Paulo Capel Narvai: Enamed e cretinismo
parlamentar estratégico
Mal os ministros da Educação e da Saúde
anunciaram, em 19 de janeiro de 2026, os resultados da primeira edição do Exame
Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), informando que dos 351
cursos que formam médicos no Brasil, 107 (30,5%) foram considerados com
“desempenho insatisfatório”, senadores e deputados puseram-se em disputa contra
o tempo para ocupar o primeiro posto no apoio à proposição de uma lei para
punir. No Senado, após ser objeto de duras críticas em setembro de 2025, na
Comissão de Assuntos Sociais (CAS), ganhou novo fôlego o PL 2.294/2024,
apresentado pelo senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP) e relatoria do
senador Dr. Hiran (PP-RR), propondo a criação do Exame Nacional de Proficiência
em Medicina. Aprovado no Senado em 3 de dezembro de 2025, por 11 votos a 9, o
PL que institui o Conselho Federal de Medicina (CFM) como gestor do exame,
seguiu para a Câmara dos Deputados.
Na Câmara dos Deputados, vinham tramitando
sete projetos de lei com objetivo similar: submeter egressos de cursos de
medicina a um exame nacional de proficiência. Os resultados do Enamed, vistos
como “lenha na fogueira”, vão acelerar a fusão dos PL e a aprovação, com ou sem
alteração, do PL 2.294/2024.
Senadores e deputados que apoiam a
instituição do exame alegam ter como objetivo avaliar a qualidade da formação,
antes que o profissional possa atuar no mercado de trabalho. Mas não se espere
que os resultados desses exames possam subsidiar eventuais punições aos
responsáveis pelos cursos. Ou às empresas, ou instituições públicas, que os
mantêm. Não, nada disso. O foco é punir as vítimas da má qualidade do ensino.
A informação de que mais da metade dos 89.024
egressos dos cursos médicos em 2025, não obtiveram a nota considerada mínima
para atestar sua proficiência não sensibilizou suficientemente os congressistas
para que localizem em contexto mais amplo suas avaliações das causas,
consequências e soluções para o problema. Nada disso. Basta, para a maior parte
dos parlamentares do Congresso Nacional, punir os formandos e concluintes dos
cursos. Para Camilo Santana, ministro da Educação, a avaliação da formação médica
visa a “garantir que as instituições que ofertam esses cursos, tanto públicos
quanto privados, sejam de excelente qualidade”. O ministro da Saúde, Alexandre
Padilha, considerou o Enamed “um verdadeiro diagnóstico da formação médica no
nosso país”. Para o governo federal, os cursos com desempenho insatisfatório
serão submetidos a ações de supervisão escalonadas, que incluem suspensão de
ingresso de novos estudantes, redução de vagas e restrição de participação em
programas federais, como Fies e Prouni. As medidas entram em vigor
imediatamente.
Institucionalizar a avaliação da formação
médica – e da formação em saúde, de modo geral – é uma iniciativa relevante.
Mas o termo ‘avaliação’ é exigente. Se o Enamed ficar apenas no plano do
ranqueamento de cursos e da classificação de egressos, como parecem querer
algumas entidades médicas e a maioria dos parlamentares no Congresso Nacional,
não se farão avaliações dignas do nome. E teremos a mera reprodução do que
sabemos há muito tempo sobre a formação médica no país.
Entidades que representam empresas que formam
médicos no Brasil, como a Associação Nacional das Universidades Particulares
(Anup) e a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes)
reclamaram dos resultados e da divulgação do Enamed, anunciando que acionarão o
Ministério da Educação e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Não aceitam as punições previstas. É justo
afirmar que, de verdade, não querem, pois nunca quiseram, avaliação alguma. A
divulgação dos resultados, e sua repercussão no Congresso Nacional, logo ecoou
em toda a sociedade e, claro, no Conselho Federal de Medicina, órgão a quem
incumbe fiscalizar o exercício profissional de médicos e médicas. Mas o
Conselho Federal de Medicina, que como se sabe, há tempos exorbita suas
atribuições legais, imiscuindo-se em assuntos que vão de aborto a vacinas,
passando pelo ensino médico, logo fez saber que estava considerando a
oportunidade de instituir um “exame de ordem”, e que normas legais sobre isso
estavam sendo cogitadas. O Conselho Federal de Medicina quer punir as empresas
que formam? Não, nada disso. Quer punir formados.
De acordo com a Agência Brasil, o Conselho
Federal de Medicina “estuda utilizar as notas” do Enamed como “critério para
conceder o registro profissional aos formandos” e que, para essa finalidade,
“pediu ao MEC e ao Inep os microdados do exame, com a identificação das pessoas
que tiraram notas 1 ou 2, consideradas insuficientes”. Segundo o presidente do
Conselho Federal de Medicina, com o apoio da Associação Médica Brasileira
(AMB), é necessária, conforme mostram os resultados do Enamed, a instituição de
“um exame de proficiência médica como pré-requisito para o exercício da
medicina”, a exemplo do que ocorre com o exame da Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB).
Ah, o Conselho Federal de Medicina!
O conceito de “exame de ordem” tem origem no
exame criado em 1963 pela Lei nº 4.215, autorizando a OAB a aferir quem pode e
quem não pode, dentre bacharéis em direito, exercer a profissão de advogado.
Advocacia não é direito, argumenta-se desde então. Atualmente, a OAB realiza
seu “Exame de Ordem Unificado” três vezes ao ano, para conferir aos aprovados,
o direito de advogar. Nunca se soube, porém, exatamente, o destino profissional
dado institucionalmente aos bacharéis considerados “não proficientes”. O tema
parece não pertencer à missão da OAB, nem às empresas e instituições que formam
bacharéis em direito no Brasil. Nem às autoridades educacionais brasileiras.
Não obstante, o “exame de ordem” incendeia corações e mentes em outras áreas de
conhecimentos e práticas, notadamente a saúde. Autarquias vinculadas à
Administração Pública federal, incumbidas de fiscalizar o exercício
profissional de diversas categoriais profissionais, aspiram, sem sequer
disfarçar, o desejo de instaurar “exames de ordem” para graduados interessados
em integrar as corporações profissionais que as autarquias fiscalizam. Elas,
decerto, seriam as gestoras dos respectivos exames.
Foi esse desejo que desencadeou a
manifestação do Conselho Federal de Medicina, a favor de “exame de ordem” para
médicos(as) e, num primeiro momento, utilizar as notas obtidas por egressos no
Enamed-2025. Outras vozes, porém, felizmente, se levantaram e divulgaram
análises, notas e posicionamentos sobre propostas pretensamente avaliativas da
qualidade da formação médica, que põem seus focos apenas em egressos e não nas
organizações formadoras, públicas e, sobretudo, particulares.
O CEBES, Centro Brasileiro de Estudos de
Saúde, divulgou análise em que afirma que “a questão é mais profunda: a crise
da formação médica no Brasil possui múltiplas camadas e não pode ser reduzida à
figura do ‘mau aluno’”. Assinalando que ainda que a Constituição de 1988 tenha
assegurado a educação como um direito, a crescente privatização da educação no
Brasil transforma também a educação médica “em mercadoria regulada pela lógica
de mercado”, pois essa formação, “nunca esteve desvinculada dos interesses daqueles
que, na sociedade capitalista, almejam lucrar com a medicina”. Cursos de
propriedade de particulares, registra o artigo do CEBES, com base no documento
Demografia Médica no Brasil 2025, “detêm 91,5% das novas vagas abertas desde
2014. No estágio atual do capitalismo monopolista, a educação médica tornou-se
objeto de disputa entre diferentes frações da burguesia”, com “competição entre
conglomerados bilionários do setor educacional – organizados, em grande medida,
em torno da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) – e
fundações e mantenedoras privadas tradicionais. Por isso, o debate sobre
abertura de cursos jamais foi, de fato, sobre qualidade pedagógica ou
necessidade sanitária, mas sobre quem controlará o monopólio e os lucros associados
ao mercado da Medicina”. As mensalidades dos cursos de Medicina, diz o texto,
“são muito atrativas para os empresários da educação médica”, pois seus valores
oscilam “entre R$ 7 mil e R$ 12 mil por mês, com cursos de ponta podendo
ultrapassar os R$ 15 mil mensais”.
O referido artigo cita análise (Abertura de
novas escolas médicas no Brasil: falsas respostas para um falso debate)
assinada por Clara Vidal, para quem “conglomerados como AFYA, Ânima Educação e
YDUQS passaram a hegemonizar o setor, impulsionados pela alta rentabilidade e
pelo ingresso de capital financeiro internacional. Esses grupos tornaram-se
protagonistas da chamada ‘guerra dos jalecos’, na qual vagas de Medicina se
transformaram em ativos altamente lucrativos”. Pelas declarações de quem vê
alguma utilidade em “exames de ordem”, deduz-se que parecem supor que uma
espécie de “darwinismo pedagógico” resolverá, em algum momento, as contradições
entre as necessidades sociais de profissionais médicos e a transformação dessa
formação em mercadoria. Defensores dessa alternativa, que nega a educação como
um direito social, argumentam que “o mercado” fará com que os piores cursos
fechem suas portas e que apenas os melhores sobrevivam”. Mas não é,
propriamente, pedagógico esse darwinismo. É econômico mesmo. Um velho conhecido
do neoliberalismo.
Quanto ao “exame de ordem” para médicos,
nutre-se a crença de que outra espécie de darwinismo resolverá os problemas de
egressos de cursos com mau desempenho. Estes não seriam “proficientes” e,
portanto, não poderiam exercer a profissão para a qual foram formados. O que
fazer, nesse cenário, com esses egressos é a pergunta que não quer calar, pois
trata-se de um problema para o qual não se aventam possibilidades. Uma espécie
de “darwinismo dos jalecos” os deixaria num limbo profissional.
Em rede social, perguntei sobre o que será
feito de reprovados em eventual “exame de ordem”, pois o CFM nada diz sobre
isso. Provoquei: “joga no mar? Queima em alguma fogueira? Põe na linha de tiro
de algum pelotão de fuzilamento? Manda ‘pra Cuba’? Para o Paraguai? Para
Portugal? Outro país?”. Curiosamente, mas nem tanto, pois não consideram ser
isso um problema deles, todos os que defendem “exames de ordem” – e agora
também para outros egressos da saúde, como enfermeiros, dentistas… – nada,
rigorosamente nada, dizem sobre a ideia “jenial” de instaurar “exames de
ordem”, sem apresentar alternativas para “não proficientes”. Um amigo disse
que, pelo jeito, “espera-se que sejam motoristas de aplicativos”, a
“solução-panaceia” para enfrentar problemas e dificuldades decorrentes de
disfuncionalidades do trabalho, qualquer trabalho, sob o capitalismo
financeirizado.
É preciso, porém, ir ao foco do problema. À
origem desses males para os quais se busca a panaceia do “motorista de
aplicativo”. E ela está aí, à vista de todos. “Até as pedras sabem”, afirmei na
rede social, “quais são os cursos picaretas, os que ‘vivem de vender diplomas’…
Não há muitas novidades nesse problema que só fez se agravar no período mais
recente. Várias comissões e grupos de trabalho para avaliar a qualidade da
formação médica no Brasil vêm, há muito tempo, indicando quais são os cursos
que deveriam ser fechados e os motivos para isso. Mas não há autoridade
governamental que consiga dar andamento aos processos para punir esses cursos e
empresas. Ocorre que a dificuldade central, o nó principal desse
saber-e-não-poder-agir, está justamente naqueles que, neste momento querem
punir egressos.
Querem punir egressos para preservar de
punições os verdadeiros responsáveis. Por que o fazem? Ora, o fazem porque
precisam do apoio desses responsáveis para obter votos e seguir titulares de
mandatos parlamentares, em abjeta troca de favores que se perpetua em nossos
parlamentos, de Câmaras Municipais ao Congresso Nacional”.
É mais prático e eficaz, todo mundo sabe,
fechar esses cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada
de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar
congressistas venais? Atenção: refiro-me a congressistas venais, não a todos os
congressistas, pois decerto que há entre eles parlamentares decentes e que
merecem o reconhecimento público.
O cretinismo parlamentar, a que me referi no
título, não se refere às ilusões com a atividade legislativa, e à perda da
conexão com a realidade e os conflitos sociais, compartilhada por membros da
Assembleia da república francesa, no período do autogolpe de Luís Bonaparte
(1848-1851), minuciosamente analisado por Karl Marx em O 18 Brumário de Luís
Bonaparte. Aquele cretinismo dizia respeito à estupidez de acreditar que o
“cenário de operações” em que lutas sociais poderiam ser equacionadas e
solucionadas seria o parlamento, em detrimento dos enfrentamentos que eclodiam
em toda a França e que culminariam na dissolução daquela Assembleia.
Mas, não. O cretinismo a que me refiro é de
outro tipo. Trata-se do “cretinismo parlamentar estratégico”, uma aplicação da
‘ignorância estratégica’ de que fala a socióloga canadense Linsey McGoey e que
diz respeito à omissão de pessoas, empresas e governos que, frente a
conhecimentos que possam lhes ameaçar de algum modo, optam por ignorá-los,
ainda que a rigor, tecnicamente falando, não sejam ignorantes.
Em 1995, o biólogo e historiador da ciência
Robert Proctor, professor da Universidade de Stanford, propôs a Agnotologia
como um ramo da história da ciência que se ocupa do estudo das políticas de
produção da ignorância. O cretinismo parlamentar, no caso dos projetos de lei
derivados da ideia de um “exame de ordem da medicina”, agora impulsionados pelo
Enamed-2025, alinha-se ao que poderíamos denominar, à luz da Agnotologia, de
agnotofilia de alguns senadores e deputados. Na agnotofilia do cretinismo parlamentar
estratégico o agnotófilo não expressa qualquer tipo de ilusão, ou ingenuidade.
Ao contrário, nessa situação a agnotofilia é caracterizada por um tipo de
cretinismo em que “fingir demência” é funcional à criação de confusão, como uma
técnica para ocultar o que importa. No caso das referidas propostas
legislativas, o cretinismo parlamentar estratégico consiste em simular a
ignorância de que não se sabe o que efetivamente se sabe: que subjacente à
sobrevivência de cursos de medicina (e de outros da saúde) estão as ações de
parlamentares que atuam sempre à sombra, mas eficazmente, para que as
avaliações de cursos jamais atinjam os objetivos para as quais são feitas.
A técnica de ocultamento do que importa
consiste em simular interesse sobre fatos relevantes, fingindo não saber que os
próprios pares são parte interessada em que nada seja resolvido.
• Por
que escolas privadas foram contra o Enamed. Por Deivisson Santos e Sabrina
Stefanello
Os cursos de medicina e a qualidade da
formação médica voltaram à pauta brasileira na última semana. A responsável por
isso foi a ação política de finalmente bancar uma avaliação que tenha
consequências reais, principalmente para os grandes grupos comerciais do ramo
da educação. 351 cursos de medicina foram avaliados, dos quais 202 estão na
categoria de instituição “privada com ou sem fins lucrativos” ou
“comunitária/confessional”, que também são instituições privadas. Os dados são
um tapa na cara daquele velho discurso da eficiência e excelência do setor
privado frente ao público. Enquanto 87,6% dos cursos das Instituições de Ensino
Públicas Federais tiveram resultados entre 4 e 5 (em uma escala de 1 a 5),
apenas 2,7% dos cursos das instituições privada com fins lucrativos obtiveram o
mesmo resultado. Já o inverso também é verdadeiro, apenas 5,1% dos cursos
públicos federais tiveram resultados entre 1 e 2, enquanto 58,4% das
instituições privadas com fins lucrativos foram mal avaliadas com os resultados
1 e 2. Vale ressaltar que, dentro do mundo privado, as instituições com fins
lucrativos se saíram pior na avaliação do que as sem fins lucrativos, que por
sua vez, tiveram pior desempenho quando comparadas às comunitárias e
confessionais.
A maior novidade está apenas em avaliar as
escolas médicas, uma vez que isso acontece pelo Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Superior (Sinaes) há 20 anos. A inovação é que se tratou de uma
nova modalidade de avaliação chamada de Enamed (Exame Nacional de Avaliação da
Formação Médica). A diferença é que, no Sinaes, as notas são calculadas a
partir de uma série de indicadores que consideram aspectos como a
infraestrutura da instituição, a qualificação dos professores, a nota no Exame
Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE), entre outros critérios
específicos de cada área de conhecimento. Já o Enamed é exclusivamente focado
na mensuração de conhecimento dos alunos dos últimos anos.
Por mais que o Sinaes tenha parâmetros
avaliativos mais amplos, muitos deles possuem uma esfera subjetiva rapidamente
assimilada pelos cursos. Estes apreenderam a se adaptar e a mostrar exatamente
o que o avaliador quer escutar – isso pode explicar em parte a discrepância de
resultados nas duas avaliações, já que algumas instituições mal avaliadas no
Enamed foram bem avaliadas no Sinaes. Ademais, o Sinaes foi se enfraquecendo ao
longo do tempo. A pressão dos grupos privados, por exemplo, garantiu o Decreto nº
9.235 de 2017 e a Portaria Normativa nº 20 do mesmo ano, que concederam
dispensa de avaliação externa in loco tanto para autorização como para
reconhecimento e renovação de cursos. Também tivemos a portaria nº 840 de 2018,
que trouxe a possibilidade de instituições de ensino avaliadas recorrerem
contra decisões que anteriormente eram irrecorríveis, assim como a inclusão de
outras medidas que foram flexibilizando a regulação pelo MEC¹.
Por esta razão, a iniciativa que o Ministério
da Educação tomou o ano passado de reformular a avaliação e criar o Enamed foi
importante. Por mais que esta modalidade seja unidimensional, ou seja, é apenas
um indicador de resultado e não de estrutura ou de processo, é um bom ponto de
partida em direção a uma mudança na cultura de avaliação das escolas médicas –
principalmente para aquelas que respondem mais diretamente à lógica de mercado.
A própria matriz avaliativa foi modificada, em 2025, tornando-se direcionada a
competências mais amplas e à atenção primária em saúde. Também foram incluídas
as áreas saúde coletiva, medicina de família e comunidade e saúde mental que
não existiam nas matrizes anteriores. Além disso, a avaliação ganha
aplicabilidade imediata, com redução ou cessação de oferta de vagas pelos
cursos mal avaliados.
<><> A resposta das instituições
privada – e do CFM
Logo antes da divulgação dos resultados, a
Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) tentou barrar na
Justiça a divulgação dos resultados do Enamed. De acordo com pronunciamento do
setor: “as instituições temem que notas baixas no exame afetem o valor de ações
dessas empresas na bolsa, o que traria, além de dano à reputação, prejuízo
financeiro para os grandes grupos”. Sim, a preocupação dos grandes grupos, é,
para surpresa de ninguém, a queda valor de suas ações na bolsa de valores. Vale
lembrar que este ramo é lucrativo; basta olhar para os valores de mensalidades
pagas que podem chegar a R$ 16.000,00.
É importante compreender que o atual Enamed
não deixa de ser uma resposta à proliferação de escolas médicas pelo país.
Contudo, parte de uma compreensão e modo de lidar diferente do capital.
Explicamos. Tramita no senado federal PL 2.294/2024, que cria o exame nacional
de proficiência em Medicina (ProfiMed), o PL foi aprovado ano passado na
Comissão de Assuntos Sociais do Senado em votação terminativa e aguarda destino
na mesa da presidência. O PL transfere ao Conselho Federal de Medicina (CFM) a
regulamentação e coordenação de uma prova, que seria obrigatória para registro
profissional.
O ProfiMed, defendido pelo o CFM e pela
bancada conservadora, responsabiliza unicamente o estudante pela má formação
apresentada. Enquanto o Enamed pune as instituições e garante que os estudantes
que estão matriculados terminem o curso, o Profimed mantém as instituições
intactas e apenas barra o registro dos seus egressos, algo parecido com o que
acontece com o exame de ordem dos advogados (OAB). Bem sabemos que esta
estratégia, do exame de ordem, não melhorou a qualidade das escolas de Direto e
hoje temos mais de 1.900 cursos no Brasil. Este é o embate político que se
trava entre Enamed e ProfiMed. Um possui uma lógica que tenta responsabilizar
as instituições e o que é ofertado como formação e o outro que apenas garante
reserva de mercado punindo os egressos dos cursos enquanto os grupos
educacionais privados continuam lucrando. Também é um embate entre regulação do
estado e a famosa autorregulação do mercado. Por mais que toda a avaliação seja
falha e tenha limitações muitas vezes devemos escolher a menos ruim e seguir no
seu aperfeiçoamento.
Fonte: A Terra é Redonda/Outra Saúde

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