Plataformas
‘uberizam’ trabalho de psicólogos com consulta a R$ 30
PLATAFORMAS
DIGITAIS especializadas em “conectar” pacientes a psicólogos, como PsyMeet e
Central Psicologia, estariam induzindo terapeutas a cobrar valores até sete
vezes menores do que o recomendado por entidades de classe da categoria. Para o
cliente final, o atendimento custa a partir de R$ 30.
É o que
relatam à Repórter Brasil psicólogos que pagam uma assinatura mensal para ter
acesso a potenciais clientes. Eles se queixam do baixo retorno financeiro, do
comprometimento da qualidade do atendimento e da competição exacerbada entre
colegas estimulada pela própria lógica das plataformas. Na prática, dizem,
serviços do tipo atuam como “atravessadores” do trabalho de psicoterapia.
Já
especialistas em direito do trabalho destacam que as empresas com esse modelo
“uberizado” não agem como simples intermediadoras do serviço de psicoterapia, e
que os profissionais não atuariam de fato como autônomos.
“Se a
plataforma digital estabelece precificação do valor através da sua tabela,
normas de procedimento e punições caso as desobedeça, o trabalhador não é
autônomo”, avalia o procurador Rodrigo Castilho, coordenador nacional da
Coordenadoria de Combate às Fraudes do MPT (Ministério Público do Trabalho).
A
PsyMeet, por exemplo, diz alcançar cerca de 3 milhões de pacientes por ano. O
valor por sessão — de 50 minutos a uma hora de duração — é fixado em R$ 30 para
pacientes “em situação de vulnerabilidade socioeconômica”. Segundo os
profissionais consultados pela reportagem, no entanto, a maior parte dos
clientes não se encaixaria nesse perfil.
Já a
Central Psicologia trazia em seu site, até novembro do ano passado, diferentes
tipos e preços de serviço: o atendimento via “chat” custava R$ 50. Já o
realizado por meio de texto e áudio de Whatsapp saía por R$ 60. O de vídeo, R$
80.
Após o
contato da Repórter Brasil, a Central Psicologia alterou o conteúdo de sua
página inicial na internet e removeu os anúncios com os valores, como mostram
os prints abaixo. Agora, o site informa que a plataforma não define os preços
das consultas.
“Cada
psicólogo define seus próprios valores de sessão. Na Central Psicologia você
pode filtrar por faixa de preço para encontrar profissionais que cabem no seu
orçamento”, diz a seção de perguntas e respostas da plataforma.
A
tabela de honorários do CFP (Conselho Federal de Psicologia) e da Fenapsi
(Federação Nacional dos Psicólogos) determina um valor mínimo de R$ 213,93 por
consulta, cerca de sete e quatro vezes maior do que o fixado pela PsyMeet e
pela Central Psicologia, respectivamente.
Procuradas,
as duas empresas não deram retorno até a publicação desta reportagem. O texto
será atualizado caso as empresas enviem um posicionamento.
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‘Plataformas transformam papel social em estratégia de mercado’, diz sindicato
Em seu
site, a PsyMeet propõe uma “terapia online social” para atender “pessoas em
situação de vulnerabilidade socioeconômica”.
Para
Vânia Machado, presidente da Fenapsi (Federação Nacional dos Psicólogos), as
plataformas se aproveitam de um pretenso papel social para uberizar o trabalho
do psicólogo.
“O
valor social é uma prática pontual, realizada de forma ética e informal em
consultórios, voltada a pessoas que realmente precisam. No entanto, as
plataformas transformam isso em estratégia de mercado, exibindo valores
baixíssimos como uma vitrine para atrair pacientes e profissionais”, critica.
Em
ambos os casos, o modelo de negócios é o mesmo: os psicólogos pagam uma
assinatura para que as plataformas divulguem seus perfis — na Central
Psicologia, por exemplo, os planos variam de R$ 75 a R$ 180 mensais. Já os
clientes desembolsam somente o valor das consultas.
Segundo
queixa registrada no site Reclame Aqui, a PsyMeet teria constrangido e
intimidado uma terapeuta que relatou ter elevado o preço de sua consulta, por
conta própria.
“A
equipe de atendimento me tratou de forma grosseira e ameaçadora, exigindo que
eu prometesse manter atendimentos a R$ 30, mesmo após eu já ter sido orientada
pela própria plataforma de que poderia reajustar os valores caso desejasse”,
narrou a profissional.
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Para procurador do Trabalho, profissional vinculado a plataformas digitais é
‘falso autônomo’
Formado
em Psicologia no final de 2023, Jefferson* encontrou dificuldades para
conseguir pacientes por meio de indicações ou de redes sociais. Decidiu, então,
assinar plataformas que ofereciam esse serviço.
Foi
quando descobriu que o preço por sessão de terapia estipulado era muito abaixo
do mercado. Para Jefferson, esse modelo de negócios “se propõe a tirar
vantagem” do pouco poder de barganha de profissionais recém-formados.
Para
Rodrigo Castilho, do MPT, esse tipo de plataforma situa-se em uma zona cinzenta
do mercado de trabalho. “Na retórica das plataformas, o profissional da
Psicologia é um microempreendedor individual, mas na verdade é um empregado, um
falso autônomo”, avalia.
De
acordo com o procurador, as empresas atuam na oferta de mão de obra para o
mercado, e, por essa razão, os profissionais deveriam ser contratados.
Na
opinião de Marcos Aragão Oliveira, professor e pesquisador de Direito da PUC-RJ
(Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), esses serviços atuam como
gestores do trabalho dos psicólogos, controlando a distribuição dos
atendimentos e o preço das consultas.
“Quanto
maiores as exigências e controle das empresas, mais estarão longe de um modelo
de intermediação, e mais estarão com características de empresas dirigentes”,
afirma. “Ao mesmo tempo, também pressionam e não garantem que o pagamento pelo
serviço seja o suficiente ou digno”, complementa.
Segundo
Oliveira, a “plataformização” da Psicologia clínica chama a atenção por
precarizar uma categoria já consolidada, com curso superior e representada por
conselhos profissionais.
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‘Quem responde mais rápido acaba pegando paciente’
O
psicólogo Nicolas*, que assina a PsyMeet há um ano, relata que viu seu trabalho
se transformar em uma competição contra colegas.
Como a
plataforma funciona 24 horas por dia, ele recebe mensagens de potenciais
clientes durante madrugadas e fins de semana. E precisa responder rápido, já
que os clientes “não têm paciência de esperar o profissional responder”, conta
à Repórter Brasil.
“Já
tive que estacionar o carro para mandar uma mensagem a um possível cliente,
dizendo: ‘ó, daqui a pouquinho eu te respondo, eu tô no trânsito’. E, mesmo
assim, às vezes não adianta. Quem responde mais rápido acaba pegando paciente”,
relata.
Tanto
Jefferson quanto Nicolas comentam que a PsyMeet não deixa claro os critérios
para priorizar a exibição do perfil de um profissional em vez de outro. Segundo
eles, isso abre margem para a plataforma destacar os psicólogos cujo período de
assinatura está terminando, fazendo o volume de clientes aumentar e, assim,
“convencendo-os” a renovar.
As
críticas à PsyMeet são compartilhadas por outros de seus assinantes. Na página
do Reclame Aqui, uma psicóloga alega que entrou na plataforma com a promessa de
até dois contatos por semana, mas que, três meses depois do início de sua
assinatura, havia fechado apenas uma sessão.
“É tudo
muito lindo no papel e, quando eles recebem o pagamento, após isso é descaso em
cima de descaso”, afirma.
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Preços muito baixos afetam o atendimento, dizem psicólogos
Jefferson
conta que chegou a gastar até R$ 3 mil por ano com assinaturas de plataformas.
Em contrapartida, os valores que recebe são insuficientes para quitar suas
despesas, especialmente em razão dos custos fixos da profissão, que incluem
tributos referentes à emissão de notas fiscais por um CNPJ próprio, aplicativos
de videochamada e renovação anual do registro no CRP, que pode custar de R$ 550
a 650 por ano.
O
faturamento, por sua vez, é irregular, já que não há garantia de que os
clientes contatados permaneçam. “Eu estava basicamente recebendo de volta o
valor investido na plataforma e lucrando só uma coxinha”, ironiza. “Quando a
gente cobra tão pouco e não consegue sair da zona de sobrevivência, que tipo de
serviço a gente consegue propor?”, lamenta.
Os dois
psicólogos ouvidos pela Repórter Brasil admitem que reduzem o tempo das
sessões, comprometendo a qualidade do serviço que oferecem, como forma de
compensar os investimentos feitos nas plataformas e outros custos relacionados
aos atendimentos.
No caso
de Nicolas, as consultas chegam a ser de 30 minutos. “Como o valor é reduzido,
a gente acaba tendo que atender mais. Fica inviável cobrar só R$ 30 por uma
hora”, explica.
Ele
relata que, para ganhar mais, chega a atender até cinco pacientes seguidos no
período noturno, encerrando o último atendimento à meia-noite e, em alguns
casos, marca sessões aos fins de semana.
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PsyMeet leva profissionais a desrespeitarem código de ética, diz Fenapsi
Para
Vânia Machado, presidente da Fenapsi, o valor de R$ 30 por sessão estabelecido
pela PsyMeet leva os profissionais a desrespeitarem termos do Código de Ética
da Psicologia, ao gerarem uma competição desleal e fomentarem no mercado de
trabalho um regime pontual de exceção — o preço social.
“Para
evitar esse cenário, seria necessário estabelecer critérios claros de acesso
dos pacientes às plataformas, como comprovação de renda, de forma semelhante ao
que ocorre em políticas públicas, como o Programa Bolsa Família, que possui
critérios de elegibilidade”, complementa Machado.
A
PsyMeet não aparenta fazer nenhum controle do perfil social dos pacientes. Não
há logins, contas ou cadastros: ao entrar no site, o usuário é levado a um
campo de busca, onde filtra o terapeuta por perfil, especialidades de
atendimento e sintomas — como ansiedade, depressão ou TDAH.
De
acordo com a presidente da Fenapsi, essa prática também fere o Código de Ética
da profissão, já que usar “especialidades em sintomas” no sistema de busca
desrespeita o trabalho clínico. “O correto seria apresentar abordagens
psicoterapêuticas, respeitando a complexidade da prática clínica e evitando
simplificações inadequadas”, pontua.
Procurado
para comentar o modelo de atendimento psicoterapêutico via plataformas, o
Conselho Federal de Psicologia afirmou que “ainda não tem uma posição sobre o
tema”.
* Nomes
fictícios. Os entrevistados optaram por não se identificar
Fonte:
Repórter Brasil

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