sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Democracia em 2026 enfrenta desafios globais entre AI, desinformação e eleições

Desde o alvorecer dos tempos, as pessoas se reúnem para tomar decisões coletivas ou eleger seus representantes. Hoje, porém, nossa compreensão de democracia é impensável sem estes direitos: o princípio da igualdade e os direitos individuais garantidos pelos Estados liberais modernos.

Em 2026, essa forma liberal de democracia marca um grande aniversário: há 250 anos, ao declarar que “todos os homens nascem iguais”, 13 colônias dissidentes estabeleceram os Estados Unidos da América, uma nação que persiste até hoje.

Em 1778, antes da primeira eleição presidencial dos EUA, um político e empresário suíço, Johann Rudolph Valltravers, escreveu a Benjamin Franklin com um apelo: “Vamos manter conjuntamente os direitos da humanidade, a liberdade legal, a tolerância e a propriedade garantida à indústria honesta! Vamos desfrutar das bênçãos da paz conquistadas com muito esforço, incentivar as artes e as ciências e ser o asilo para seus devotos oprimidos!”

O apelo não é menos relevante hoje. Contudo, nos próximos anos, com a democracia enfrentando vários testes ao redor do mundo, corre o risco de ficar aquém.

>>> 1. A linha entre democracia e segurança continua a ficar difusa

As democracias estão preocupadas com tentativas externas de miná-las. Em 2026, o Conselho da Europa quer tornar isso explícito, garantindo que o fortalecimento da segurança militar no continente caminhe lado a lado com o fortalecimento da segurança democrática. Seu “Novo Pacto DemocráticoLink externo” impulsionará discussões entre seus 46 países-membros sobre questões como a integridade eleitoral. O Conselho também trabalha na elaboração de uma Convenção sobre desinformação e interferência estrangeira.

A União Europeia segue caminho semelhante. Seu “Escudo da DemocraciaLink externo” inclui medidas para proteger a liberdade de expressão, as instituições democráticas e a sociedade civil em todo o bloco de 27 países. O plano prevê financiamento ao jornalismo independente, promoção da alfabetização midiática e digital e a criação de um novo Centro Europeu para a Resiliência Democrática. “A democracia é nossa primeira linha de defesa”, declarou o comissário da UE Michael McGrath no lançamento da iniciativa, em novembro de 2025.

Quanto à Suíça, o país tende a avançar com cautela nessas questões, embora reconheça que atores estrangeiros, sobretudo Rússia e China, estejam envolvidos em campanhas de influência. Até agora, o governo federal tem hesitado em introduzir leis específicas para combater a desinformação.

>>> 2. A inteligência artificial invade as grandes campanhas eleitorais

Em 2026, campanhas eleitorais ao redor do mundo deverão ser inundadas por vídeos e imagens produzidos por inteligência artificial (IA) de forma barata e distribuídos em massa.

Já em 2025, esse “lamaçal” de IA havia “se solidificado nas camadas externas de nossas instituições culturais e esferas sociais”, como um manto de “rocha sedimentar”, escreveu recentemente o jornalista Brian Merchant. Isso também se aplica às comunicações políticas, como imagens de paisagens produzidas pelo Ministério do Interior dos EUA ou vídeos de Donald Trump voando sobre Nova York em um jato de combate, aparentemente despejando uma pilha de fezes sobre manifestantes abaixo.

Após sua entrada na Casa Branca, o lamaçal da IA conseguiu, assim, permear instituições oficiais em muito pouco tempo. Dessa forma, espera-se que se torne uma característica marcante de muitas eleições em 2026.

Isso provavelmente resultará em campanhas mais negativas. Alguns anos atrás, cada decisão de produzir um vídeo de campanha envolvia considerações orçamentárias; hoje, esses vídeos praticamente não têm custo. Além disso, como o conteúdo é gerado artificialmente e pode ser disseminado por contas anônimas, atores políticos tendem a demonstrar menos escrúpulos quanto a mensagens agressivas ou enganosas.

>>> 3. Eleições de meio de mandato e celebrações de 1776 nos EUA

Há alguns anos, isso seria apenas um aniversário: uma comemoração da fundação da primeira república moderna, que considerava natural que todas as pessoas (homens brancos, inicialmente) nascessem iguais. Olhava-se para trás para refletir sobre a história da escravidão nos EUA e sobre quanto tempo levou para que o princípio da igualdade fosse estendido a mulheres e pessoas negras.

As celebrações provavelmente serão mais tensas em 2026. Agora que alguns acadêmicos identificam uma forte guinada rumo à autocracia nos EUA, e com eleições cruciais para o Congresso se aproximando, o 250º aniversário da fundação da nação deverá se tornar um campo de batalha em uma guerra de interpretações históricas. A oposição democrata provavelmente enfatizará os valores da Declaração de Independência, enquanto os republicanos ligados a Trump destacarão a luta pela nação durante a Guerra de Independência.

Um ano depois, em 2027, a Suíça também celebrará um aniversário: 180 anos desde que se tornou um Estado federal após a chamada Guerra do Sonderbund. O Parlamento Federal, composto pelo Conselho dos Estados (Senado) e pelo Conselho Nacional (Câmara dos Deputados), inspira-se no sistema dos EUA. Ainda assim, o aniversário suíço tende a ser menos controverso: embora as instituições reflitam parcialmente as de sua grande “república irmã”, a polarização na nação alpina é muito menos acentuada.

>>> 4. Pioneiro da “democracia intolerante” enfrenta um teste

Em um discurso em Zurique, em 2023, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán afirmou que seu país e a Suíça tinham um grande problema em comum: a União Europeia (UE), que estaria “cheia de burocratas em vez de políticos”.

Suíça e Hungria, no entanto, têm pouco em comum quando se trata de padrões democráticos. Desde que Orbán chegou ao poder, em 2010, mudanças constitucionais e legais promovidas por seu partido, o Fidesz, vêm enfraquecendo gradualmente o Estado de direito, a liberdade de imprensa e os direitos das minorias, transformando a Hungria em um “regime híbrido de autocracia eleitoral”, segundoLink externo o Parlamento Europeu. O próprio Orbán, embora se queixe de ser difamado no Ocidente, é explícito sobre seu projeto conservador: o objetivo é uma democracia “iliberal”, ou intolerante, como afirmou em 2014.

Em 2026, ele lutará para manter esse projeto vivo. Antes das eleições parlamentares de abril, pesquisas indicavam seu partido atrás do Tisza, um movimento fundado em 2024 pelo ex-aliado de Orbán, Péter Magyar. O significado de uma eventual mudança de primeiro-ministro é incerto: em entrevistaLink externo ao Financial Times, Magyar apresentou-se como um anti-Orbán, menos alinhado à Rússia e mais comprometido com a UE e a Otan.

Seja qual for o resultado, dada a influência que Orbán exerce sobre conservadores em outros países, inclusive nos EUA, a eleição será observada com atenção. Na Europa, a votação também representa um dos principais eventos de um calendário eleitoral de 2026, por outro lado, relativamente esvaziado.

>>> 5. Bangladesh, Brasil e Israel: votando em tempos de retrocesso democrático

Fora da Europa, várias eleições cruciais ocorrerão em 2026, todas em países onde a democracia enfrentou desafios significativos nos últimos anos.

Em fevereiro, Bangladesh realizará suas primeiras eleições desde que a ex-primeira-ministra Sheikh Hasina fugiu do país em meio a protestos estudantis, em agosto de 2024. Muhammad Yunus, chefe do governo interino, apresentou o pleito como uma oportunidade de iniciar um “novo Bangladesh” após anos de autocratização sob Hasina. As eleições ocorrerão juntamente com um referendo sobre a “Declaração de Julho”, um esboço programático voltado à democracia pluralista e ao Estado de direito.

No Brasil, as duas últimas eleições presidenciais espelharam, em parte, o cenário dos EUA. Em 2018, durante o primeiro mandato de Donald Trump em Washington, o direitista Jair Bolsonaro venceu no Brasil; em 2022, sob a presidência de Joe Biden, o esquerdista Lula retornou ao poder. Em 2026, o padrão não deve se repetir: condenado por envolvimento em uma tentativa de golpe, Bolsonaro está inelegível. Muito dependerá de saber se seus aliados prometerão perdoá-lo, caso eleitos, ou se respeitarão a condenação, descritaLink externo como um “momento histórico de responsabilização” no país. Lula, agora com 80 anos, concorre novamente.

Por fim, Israel deverá realizar eleições em 2026, com o primeiro-ministro de longa data Benjamin Netanyahu novamente no centro das atenções. Seu atual mandato foi marcado não apenas pela guerra em Gaza, mas também por tensões democráticas: em 2023, uma proposta de reforma judicial desencadeou protestos em massa, e Netanyahu continua enfrentando acusações de corrupção. Pesquisas indicam que seu partido, o Likud, pode ter dificuldades para se manter no poder. Ainda assim, ele conta com um aliado de peso: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

<><> Emir Sader: Será que a direita tem futuro no Brasil?

A direita brasileira é, inevitavelmente, bolsonarista. Se faltasse algo, o candidato da oposição, abençoado pelo seu pai, é um filho do Bolsonaro. Que, aparentemente, já deixou para trás o governador de São Paulo, o queridinho da Faria Lima. Mostrando a capacidade de transferência de votos do Bolsonaro, mesmo condenado e preso por comprometimento na tentativa de golpe, que incluía a morte do Lula, do Alckmin e de Alexandre de Moraes.

Uma direita bolsonarista tem chance de voltar a governar o Brasil?

Primeiro, tem que tratar de atacar o Lula, para diminuir o seu prestígio. O tarifaço do Donald Trump foi, desse ponto de vista, um presente para o Lula, que voltou a aparecer como o Presidente de todos os brasileiros, ao defender os interesses do país diante das ameaças externas.

Mesmo nas duvidosas pesquisas, o Lula subiu muito, enquanto a oposição bate cabeça, sem se unificar em torno de um candidato. Tarcísio de Freitas, que aparecia como o favorito do grande empresariado, teria ficado superado nas pesquisas.

Tarcísio revelou sua fidelidade e gratidão total a Bolsonaro, mesmo depois de julgado, condenado e preso. Ao mesmo tempo que os próprios meios de comunicação caíram de pau sobre o Bolsonaro, por tudo, pelo seu péssimo governo e pelo seu comprometimento com a tentativa de golpe de 8/1, além, é claro, do episódio grotesco da tornozeleira.

O lançamento de um filho do Bolsonaro como candidato da oposição, mesmo aparentemente com pouca repercussão política, foi se consolidando, sempre segundo as pouco confiáveis pesquisas, como o candidato da oposição.

Um candidato que, em um debate com a Jandira Feghali, literalmente se borrou e desmaiou! O que se pode esperar de um debate na campanha presidencial dele com o Lula?

Lula tornou-se favorito à reeleição. Aparentemente, a direita se conforma com isso e trata de manter o controle sobre a Câmara e o Senado, para dificultar um eventual próximo mandato do Lula. Até um setor do Centrão se aproxima do governo, porque não gosta de estar longe do governo.

Depois de um governo desastroso, que só foi possível porque houve um golpe, com um impeachment indevido da Dilma e a acusação sem provas e prisão do Lula, não resta nada do que se possa chamar de herança de Bolsonaro para o Brasil.

O que a direita faria de novo, se chegasse a voltar a governar o Brasil? O que o filho do Bolsonaro vai propor na campanha eleitoral, em oposição ao que o Lula pode apresentar, que tem levado o Brasil a estar em uma situação econômica, social e política muito positiva? O candidato da direita dirá que repetiria o governo que o Bolsonaro fez?

A direita já fracassou no Brasil e, da mesma forma que o neoliberalismo, já fracassou no Brasil – e em toda a América Latina. A direita tem passado, mas não tem futuro no Brasil.

¨      Em Trump, o nazismo ressurge com toda ferocidade. Por Jair de Souza

Alguns acontecimentos dos recentes dias servem como provas evidentes de que o espírito e a prática que caracterizaram o nazismo hitlerista voltaram a ocupar o centro da política no atual país símbolo do mundo ocidental. Logicamente, estamos fazendo referência aos Estados Unidos e às políticas determinadas e levadas adiante por Donald Trump e seus auxiliares.

Não há como não fazer uma associação direta entre as blitzkriegs hitleristas contra a França, Bélgica e Holanda nos períodos prévios à II Guerra Mundial, por exemplo, e a recém efetuada agressão dos Estados Unidos contra a Venezuela, a qual redundou no assassinato de cerca de uma centena de pessoas e no sequestro do legítimo presidente deste país latinoamericano e de sua esposa. As semelhanças são por demais visíveis para não serem notadas de imediato.

Não obstante, também em termos internos há diversos fatos que reforçam esse parecido. Para limitar-nos aos sete últimos dias, convém citar a violentíssima atuação das equipes de perseguição e captura de imigrantes chamado Immigration and Customs Enforcement (ICE) contra os trabalhadores indocumentados, assim como contra os cidadãos estadunidenses que procuram se solidarizar com a causa dos perseguidos. Em relação a este ponto, temos o brutal assassinato à queima roupa praticado por um agente dessa força, em Minesotta, de Renee Nicole Gold, uma senhora de 37 anos e mãe de três filhos; e quando, numa manifestação em Santa Ana, Califórnia, em repúdio a este monstruoso crime, um jovem foi covardemente atingido no rosto por um projétil disparado por um dos policiais encarregados de reprimir a manifestação. Como consequência, o jovem estadunidense Kaden Rummler, de apenas 21 anos, ficou permanentemente cego de um olho.

Portanto, embora haja fatores mais do que suficientes para equiparar o regime trumpista àquele comandado por Adolf Hitler, é fundamental que deixemos bem claro que esse comportamento nazistoide não pode ser estendido à população dos Estados Unidos como um todo. Basta tomarmos os exemplos já citados de Renee Nicole Gold e Kaden Rummler para chegarmos à conclusão de que a adesão ao pensamento e às práticas deste novo tipo de nazismo não tem absolutamente nada a ver com nenhuma pertinência nacional ou racial. A solidariedade ou a aversão aos injustamente perseguidos está muito mais relacionada à presença ou ausência de uma consciência humanitária do que a quaisquer motivos de outra índole.

Em função de suas peculiaridades, creio que poderíamos chamar de nazitrumpismo esta nova versão da conhecida ideologia de extrema direita que ganhou força na Alemanha durante a primeira metade do século passado, ou seja, um amálgama que reúne as principais características que marcaram sua fase hitlerista e os pontos mais tipicamente derivados de seu expoente-mor do presente, Donald Trump. Assim, estamos falando de um pensamento que se assenta em pilares claramente supremacistas e intrinsecamente vinculados aos interesses mais flagrantes do grande capital. Tudo isto, em uma etapa social em que os grandes conglomerados capitalistas que controlam as plataformas de redes digitais exercem papel hegemônico no funcionamento do sistema imperialista estadunidense.

No entanto, assim como seu precursor germânico da primeira metade do século passado, o nazitrumpismo também consegue adeptos e colaboradores entre parcelas das populações pertencentes aos grupos alvos de sua sanha. Assim, a despeito de que os povos eslavos eram vistos pelos nazistas como seres inferiores e, portanto, passíveis de escravização, não foram poucos os eslavos ucranianos e poloneses, por exemplo, que se colocaram inteiramente a serviço do projeto dos nazistas em suas próprias terras. De maneira análoga, hoje em dia, o nazitrumpismo encontra ardentes apoiadores entre os povos vítimas de sua discriminação. Mas, as reais motivações que impulsionam alguns a desprezar e trair o próprio povo do qual fazem parte podem ser de fácil compreensão em certos casos, e muito mais difícil em outros.

Então, situando a questão no espaço brasileiro, quando as lideranças bolsonaristas colocam os interesses dos Estados Unidos acima de tudo e de todos, não há grandes dificuldades para entender o que está por trás de seu posicionamento. É que, da mesma maneira que um capitão do mato se punha a serviço do senhor de escravos para garantir um nível de vida acima do da esmagadora maioria dos cativos, os líderes bolsonaristas esperam poder desfrutar de regalias especiais ao apoiarem os projetos e propostas de seus amos imperialistas. E convém esclarecer que isto não se restringe aos expoentes do bolsonarismo abertamente político. Um papel ainda mais relevante nesse sentido corresponde aos empresários da fé que tocam o negócio do neopentecostalismo.

Não há dúvidas de que o nazitrumpismo representa uma grave ameaça para a humanidade em seu conjunto, mas os povos americanos estão muito mais vulneráveis na conjuntura atual. Isso se deve a que o avançado processo de decadência da hegemonia estadunidense no plano econômico leva os dirigentes desta potência imperialista a jogar pesado para fortalecer e consolidar suas posições em nosso continente para, em seguida, partir para os embates diretos com as potências que estão colocando em xeque sua hegemonia a nível global.

Em vista do acima exposto, é provável que a ferocidade e a crueldade do imperialismo estadunidense contra os povos de nossa América se intensifiquem e que agressões ainda mais violentas e sanguinárias venham a ser desfechadas. Com isto, não está descartado o risco de que as já enormes desgraças que nos vêm sendo causadas se tornem ainda piores. Como sabemos, assim como se dava com o nazismo hitlerista, o nazitrumpismo não tem nenhum sentimento humanitário que lhe sirva de freio. A única maneira conhecida de pôr fim a suas atrocidades continua sendo sua contraposição com um bloco de forças que o obrigue a se deter. Por isso, a busca pela unidade dos povos latinoamericanos é agora, mais do que nunca, a palavra de ordem para todos nós.

 

Fonte: SWI swissinfo.ch/Brasil 247

 

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