Avó
escapa da guerra em Gaza e conhece o neto brasileiro
"Habibi!
Habibi!"
Em um
apartamento da zona sul de São Paulo (SP), Nawal Abujayyab, de 61 anos, abraça
o neto em seu colo, enquanto o chama repetidamente de "meu querido",
em árabe.
Nascido
no Brasil, o bebê Elias tem apenas 10 meses de idade e não faz ideia da saga
que a avó enfrentou até conhecer seu primeiro neto.
Junto
com uma das filhas, Lozan, de 28 anos, ela conseguiu sair da Faixa de Gaza após
dois anos de uma guerra com Israel que devastou o território palestino.
Elias é
filho de Ronza e Akram Abujayyab, um casal nascido e criado em Gaza que mora no
Brasil desde 2022. Ela é engenheira mecatrônica e ele, contador.
Os dois
saíram do território palestino em 2017, em busca de uma vida mais estável.
Viveram no Egito e na Turquia até serem acolhidos em São Paulo pelo advogado
brasileiro Edgard Raoul, amigo do irmão de Akram.
Fundador
da organização de direitos humanos Hands On, Raoul fez inúmeras tentativas de
tirar a família de Ronza e Akram de Gaza desde que o conflito com Israel
começou, em outubro de 2023.
Mesmo
antes do nascimento do filho brasileiro, os dois já haviam sido reconhecidos
oficialmente como refugiados e eram elegíveis a pedir a reunificação familiar
(o direto para que membros da família também imigrem de forma regular) para os
parentes diretos.
Mas
deixar o enclave palestino tornou-se uma missão praticamente impossível desde
que Israel iniciou uma ofensiva militar contra Gaza em 7 de outubro de 2023,
após um ataque do Hamas contra seu território que deixou 1.200 mortos e 251
reféns.
Com as
fronteiras bloqueadas, a população palestina ficou cercada enquanto bombardeios
destruíram 80% dos edifícios locais, segundo dados da Organização das Nações
Unidas (ONU).
O
conflito deixou mais de 70 mil mortos em Gaza, muitos deles mulheres e
crianças, de acordo com o Ministério da Saúde local, administrado pelo Hamas.
Desde o
anúncio de um plano de paz pelos Estados Unidos, em outubro do ano passado,
iniciou-se um cessar-fogo em Gaza que reduziu a violência do conflito, mas não
o paralisou.
Ambos
os lados se acusam de violações: mais de 450 palestinos foram mortos desde
então, segundo o Ministério da Saúde em Gaza, enquanto o Exército israelense
afirma que três de seus soldados morreram em ataques de grupos palestinos no
mesmo período.
Foram
registrados alguns avanços, como a libertação de todos os 20 reféns israelenses
vivos em troca de quase 2 mil prisioneiros palestinos, a reabertura de escolas
e a entrada de ajuda humanitária — mas o cenário permanece crítico e marcado
por muitos desafios logísticos.
Milhares
de palestinos que retornaram às ruínas de suas cidades enfrentam a escassez
severa de infraestrutura básica, e agências de ajuda humanitária alertam que o
fluxo de suprimentos ainda não atende às necessidades da população.
Em
meados de janeiro, os EUA anunciaram a segunda fase do plano, que prevê a
desmilitarização completa do território, a criação de uma administração
palestina tecnocrática de transição e o início da reconstrução.
Na
semana passada, o governo americano anunciou os primeiros nomes de uma nova
estrutura internacional de transição para Gaza.
A
estrutura é formada por um Conselho de Paz integrado por líderes mundiais (para
o qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado), dois conselhos
executivos e um Comitê Nacional para a Administração de Gaza, um grupo de
tecnocratas encarregado da governança temporária e da reconstrução do
território.
Foi
depois do cessar-fogo iniciado em outubro do ano passado e de meses de trâmites
que a mãe e a irmã de Ronza conseguiram viajar graças à intermediação do
governo brasileiro.
Elas
saíram de Gaza em um ônibus da organização Cruz Vermelha, que levou um grupo de
palestinos que obtiveram documentos para viver em outros países, a maioria da
Europa.
Além de
Nawal e Lozan, havia uma segunda família vindo para o Brasil reencontrar
parentes.
"É
um processo diplomático muito sensível e complexo, mas conseguimos mostrar que
são pessoas do bem, que trabalham, foram acolhidas e patrocinadas por mim. Isso
trouxe mais segurança para o Estado brasileiro colocá-las nessa
evacuação", afirma Edgard Raoul.
O
advogado diz que continua tentando trazer o restante dos membros da família.
O pai
de Ronza (marido de Nawal) e dois irmãos, além de uma irmã de Akram, ficaram
porque estão com o passaporte vencido — e a renovação tem sido outra missão
quase impossível em tempos de guerra.
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Prosperidade reduzida a escombros
Os
Abujayyab são — ou eram, antes da guerra — uma família próspera.
O pai
de Ronza é médico especialista em coluna e trabalhava em um hospital na área
central de Gaza. Sua mãe, Nawal, é formada em administração e teve seis filhos,
todos adultos hoje.
Ronza
conta que os pais tinham uma vida confortável em um prédio que tinham
construído para eles e os filhos morarem na cidade de Al Zahra, no centro de
Gaza. Tinham dois automóveis — um para uso pessoal e um jipe que o pai dela
usava para trabalhar.
Mas, no
começo da guerra, tiveram que deixar o local às pressas. Quando voltaram, em
janeiro de 2025, estava tudo em ruínas. Nawal se sentou em uma pedra e começou
a chorar.
"Não
foi só a minha casa: todas as casas dali, todas as portas… Tudo tinha
explodido. Isso matou minha esperança. Trabalhamos a vida toda para construir
aquele edifício para nós e nossos filhos", conta.
Assim
como a maioria da população, a família teve que se deslocar diversas vezes de
uma cidade para outra.
Sem
carro e com o combustível escasso, eles iam alternando os meios de transporte
disponíveis: faziam alguns trechos de tuk-tuk (um tipo de triciclo motorizado),
outros em burros de carga, pegavam carona em algum caminhão ou iam a pé mesmo.
O
primeiro deslocamento foi marcante para Lozan. Ela lembra da data exata: 19 de
outubro de 2023.
"Disseram
para sairmos no meio da noite, e fomos em direção à universidade onde eu
estudei. Tinham milhares de pessoas indo para o mesmo lugar. Depois de alguns
minutos, começamos a ver as luzes e a ouvir o barulho de bombas enormes.
Dormimos lá — ou melhor, não conseguimos dormir", conta.
Segundo
ela, após os avisos de evacuação por parte de Israel chegarem, eles tinham
cinco minutos para sair de casa.
"Não
dava tempo de pensar direito no que levar. Em geral, só conseguíamos pegar os
documentos mais importantes, algumas roupas e os telefones", diz.
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Lentilhas uma vez por dia e água a cada três semanas
Outro
momento marcante para Lozan foi quando a casa dos vizinhos da família foi
destruída.
"Eu
estava sentada no quarto. A poeira e os vidros quebrados vieram todos para cima
de mim", lembra.
A
jovem, que antes da guerra trabalhava como arquiteta em um escritório, teve que
se acostumar com um dia a dia totalmente diferente, sem água encanada,
eletricidade, internet ou gás de cozinha.
Houve
períodos em que saía água da torneira apenas uma vez a cada três semanas,
durante duas horas — e não era limpa, mas salobra.
A
família enchia todos os recipientes disponíveis com o líquido, mas em menos de
dois dias, já tinha acabado.
Na
maioria das vezes, era preciso andar longas distâncias em busca de galões para
comprar.
"Ao
menos tínhamos meus irmãos para carregar, mas algumas famílias perderam todos
os seus homens e era comum ver mulheres e crianças de 5 ou 6 anos carregando
recipientes muito pesados", diz Lozan.
A
comida também era raridade, tanto que a família fazia apenas uma refeição por
dia, geralmente composta apenas por lentilhas. Nem farinha para fazer pão
havia. Nawal emagreceu 20 quilos e Lozan, 8.
Ronza
diz que sua família que ficou em Gaza tinha dinheiro, mas não havia nada no
mercado para comprar.
"Se
você quisesse farinha, tinha que ir até um lugar que era muito perigoso, e meu
pai não queria que meus irmãos fossem por causa dos ataques. Preferia que todos
morressem de fome do que correrem o risco de serem mortos no caminho", diz
a engenheira.
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Saúde debilitada
Escolhas
estressantes como essa se apresentavam com frequência à família.
Eles
decidiram, por exemplo, que o pai de Ronza não deveria mais atender no
hospital, já que muitos estabelecimentos de saúde estavam sendo alvo de
bombardeios.
Pelo
mesmo motivo, optaram por cuidar da avó doente dentro de casa.
"Minha
avó era muito forte. Cuidava do quintal, da casa, caminhava normalmente. Mas
com a guerra, ela foi adoecendo e piorando muito", diz Ronza.
A idosa
estava na lista de parentes para os quais havia sido solicitada a reunificação
familiar, mas não aguentou e acabou morrendo em agosto de 2025, antes de ter a
chance de vir para o Brasil.
A
guerra deixou marcas na saúde de outros membros da família.
Nawal
passou a sofrer do coração.
Seu
marido, que tem uma deficiência desde pequeno, mas conseguia andar com a ajuda
de uma bengala, agora precisa de uma cadeira de rodas para se locomover.
Nawal e
Lozan descrevem a rotina em Gaza como extenuante. Elas passavam o dia limpando
a casa, cuidando dos doentes, lavando as roupas e cozinhando o que havia.
Os
homens da família eram incumbidos de buscar água e de procurar madeira para
fazer fogo — sem gás, o fogão da casa não servia para nada.
Com os
preços inflacionados pelo conflito, 1 kg de lenha podia custar US$ 4 (R$ 21).
Houve momentos em que a família Abujayyab quebrou móveis para usar como
combustível. "
"Ninguém
estava acostumado com esse estilo de vida. Foi muito difícil para todos",
diz Ronza.
O
barulho dos drones militares era um som onipresente. Um deles chegou a disparar
um tiro que caiu entre os pés do irmão de Ronza, mas não o feriu.
Uma tia
deles, proveniente do norte de Gaza, perdeu 47 pessoas da família de uma só
vez. "Moravam todos no mesmo condomínio, que foi bombardeado", diz
Akram.
Nawal
conta que, após o cessar-fogo do fim do ano passado, a situação melhorou um
pouco. Mas uma onda de frio e chuvas fortes no inverno do Hemisfério Norte
trouxe uma camada a mais de dificuldade para a população de Gaza, a ponto de
elas usarem cinco calças ao mesmo tempo para se aquecer.
"Estamos
em 2026, e há bebês recém-nascidos morrendo de frio. É desumano", diz
Akram.
Enquanto
tudo isso acontecia, Akram e Ronza estavam no Brasil, sentindo-se impotentes ao
acompanhar o sofrimento da família de longe.
A
comunicação era intermitente: quando Elias nasceu, uma irmã de Ronza que vive
no Egito deu a notícia à familia que estava em Gaza por telefone, depois de
muitas tentativas.
"Foi
muito difícil porque estávamos preocupados com eles e eles estavam preocupados
comigo", diz a engenheira.
Ela
atribui ao estresse alguns problemas de saúde que teve durante a gravidez, como
dois sangramentos.
"Eu
vivia preocupada, sem saber se minha família sobreviveria ou não a cada
dia", afirma Ronza.
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Viagem para o Brasil
A
notícia de que Nawal e Lozan poderiam viajar para o Brasil deixou as duas
mulheres em um conflito interno.
"Ficamos
divididas: felizes porque sairíamos de lá e poderíamos revê-los, mas tristes
por ter que deixar meu marido e meus outros filhos no meio do perigo", diz
Nawal.
Quem
ficou não teve dúvidas sobre a melhor decisão a tomar.
"Todo
mundo lá pensa o seguinte: quem tiver a chance de sair e sobreviver, que saia e
sobreviva", diz Akram.
Elas
foram orientadas pelas autoridades isralenses a não levarem nada além de
documentos, um pouco de dinheiro e o celular. Malas, roupas além das que
vestiam e outros aparelhos eletrônicos, como laptop, foram proibidos.
O grupo
levou seis horas para percorrer os 25 km que separam Deir Al Balah, de onde
saiu o ônibus da Cruz Vermelha, do posto de controle e, Karm Abu Salem, na
fronteira com Israel.
Depois
disso, passaram pela Cisjordânia e entraram na Jordânia, de onde pegaram o voo
para São Paulo, dois dias depois.
O irmão
de Nawal, que mora na Jordânia e não a via há nove anos, a esperava.
Lá,
elas compraram algumas roupas, pois sabiam que seria mais difícil encontrar
vestimentas adequadas à religião islâmica no Brasil.
Ansiosos,
Akram e Ronza as esperavam no aeroporto internacional de Guarulhos no dia 18 de
dezembro de 2025, acompanhados de uma amiga brasileira.
Quase
não chegaram a tempo porque ficaram engarrafados no trânsito e se perderam no
caminho.
Akram
segurava uma misbaha, um cordão de contas usado para fazer orações no
islamismo, enquanto Ronza acompanhava cada informação enviada pela irmã pelo
celular.
Nawal e
Lozan chegaram a esperar em uma sala enquanto a Polícia Federal analisava sua
documentação, mas foram liberadas rapidamente.
Quando
elas apontaram no corredor de desembarque, Ronza correu para o abraço de
reencontro que esperava há oito anos.
Ela
preferiu não levar o filho ao aeroporto, e Nawal conheceu o neto quando
chegaram em casa. Desde então, não quer desgrudar de Elias.
"Ela
está muito feliz de abraçá-lo, tocá-lo, brincar com ele, pede para fazê-lo
dormir", diz Ronza.
Nawal
descreve a emoção de estar com Elias.
"Todo
dia eu pedia que Deus me desse mais tempo de vida para conseguir encontrá-los
de novo e conhecer meu neto", diz a avó, que mora com a criança, Akram,
Ronza e Lozan no mesmo apartamento.
O
plano, agora, é aprender português, embora ainda não saibam quão temporária ou
definitiva é a mudança para o Brasil.
Mas,
aqui, elas vão retomando a vida aos poucos: Nawal voltou a bordar e Lozan, a
desenhar — hobby que teve que abandonar por causa das urgências do conflito.
No
entanto, elas ainda estão muito abaladas por tudo o que viveram e por saberem
que outros parentes seguem sofrendo em Gaza.
"Ainda
tenho pesadelos. Você tenta se sentir normal e esquecer a sensação de estar na
guerra. Você saiu e Deus te salvou. Mas não é fácil, principalmente porque
temos nossa família lá", diz Lozan.
Nawal
também não consegue se sentir segura enquanto o marido e os filhos estiverem em
Gaza.
"Sou
muito grata ao Brasil por ter nos dado uma oportunidade. Mas quero muito que o
governo brasileiro consiga ajudá-los também. Quando eles estiverem a salvo,
teremos forças para voltar a viver."
Fonte:
BBC News Brasil

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