quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

FUTEBOL BRASILEIRO: Falso patriotismo e reserva de mercado – de Dorival a Osvaldo e Leão

Nos últimos anos, no Brasil, vimos a expressão de um suposto e autoproclamado patriotismo que se revelou, no curso dos acontecimentos históricos, contraditório ao conceito de verdadeira defesa da pátria ou da nação. Neste artigo, debateremos o mau uso desse conceito à luz das vergonhosas falas dos treinadores brasileiros de futebol Oswaldo de Oliveira, Emerson Leão e Dorival Júnior...

No último dia 16 de dezembro, em entrevista coletiva concedida após o jogo que classificou o Corinthians para a final da Copa do Brasil de 2025, o consagrado treinador Dorival Júnior desabafou sobre como, em seu entendimento, os treinadores brasileiros vêm sendo tratados nos últimos anos em nosso país. Apelou à imprensa pedindo que “nos respeitem um pouco mais, que os treinadores sejam mais observados. Temos qualidade e capacidade”. Finalizou denunciando que “há um processo de desrespeito a todos os profissionais da minha área, e isso é lamentável, porque estamos perdendo muitos profissionais”.

É praticamente inevitável associar as declarações de Dorival – que sequer foi provocado por uma pergunta específica para abordar o tema – aos comentários feitos no mês anterior, em 4 de novembro, quando o treinador da seleção brasileira, o italiano Carlo Ancelotti, participava do 2º Fórum Brasileiro de Treinadores de Futebol, realizado na sede da CBF, e foi surpreendido pelas falas dos técnicos Oswaldo de Oliveira e Emerson Leão, profundamente deselegantes, para dizer o mínimo. Leão afirmou: “Eu sempre disse que não gosto de treinadores estrangeiros no meu país, e isso serve para o (Vagner) Mancini, que é o presidente (da Federação Brasileira de Treinadores). Estou falando aqui na frente da nossa casa”. Oliveira, como uma verdadeira dupla de ataque afinada com a grosseria de Leão, completou: “Quando o Ancelotti for embora depois de ser campeão no ano que vem, que volte um brasileiro”.

A imprensa, de modo geral, tratou o incidente como uma atitude grosseira, mas poucos relacionaram esse comportamento a um contexto dramático do futebol brasileiro atual. O jornalista do UOL Mauro César Pereira bate na tecla há anos de que a maior presença de treinadores estrangeiros atuando em clubes do país provocou uma reação hipocritamente patriótica e nacionalista. Vários profissionais do ramo passaram a defender a presença de treinadores brasileiros à frente de comissões técnicas e a repudiar ou criticar clubes que optavam por profissionais gringos. O jornalista caracterizava esse movimento como uma tentativa de “reserva de mercado” – no português coloquial, a manutenção de uma “panela” de técnicos que, por décadas, realizaram uma espécie de “rodízio” entre clubes da elite do futebol brasileiro.

Essa dinâmica cíclica, além de limitar as opções do mercado a poucos nomes – que se exaltavam mutuamente, formando uma espécie de cartel –, onerava financeiramente seus empregadores com gordas e intermináveis multas rescisórias, pois, devido aos igualmente péssimos trabalhos desses treinadores, poucos ou quase nenhum encerravam seus contratos de forma regular, assinando rapidamente com outros clubes na esperança de receber sem trabalhar por metade ou mais do tempo de seus respectivos vínculos.

Talvez seja exagerado falar em “máfia” para ilustrar e definir o que se tornou o mercado de comissões técnicas no Brasil, sobretudo nos últimos 20 anos, mas é absolutamente justo afirmar que os clubes foram sequestrados pelo vazio de novas ideias no futebol do país. Isso se relaciona diretamente com fiascos históricos, como a derrota por 4 x 0 do Santos de Neymar, na final do Mundial de Clubes de 2011, para o Barcelona de Messi, Xavi e Guardiola, e o trágico 7 x 1 sofrido pelo Brasil contra a Alemanha, na Copa do Mundo de 2014.

Em outro artigo de minha autoria, também publicado na Le Monde Diplomatique Brasil, exploro mais profundamente a disparidade tática e técnica entre clubes europeus e sul-americanos. Do debate, cabe destacar aqui que, em 2019, houve uma ruptura no formato cartelizado do mercado de treinadores no Brasil, a partir da contratação do português Jorge Jesus e de seu triunfo, em poucos meses, na Copa Libertadores e no Campeonato Brasileiro – este último com um recorde de pontos ainda não superado. Em seguida, observou-se o domínio de clubes campeões comandados por estrangeiros no país, a exemplo de Abel Ferreira e Artur Jorge.

Que as declarações de Dorival, Oswaldo e Leão expressam um ódio alimentado pela frustração dessa quadra histórica dos técnicos brasileiros diante do novo momento do nosso futebol está mais do que claro. A pergunta que se impõe é: a “invasão” de treinadores estrangeiros é, necessariamente, um processo de enfraquecimento do futebol nacional ou mesmo de nossa economia? Estaria conectada a retórica patriótica dos comandantes veteranos do futebol a uma preocupação genuína com nossa cultura, economia e identidade nacional?

A resposta é não. Ao contrário, embora a multiplicidade de técnicos estrangeiros presentes nos clubes brasileiros nos últimos anos acompanhe uma diversidade de estilos e propostas de jogo, podemos destacar dois treinadores pelo impacto histórico: Jorge Jesus, já mencionado, e Carlo Ancelotti, o treinador de clubes mais vitorioso da história, que assumiu o comando da seleção brasileira. Se for de interesse de um grupo de treinadores brasileiros, de nossa sociedade, de nossas instituições e até mesmo do Estado – algo natural, considerando o peso econômico do mercado da bola –, o que hoje é tratado como adversário, inimigo ou vilão deve ser visto como antídoto.

Para superar qualquer chaga, é preciso primeiro diagnosticá-la. Dessa forma, o que pode ser visto como veneno, dependendo da dose, passa a ser cura. Evidentemente, não é positivo que se perpetue uma simples substituição de cartéis no Brasil – de brasileiros por estrangeiros –, inclusive com a entrada de gringos que não oferecem nenhuma inovação à profissão de treinador. Contudo, uma “dose” menos intensa pode significar a recuperação de um dos maiores bens culturais produzidos por nosso povo.

Não se defende aqui algo semelhante a um “protecionismo” do mercado de técnicos no Brasil. Dentro dos conceitos da geopolítica e da macroeconomia, o que mais se aproxima desta discussão é o conceito de joint venture tecnológica. A aliança entre duas empresas com diferentes valências – uma detentora de know-how (saber-fazer) e outra com vantagens em custos, por exemplo – expressa um raciocínio empresarial interessante a ser aplicado ao futebol brasileiro.

Hoje, o futebol europeu supera os demais no mundo, principalmente pela evolução científica do trabalho em comissões técnicas e departamentos de futebol de seus clubes, especialmente os mais ricos. Medicina esportiva, psicologia do esporte e scouting são apenas algumas das áreas que, ao evoluírem vertiginosamente, permitiram aos clubes europeus uma vantagem esportiva e comercial bastante desigual. Nada disso é inato; tudo foi construído com investimento e esforço dos profissionais envolvidos. O futebol foi levado a sério e tratado como o negócio multibilionário que de fato é. O mesmo empenho intelectual das Big Techs deve ser aplicado ao mercado da bola, pois a premissa é absolutamente a mesma.

Com a estruturação de alguns clubes brasileiros, especialmente Flamengo e Palmeiras, as diretorias dos times de elite hoje conseguem pagar salários de “nível europeu” às suas comissões técnicas, superando uma barreira econômica importante e ampliando o poder de atração de profissionais do exterior. Além disso, pelo baixo nível de competitividade em comparação à Europa, técnicos do Velho Continente que não estão no topo de lá enxergam o Brasil como um “trampolim” internacional ou uma oportunidade de “engordar o currículo”, alcançando conquistas que dificilmente teriam em clubes médios europeus.

Nesse cenário, é muito mais interessante para o futebol brasileiro e para a nossa economia que treinadores estrangeiros, sobretudo com experiência europeia, atuem em nosso mercado. Mesmo que de forma involuntária, o constante desafio proporcionado pelos confrontos táticos entre equipes comandadas por brasileiros e estrangeiros promove uma espécie de transferência de tecnologia, já que o estudo dos adversários e a observação de sistemas, quando realizados por profissionais altamente qualificados, ajudam a elevar o nível do próprio jogo. Portanto, quanto mais bons treinadores europeus no Brasil, maiores as chances de os treinadores brasileiros se aproximarem de seu nível.

É importante ressaltar a ênfase em “profissionais de alta qualificação” ao caracterizar técnicos brasileiros com a missão de “roubar” o conhecimento europeu. Mais semelhantes a espiões, não basta observar o conhecimento: é preciso reconhecê-lo. Assim, tão ou mais importante do que manter técnicos europeus no futebol brasileiro é revolucionar a formação de treinadores nacionais.

O evento ocorrido em 4 de novembro poderia ter sido o primeiro passo para estreitar laços com Ancelotti, que até então se mostrava aberto a compartilhar parte de seu conhecimento com o público brasileiro especializado. Infelizmente, a ignorância da velha guarda de técnicos no Brasil foi tamanha que a ocasião acabou se tornando uma tentativa desesperada de preservar resquícios de postos de trabalho em clubes que carecem de recursos para bancar profissionais acostumados a receber em euros.

Os ataques ao treinador da seleção brasileira são ainda mais graves por se tratarem de um profissional que valoriza profundamente a brasilidade no esporte. Seu estilo é inspirado pela capacidade de improviso e criatividade de jogadores brasileiros e sul-americanos. Não à toa, foi campeão europeu com um ataque formado por dois espetaculares brazucas: Vinicius Júnior e Rodrygo. Extremamente adaptável a diferentes perfis, corpos e origens, Ancelotti humaniza o trabalho técnico, aprende com seus jogadores e constrói sistemas que os potencializam. É o europeu ideal para uma troca consciente de experiências e conhecimentos.

Os treinadores brasileiros jamais deveriam repudiá-lo; ao contrário, deveriam pleitear que, em seu contrato com a CBF, estivessem previstas participações regulares em eventos de formação para técnicos da entidade, tal como ocorre em joint ventures.

Longe de “europeizar” o futebol brasileiro – que já é profundamente dominado por ideias europeias, muitas delas ultrapassadas –, o treinador italiano pode ajudar o país a recuperar uma brasilidade perdida no século passado. De Luxemburgo a Telê Santana, passando por Autuori e Cláudio Coutinho, o Brasil formou treinadores que transformaram o talento do jogador brasileiro em arma contra sistemas disciplinados, físicos e engessados de italianos, ingleses, portugueses, germânicos e nórdicos. Em troca, além de contratos com cifras europeias, Ancelotti pode conquistar uma Copa do Mundo – algo hoje impensável para a Itália, ausente das últimas duas edições do torneio.

Mesmo sem esforço institucional ou planejamento estratégico, uma nova geração de treinadores começa a ascender, colocando ainda mais em xeque a intervenção xenófoba dos veteranos. Filipe Luís, ex-atleta de Jorge Jesus, assume publicamente que sua proposta como técnico é inspirada no modelo do português. Mais próxima de uma espionagem bem-sucedida, sua trajetória revela alguém que observou, reconheceu e sistematizou o conhecimento, traduzindo-o em um modelo de jogo ainda em construção, mas com diretrizes claras e notável capacidade de adaptação aos adversários, fruto do estudo intenso de sua comissão técnica.

Rafael Guanaes é outro excelente exemplo de treinador brasileiro em ascensão que, com quatorze anos de experiência, apresenta uma ideia de jogo ainda mais amadurecida, com linhas altas, intensidade, associação constante e criatividade ofensiva, comandando o elenco mais barato da Série A do Campeonato Brasileiro.

Embora Dorival, em seu desabafo supostamente nacionalista, tenha citado Filipe Luís como exemplo positivo, Leão e Oliveira ignoraram completamente a nova geração de técnicos em seus discursos. A velha guarda do futebol brasileiro nunca abriu espaço ou ofereceu incentivo aos jovens treinadores – e isso não é novidade.

Reconhecer que fomos ultrapassados por outros países no futebol não significa aceitar que essa condição seja eterna ou imutável. Tudo é histórico. Assim como a China, pioneira da pólvora, amargou séculos de domínio imperialista do capitalismo ocidental para hoje se tornar a segunda maior potência econômica do planeta, o Brasil – a maior escola de futebol do mundo – tem plenas condições de voltar a ser tratado no esporte bretão como Jerusalém é para cristãos, judeus e islâmicos: um território sagrado, não de ruínas, mas do fascínio que um dia Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Sócrates e Zico despertaram no mundo.

 

Fonte: Por Vinicius Almeida Ribeiro de Miranda, no Le Monde

 

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