sábado, 17 de janeiro de 2026

Kobori: “Trump atacou a Venezuela para tentar salvar a hegemonia do dólar”

O economista José Kobori afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atacou a Venezuela e promoveu o sequestro do presidente Nicolás Maduro como parte de uma estratégia geopolítica voltada a preservar a hegemonia do dólar e reorganizar o poder norte-americano no continente americano. Segundo ele, o episódio marca um divisor de águas e confirma que Washington abandona de vez a retórica do “soft power” para atuar com a lógica do “porrete”, em uma escalada que pode atingir México, Colômbia e, mais adiante, o Brasil.

As declarações foram feitas por Kobori em entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, em conversa exibida na TV 247, centrada nas consequências do ataque à Venezuela, no papel da China e nas ameaças sistêmicas de uma crise financeira internacional.

Logo no início, Kobori rejeitou a narrativa oficial de que a operação teria como motivação combate ao narcotráfico, terrorismo ou defesa da democracia. Para ele, esse tipo de acusação funciona como “argumento automático” produzido pelos EUA para legitimar intervenções, mas perde credibilidade quando aplicada seletivamente conforme a conveniência imperial.

“Isso é tudo balela, né? Que se você for aliado aos Estados Unidos, tudo isso aí se torna irrelevante.”

O economista sustentou que a própria fala de Trump teria exposto o interesse real: o controle do petróleo e a imposição do dólar como moeda de referência em transações estratégicas. Em sua leitura, o foco não é garantir abastecimento energético — pois os EUA seriam autossuficientes — e sim cortar o acesso da China ao petróleo venezuelano, obrigando Pequim a pagar em dólar e, assim, reforçar a moeda norte-americana como eixo do sistema.

“Na realidade não é sobre ter acesso, é sobre cortar o acesso da China, principalmente ao petróleo.”

<><> A “doutrina Donroe” e a volta do Big Stick

Kobori disse que o ataque à Venezuela foi o primeiro grande teste daquilo que chamou de nova doutrina de Trump, apelidada por ele de “Donroe”, uma fusão entre o nome Donald e a antiga Doutrina Monroe, que pregava a “América para os americanos”. Segundo o economista, trata-se de uma reedição do “Big Stick” — a política de imposição pela força — agora aplicada de maneira aberta, inclusive com ameaças a países aliados.

Ele avaliou que Trump tenta concentrar o esforço estratégico no hemisfério ocidental porque os EUA não teriam mais capacidade econômica de enfrentar simultaneamente todas as frentes que abriram no mundo. Por isso, buscariam controlar a América Latina como base para, no futuro, retomar confrontos com Rússia e China em melhores condições.

<><> Groenlândia, Ártico e a nova disputa por rotas globais

Durante a entrevista, Attuch mencionou ameaças de Trump de usar poder militar para conquistar a Groenlândia. Kobori explicou que o interesse não é apenas territorial: a Groenlândia se conecta à disputa pelo Ártico, que ganha centralidade geopolítica com o aquecimento global e o surgimento de novas rotas marítimas.

Para ele, Trump tenta avançar sobre essa região porque deseja dominar a rota ártica — estratégica para o comércio internacional — e porque ali está uma das fronteiras diretas entre EUA e Rússia no globo. O economista observou que a Rússia, hoje, lidera a tecnologia de navios quebra-gelo e tende a se beneficiar dessa nova navegabilidade.

<><> Venezuela como peça-chave na guerra monetária

Kobori insistiu que o núcleo do conflito está na fragilidade crescente do dólar. Na sua interpretação, Trump estaria “correndo contra o tempo” porque os EUA já vivem uma dívida impagável e dependem da condição do dólar como moeda global para sustentar emissão de dívida e financiar seu poder militar.

Ele explicou que a Venezuela, sob sanções severas, teria passado a vender petróleo à China e à Rússia fora da órbita do dólar, o que enfraquece o sistema de petrodólares. Assim, atacar a Venezuela seria também atacar um símbolo e um mecanismo de desdolarização.

“A grande fonte de poder dos Estados Unidos é a hegemonia do dólar.”

Kobori ainda especulou que Trump pode tentar usar o caso venezuelano como trunfo em eventual negociação direta com o presidente chinês, argumentando que aceitaria a continuidade das exportações desde que o pagamento fosse feito em dólar.

<><> Irã, Ormuz, Malaca e Taiwan: o tabuleiro da energia e do bloqueio

Ao ser questionado sobre o temor de que o Irã seja o próximo alvo, Kobori respondeu que o risco faz sentido — e não apenas por pressões de Israel, mas por interesse direto dos EUA em controlar gargalos do petróleo e rotas estratégicas ligadas à China.

Ele citou o Estreito de Ormuz, por onde passa parte decisiva do petróleo do Oriente Médio, e afirmou que dominar o Irã ampliaria o controle norte-americano sobre o fluxo energético que abastece a China. Em seguida, conectou esse raciocínio ao Estreito de Malaca, peça essencial no comércio asiático e que também poderia ser bloqueada a partir do domínio de Taiwan.

A lógica descrita por Kobori é a de um encadeamento geopolítico: energia, rotas marítimas, estrangulamento comercial e pressão militar para reorganizar a ordem global.

<><> Brasil na mira e a estratégia de desestabilização

Ao abordar a América do Sul, Kobori afirmou que, se os EUA consolidarem um eixo de controle regional, o Brasil tende a se tornar o alvo inevitável, por ser a maior potência do continente sem dissuasão nuclear. Mas ele esclareceu que o método provavelmente não seria uma invasão direta inicial, e sim desestabilização política e interferência eleitoral.

“O Brasil é o próximo passo… tentar mudar o nosso regime aqui via eleições.”

Ele estimou que Washington investirá fortemente para favorecer forças da direita e da extrema direita e tentou traçar uma perspectiva política ao dizer que considera improvável que o presidente Lula não seja reeleito, apontando o presidente como liderança de projeção mundial e capacidade política singular.

<><> A bolha da inteligência artificial e o risco de colapso financeiro

A entrevista também avançou para um tema de grande impacto: a possibilidade de uma crise financeira global associada à financeirização extrema da economia norte-americana e ao crescimento de bolhas tecnológicas, especialmente em torno da inteligência artificial.

Kobori afirmou ver sinais claros de um colapso no modelo econômico dos EUA, sustentado por especulação, endividamento e ativos financeiros desvinculados da economia real. Ele descreveu o mercado americano como um “castelo de cartas”, alimentado por trilhões investidos em IA sem perspectiva realista de retorno, já que grande parte dos usuários utiliza ferramentas como o ChatGPT gratuitamente ou para fins não econômicos, além de haver concorrência crescente de alternativas gratuitas — inclusive chinesas.

“Os Estados Unidos tá em cima de um castelo de cartas… trilhões e trilhões de dólares estão sendo colocados num negócio que não vai dar o retorno.”

Nesse cenário, ele alertou que uma crise de liquidez pode destruir riqueza, afetar ativos e derrubar empresas inclusive da economia real — um choque com potencial de contaminar o mundo inteiro.

<><> Recursos naturais, minerais críticos e a disputa pela América do Sul

Kobori também relacionou a ofensiva à Venezuela à corrida por minerais críticos e metais essenciais para a transição energética e para tecnologias digitais. Para ele, os EUA querem controlar recursos estratégicos não apenas para uso próprio, mas para impedir o avanço chinês, num movimento semelhante ao que citou sobre o “triângulo do lítio” na América do Sul.

Ele afirmou que o objetivo é impedir que a China mantenha acesso privilegiado a petróleo, prata, terras raras e minerais críticos — elementos fundamentais para baterias, carros elétricos e sistemas de IA.

<><> Defesa, soberania e o erro nuclear brasileiro

Em outro momento da conversa, Kobori afirmou que foi um “erro crasso” o Brasil ter abandonado o projeto de dissuasão nuclear e descontinuado parte da indústria de defesa, relacionando isso à adesão ao Consenso de Washington e ao impacto do neoliberalismo sobre setores estratégicos.

“O Brasil tem mentes e capacidade tecnológica para já ter a sua bomba nuclear… mas nós abandonamos isso lá atrás.”

Ele lembrou que o país já teve capacidade de produzir tecnologia militar avançada, mas teria desmontado sua base industrial, abrindo espaço para maior vulnerabilidade estratégica.

<><> Redes sociais, polarização e dominação por algoritmos

Na reta final, a entrevista abordou o papel das big techs e redes sociais na fragmentação social. Kobori afirmou que as plataformas cumprem papel central na polarização e no enfraquecimento da coesão nacional, criando bolhas, “soluções fáceis” e indivíduos que se sentem especialistas sem estudo. Ele destacou a decisão chinesa de barrar big techs ocidentais como parte de uma estratégia de proteção soberana.

“Essa comodidade é utilizada para nos dominar… pelos algoritmos, para nos colocar nessas bolhas.”

<><> Um alerta geopolítico com impacto direto no Brasil

Ao conectar o ataque à Venezuela à hegemonia do dólar, às rotas do Ártico, à pressão sobre China e Rússia e à disputa por minerais críticos, José Kobori sustenta que os EUA, sob Donald Trump, teriam inaugurado uma fase mais explícita e agressiva de dominação regional. A América Latina surge, nesse quadro, não como periferia, mas como zona central do confronto geopolítico do século XXI.

Para Kobori, a Venezuela foi o teste inicial. O que virá depois — seja via pressão militar, econômica ou desestabilização política — tende a repercutir diretamente no Brasil, que se equilibra entre sua integração econômica com a Ásia e a vulnerabilidade estratégica de pertencer ao hemisfério ocidental sob a mira histórica de Washington.

•        João Cezar: podemos estar diante do princípio da terceira guerra mundial

A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela pode representar muito mais do que uma crise regional. Para o historiador e ensaísta João Cezar de Castro Rocha, o mundo vive um momento-limite, em que decisões tomadas por Washington colocam em risco toda a arquitetura internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, a conjuntura atual aponta para um cenário extremo, sem precedentes desde o século XX.

A avaliação foi feita durante entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, em análise que também repercutiu no Brasil 247. Ao longo da conversa, Castro Rocha afirmou de forma direta: “Nós estamos assistindo, na verdade, potencialmente, ou ao princípio da Terceira Guerra Mundial ou ao princípio final da decadência americana”. A declaração sintetiza a gravidade do momento geopolítico, segundo sua leitura histórica.

<><> O retorno explícito da lógica imperial

Na entrevista, o historiador sustentou que a política externa dos Estados Unidos deixou de operar sob disfarces ideológicos. Para ele, não se trata mais da Doutrina Monroe em sua forma retórica, mas da aplicação radical do corolário Roosevelt, formulado em 1904, que autorizava intervenções militares na América Latina para proteger interesses econômicos norte-americanos.

Castro Rocha explicou que esse princípio sempre esteve presente na política externa dos EUA, mas agora retorna de forma aberta e cínica. Segundo ele, a lógica atual é simples e brutal: países que concentram recursos estratégicos, como petróleo e terras raras, não podem permanecer fora do controle norte-americano. Essa postura, afirmou, rompe qualquer verniz diplomático e escancara a lógica do poder.

<><> Venezuela como ponto de ruptura global

Ao analisar o caso venezuelano, o historiador destacou que o país reúne condições estratégicas centrais: grandes reservas de petróleo, minerais essenciais para a tecnologia da informação e posição geopolítica sensível. Para Castro Rocha, se os Estados Unidos conseguirem impor sua vontade sobre a Venezuela, abrirão um precedente devastador.

Ele alertou que uma eventual vitória norte-americana teria efeito dominó imediato. Em suas palavras, a China não ficaria inerte em relação a Taiwan, e a Rússia passaria a considerar legítima a ocupação integral da Ucrânia. “Acabará qualquer espécie de regulação no plano internacional”, afirmou, ressaltando que o respeito às instituições multilaterais se tornaria irrelevante diante da lei do mais forte.

<><> O colapso da ordem do pós-guerra

Durante a entrevista, Castro Rocha relembrou que, após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações foi criada para evitar novos conflitos globais — tentativa que fracassou quando as grandes potências passaram a desrespeitar suas regras. Depois da Segunda Guerra, a Organização das Nações Unidas assumiu esse papel, estabelecendo limites formais à ação militar dos Estados.

Segundo o historiador, o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atua deliberadamente para minar esse sistema. Ele citou o desmonte do financiamento à ONU e o desprezo aberto pelas normas do direito internacional como sinais de que Washington já não reconhece qualquer instância reguladora acima de seus interesses imediatos.

Para Castro Rocha, se o sequestro de um chefe de Estado e a intervenção direta em um país soberano forem normalizados, o mundo entrará em uma fase de completa instabilidade. Países mais fortes passarão a agir sem restrições contra países mais fracos, repetindo padrões do imperialismo do início do século XX.

<><> Entre a guerra mundial e a decadência dos Estados Unidos

A análise apresentada no Boa Noite 247 não se limita ao plano externo. Castro Rocha ressaltou que há também implicações internas graves para os próprios Estados Unidos. Ele lembrou que, pela Constituição norte-americana, o presidente não pode se engajar em ações de guerra sem autorização do Congresso, o que levanta questionamentos jurídicos profundos sobre a legalidade das operações.

Nesse contexto, a tentativa de enquadrar ações militares como combate ao terrorismo seria, segundo ele, a única saída para evitar uma crise institucional ainda maior. Mesmo assim, o historiador observou que, diferentemente de outros momentos históricos, não houve mobilização patriótica significativa dentro dos Estados Unidos, o que revela fragilidade política e isolamento do governo.

<><> Um mundo à beira do colapso

Ao final da entrevista, Castro Rocha enfatizou que o desfecho da crise dependerá, em grande medida, da resistência interna na Venezuela e da reação da comunidade internacional. Para ele, a história mostra que guerras de libertação nacional têm enorme capacidade de mobilização e desgaste do invasor, o que pode transformar a Venezuela em um conflito prolongado, com impactos imprevisíveis.

Ainda assim, o alerta central permanece: o mundo entrou em uma zona de perigo. Seja pelo caminho de uma escalada militar global, seja pela corrosão definitiva da autoridade dos Estados Unidos, a conjuntura atual, segundo o historiador, marca um ponto de inflexão histórico cujas consequências ainda estão em aberto.

 

Fonte: Brasil 247

 

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