Quando
os EUA salvaram a Venezuela de um bloqueio europeu
Uma
esquadra de navios impõe um bloqueio na costa venezuelana e potências estrangeiras apresentam
ultimatos para o governo em Caracas. Não se trata de Donald Trump deslocando um porta-aviões e ordenando
a captura de petroleiros para tentar pressionar o regime de Nicolás Maduro, mas
uma cena que aconteceu há mais de um século. A chamada Crise da Venezuela de
1902 guarda paralelos com a atual escalada de tensão em andamento entre
Venezuela e Estados Unidos, mas também tem elementos de um mundo invertido. Os
algozes da Venezuela neste caso eram europeus: mais especificamente britânicos, alemães e italianos. E os venezuelanos apelaram que os Estados Unidos interviessem
para evitar uma escalada ainda mais grave, e Washington acabou se envolvendo em
apoio a Caracas.
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Escalada da crise
Era o
fim de 1902. A Venezuela passava por uma grave crise econômica e política sob a
batuta do presidente José Cipriano Castro, um militar nacionalista e
autoritário que havia chegado ao poder por meio de uma revolução. À época,
o país devia milhões de dólares em empréstimos a países europeus,
principalmente para o Império Britânico e o Império Alemão, este último
liderado pelo kaiser (imperador) Guilherme 2º. A Venezuela não só se recusou a
pagar, como foi além. Cipriano Castro deu outro calote, no pagamento de uma
ferrovia de 200 km de extensão, ligando Caracas e o porto de Valencia,
construída no país sul-americano pela empresa alemã Krupp.
Cipriano
Castro também acusado pelo Império do kaiser de desapropriar terras de
comerciantes alemães e forçá-los a ceder empréstimos ao governo da Venezuela.
A Coroa
Britânica e Império Alemão se uniram e reagiram. Em 7 de dezembro de 1902, as
duas potências apresentaram um ultimato para o pagamento, que foi
rejeitado por Cipriano Castro. O Reino da Itália, outro credor, também
apresentou um ultimato dias depois. Dois dias depois, as nações europeias
lançaram, em retaliação, um bloqueio naval na costa venezuelana no Mar do
Caribe. Um cruzador inglês e três alemães – incluindo o principal deles, o SM
Gazelle –, além de outros navios de guerra menores, encurralaram a pequena
frota da Marinha Venezuelana, composta de apenas quatro pequenos navios. A
coalizão germano-britânica afundou dois deles. A Itália, por sua vez, ficou
encarregada de bloquear o porto venezuelano de La Vela de Coro, no oeste
do país. Na sequência, os venezuelanos interceptaram um navio mercante
britânico. A situação escalou. Os europeus bombardearam Puerto Cabello, o
principal porto da Venezuela. Cipriano Castro, por sua vez, mandou prender 200
alemães e britânicos que viviam no país. Nessa altura, Alemanha e o Império
Britânico já cogitavam desembarcar em território venezuelano.
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Hesitação inicial dos EUA
Acuado,
Cipriano Castro vislumbrou uma saída: apelar para os Estados Unidos. O
presidente venezuelano entrou em contato com Washington e pediu para que os EUA
arbitrasse o conflito. O líder de Caracas acreditava que, pela Doutrina Monroe,
os EUA deveriam intervir automaticamente em seu favor, já que a crise
envolvia dois impérios europeus se metendo na zona de influência
americana.A partir dessa doutrina, estabelecida na primeira metade do século 19
e que ganhou o nome do ex-presidente James Monroe, Washington procurava
manter o domínio político e econômico nas Américas, impedindo tentativas de
recolonização por parte da Europa.
Mas, a
princípio, não era assim que o então presidente dos EUA, Theodore Roosevelt,
enxergava a situação. Ele inicialmente acreditava que Cipriano Castro
devia cumprir com as obrigações com os credores europeus. "Se qualquer
país sul-americano se comportar mal com qualquer país europeu, deixe o europeu
dar uma surra nele", ele já havia dito, quando ainda era vice-presidente. Até
então, segundo a interpretação conservadora de Roosevelt sobre a Doutrina Monroe, uma intervenção
americana só poderia ser iniciada no caso de uma invasão terrestre por
europeus. Ou seja, o bloqueio naval inicialmente não sofreu objeções de
Washington. Mas Roosevelt logo mudaria de ideia. O temor maior era em
relação aos alemães. O império do kaiser Guilherme 2º estava em
expansão e, logo, buscava novos mercados pelo mundo.
Em
1898, a marinha germânica havia anexado a baía de Kiauchau, na China,
depois de ocupar a região. O presidente americano, que em pouco tempo se
envolveria na construção do Canal do Panamá, passou a temer que os
alemães poderiam repetir o feito em Kiauchau na Venezuela, rivalizando assim
com os EUA na região. Os norte-americanos também vinham se expandindo no
Caribe, tendo conquistado Porto Rico dos espanhóis apenas três anos antes e
transformado na prática Cuba em um protetorado.
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Roosevelt entra na crise e fim do bloqueio
O
presidente dos Estados Unidos já havia sido alertado pelo Bureau of Navigation
dos EUA, uma agência responsável por fiscalizar o comércio marítimo, sobre
um eventual risco de os alemães forçarem a Venezuela a entregar uma fatia
de território como pagamento da dívida. Roosevelt era um germanófilo,
admirava a língua e a história alemã, mas desconfiava do kaiser, como ele mesmo
afirmara numa carta, um ano antes. Numa mudança de posição,
Roosevelt mandou avisar a Berlim que não toleraria a presença do Império
Alemão na América Latina. Primeiro, ele nomeou o único almirante quatro
estrelas da Marinha dos EUA, George Dewey, como comandante para exercícios
militares no Atlântico, algo pouco usual. Àquela altura, alemães e ingleses já
contavam com 29 embarcações militares no Mar do Caribe. Roosevelt, então,
mandou uma frota ainda maior, com 53 embarcações, que zarparam ao sul de Porto
Rico. Depois, o chefe da Casa Branca escreveu ao parlamentar britânico Arthur
Lee que Dewey se preparava para a "guerra". Por fim, chamou o
embaixador alemão, Theodor von Holleben, e disse para ele deveria avisar ao
governo do kaiser que o Império Alemão tinha dez dias para aceitar
uma arbitragem dos EUA na disputa com os venezuelanos. Do contrário,
enfrentaria os EUA.
As
conversas de Roosevelt com Von Holleben foram feitas a portas abertas a
chegaram aos ouvidos do secretário do presidente, William Loeb. Roosevelt
também relatou as negociações em cartas divulgadas mais tarde e disponíveis no
Theodore Roosevelt Center. Holleben, a princípio, achou que era um blefe e
inicialmente não transmitiu a informação. Semanas depois, Roosevelt chamou-o
novamente em seu gabinete e foi claro: era um ultimato, que ele agora
antecipava em 24 horas, para 17 de dezembro. O governo alemão finalmente capitulou,
e foi acompanhado pela Coroa Britânica e pela Itália. Os europeus acabaram
aceitando, enfim, a arbitragem americana do conflito com a Venezuela. O
bloqueio ainda perdurou oficialmente até fevereiro de 1903, mas já sem
incidentes militares. No dia 13 daquele mês, a Itália e os impérios Britânico
e da Alemanha selaram um acordo com a Venezuela, concordando com
uma redução drástica dos débitos de Caracas e num plano de pagamento que seria
coberto com uma porcentagem de arrecadação de taxas aduaneiras. O bloqueio
acabou oficialmente em 19 de fevereiro de 1903. O governo de Cipriano Castro,
no entanto, ainda seguiria mantendo relações tensas com as nações europeias. Em
1908, ele foi derrubado do poder em um golpe arquitetado pelo vice, Juan
Vicente Gómez, que reverteu medidas de Castro, reabriu o país ao investimento
estrangeiro e seguiu no poder liderando uma ditadura que durou até sua
morte, 1935.
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Expansão da Doutrina Monroe
A crise
na Venezuela, por fim, levaria o presidente dos EUA a divulgar, em dezembro de
1904, uma expansão da Doutrina Monroe, que desta vez passaria a incluir a
possibilidade de intervenção em assuntos internos de nações do continente
americano. Enquanto a interpretação original da doutrina previa que os EUA
tomariam ação para afastar os europeus do território das Américas, essa
expansão, batizada de Corolário Roosevelt, afirmava que, a partir daquele
momento, os Estados Unidos podiam intervir militarmente, como "polícia
internacional", "ainda que relutantemente", em casos
"flagrantes de transgressões" nas nações latino-americanas. O
objetivo declarado era intervir em crises e assim evitar que a situação de países
da região se deteriorasse a ponto de abrir a porta para ações de potências da
Europa. No entanto, a longo prazo, o corolário acabou tendo pouco peso nas
relações entre as Américas e a Europa, mas serviu como justificativa para
intervenções dos EUA em Cuba, Nicarágua, Haiti e República Dominicana nas
décadas de 1910 e 1930. Mais recentemente, a nova Estratégia de Segurança
Nacional anunciada por Trump em dezembro de 2025, está sendo vista como uma
nova expansão tanto da Doutrina Monroe quanto do Corolário Roosevelt.
Apelidada de "Doutrina Donroe" – um
neologismo que combina Donald e Monroe – a estratégia estabelece que
os EUA negarão a competidores externos "a capacidade posicionar
forças ou outros meios de ameaça" ou "possuir ou controlar
ativos estrategicamente vitais no nosso hemisfério", referindo-se
especialmente à China.
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A dança de guerra do Ocidente
A
Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou, no dia 10 de dezembro,
por 312 votos a 112, uma autorização de gastos militares de 900 bilhões de
dólares para o ano fiscal de 2026. Com cem bilhões suplementares aprovados na
primavera passada, o orçamento totaliza mais de um trilhão de dólares. Inclui
400 milhões de dólares anuais para o fornecimento de armas à Ucrânia nos
próximos dois anos. Isso representa cerca de 40% do gasto militar mundial. Uma
soma recorde, impressionante, difícil de dimensionar. É mais do que gastam
juntos os nove países que vêm a seguir, incluindo a China e a Rússia. Para um
país cuja dívida hoje se aproxima dos 37 trilhões de dólares, é um gasto
extraordinário. No ano fiscal de 2004, o orçamento de defesa dos Estados Unidos
foi de 850 bilhões de dólares, ligeiramente inferior aos 880 bilhões em
pagamento de juros.Para o presidente do Comitê de Serviços Armados da Câmara, o
republicano Mike Rogers, os Estados Unidos precisam de uma força de combate
“pronta, capaz e letal”. “As ameaças à nossa nação, especialmente as que vêm da
China, são mais complexas e desafiadoras do que em qualquer outro momento dos
últimos 40 anos”, disse ele. Para Pete Hegseth, o cenário internacional
assemelha-se ao de 1939. Muitas coisas aconteceram em 1939, incluindo o início
da Segunda Guerra Mundial, com a invasão alemã da Polônia, em 1º. de setembro
daquele ano. Pete Hegseth estaria pensando nisso? Estaria pensando em outra
guerra mundial?
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Outra guerra
Em que
guerra estarão pensando Pete Hegseth, Jamie Dimon ou os
líderes europeus?
Para o
secretário-geral da OTAN, o holandês Mark Rutte, “somos o próximo alvo da
Rússia e já estamos em perigo”. Mark Rutte falou em Berlim em 11 de dezembro,
acompanhado pelo chanceler alemão, o democrata-cristão Friedrich Merz. Ele
estima que a Rússia poderá estar pronta para usar a força militar contra a OTAN
dentro de cinco anos. Uma guerra que, em sua opinião, teria “a mesma magnitude
que a guerra que os nossos avós e bisavós sofreram”. “Ao fazer declarações tão
irresponsáveis, o senhor Rutte simplesmente não compreende do que está
falando”, respondeu o porta-voz presidencial russo, Dimitri Peskov,
acrescentando que na Rússia se conserva cuidadosamente a memória dos horrores
da Segunda Guerra Mundial e do que fez para salvar a Europa do fascismo. Uma
guerra contra a Rússia dentro de cinco anos é uma afirmação que os serviços
secretos alemães, franceses ou ingleses, seus líderes políticos e militares têm
repetido, sem que se conheçam publicamente os argumentos em que se baseiam tais
estimativas.
Friedrich
Merz, para quem vivemos “um ponto de inflexão” na política mundial, anunciou
que a Alemanha deve preparar-se para a guerra e antecipou em seis anos, para
2029, a meta de dedicar 3,5% do PIB a gastos militares, apesar da difícil
situação econômica que seu país atravessa. Em sua opinião, Vladimir Putin
aspiraria a reconstruir a União Soviética, para o que estaria preparando-se.
Afirmações que as autoridades russas classificaram como “uma estupidez”. Para a
chefe da inteligência britânica, Blaise Metreweli, uma Rússia “agressiva,
expansionista e revisionista” é uma grave ameaça. Num discurso proferido no dia
15 de dezembro, ameaçou: “Vladimir Putin não deve ter dúvidas; a pressão que
exercemos em nome da Ucrânia será mantida”. Pete Hegseth pode estar certo ao
comparar a situação atual com a de 1939. Foi quando a Alemanha iniciou seu
avanço militar para o leste, ocupando a Polônia e preparando-se para a maior
operação da Segunda Guerra Mundial: a invasão da União Soviética. Em 22 de
junho de 1941, 3,5 milhões de soldados alemães cruzaram a fronteira da URSS. Em
dezembro, algumas tropas estavam a apenas 25 km de Moscou e a Alemanha já
planejava a ocupação do imenso território do país. Mas não foi isso o que
ocorreu. A partir daí, as coisas mudaram. A resistência russa transformou-se
numa ofensiva que terminaria três anos depois em Berlim.
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De que guerra falamos?
Fridrich
Merz parece disposto a tentar novamente. Ele considera que não há urgência em
um acordo de paz na Ucrânia. Ele aposta em sustentar o regime de Kiev com armas
e dinheiro e aumentar a pressão sobre Moscou. Pelo menos publicamente, não
descartam a ideia de que a Ucrânia pode continuar resistindo. Ou que os russos
não devem vencer a guerra. “Todos sabemos que o destino de seu país é o destino
da Europa”, disse o chanceler alemão a Volodymyr Zelensky no dia 8 de dezembro,
após uma reunião em Londres com o presidente francês e o primeiro-ministro
britânico. Ideia semelhante é a do presidente francês, Emmanuel Macron, para
quem a Rússia está levando a cabo uma confrontação estratégica com os europeus.
“Financiamos equipamentos para a Ucrânia, que está resistindo, enquanto a
economia russa começa a sofrer com nossas sanções”, afirmou Emmanuel Macron no
dia 8 de dezembro, embora os resultados na frente sugiram o contrário, tal como
os indicadores da economia russa.
Em 18
de novembro, o general Fabien Mandon, chefe do Estado-Maior da Defesa da
França, dirigiu-se a um congresso de prefeitos franceses. Ele convocou-os para
a guerra. “De acordo com as informações de que disponho – afirmou o general –,
a Rússia está preparando-se para um confronto com nossos países no horizonte de
2030”. Para o general francês, o perigo não é que os russos desembarquem na
Alsácia, mas que os franceses sejam obrigados a agir em defesa do flanco leste
da OTAN. “Portanto – acrescentou – indiquei às forças armadas que devemos estar
preparados em três ou quatro anos”.
A
Alemanha, que já levou o mundo a duas grandes guerras, parece disposta a tentar
novamente o que não conseguiu em suas tentativas anteriores. Sempre que adota
novas medidas para seu rearmamento e se prepara para a guerra contra a Rússia,
ganham destaque as palavras do general indiano-britânico Lord Hastings Ismay,
primeiro secretário-geral da OTAN, quando definiu os objetivos da organização:
manter os norte-americanos dentro, os russos fora e os alemães embaixo. Exceto
manter os russos fora, os outros objetivos parecem cada vez mais difíceis de
alcançar. Mas comparar essa guerra com a que nossos avós e bisavós sofreram –
quando não existiam armas atômicas –, como afirma o atual sucessor de Lord
Ismay, é mais do que ingenuidade. Uma guerra como essa seria algo nunca visto e
certamente a última que a humanidade viveria.
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As advertências de Moscou – os riscos de um mundo unipolar
Em
fevereiro de 2007, na Conferência de Segurança de Munique, o presidente russo
alertou para os riscos que um mundo unipolar representava para a segurança de
todos. Ele destacou que a expansão da OTAN, com sua presença nas fronteiras
russas, longe de oferecer maior segurança para a Europa, “representava uma
séria provocação que reduzia o nível de confiança mútua”. Em fevereiro de 2014,
ocorreu o golpe na Ucrânia que, com o apoio norte-americano e europeu, depôs o
presidente Viktor Yanukovich e aproximou o país da OTAN. A partir de então, as
relações entre o governo de Kiev e suas províncias orientais, de maioria étnica
russa, deterioraram-se até transformarem-se num conflito armado, enquanto a
possibilidade de adesão da Ucrânia à OTAN aumentava a tensão com a Rússia que,
em março desse ano, após o golpe de Estado, tinha anexado a península da
Crimeia. Em 2014 e 2015, as partes envolvidas negociaram os acordos de Minsk
para resolver esse conflito, com a participação da chanceler alemã, Angela
Merkel, e do presidente francês, François Hollande. Negociações que os garantes
europeus reconheceram posteriormente nunca terem pretendido cumprir. Tratava-se
apenas de ganhar tempo, enquanto armavam a Ucrânia para uma guerra futura. Em
outubro desse mesmo ano de 2014, Vladimir Putin fez outro importante discurso
no fórum de Valdai. Falou dos riscos de um mundo unipolar. Ter um único centro
de poder não torna o processo global mais fácil de gerir. Pelo contrário, diria
ele, a história tem demonstrado sua incapacidade de enfrentar as ameaças reais.
A
Rússia já estava enfrentando as primeiras sanções, pela anexação da Crimeia.
“Alguns dizem que estamos virando as costas para a Europa, buscando novos
parceiros, principalmente na Ásia. Deixem-me dizer que este não é, de forma
alguma, o caso”. Em seguida, ele se referiu ao desenvolvimento de conflitos
violentos, com a participação direta ou indireta das grandes potências. A
Ucrânia “é um exemplo desses conflitos, que afetam o equilíbrio internacional
de poderes”, afirmou Vladimir Putin. Alertamos para as graves consequências
econômicas que a adesão da Ucrânia à União Europeia – de que era o maior
parceiro comercial – poderia ter para a Rússia e solicitamos uma ampla
discussão sobre o assunto. “Ninguém quis ouvir-nos, ninguém quis falar.
Simplesmente disseram-nos: isso não é da sua conta. Ponto final”. Em setembro
de 2015, Vladimir Putin viajou para Nova Iorque para discursar na Assembleia
Geral das Nações Unidas. Ao defender a posição de seu país diante dos diversos
cenários de conflito no mundo, insistiu que não se tratava de ambição própria,
“mas de reconhecer que não era possível continuar tolerando o estado atual das
coisas no mundo”.
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Como em 1939
De seu
ponto de vista, o espírito da Guerra Fria continuava presente no cenário
internacional. Apesar da dissolução do Pacto de Varsóvia, que unia os países da
Europa do leste sob a liderança da União Soviética, e apesar do colapso da
própria União Soviética, a OTAN continuava expandindo sua infraestrutura
militar. Para quê?, perguntou-se ele. “Mais cedo ou mais tarde, esta lógica de
confronto acabará desencadeando uma grave crise geopolítica. Foi exatamente
isso que aconteceu na Ucrânia, onde se aproveitou do descontentamento da
população com as autoridades para orquestrar um golpe militar a partir do
exterior, o que desencadeou uma guerra civil”. A Rússia ainda confiava que os
acordos de Minsk poderiam pôr fim ao conflito nas províncias ucranianas
fronteiriças, onde o confronto armado já custara milhares de vidas. Mas, como
sabemos, não foi isso o que aconteceu. A tensão nesses territórios continuou
aumentando, sem que nenhuma tentativa de negociação prosperasse.
Em
dezembro de 2021, quando a Rússia já concentrava tropas na fronteira, Vladimir
Putin e Joe Biden conversaram por telefone. Putin exigiu o cumprimento dos
acordos de Minsk e que a Ucrânia não se incorporasse à OTAN. Não houve acordo.
Faltavam poucas semanas para o início da guerra. Há vários anos que a Europa
cortou praticamente todo o tipo de contatos diplomáticos com a Rússia. Com a
OTAN transformada no braço armado da UE, nenhuma negociação consegue prosperar,
enquanto a Alemanha (e seus parceiros europeus) apostam na derrota da Rússia.
Mas as pressões para um acordo negociado aumentam. Parece difícil que esse
conflito se prolongue para além do ano que começará dentro de poucas semanas.
Entretanto,
na Ásia, escalam tensões perigosas. O novo governo do Japão, tal como a
Alemanha, revê as disposições de segurança acordadas no final da Segunda Guerra
Mundial. Não se pode descartar que Pete Hegseth esteja certo. Como em 1939, as
costuras da camisa de força imposta aos derrotados da Primeira Guerra Mundial
começaram a se romper, na medida em que acreditavam que havia chegado sua hora
de refazer a história. E tentaram novamente invadir a Rússia. O resultado foi
uma tragédia.Não se pode descartar que o resultado de uma nova tentativa seja
semelhante. Mas poderia ser muito pior… Se quisermos sobreviver, o mundo
civilizado tem a obrigação de fazer o que puder para deter esses selvagens
Fonte:
DW Brasil

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