossas indústrias se
expandiram a tal ponto que arrebentarão suas estruturas se não conseguirem
encontrar saídas livres nos mercados do mundo”, ou seja, o mercado mundial
deveria ser visto como a nova fronteira para o sistema americano. O
secretário de Estado do presidente Wilson, William Jennings Bryan, esclarecia
periodicamente aos vários setores da sociedade estadunidense que a política do
presidente era “abrir as portas dos países mais fracos para a invasão do
capital e das empresas americanas”. Essas colocações nesse contexto histórico
simbolizaram um novo momento da aliança da diplomacia com a indústria, o
comércio e as finanças, e que se traduziu no desenvolvimento do capitalismo
corporativo em sua expansão pelo mundo.
Apesar
de a doutrina enfatizar a necessidade de todas as nações terem acesso
equitativo às redes de comércio e negócios, não fazia menção à remoção das
tarifas protecionistas nacionais, até porque isso exigiria que os EUA abrissem
seu próprio mercado. A Open Door de Wilson não tinha a especificidade regional
da Doutrina Monroe de Roosevelt e, por isso, seus proponentes frequentemente
entravam em conflito em relação aos objetivos estratégicos dos EUA porque
representava uma nova visão sobre o comércio global. A Primeira Guerra Mundial
colocou em questão a validade da Open Door, mas Woodrow Wilson procurou dar
novo vigor à doutrina com base na crença de que não era mais possível à nação
americana viver longe das questões globais. O modelo proposto por Wilson, era
claramente um produto de sua concepção sobre Open Door e acrescentava a
necessidade de se construir uma estrutura institucional para a resolução
pacífica de conflitos e promoção de oportunidades comerciais igualitárias.
Embora a oposição no Senado tenha derrotado a proposta de Wilson pela
participação dos EUA na Liga das Nações, a ideia da Open Door persistiu nas
administrações republicanas subsequentes, em que a diplomacia passou a ter como
função promover oportunidades comerciais para os maiores exportadores da
América. Assim, embora os presidentes dos EUA muitas vezes criticassem as
decisões uns dos outros, apegaram-se à tradição da Open Door e aceitaram os
princípios ideológicos básicos de acesso comercial, até porque isso atendia a
interesses políticos das elites estadunidenses.
A
partir de Wilson, os apoiadores da Open Door passaram a conceber que, em última
instância, o envolvimento internacional dos EUA deve ser orientado,
principalmente, levando em consideração os imperativos econômicos. Ou seja, a
tendência inerente à superprodução e ao subconsumo doméstico exigia uma válvula
de escape que levaria à realização dos interesses econômicos no exterior e,
consequentemente, ao envolvimento político e, no limite, o uso da força
militar. A ausência de dimensões políticas em algumas vertentes do liberalismo
estadunidense se traduzia na percepção de que havia uma certa passividade que
culminou na ausência de uma política externa propriamente dita. O Wilsonianismo
promoveu, não apenas uma mutação na Doutrina Monroe, que em vez de se referir
apenas a um espaço geográfico historicamente determinado, se tornou um
princípio geral e universalmente concebido para reformar a política mundial. A
partir do caso envolvendo a China, o uso da Open Door e da interpretação da
“nova fronteira” na diplomacia significava que a expansão econômica em áreas
agrárias do mundo colonial seria baseada na garantia da integridade territorial
e do autogoverno, punindo nações agressoras. Os mecanismos jurídicos e
diplomáticos que fundamentaram a aplicação das sanções econômicas, desde o
final da Primeira Guerra Mundial, foram apresentados na Liga das Nações como
uma alternativa pacífica à guerra. Em discurso à nação, o presidente Wilson procurou
convencer a opinião pública de que o uso da economia, em vez da força militar,
era um poderoso instrumento da diplomacia internacional que poderia impedir com
sucesso a agressão armada. Para isso, usava como exemplo o
isolamento econômico da Alemanha como a principal causa de sua rendição. De
acordo com Wilson, o boicote econômico é um “remédio pacífico, silencioso e
mortal” que iria substituir a guerra. Desde então, o mecanismo das sanções tem
tido uma história ambivalente até os dias atuais: são “pacíficas” e “mortais”,
são “potentes”, mas não usam a força; em contraste com as ações militares, são
retratadas como sendo civilizadas, mas, se forem rigorosas, podem ser
intoleráveis. As ideias de Woodrow
Wilson foram incorporadas no Artigo 16 do Pacto da Liga das Nações, que
obrigava os Estados a impor sanções econômicas contra qualquer membro da Liga
que recorresse à guerra de agressão ou conquista. O pressuposto era que as
sanções econômicas teriam um efeito dissuasivo, fazendo com que os países
agressores fossem chamados à razão antes de iniciar qualquer tipo de ação
bélica.
A
imposição de sanções a partir de 1919 era um sinal de que a ordem internacional
pós-Primeira Guerra Mundial trazia a marca liberal de inspiração dos EUA, em
que a guerra econômica, sob jurisdição de uma organização internacional,
deveria se contrapor à “anarquia internacional” do mundo anterior à
guerra. A ascensão das sanções estava, portanto, ligada à transformação
mais ampla da guerra, do liberalismo, do direito internacional e, de um modo
mais amplo, da Nova Ordem Mundial que estava em gestação.
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Conclusão
Vimos
que, ao longo dos seus 200 anos de existência, a Doutrina Monroe assumiu vários
significados e teve implicações diferentes, dependendo do contexto histórico e
dos interesses das forças políticas que procuravam justificar suas respectivas
interpretações. Assumindo o perfil de ideologia, teoria jurídica, cultura
política ou de geopolítica, a doutrina Monroe foi moldada de acordo com as
circunstâncias e os vários corolários que foram acrescidos a ela fizeram com
que pudesse ser interpretada sob os mais diferentes ângulos, até mesmo com
proposições antagônicas. As várias adaptações e interpretações da doutrina
expressam, não apenas diretrizes diplomáticas gerais, mas revelam, de certa
forma, quais são as estratégias que as forças políticas em disputa querem
conferir à política externa dos EUA.
A
Doutrina Monroe deixava claro que o Novo Mundo e o Velho Mundo deveriam
permanecer como esferas de influência separadas e autônomas. Com Theodore
Roosevelt, o corolário que leva seu nome avançou na interpretação da doutrina
em duas direções: os EUA tinham o direito de intervir preventivamente nos
assuntos internos de outros países do Hemisfério Ocidental sob a justificativa
de preservar a ordem e estabilidade e reconheceriam esferas de influências em
outras regiões do mundo, tendo como meta uma Ordem Mundial baseada no
equilíbrio de poder, o que poderia ser identificado como um pensamento realista
nas relações internacionais. Da mesma maneira que Theodore Roosevelt, o
presidente Wilson Wilson invocou a doutrina Monroe como modelo de uma nova
ordem internacional, porém em sentido oposto, recusando categoricamente a
proposta de reconhecimento de outras esferas de influência. A proposta de
globalização da doutrina Monroe juntamente com a Open Door e os 14 pontos
defendidos por Wilson se tornaram o fundamento da teoria liberal sobre o
internacionalismo, isto é, os EUA deveriam assumir a responsabilidade por
manter o mundo regido pelos princípios liberais capitalistas em segurança. Entretanto,
o uso da doutrina Monroe enquanto estratégia internacional não se restringiu às
disputas políticas nos EUA, mas passou a ser utilizada por grandes potências em
ascensão que, como regra geral, sempre expressam algum tipo de reivindicação e
de protesto em relação à ordem mundial vigente, o que gera,
inevitavelmente, uma acirrada competição por domínio de territórios. Em
vez de criticar o intervencionismo associado à doutrina Monroe, não é raro que
Rússia e China tentem estabelecer uma analogia com os EUA em suas respectivas
áreas de projeção regional. Da mesma forma que os EUA fizeram uso da Doutrina
Monroe no hemisfério Ocidental, enquanto potência em ascensão no século XIX, a
doutrina é reivindicada, explícita ou implicitamente, por grandes potências com
o objetivo de ter os mesmos direitos que os EUA alegam ter no Hemisfério.
Isto é, que têm o direito de intervir militarmente em espaços onde há conflitos
em que se constata a presença de “forças exteriores” à região ameaçando seus
interesses nacionais. No contexto do processo de dissolução da
União Soviética, foram publicados vários policy papers e
memorandos por assessores políticos e analistas em que se mencionava
explicitamente a doutrina Monroe para argumentar que o espaço geopolítico da
antiga União Soviética deveria ser considerado “esfera vital de interesse
da Rússia”.
As
disputas sobre o Mar do Sul da China se tornaram o foco de tensões regionais e
preocupações a partir do momento em que a China declarou sua soberania
territorial marítima naquele espaço. Em maio de 2014, Xi Jinping explicou o que
seria a “Nova Diplomacia Asiática”: “Em última análise, cabe ao povo da Ásia
administrar os assuntos da Ásia, resolver os problemas da Ásia e manter a
segurança da Ásia. O povo da Ásia tem a capacidade e a sabedoria para alcançar
a paz e a estabilidade na região por meio de uma cooperação aprimorada,
recusando nacionalmente o envolvimento de terceiros. Vários analistas
consideraram a frase “cabe ao povo da Ásia administrar os assuntos da Ásia”
como uma versão japonesa da Doutrina Monroe do início do século XX. Em discurso
proferido na Assembleia Geral da ONU sobre a questão ucraniana, Lavrov,
ministro de Relações Exteriores da Rússia, advertiu: “A famosa Doutrina Monroe
está adquirindo um alcance global” e acrescentou que Washington procura
expandir sua esfera de influência em todo o planeta. No mesmo sentido, em
publicação recente, o Ministério das Relações Exteriores da China chega a
afirmar que os EUA com a justificativa de promover a democracia, têm adotado a
“Doutrina Neo-Monroe” na América Latina, estimulado as “revoluções coloridas”
na Eurásia e planejado a “Primavera Árabe” na Ásia Ocidental e no norte da
África com o objetivo de derrubar governos hostis ou não alinhados.
Ou seja, as grandes potências se utilizam dos diferentes significados da
doutrina Monroe para construir suas narrativas de reivindicação de direitos
iguais, no sentido de se respeitar esferas de influência, ou de rechaçar a
doutrina Monroe quando é vista como proposta de instrumento da hegemonia dos
EUA em qualquer parte do mundo.
Um
conceituado historiador da política externa dos EUA disse, apropriadamente, que
a Open Door “é uma metáfora e que como todas as metáforas, ela extrai sua força
da fidelidade com que suas imagens retratam a realidade que procuram
descrever”. Ao absorver variedades essencialmente diferentes de experiências
ideológicas dentro do campo de suas imagens, a doutrina tende a sufocar a
análise e a inibir a formulação de novas questões.
Acrescentaríamos que além da Open Door, a Doutrina Monroe, também pode ser
vista como uma metáfora em que se manifestam todas as características apontadas
acima, mas discordamos enfaticamente do autor quando afirma que a concepção
ideológica que orienta a doutrina apenas “oculta desvios ideológicos na
política externa dos Estados Unidos e obscurece as escolhas difíceis”. Pelo
contrário, como procuramos argumentar, aflorar as várias interpretações das
doutrinas e suas fusões expõe de forma clara não apenas as tensões e
contradições históricas existentes na política externa dos EUA, mas também em
relação à forma pela qual outras potências a interpretam.
As
interpretações de Wilson a respeito das diversas doutrinas históricas dos EUA
mudaram a forma como o liberalismo passou a conceber as relações entre
geopolítica e economia internacional e se tornou hegemônico entre as elites do
país. A ameaça mais importante à estabilidade internacional não era
propriamente a guerra entre os Estados, mas, sobretudo, as possíveis
consequências que poderiam advir desses conflitos, como o colapso das
instituições que mantinham o funcionamento do sistema mundial de comércio. Para
manter a liberdade econômica do capitalismo mundial, o liberal
internacionalismo passou a empunhar instrumentos econômicos como as novas armas
na política internacional. O liberal internacionalismo contínua vivo como
nunca. Embora haja uma mudança importante no tom político no governo Biden,
que, embora não tenha incentivado golpes de Estado como fez Trump, tem mantido
o embargo a Cuba e as sanções à Venezuela, Nicarágua, Irã e Rússia. O liberal
internacionalismo pode até rejeitar formalmente a aplicação da doutrina Monroe,
mas não há grandes divergências com os esforços de Trump para combater a
crescente influência econômica da China ou as áreas de influência reivindicadas
pela Rússia no Leste Europeu. Isso é, há um consenso entre as elites estadunidenses
que os EUA e aliados deverão usar todos os instrumentos econômicos
disponíveis para punir governos que desafiam o seu domínio global ou se
aliam às outras potências, como Rússia e China. Resta saber se as novas
configurações na economia mundial e na ordem geopolítica ainda se coadunam com
as doutrinas expansionistas dos EUA.
Fonte:
A Terra é Redonda

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