O
brasileiro – quem é?
Quando
se fala em “o brasileiro” (no singular) me parece ser equivocado. Os
brasileiros são múltiplos e/ou heterogêneos. A emergência sistêmica das
interações entre todos eles é uma configuração transitória, predominante em
certas conjunturas, inclusive eleitorais, mas passageira ao longo do tempo.
O livro
de Felipe Nunes, “Brasil no Espelho: Um guia para entender o Brasil e os
brasileiros” (Globo Livros) tem o propósito de apresentar aos brasileiros seus
valores, atitudes e percepções antagônicas sobre si mesmos. Neste ano
eleitoral, é relevante a sua leitura para explicar as implicações de seus dados
para a manutenção da democracia sem a ameaça do retorno da extrema-direita
golpista e seus aliados conservadores ao governo, seja ao Poder Executivo, seja
à maioria do Poder Legislativo.
A base
deste livro é uma pesquisa feita pela Quaest entre novembro e dezembro de 2023
com 9.994 pessoas com mais de 16 anos, em 340 municípios sorteados entre 26
estados e o Distrito Federal. O leitor espera essa amostra ser representativa
dos brasileiros múltiplos, diversos em suas opiniões, crenças e atitudes.
Ela
representa as cinco regiões do país, de forma proporcional à população, segundo
as cotas de região, estado, sexo, faixa etária, grau de instrução e renda
familiar. Para entender os brasileiros, Nunes construiu um mapa de valores,
atitudes e percepções com 37 índice divididos em onze dimensões: religiosidade,
família, identidade nacional, honestidade, meritocracia, discriminação,
sexualidade, insegurança, confiança, comportamento social e ideologia.
De
início, pensaríamos a ideologia ser a determinante do voto, mas não é assim tão
simples, embora a escolha no segundo turno eleitoral seja binária.
Curiosamente, em pesquisa de 2002, quando Lula foi eleito pela primeira vez,
76% dos entrevistados se posicionaram entre esquerda e direita.
Durante
as três eleições seguintes, quando os candidatos do Partido dos Trabalhadores
foram reeleitos, essa porcentagem caiu para 58% em 2006, 55% em 2010 e 56% em
2014. Mas, depois do golpe semiparlamentarista contra a presidenta Dilma
Rousseff reeleita, a escolha ideológica voltou a subir, para 79% em 2018, e
saltou para 85% em 2022.
A
pesquisa da Quaest mostrou, no fim de 2023, 96% dos brasileiros se posicionaram
entre esquerda e direita quando indagados sobre sua ideologia. Em uma escala de
posicionamento ideológico, os identificados com o centro foram 37%, com a
direita 36% e com a esquerda apenas 23%.
Entretanto,
uma pesquisa divulgada pelo Datafolha, no dia 05/04/2023, apontou 30% dos
eleitores brasileiros se dizerem petistas, enquanto outros 22% se declararem
bolsonaristas. Os “próximos do bolsonarismo” correspondiam a 9% dos eleitores,
contra 7% no levantamento no fim de 2022, antes do quebra-quebra na praça dos
Três Poderes em Brasília em 8 de janeiro de 2023. Os “neutros” eram 22% do
eleitorado, ante 20% na pesquisa do ano eleitoral, e 7% não se posicionaram
nessas opções. Já os “próximos do petismo” passaram de 9% para 10% naquela
ocasião, ou seja, 40% eram simpatizantes do social-desenvolvimentismo e 31% do
neofascismo.
Diferentemente
do Censo, com a população total, a pesquisa da Quaest entrevistou uma amostra
representativa da população com 16 anos ou mais. Por isso, católicos
autodeclarados foram 51% (57% no Censo) e o percentual de evangélicos 31% (27%
no Censo). Adeptos de outras religiões atingiram apenas 4% e sem religião 14%
(9% no Censo).
A
população brasileira vive, desde a década de 1980, quando houve o fim da
ditadura militar e a conquista da democracia, um período de pluralização e
transição religiosa, no qual deixou de ser quase a totalidade católica. Passou
a ser quase um terço de evangélicos e, provavelmente, devido à maior cultura
propiciada pela massificação do ensino superior, um expressivo crescimento das
pessoas sem religião.
Infelizmente,
aquele percentual de 31% identificados como evangélicos coincide com 31%
simpatizantes do neofascismo, muitas vezes sem ter consciência política a
respeito dessa linha ideológica. Em outra passagem do seu livro, Felipe Nunes
ressalta a extrema direita ser pequena, composta por apenas 3% da população. Na
medição sobre a satisfação com a democracia, todos os brasileiros da extrema
direita concordam com a ideia de uma ditadura pode ser preferível à democracia.
Lula
foi eleito, em 2022, por uma coalizão formada por dependentes do Estado (23%),
progressistas (11%), militantes de esquerda (7%), e liberais sociais (5%),
grupo antes sem votar no PT. O candidato golpista (e preso na PF) teve o apoio
dos conservadores cristãos (27%), do agro (13%), dos empresários (6%), dos
empreendedores individuais (6%) e da extrema direita (3%).
Como
esses grupos somam 55%, tiveram dissidência com votos no Lula. Venceu, segundo
Nunes, porque tomou do capitão expulso do Exército brasileiro o pequeno grupo
de liberais sociais. Esses eleitores votaram contra o candidato do Partido dos
Trabalhadores (Fernando Haddad) quatro anos antes.
Os
conservadores cristãos formam o maior grupo com 27% da população. São, em sua
maioria, evangélicos, mas também incluem católicos mais conservadores. Com 23%
da população, o segundo maior grupo é a classe D e E (dependentes do Estado),
composta por beneficiários de programas sociais como o Bolsa Família.
O agro
representa 13% da população e reúne produtores, trabalhadores rurais e pessoas
associadas ao estilo de vida sertanejo, inclusive apreciadoras desse gênero
musical. Os empresários (6% da população) compõem a elite econômica, composta
em sua maioria por pessoas brancas, favoráveis à privatização das estatais e
dos serviços públicos, contrários a benefícios pagos aos mais pobres.
Os
liberais sociais são 5% e situam-se no centro do espectro político. Defendem a
liberdade individual, são favoráveis à redução de impostos e às políticas
punitivistas. A aparente contradição é serem neoliberais na economia e, no
campo social, eles se aproximarem do social-desenvolvimentismo (a
socialdemocracia latino-americana) com atuação estatal via políticas públicas.
O
segmento dos empreendedores individuais emergiu recentemente. É formado por
trabalhadores sem vínculos empregatício, como prestadores de serviço por
aplicativos, considerando-se empreendedores de classe média, mesmo tendo renda
baixa, por não terem patrão. São 5% dos brasileiros.
Os
progressistas mais destoam do resto da sociedade em relação a normas menos
tradicionais de gênero, estereótipos familiares e defesa de minorias. São 11%
dos brasileiros simpatizantes de pautas identitárias.
Os
militantes de esquerda é o grupo composto por militantes do Partido dos
Trabalhadores, vindos de uma tradição sindical. Votam por consciência política,
não por obrigação eleitoral. Representam 7% e defendem o governo Lula em todas
as instâncias e circunstâncias.
Curiosamente,
esses dois últimos agrupamentos somam 18%, embora Felipe Nunes tenha dito, em
outro capítulo, a esquerda somar 23% na pesquisa Quaest. Ele não a
correlacionou com o seguinte dado: se desconsidera os mais idosos (sem
obrigação de votar), 22% dos adultos (25-64 anos) têm diploma superior. Cerca
de 20,5% da população brasileira com 25 anos ou mais possui Ensino Superior
Completo, segundo dados recentes do IBGE (2024). O Censo 2022 mostrou 18,4% e
indicou um crescimento grande desde 2000 (6,8%).
Felipe
Nunes destacou mais os conservadores cristãos, em vez de dar maior atenção aos
universitários, porque o acesso à educação superior tem aumentado, com quase 10
milhões de estudantes matriculados. Aqueles constituem um grupo
majoritariamente constituído por evangélicos, mas inclui também católicos
conservadores e frequentadores de igreja, semanalmente. Valorizam a ordem e a
obediência aos pastores e padres com discursos políticos no púlpito. Em termos
políticos, buscam candidatos com posicionamentos conservadores a favor da
família e atuantes em defesa da segurança pública. Pauta econômica já era…
Aliás,
este tema é um dos poucos consensuais em quase toda a população brasileira. E o
atual governo federal, embora não tenha o controle das polícias militares e
tampouco das polícias civis, subordinadas aos governos estaduais, tem feito um
bom trabalho com apoio dos ministros do STF e da Polícia Federal (PF),
subordinada ao ministro da Justiça, ex-ministro do STF. Está focada no combate
a atos antidemocráticos, crimes de lavagem de dinheiro e corrupção com desvio
de emendas e verbas parlamentares, principalmente, por deputados e senadores da
direita. Toc, toc… é a PF!
Fonte:
Por Fernando Nogueira da Costa, em A Terra é Redonda

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