O
redesenho da estratégia dos Estados Unidos
Três
graves acontecimentos pautam a conjuntura internacional neste início de ano.
Primeiro, na madrugada do dia 29 de dezembro de 2025, o governo ucraniano
realizou um ataque com 91 drones à residência do presidente Vladimir Putin na
região de Novgorod, segundo o ministro da defesa russo. Todos os drones foram
interceptados pelo sistema de defesa do país. Um deles foi atingido na cauda,
preservando as informações de seu sistema de navegação. As informações
coletadas foram compartilhadas com as autoridades dos EUA. Kiev nega as
acusações.
O
ataque ocorreu logo depois de Donald Trump ter indicado “que o processo de paz
na Ucrânia estava perto de sua conclusão, após seu encontro com Vladimir
Zelensky e um telefonema com Vladimir Putin no domingo”. Segundo as autoridades
russas, o ataque não se limitou a uma tentativa de assassinato do presidente
russo, mas “contra os esforços do presidente Donald Trump para facilitar uma
resolução pacífica do conflito na Ucrânia”. De acordo com o presidente
Lukashenko da Bielorrússia, Kiev não operou sozinho. Londres tem
responsabilidade compartilhada pelos ataques.
Segundo,
no sudoeste asiático, também no final de dezembro de 2025, devido a
desvalorizações da moeda iraniana, com efeitos inflacionários importantes, num
quadro de severa crise econômica no Irã, que se arrasta por anos em razão das
sanções impostas pelos Estados Unidos, comerciantes de Teerã iniciaram
manifestações pacíficas. Para surpresa de analistas e do governo iraniano,
estas se transformaram rapidamente numa onda de protestos, bastante violentos,
em diferentes cidades do país.
Abertamente,
a agência de inteligência israelense, Mossad, assumiu envolvimento, aplaudiu os
acontecimentos e “afirmou ter agentes infiltrados entre os
manifestantes”. Teerã reconheceu que forças estrangeiras procuram
transformar protestos legítimos em violentas batalhas urbanas. Por sua vez, em
2 de janeiro de 2026, Donald Trump declarou em suas redes sociais que os
Estados Unidos estavam prontos para agir, a qualquer momento, em defesa dos
manifestantes.
No
mesmo dia, Teerã respondeu ameaçando todas as posições estadunidenses na região
em reação a “qualquer potencial aventureiro”. A mensagem das autoridades
iranianas está ancorada na forte capacidade ofensiva desenvolvida pelo país,
com base em mísseis hiper-sônicos, cujo poder de destruição foi demonstrado na
Guerra de 12 dias contra Israel e os Estados Unidos. De acordo com o Canal 12
israelense, em resposta, Tel Aviv considera abrir uma guerra simultânea contra
o Irã, o Líbano e a Cisjordânia.
Terceiro,
na madrugado do dia 3 de janeiro de 2026, aviões dos Estados Unidos invadiram o
espaço aéreo da Venezuela e realizaram um grande ataque a diferentes pontos da
capital, Caracas. Seu principal alvo foi a base militar onde estava localizado
o presidente Maduro e sua esposa. Estes foram sequestrados e levados para Nova
York e, na prática, tornaram-se prisioneiros de guerra. Nessa operação, mais de
100 pessoas morreram, dentre estes, 32 cubanos que faziam parte da guarda
pessoal do presidente venezuelano. Na sequência, Trump exigiu acesso total ao
petróleo venezuelano, além de afirmar que a Venezuela seria governada pelos EUA
até que uma transição adequada fosse implementada.
No dia
seguinte, ampliou o espectro de seus alvos e fez ameaças diretas a outros três
países, México, Cuba e Colômbia, que juntos com Brasil condenaram a ação dos
EUA, denunciando-a como uma violação do direito internacional e uma ameaça à
estabilidade regional.
Em
resposta à violência estadunidense, ainda no dia 4 de janeiro, a Suprema Corte
venezuelana reconheceu a vice-presidente, Delcy Rodríguez, como presidenta
interina, com o propósito de garantir a continuidade do governo, diante do
sequestro e da prisão do presidente Maduro. Delcy é um importante quadro do
chavismo. Foi ministra da Comunicação e Informação, das Relações Exteriores e,
recentemente, concentrava as funções de ministra da economia e do petróleo.
Esses
três graves acontecimentos da conjuntura atual, concentrados no tempo, mas
dispersos no espaço geográfico mundial, devem ser interpretados à luz da nova
geo-estratégia dos EUA, cujos parâmetros já haviam sido indicados por Donald
Trump ainda no processo eleitoral de 2024; explicitados no início do novo
mandato, por meio de alguns pronunciamentos e ações; e, por fim, sistematizados
na nova Estratégia de Segurança Nacional, publicada em dezembro de 2025.
Conforme
descrito em outra oportunidade, está em andamento uma tentativa de
redesenho da grande estratégia dos Estados Unidos a partir da redefinição de
seu mais importante desafio na área internacional. Em detrimento da Rússia, os
Estados Unidos passaram a perceber a China como a principal ameaça à sua
segurança e aos seus interesses globais e, por conseguinte, procuram afastar a
Rússia da China. Trata-se de um esforço de reconfiguração do núcleo central das
grandes potências.
Segundo
a nova Estratégia de Segurança Nacional, o fato de os Estados Unidos não terem
dado a devida atenção à projeção chinesa nas últimas décadas, em razão de uma
preocupação excessiva com a Rússia, constitui-se um erro histórico. “O
presidente Donald Trump, sozinho, reverteu mais de três décadas de suposições
equivocadas dos americanos sobre a China (…) A China enriqueceu e se tornou
poderosa, e usou sua riqueza e poder em considerável benefício. As elites
americanas – ao longo de quatro administrações sucessivas de ambos os partidos
políticos – ou foram cúmplices da estratégia da China ou negaram a realidade.”
(NSS 2025, p. 19).
Na
prática, a administração de Donald Trump não está inventando nada novo. Resgata
uma visão estruturada por Nixon-Kissinger no contexto da Diplomacia Triangular,
inaugurada em 1969, quando se aproveitaram da radical iniciativa chinesa de
redefinição da principal ameaça à sua sociedade, dos Estados Unidos para a
União Soviética, em plena Guerra Fria. Foi nesse contexto que Washington
empreendeu uma política de aproximação estratégica com Pequim de modo a
pressionar Moscou a avançar nas agendas de seu interesse, como também reforçar
a fissão no seio do bloco comunista.
O que
escapa, em geral, é que, em 1972, o próprio Henry Kissinger advertiu Richard
Nixon sobre a necessidade futura de inverter a equação do ponto de vista dos
interesses de Washington: aproximar-se de Moscou a fim de enquadrar Pequim.
“Penso que, num período histórico, eles [os chineses] são mais formidáveis do
que os russos. E creio que, daqui a 20 anos, o seu sucessor, se for tão sábio
quanto você, acabará por se inclinar para os russos em detrimento dos chineses.
Nos próximos 15 anos, temos de nos inclinar para os chineses em detrimento dos
russos. Temos de jogar este jogo de equilíbrio de poder de forma totalmente
imparcial. Neste momento, precisamos que os chineses corrijam os russos e os
disciplinem”.
A
Estratégia de Segurança Nacional de 2025 caminha na direção sugerida pelo
ex-secretário de Estado. Quando aborda o tabuleiro da Ásia, a definição da
principal ameaça aos Estados Unidos torna-se mais clara. Identifica a China
como o seu repto geopolítico e geo-econômico maior. “O Indo-Pacífico [conceito
inventado para tratar da Ásia] já é e continuará sendo um dos principais campos
de batalha econômicos e geopolíticos do próximo século. Para prosperarmos em
casa, precisamos competir com sucesso lá – e estamos competindo.” (NSS 2025, p.
19). Como será visto, este é o ponto que efetivamente organiza e condiciona o
que os Estados Unidos pretendem nos demais continentes, dando, portanto,
sentido aos acontecimentos mais recentes, ocorridos na Rússia, no Irã e na
Venezuela.
Para a
Ásia, do ponto de vista militar, a nova Estratégia de Segurança Nacional
reforça a antiga concepção de bloqueio da China aos mares, estruturado a partir
de cadeias de ilhas, formulada no contexto da Guerra da Coreia por John Foster
Dulles, secretário de estado da administração Eisenhower. Um conjunto de dois
cinturões de bases militares que cercam a China, com poder de impedir sua saída
marítima. Não por outra razão, Taiwan condensa grande parte da disputa. “Taiwan
proporciona acesso direto à Segunda Cadeia de Ilhas e divide o Nordeste e o
Sudeste Asiático em dois teatros de operações distintos.
Dado
que um terço do transporte marítimo global passa anualmente pelo Mar do Sul da
China, isso tem implicações importantes para a economia dos EUA. Portanto,
dissuadir um conflito sobre Taiwan, idealmente preservando a superioridade
militar, é uma prioridade. Manteremos também nossa política declaratória de
longa data sobre Taiwan, o que significa que os Estados Unidos não apoiam
qualquer mudança unilateral no status quo no Estreito de Taiwan” (NSS 2025, p.
23).
Associado
a isso, a nova Estratégia de Segurança Nacional reforça a necessidade de
militarização do Mar do Sul da China a partir do fortalecimento da primeira
cadeia de ilhas. “Construiremos um exército capaz de impedir agressões em
qualquer lugar da Primeira Cadeia de Ilhas. (…) Os esforços diplomáticos dos
Estados Unidos devem se concentrar em pressionar nossos aliados e parceiros da
Primeira Cadeia de Ilhas a permitirem maior acesso das forças armadas
americanas aos seus portos e outras instalações, a investirem mais em sua
própria defesa e, principalmente, a investirem em capacidades destinadas a
dissuadir agressões.” (NSS 2025, p. 24). Por fim, compele a militarização dos
aliados mais fortes na região, Japão e Coréia do Sul, para deter adversários e
defender as cadeias de ilhas.
Do
ponto de vista econômico, o documento reconhece, de um lado, a recente e
expressiva projeção chinesa para grande parte do mundo e, de outro, a
necessidade atual de os EUA garantirem acesso às cadeias de suprimentos e
materiais críticos. Juntando esses dois pontos, a resultante para os Estados
Unidos passa a ser, primeiro, retirar e obstruir o acesso chinês a regiões
estratégicas e, segundo, construir inserções privilegiadas, no limite,
monopolistas.
Propõe,
com efeito, o redesenho das relações da China com outros países e regiões. “(…)
os Estados Unidos devem proteger e defender sua economia e seu povo de danos,
provenientes de qualquer país ou fonte. Isso significa acabar (entre outras
coisas) com as ameaças às nossas cadeias de suprimentos que colocam em risco o
acesso dos EUA a recursos críticos, incluindo minerais e elementos de terras
raras” (NSS 2025, p. 21).
Para a
Europa, o documento vai na direção sugerida por Henry Kissinger em 1972 de
aproximação com os russos de forma a sonhar com um isolamento chinês. Isso,
contudo, envolve necessariamente a reinserção da Rússia no sistema
internacional, em outras palavras, o encerramento tanto da Guerra da Ucrânia
quanto da política de expansão da OTAN, portanto o reconhecimento da vitória de
Moscou no campo de batalha e, com efeito, a necessidade de negociar um tratado
de paz conforme os interesses russos.
Isso,
por sua vez, implica, dentre outras coisas, a neutralidade da Ucrânia, sua
desmilitarização e desnazificação, o reconhecimento da conquista russa da
Criméia e a independência ou anexação pela Rússia das regiões de Donetsk,
Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson.
Não
deixa de ser surpreendente que essa proposta, radical do ponto de vista da
tradição da política externa dos EUA, apareça explicitamente na Estratégia de
Segurança Nacional de 2025. “Como resultado da guerra da Rússia na Ucrânia, as
relações europeias com a Rússia estão agora profundamente deterioradas, e
muitos europeus consideram a Rússia uma ameaça existencial. A gestão das
relações europeias com a Rússia exigirá um significativo envolvimento
diplomático dos EUA, tanto para restabelecer as condições de estabilidade
estratégica em toda a Eurásia, quanto para mitigar o risco de conflito entre a
Rússia e os Estados europeus. É de fundamental interesse dos Estados Unidos
negociar uma cessação célere das hostilidades na Ucrânia, a fim de estabilizar
as economias europeias, evitar uma escalada ou expansão não intencional da
guerra e restabelecer a estabilidade estratégica com a Rússia” (NSS 2025, p.
25).
Fica
claro que, do ponto de vista dos Estados Unidos, o centro do problema não é
exatamente “combinar com os russos”, como diria o craque Garrincha da seleção
brasileira de futebol na Copa de 1958, mas, sim, combinar com os
principais parceiros europeus. A possibilidade de reinserir a Rússia nesses
termos configura-se uma bomba de proporções tectônicas para a Europa, sobretudo
para Inglaterra, França e Alemanha. Na prática, os EUA ameaçam esvaziar a OTAN,
enfraquecendo a Europa; esta, tutelada há décadas pelos EUA via OTAN, possui
baixa capacidade de iniciativa no campo militar; a Rússia venceu os armamentos
da OTAN no campo de batalha e desfruta de significativa vantagem estratégica; e
inexiste uma ameaça em comum entre russos, americanos, chineses e europeus que
dilua suas rivalidades, receios e medos.
É nesse
contexto que devem ser analisados os ataques de drones à residência de Vladimir
Putin em Novgorod. Interessa sobretudo a ingleses, franceses e alemães a
continuidade da Guerra da Ucrânia, a implosão das negociações de paz entre
Moscou e Kiev, mediadas por Washington, e mesmo a escalada militar em
território ucraniano, de maneira a manter os Estados Unidos presos e atolados
no esforço de guerra contra os russos. Faz sentido, portanto, as acusações
feitas pelo presidente Lukashenko da Bielorrússia, quando, com base em
informações de inteligência russa, apontou para Londres a responsabilidade
compartilhada pela tentativa de assassinato do presidente russo.
Em
relação às Américas, da mesma forma, a política de Washington está condicionada
pelo desafio chinês. Nesse sentido, a nova Estratégia de Segurança Nacional não
poderia ser mais explícita. “Após anos de negligência, os Estados Unidos
reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência
americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a
regiões-chave em toda a região. Negaremos a concorrentes não hemisféricos
[China] a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou
de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério.
Este “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma restauração sensata e eficaz do
poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança
dos Estados Unidos” (NSS 2025, p. 15).
Em
termos gerais, os Estados Unidos pensam sua projeção global a partir de uma
insularidade hemisférica. Dominar o continente americano, em especial o Grande
Caribe e sua conexão inter-oceânica, condição chave para a integração de suas
marinhas do pacífico e do atlântico, é o pilar com base no qual se expandem
para mundo, sobretudo na direção das fímbrias da massa continental eurasiana, o
famoso Rimland de que falou Spykman. Pode-se dizer que se
trata da ampliação para escala continental da antiga estratégia inglesa, quando
esta, na expressão do historiador Fernand Braudel, se transformou numa ilha
depois de sua derrota na Guerra de 100 Anos, em 1453. Desde então, os ingleses
assumiram a insularidade das Ilhas Britânicas, a base de sua projeção global.
O que
mais interessa perceber nesse tipo de concepção geo-estratégica, estruturada
numa visão insular, são as implicações para os demais povos e países também
presentes nesses mesmos espaços basilares a partir do qual a potência marítima
se projeta. Isso porque qualquer inserção autônoma de um país ou aliança de
países compromete a capacidade de expansão global das potências insulares.
Essa é
a razão precípua, por exemplo, da violência britânica secular contra irlandeses
e escoceses, assim como das diversas intervenções e golpes dos Estados Unidos
em países da América Latina. Esses espaços não podem funcionar como uma espécie
de “cabeça de ponte” de adversários geopolíticos globais. Não se trata de
questões político-ideológicas, étnico-religiosas ou econômicas em si, mas
fundamentalmente geopolíticas. No limite, poder-se-ia dizer que Fidel Castro na
Revolução Cubana (1953-59), em pleno “Grande Caribe”, e Michael Collins nas
Guerras de Independência da Irlanda (1919-21), em pleno “Mar Interior
Britânico”, lutaram e foram bem-sucedidos contra uma violência de natureza
semelhante.
Para
além das riquezas naturais, é nesse sentido que também pode ser entendida a
racionalidade de algumas das ameaças estadunidenses a países da região, como
Venezuela, Cuba, Colômbia, México e Brasil, por suas políticas externas não
alinhadas, e Canadá e Groenlândia (Dinamarca), por suas posições geográficas
relevantes.
No caso
da Venezuela, além de estar no “Grande Caribe”, o país é detentor da maior
reserva de petróleo do mundo, 303 bilhões de barris, ultrapassando a Arábia
Saudita (267 bilhões). Somado a isso, depois da ampliação das sanções em 2019,
a China tornou-se o principal importador de petróleo, deslocando os Estados
Unidos. Para se ter uma ideia, em 2023, os chineses foram responsáveis pela
aquisição de 68% das exportações de petróleo bruto do país; e os
estadunidenses, 23%.
Ademais,
a Venezuela tem se aproximado do Irã, Rússia e China em temas sensíveis. Por
exemplo, segundo Washington Post, a Venezuela solicitou, em outubro de 2025,
assistência militar à Rússia, à China e ao Irã com o propósito de aprimorar
seus sistemas defensivos. Para Pequim, Caracas requisitou detectores de
radar; para Teerã, equipamentos de interferência de radar e drones capazes de
voar até 1.000 km; e, para Moscou, novos mísseis, além de assistência para
caças Su-30MK2 e sistemas de radar já adquiridos.
Uma
semana antes, a Rússia havia ratificado o tratado de parceria estratégica com a
Venezuela negociado em maio do mesmo ano, momento em que manifestou também
apoio à defesa da soberania nacional da Venezuela e compromisso de ajuda a
“superar quaisquer ameaças, independentemente de sua origem”.
Não é
difícil perceber que, além da projeção chinesa sobre o petróleo venezuelano,
Caracas vinha tentando desenvolver importante capacidade militar defensiva e
dissuasória com apoio dos principais adversários dos Estados Unidos em outros
tabuleiros. De qualquer forma, o sequestro do presidente Nicolás Maduro revelou
a vulnerabilidade e o atraso do país à violência de potências estrangeiras.
Para o
Oriente Médio, a Estratégia de Segurança Nacional de 2025 aponta para a mesma
questão de garantir que as reservas de óleo e gás estejam disponíveis ao
ocidente e vetadas aos seus inimigos. Manifesta, também, preocupação com o
acesso ao Estreiro de Ormuz. “Os Estados Unidos sempre terão interesse
fundamental em garantir que o fornecimento de energia no Golfo não caia nas
mãos de um inimigo declarado, que o Estreito de Ormuz permaneça aberto e que o
Mar Vermelho permaneça navegável (…).” (NSS 2025, p. 28).
Assim
como Caracas, a aproximação de Teerã com Pequim e Moscou é bastante delicada.
Além de possuir a segunda maior reserva de gás e a quarta de petróleo, o Irã
ingressou na Organização de Cooperação de Xangai, em 2023; nos BRICS, em 2024;
assinou parceria estratégica com a Rússia, em 2025; além de ter suas relações
diplomáticas reativadas com a Arábia Saudita, em 2023, por mediação da China.
Ademais, o Irã estrutura o eixo de resistência no sudoeste asiático contra a
violência estadunidense e israelense (Hezbollah no Líbano, Houthis no Iêmen,
Resistência no Iraque e Hamas na Palestina).
Portanto,
a promoção de uma guerra híbrida contra o Irã, a fim de derrubar o governo,
constitui-se uma prioridade para os Estados Unidos. Não por outra razão, o
premiado e bem informado jornalista Seymon Hersh escreveu recentemente que: “O
próximo alvo [depois da Venezuela], me disseram, será o Irã, outro fornecedor
da China, cujas reservas de petróleo bruto são as quartas maiores do mundo”.
Os
ataques de drones, a guerra híbrida e o sequestro presidencial podem ser
analisados de modo articulado, a partir da nova geo-estratégia do governo
Donald Trump, cujo principal desafio é a China. O que o público, em geral,
ainda não se deu conta é que, ao longo da história, toda a vez que um
presidente estadunidense tentou uma política de não confrontação com a Rússia,
esta política não teve vida longa – Woodrow Wilson, Franklin Roosevelt e John
F. Kennedy. Algo apontado de forma corajosa pelo cineasta Oliver Stone numa
entrevista à excelente jornalista Abby Martin. Talvez para Donald Trump,
sua principal ameaça não seja apenas a China, mas o blowback de
sua política de reinserção no sistema internacional da Rússia, vitoriosa na
guerra.
Fonte:
Por Mauricio Metri, em A Terra é Redonda

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