sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Quando os EUA salvaram a Venezuela de um bloqueio europeu

Uma esquadra de navios impõe um bloqueio na costa venezuelana e potências estrangeiras apresentam ultimatos para o governo em Caracas. Não se trata de Donald Trump deslocando um porta-aviões e ordenando a captura de petroleiros para tentar pressionar o regime de Nicolás Maduro, mas uma cena que aconteceu há mais de um século. A chamada Crise da Venezuela de 1902 guarda paralelos com a atual escalada de tensão em andamento entre Venezuela e Estados Unidos, mas também tem elementos de um mundo invertido. Os algozes da Venezuela neste caso eram europeus: mais especificamente britânicosalemães e italianos. E os venezuelanos apelaram que os Estados Unidos interviessem para evitar uma escalada ainda mais grave, e Washington acabou se envolvendo em apoio a Caracas.

<><> Escalada da crise

Era o fim de 1902. A Venezuela passava por uma grave crise econômica e política sob a batuta do presidente José Cipriano Castro, um militar nacionalista e autoritário que havia chegado ao poder por meio de uma revolução. À época, o país devia milhões de dólares em empréstimos a países europeus, principalmente para o Império Britânico e o Império Alemão, este último liderado pelo kaiser (imperador) Guilherme 2º. A Venezuela não só se recusou a pagar, como foi além. Cipriano Castro deu outro calote, no pagamento de uma ferrovia de 200 km de extensão, ligando Caracas e o porto de Valencia, construída no país sul-americano pela empresa alemã Krupp.

Cipriano Castro também acusado pelo Império do kaiser de desapropriar terras de comerciantes alemães e forçá-los a ceder empréstimos ao governo da Venezuela.

A Coroa Britânica e Império Alemão se uniram e reagiram. Em 7 de dezembro de 1902, as duas potências apresentaram um ultimato para o pagamento, que foi rejeitado por Cipriano Castro. O Reino da Itália, outro credor, também apresentou um ultimato dias depois. Dois dias depois, as nações europeias lançaram, em retaliação, um bloqueio naval na costa venezuelana no Mar do Caribe. Um cruzador inglês e três alemães – incluindo o principal deles, o SM Gazelle –, além de outros navios de guerra menores, encurralaram a pequena frota da Marinha Venezuelana, composta de apenas quatro pequenos navios. A coalizão germano-britânica afundou dois deles. A Itália, por sua vez, ficou encarregada de bloquear o porto venezuelano de La Vela de Coro, no oeste do país. Na sequência, os venezuelanos interceptaram um navio mercante britânico. A situação escalou. Os europeus bombardearam Puerto Cabello, o principal porto da Venezuela. Cipriano Castro, por sua vez, mandou prender 200 alemães e britânicos que viviam no país. Nessa altura, Alemanha e o Império Britânico já cogitavam desembarcar em território venezuelano.

<><> Hesitação inicial dos EUA

Acuado, Cipriano Castro vislumbrou uma saída: apelar para os Estados Unidos. O presidente venezuelano entrou em contato com Washington e pediu para que os EUA arbitrasse o conflito. O líder de Caracas acreditava que, pela Doutrina Monroe, os EUA deveriam intervir automaticamente em seu favor, já que a crise envolvia dois impérios europeus se metendo na zona de influência americana.A partir dessa doutrina, estabelecida na primeira metade do século 19 e que ganhou o nome do ex-presidente James Monroe, Washington procurava manter o domínio político e econômico nas Américas, impedindo tentativas de recolonização por parte da Europa. 

Mas, a princípio, não era assim que o então presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, enxergava a situação. Ele inicialmente acreditava que Cipriano Castro devia cumprir com as obrigações com os credores europeus. "Se qualquer país sul-americano se comportar mal com qualquer país europeu, deixe o europeu dar uma surra nele", ele já havia dito, quando ainda era vice-presidente. Até então, segundo a interpretação conservadora de Roosevelt sobre a Doutrina Monroe, uma intervenção americana só poderia ser iniciada no caso de uma invasão terrestre por europeus. Ou seja, o bloqueio naval inicialmente não sofreu objeções de Washington. Mas Roosevelt logo mudaria de ideia. O temor maior era em relação aos alemães. O império do kaiser Guilherme 2º estava em expansão e, logo, buscava novos mercados pelo mundo.

Em 1898, a marinha germânica havia anexado a baía de Kiauchau, na China, depois de ocupar a região. O presidente americano, que em pouco tempo se envolveria na construção do Canal do Panamá, passou a temer que os alemães poderiam repetir o feito em Kiauchau na Venezuela, rivalizando assim com os EUA na região. Os norte-americanos também vinham se expandindo no Caribe, tendo conquistado Porto Rico dos espanhóis apenas três anos antes e transformado na prática Cuba em um protetorado.

<><> Roosevelt entra na crise e fim do bloqueio

O presidente dos Estados Unidos já havia sido alertado pelo Bureau of Navigation dos EUA, uma agência responsável por fiscalizar o comércio marítimo, sobre um eventual risco de os alemães forçarem a Venezuela a entregar uma fatia de território como pagamento da dívida. Roosevelt era um germanófilo, admirava a língua e a história alemã, mas desconfiava do kaiser, como ele mesmo afirmara numa carta, um ano antes. Numa mudança de posição, Roosevelt mandou avisar a Berlim que não toleraria a presença do Império Alemão na América Latina. Primeiro, ele nomeou o único almirante quatro estrelas da Marinha dos EUA, George Dewey, como comandante para exercícios militares no Atlântico, algo pouco usual. Àquela altura, alemães e ingleses já contavam com 29 embarcações militares no Mar do Caribe. Roosevelt, então, mandou uma frota ainda maior, com 53 embarcações, que zarparam ao sul de Porto Rico. Depois, o chefe da Casa Branca escreveu ao parlamentar britânico Arthur Lee que Dewey se preparava para a "guerra". Por fim, chamou o embaixador alemão, Theodor von Holleben, e disse para ele deveria avisar ao governo do kaiser que o Império Alemão tinha dez dias para aceitar uma arbitragem dos EUA na disputa com os venezuelanos. Do contrário, enfrentaria os EUA.

As conversas de Roosevelt com Von Holleben foram feitas a portas abertas a chegaram aos ouvidos do secretário do presidente, William Loeb. Roosevelt também relatou as negociações em cartas divulgadas mais tarde e disponíveis no Theodore Roosevelt Center. Holleben, a princípio, achou que era um blefe e inicialmente não transmitiu a informação. Semanas depois, Roosevelt chamou-o novamente em seu gabinete e foi claro: era um ultimato, que ele agora antecipava em 24 horas, para 17 de dezembro. O governo alemão finalmente capitulou, e foi acompanhado pela Coroa Britânica e pela Itália. Os europeus acabaram aceitando, enfim, a arbitragem americana do conflito com a Venezuela. O bloqueio ainda perdurou oficialmente até fevereiro de 1903, mas já sem incidentes militares. No dia 13 daquele mês, a Itália e os impérios Britânico e da Alemanha selaram um acordo com a Venezuela, concordando com uma redução drástica dos débitos de Caracas e num plano de pagamento que seria coberto com uma porcentagem de arrecadação de taxas aduaneiras. O bloqueio acabou oficialmente em 19 de fevereiro de 1903. O governo de Cipriano Castro, no entanto, ainda seguiria mantendo relações tensas com as nações europeias. Em 1908, ele foi derrubado do poder em um golpe arquitetado pelo vice, Juan Vicente Gómez, que reverteu medidas de Castro, reabriu o país ao investimento estrangeiro e seguiu no poder liderando uma ditadura que durou até sua morte, 1935.

<><> Expansão da Doutrina Monroe

A crise na Venezuela, por fim, levaria o presidente dos EUA a divulgar, em dezembro de 1904, uma expansão da Doutrina Monroe, que desta vez passaria a incluir a possibilidade de intervenção em assuntos internos de nações do continente americano. Enquanto a interpretação original da doutrina previa que os EUA tomariam ação para afastar os europeus do território das Américas, essa expansão, batizada de Corolário Roosevelt, afirmava que, a partir daquele momento, os Estados Unidos podiam intervir militarmente, como "polícia internacional", "ainda que relutantemente", em casos "flagrantes de transgressões" nas nações latino-americanas. O objetivo declarado era intervir em crises e assim evitar que a situação de países da região se deteriorasse a ponto de abrir a porta para ações de potências da Europa. No entanto, a longo prazo, o corolário acabou tendo pouco peso nas relações entre as Américas e a Europa, mas serviu como justificativa para intervenções dos EUA em Cuba, Nicarágua, Haiti e República Dominicana nas décadas de 1910 e 1930. Mais recentemente, a nova Estratégia de Segurança Nacional anunciada por Trump em dezembro de 2025, está sendo vista como uma nova expansão tanto da Doutrina Monroe quanto do Corolário Roosevelt. Apelidada de "Doutrina Donroe" – um neologismo que combina Donald e Monroe – a estratégia estabelece que os EUA negarão a competidores externos "a capacidade posicionar forças ou outros meios de ameaça" ou "possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais no nosso hemisfério", referindo-se especialmente à China.

¨      A dança de guerra do Ocidente

A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou, no dia 10 de dezembro, por 312 votos a 112, uma autorização de gastos militares de 900 bilhões de dólares para o ano fiscal de 2026. Com cem bilhões suplementares aprovados na primavera passada, o orçamento totaliza mais de um trilhão de dólares. Inclui 400 milhões de dólares anuais para o fornecimento de armas à Ucrânia nos próximos dois anos. Isso representa cerca de 40% do gasto militar mundial. Uma soma recorde, impressionante, difícil de dimensionar. É mais do que gastam juntos os nove países que vêm a seguir, incluindo a China e a Rússia. Para um país cuja dívida hoje se aproxima dos 37 trilhões de dólares, é um gasto extraordinário. No ano fiscal de 2004, o orçamento de defesa dos Estados Unidos foi de 850 bilhões de dólares, ligeiramente inferior aos 880 bilhões em pagamento de juros.Para o presidente do Comitê de Serviços Armados da Câmara, o republicano Mike Rogers, os Estados Unidos precisam de uma força de combate “pronta, capaz e letal”. “As ameaças à nossa nação, especialmente as que vêm da China, são mais complexas e desafiadoras do que em qualquer outro momento dos últimos 40 anos”, disse ele. Para Pete Hegseth, o cenário internacional assemelha-se ao de 1939. Muitas coisas aconteceram em 1939, incluindo o início da Segunda Guerra Mundial, com a invasão alemã da Polônia, em 1º. de setembro daquele ano. Pete Hegseth estaria pensando nisso? Estaria pensando em outra guerra mundial?

<><> Outra guerra

Em que guerra estarão pensando Pete Hegseth, Jamie Dimon ou os líderes europeus?

Para o secretário-geral da OTAN, o holandês Mark Rutte, “somos o próximo alvo da Rússia e já estamos em perigo”. Mark Rutte falou em Berlim em 11 de dezembro, acompanhado pelo chanceler alemão, o democrata-cristão Friedrich Merz. Ele estima que a Rússia poderá estar pronta para usar a força militar contra a OTAN dentro de cinco anos. Uma guerra que, em sua opinião, teria “a mesma magnitude que a guerra que os nossos avós e bisavós sofreram”. “Ao fazer declarações tão irresponsáveis, o senhor Rutte simplesmente não compreende do que está falando”, respondeu o porta-voz presidencial russo, Dimitri Peskov, acrescentando que na Rússia se conserva cuidadosamente a memória dos horrores da Segunda Guerra Mundial e do que fez para salvar a Europa do fascismo. Uma guerra contra a Rússia dentro de cinco anos é uma afirmação que os serviços secretos alemães, franceses ou ingleses, seus líderes políticos e militares têm repetido, sem que se conheçam publicamente os argumentos em que se baseiam tais estimativas.

Friedrich Merz, para quem vivemos “um ponto de inflexão” na política mundial, anunciou que a Alemanha deve preparar-se para a guerra e antecipou em seis anos, para 2029, a meta de dedicar 3,5% do PIB a gastos militares, apesar da difícil situação econômica que seu país atravessa. Em sua opinião, Vladimir Putin aspiraria a reconstruir a União Soviética, para o que estaria preparando-se. Afirmações que as autoridades russas classificaram como “uma estupidez”. Para a chefe da inteligência britânica, Blaise Metreweli, uma Rússia “agressiva, expansionista e revisionista” é uma grave ameaça. Num discurso proferido no dia 15 de dezembro, ameaçou: “Vladimir Putin não deve ter dúvidas; a pressão que exercemos em nome da Ucrânia será mantida”. Pete Hegseth pode estar certo ao comparar a situação atual com a de 1939. Foi quando a Alemanha iniciou seu avanço militar para o leste, ocupando a Polônia e preparando-se para a maior operação da Segunda Guerra Mundial: a invasão da União Soviética. Em 22 de junho de 1941, 3,5 milhões de soldados alemães cruzaram a fronteira da URSS. Em dezembro, algumas tropas estavam a apenas 25 km de Moscou e a Alemanha já planejava a ocupação do imenso território do país. Mas não foi isso o que ocorreu. A partir daí, as coisas mudaram. A resistência russa transformou-se numa ofensiva que terminaria três anos depois em Berlim.

<><> De que guerra falamos?

Fridrich Merz parece disposto a tentar novamente. Ele considera que não há urgência em um acordo de paz na Ucrânia. Ele aposta em sustentar o regime de Kiev com armas e dinheiro e aumentar a pressão sobre Moscou. Pelo menos publicamente, não descartam a ideia de que a Ucrânia pode continuar resistindo. Ou que os russos não devem vencer a guerra. “Todos sabemos que o destino de seu país é o destino da Europa”, disse o chanceler alemão a Volodymyr Zelensky no dia 8 de dezembro, após uma reunião em Londres com o presidente francês e o primeiro-ministro britânico. Ideia semelhante é a do presidente francês, Emmanuel Macron, para quem a Rússia está levando a cabo uma confrontação estratégica com os europeus. “Financiamos equipamentos para a Ucrânia, que está resistindo, enquanto a economia russa começa a sofrer com nossas sanções”, afirmou Emmanuel Macron no dia 8 de dezembro, embora os resultados na frente sugiram o contrário, tal como os indicadores da economia russa.

Em 18 de novembro, o general Fabien Mandon, chefe do Estado-Maior da Defesa da França, dirigiu-se a um congresso de prefeitos franceses. Ele convocou-os para a guerra. “De acordo com as informações de que disponho – afirmou o general –, a Rússia está preparando-se para um confronto com nossos países no horizonte de 2030”. Para o general francês, o perigo não é que os russos desembarquem na Alsácia, mas que os franceses sejam obrigados a agir em defesa do flanco leste da OTAN. “Portanto – acrescentou – indiquei às forças armadas que devemos estar preparados em três ou quatro anos”.

A Alemanha, que já levou o mundo a duas grandes guerras, parece disposta a tentar novamente o que não conseguiu em suas tentativas anteriores. Sempre que adota novas medidas para seu rearmamento e se prepara para a guerra contra a Rússia, ganham destaque as palavras do general indiano-britânico Lord Hastings Ismay, primeiro secretário-geral da OTAN, quando definiu os objetivos da organização: manter os norte-americanos dentro, os russos fora e os alemães embaixo. Exceto manter os russos fora, os outros objetivos parecem cada vez mais difíceis de alcançar. Mas comparar essa guerra com a que nossos avós e bisavós sofreram – quando não existiam armas atômicas –, como afirma o atual sucessor de Lord Ismay, é mais do que ingenuidade. Uma guerra como essa seria algo nunca visto e certamente a última que a humanidade viveria.

<><> As advertências de Moscou – os riscos de um mundo unipolar

Em fevereiro de 2007, na Conferência de Segurança de Munique, o presidente russo alertou para os riscos que um mundo unipolar representava para a segurança de todos. Ele destacou que a expansão da OTAN, com sua presença nas fronteiras russas, longe de oferecer maior segurança para a Europa, “representava uma séria provocação que reduzia o nível de confiança mútua”. Em fevereiro de 2014, ocorreu o golpe na Ucrânia que, com o apoio norte-americano e europeu, depôs o presidente Viktor Yanukovich e aproximou o país da OTAN. A partir de então, as relações entre o governo de Kiev e suas províncias orientais, de maioria étnica russa, deterioraram-se até transformarem-se num conflito armado, enquanto a possibilidade de adesão da Ucrânia à OTAN aumentava a tensão com a Rússia que, em março desse ano, após o golpe de Estado, tinha anexado a península da Crimeia. Em 2014 e 2015, as partes envolvidas negociaram os acordos de Minsk para resolver esse conflito, com a participação da chanceler alemã, Angela Merkel, e do presidente francês, François Hollande. Negociações que os garantes europeus reconheceram posteriormente nunca terem pretendido cumprir. Tratava-se apenas de ganhar tempo, enquanto armavam a Ucrânia para uma guerra futura. Em outubro desse mesmo ano de 2014, Vladimir Putin fez outro importante discurso no fórum de Valdai. Falou dos riscos de um mundo unipolar. Ter um único centro de poder não torna o processo global mais fácil de gerir. Pelo contrário, diria ele, a história tem demonstrado sua incapacidade de enfrentar as ameaças reais.

A Rússia já estava enfrentando as primeiras sanções, pela anexação da Crimeia. “Alguns dizem que estamos virando as costas para a Europa, buscando novos parceiros, principalmente na Ásia. Deixem-me dizer que este não é, de forma alguma, o caso”. Em seguida, ele se referiu ao desenvolvimento de conflitos violentos, com a participação direta ou indireta das grandes potências. A Ucrânia “é um exemplo desses conflitos, que afetam o equilíbrio internacional de poderes”, afirmou Vladimir Putin. Alertamos para as graves consequências econômicas que a adesão da Ucrânia à União Europeia – de que era o maior parceiro comercial – poderia ter para a Rússia e solicitamos uma ampla discussão sobre o assunto. “Ninguém quis ouvir-nos, ninguém quis falar. Simplesmente disseram-nos: isso não é da sua conta. Ponto final”. Em setembro de 2015, Vladimir Putin viajou para Nova Iorque para discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas. Ao defender a posição de seu país diante dos diversos cenários de conflito no mundo, insistiu que não se tratava de ambição própria, “mas de reconhecer que não era possível continuar tolerando o estado atual das coisas no mundo”.

<><> Como em 1939

De seu ponto de vista, o espírito da Guerra Fria continuava presente no cenário internacional. Apesar da dissolução do Pacto de Varsóvia, que unia os países da Europa do leste sob a liderança da União Soviética, e apesar do colapso da própria União Soviética, a OTAN continuava expandindo sua infraestrutura militar. Para quê?, perguntou-se ele. “Mais cedo ou mais tarde, esta lógica de confronto acabará desencadeando uma grave crise geopolítica. Foi exatamente isso que aconteceu na Ucrânia, onde se aproveitou do descontentamento da população com as autoridades para orquestrar um golpe militar a partir do exterior, o que desencadeou uma guerra civil”. A Rússia ainda confiava que os acordos de Minsk poderiam pôr fim ao conflito nas províncias ucranianas fronteiriças, onde o confronto armado já custara milhares de vidas. Mas, como sabemos, não foi isso o que aconteceu. A tensão nesses territórios continuou aumentando, sem que nenhuma tentativa de negociação prosperasse.

Em dezembro de 2021, quando a Rússia já concentrava tropas na fronteira, Vladimir Putin e Joe Biden conversaram por telefone. Putin exigiu o cumprimento dos acordos de Minsk e que a Ucrânia não se incorporasse à OTAN. Não houve acordo. Faltavam poucas semanas para o início da guerra. Há vários anos que a Europa cortou praticamente todo o tipo de contatos diplomáticos com a Rússia. Com a OTAN transformada no braço armado da UE, nenhuma negociação consegue prosperar, enquanto a Alemanha (e seus parceiros europeus) apostam na derrota da Rússia. Mas as pressões para um acordo negociado aumentam. Parece difícil que esse conflito se prolongue para além do ano que começará dentro de poucas semanas.

Entretanto, na Ásia, escalam tensões perigosas. O novo governo do Japão, tal como a Alemanha, revê as disposições de segurança acordadas no final da Segunda Guerra Mundial. Não se pode descartar que Pete Hegseth esteja certo. Como em 1939, as costuras da camisa de força imposta aos derrotados da Primeira Guerra Mundial começaram a se romper, na medida em que acreditavam que havia chegado sua hora de refazer a história. E tentaram novamente invadir a Rússia. O resultado foi uma tragédia.Não se pode descartar que o resultado de uma nova tentativa seja semelhante. Mas poderia ser muito pior… Se quisermos sobreviver, o mundo civilizado tem a obrigação de fazer o que puder para deter esses selvagens

 

Fonte: DW Brasil

 

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