FUTEBOL
BRASILEIRO: Falso patriotismo e reserva de mercado – de Dorival a Osvaldo e
Leão
Nos
últimos anos, no Brasil, vimos a expressão de um suposto e autoproclamado
patriotismo que se revelou, no curso dos acontecimentos históricos,
contraditório ao conceito de verdadeira defesa da pátria ou da nação. Neste
artigo, debateremos o mau uso desse conceito à luz das vergonhosas falas dos
treinadores brasileiros de futebol Oswaldo de Oliveira, Emerson Leão e Dorival
Júnior...
No
último dia 16 de dezembro, em entrevista coletiva concedida após o jogo que
classificou o Corinthians para a final da Copa do Brasil de 2025, o consagrado
treinador Dorival Júnior desabafou sobre como, em seu entendimento, os
treinadores brasileiros vêm sendo tratados nos últimos anos em nosso país.
Apelou à imprensa pedindo que “nos respeitem um pouco mais, que os treinadores
sejam mais observados. Temos qualidade e capacidade”. Finalizou denunciando que
“há um processo de desrespeito a todos os profissionais da minha área, e isso é
lamentável, porque estamos perdendo muitos profissionais”.
É
praticamente inevitável associar as declarações de Dorival – que sequer foi
provocado por uma pergunta específica para abordar o tema – aos comentários
feitos no mês anterior, em 4 de novembro, quando o treinador da seleção
brasileira, o italiano Carlo Ancelotti, participava do 2º Fórum Brasileiro de
Treinadores de Futebol, realizado na sede da CBF, e foi surpreendido pelas
falas dos técnicos Oswaldo de Oliveira e Emerson Leão, profundamente
deselegantes, para dizer o mínimo. Leão afirmou: “Eu sempre disse que não gosto
de treinadores estrangeiros no meu país, e isso serve para o (Vagner) Mancini,
que é o presidente (da Federação Brasileira de Treinadores). Estou falando aqui
na frente da nossa casa”. Oliveira, como uma verdadeira dupla de ataque afinada
com a grosseria de Leão, completou: “Quando o Ancelotti for embora depois de
ser campeão no ano que vem, que volte um brasileiro”.
A
imprensa, de modo geral, tratou o incidente como uma atitude grosseira, mas
poucos relacionaram esse comportamento a um contexto dramático do futebol
brasileiro atual. O jornalista do UOL Mauro César Pereira bate na tecla há anos
de que a maior presença de treinadores estrangeiros atuando em clubes do país
provocou uma reação hipocritamente patriótica e nacionalista. Vários
profissionais do ramo passaram a defender a presença de treinadores brasileiros
à frente de comissões técnicas e a repudiar ou criticar clubes que optavam por
profissionais gringos. O jornalista caracterizava esse movimento como uma
tentativa de “reserva de mercado” – no português coloquial, a manutenção de uma
“panela” de técnicos que, por décadas, realizaram uma espécie de “rodízio”
entre clubes da elite do futebol brasileiro.
Essa
dinâmica cíclica, além de limitar as opções do mercado a poucos nomes – que se
exaltavam mutuamente, formando uma espécie de cartel –, onerava financeiramente
seus empregadores com gordas e intermináveis multas rescisórias, pois, devido
aos igualmente péssimos trabalhos desses treinadores, poucos ou quase nenhum
encerravam seus contratos de forma regular, assinando rapidamente com outros
clubes na esperança de receber sem trabalhar por metade ou mais do tempo de
seus respectivos vínculos.
Talvez
seja exagerado falar em “máfia” para ilustrar e definir o que se tornou o
mercado de comissões técnicas no Brasil, sobretudo nos últimos 20 anos, mas é
absolutamente justo afirmar que os clubes foram sequestrados pelo vazio de
novas ideias no futebol do país. Isso se relaciona diretamente com fiascos
históricos, como a derrota por 4 x 0 do Santos de Neymar, na final do Mundial
de Clubes de 2011, para o Barcelona de Messi, Xavi e Guardiola, e o trágico 7 x
1 sofrido pelo Brasil contra a Alemanha, na Copa do Mundo de 2014.
Em
outro artigo de minha autoria, também publicado na Le Monde Diplomatique
Brasil, exploro mais profundamente a disparidade tática e técnica entre clubes
europeus e sul-americanos. Do debate, cabe destacar aqui que, em 2019, houve
uma ruptura no formato cartelizado do mercado de treinadores no Brasil, a
partir da contratação do português Jorge Jesus e de seu triunfo, em poucos
meses, na Copa Libertadores e no Campeonato Brasileiro – este último com um
recorde de pontos ainda não superado. Em seguida, observou-se o domínio de
clubes campeões comandados por estrangeiros no país, a exemplo de Abel Ferreira
e Artur Jorge.
Que as
declarações de Dorival, Oswaldo e Leão expressam um ódio alimentado pela
frustração dessa quadra histórica dos técnicos brasileiros diante do novo
momento do nosso futebol está mais do que claro. A pergunta que se impõe é: a
“invasão” de treinadores estrangeiros é, necessariamente, um processo de
enfraquecimento do futebol nacional ou mesmo de nossa economia? Estaria
conectada a retórica patriótica dos comandantes veteranos do futebol a uma
preocupação genuína com nossa cultura, economia e identidade nacional?
A
resposta é não. Ao contrário, embora a multiplicidade de técnicos estrangeiros
presentes nos clubes brasileiros nos últimos anos acompanhe uma diversidade de
estilos e propostas de jogo, podemos destacar dois treinadores pelo impacto
histórico: Jorge Jesus, já mencionado, e Carlo Ancelotti, o treinador de clubes
mais vitorioso da história, que assumiu o comando da seleção brasileira. Se for
de interesse de um grupo de treinadores brasileiros, de nossa sociedade, de
nossas instituições e até mesmo do Estado – algo natural, considerando o peso
econômico do mercado da bola –, o que hoje é tratado como adversário, inimigo
ou vilão deve ser visto como antídoto.
Para
superar qualquer chaga, é preciso primeiro diagnosticá-la. Dessa forma, o que
pode ser visto como veneno, dependendo da dose, passa a ser cura.
Evidentemente, não é positivo que se perpetue uma simples substituição de
cartéis no Brasil – de brasileiros por estrangeiros –, inclusive com a entrada
de gringos que não oferecem nenhuma inovação à profissão de treinador. Contudo,
uma “dose” menos intensa pode significar a recuperação de um dos maiores bens
culturais produzidos por nosso povo.
Não se
defende aqui algo semelhante a um “protecionismo” do mercado de técnicos no
Brasil. Dentro dos conceitos da geopolítica e da macroeconomia, o que mais se
aproxima desta discussão é o conceito de joint venture tecnológica. A aliança
entre duas empresas com diferentes valências – uma detentora de know-how
(saber-fazer) e outra com vantagens em custos, por exemplo – expressa um
raciocínio empresarial interessante a ser aplicado ao futebol brasileiro.
Hoje, o
futebol europeu supera os demais no mundo, principalmente pela evolução
científica do trabalho em comissões técnicas e departamentos de futebol de seus
clubes, especialmente os mais ricos. Medicina esportiva, psicologia do esporte
e scouting são apenas algumas das áreas que, ao evoluírem vertiginosamente,
permitiram aos clubes europeus uma vantagem esportiva e comercial bastante
desigual. Nada disso é inato; tudo foi construído com investimento e esforço
dos profissionais envolvidos. O futebol foi levado a sério e tratado como o
negócio multibilionário que de fato é. O mesmo empenho intelectual das Big
Techs deve ser aplicado ao mercado da bola, pois a premissa é absolutamente a
mesma.
Com a
estruturação de alguns clubes brasileiros, especialmente Flamengo e Palmeiras,
as diretorias dos times de elite hoje conseguem pagar salários de “nível
europeu” às suas comissões técnicas, superando uma barreira econômica
importante e ampliando o poder de atração de profissionais do exterior. Além
disso, pelo baixo nível de competitividade em comparação à Europa, técnicos do
Velho Continente que não estão no topo de lá enxergam o Brasil como um
“trampolim” internacional ou uma oportunidade de “engordar o currículo”,
alcançando conquistas que dificilmente teriam em clubes médios europeus.
Nesse
cenário, é muito mais interessante para o futebol brasileiro e para a nossa
economia que treinadores estrangeiros, sobretudo com experiência europeia,
atuem em nosso mercado. Mesmo que de forma involuntária, o constante desafio
proporcionado pelos confrontos táticos entre equipes comandadas por brasileiros
e estrangeiros promove uma espécie de transferência de tecnologia, já que o
estudo dos adversários e a observação de sistemas, quando realizados por
profissionais altamente qualificados, ajudam a elevar o nível do próprio jogo.
Portanto, quanto mais bons treinadores europeus no Brasil, maiores as chances
de os treinadores brasileiros se aproximarem de seu nível.
É
importante ressaltar a ênfase em “profissionais de alta qualificação” ao
caracterizar técnicos brasileiros com a missão de “roubar” o conhecimento
europeu. Mais semelhantes a espiões, não basta observar o conhecimento: é
preciso reconhecê-lo. Assim, tão ou mais importante do que manter técnicos
europeus no futebol brasileiro é revolucionar a formação de treinadores
nacionais.
O
evento ocorrido em 4 de novembro poderia ter sido o primeiro passo para
estreitar laços com Ancelotti, que até então se mostrava aberto a compartilhar
parte de seu conhecimento com o público brasileiro especializado. Infelizmente,
a ignorância da velha guarda de técnicos no Brasil foi tamanha que a ocasião
acabou se tornando uma tentativa desesperada de preservar resquícios de postos
de trabalho em clubes que carecem de recursos para bancar profissionais
acostumados a receber em euros.
Os
ataques ao treinador da seleção brasileira são ainda mais graves por se
tratarem de um profissional que valoriza profundamente a brasilidade no
esporte. Seu estilo é inspirado pela capacidade de improviso e criatividade de
jogadores brasileiros e sul-americanos. Não à toa, foi campeão europeu com um
ataque formado por dois espetaculares brazucas: Vinicius Júnior e Rodrygo.
Extremamente adaptável a diferentes perfis, corpos e origens, Ancelotti
humaniza o trabalho técnico, aprende com seus jogadores e constrói sistemas que
os potencializam. É o europeu ideal para uma troca consciente de experiências e
conhecimentos.
Os
treinadores brasileiros jamais deveriam repudiá-lo; ao contrário, deveriam
pleitear que, em seu contrato com a CBF, estivessem previstas participações
regulares em eventos de formação para técnicos da entidade, tal como ocorre em
joint ventures.
Longe
de “europeizar” o futebol brasileiro – que já é profundamente dominado por
ideias europeias, muitas delas ultrapassadas –, o treinador italiano pode
ajudar o país a recuperar uma brasilidade perdida no século passado. De
Luxemburgo a Telê Santana, passando por Autuori e Cláudio Coutinho, o Brasil
formou treinadores que transformaram o talento do jogador brasileiro em arma
contra sistemas disciplinados, físicos e engessados de italianos, ingleses,
portugueses, germânicos e nórdicos. Em troca, além de contratos com cifras
europeias, Ancelotti pode conquistar uma Copa do Mundo – algo hoje impensável
para a Itália, ausente das últimas duas edições do torneio.
Mesmo
sem esforço institucional ou planejamento estratégico, uma nova geração de
treinadores começa a ascender, colocando ainda mais em xeque a intervenção
xenófoba dos veteranos. Filipe Luís, ex-atleta de Jorge Jesus, assume
publicamente que sua proposta como técnico é inspirada no modelo do português.
Mais próxima de uma espionagem bem-sucedida, sua trajetória revela alguém que
observou, reconheceu e sistematizou o conhecimento, traduzindo-o em um modelo
de jogo ainda em construção, mas com diretrizes claras e notável capacidade de
adaptação aos adversários, fruto do estudo intenso de sua comissão técnica.
Rafael
Guanaes é outro excelente exemplo de treinador brasileiro em ascensão que, com
quatorze anos de experiência, apresenta uma ideia de jogo ainda mais
amadurecida, com linhas altas, intensidade, associação constante e criatividade
ofensiva, comandando o elenco mais barato da Série A do Campeonato Brasileiro.
Embora
Dorival, em seu desabafo supostamente nacionalista, tenha citado Filipe Luís
como exemplo positivo, Leão e Oliveira ignoraram completamente a nova geração
de técnicos em seus discursos. A velha guarda do futebol brasileiro nunca abriu
espaço ou ofereceu incentivo aos jovens treinadores – e isso não é novidade.
Reconhecer
que fomos ultrapassados por outros países no futebol não significa aceitar que
essa condição seja eterna ou imutável. Tudo é histórico. Assim como a China,
pioneira da pólvora, amargou séculos de domínio imperialista do capitalismo
ocidental para hoje se tornar a segunda maior potência econômica do planeta, o
Brasil – a maior escola de futebol do mundo – tem plenas condições de voltar a
ser tratado no esporte bretão como Jerusalém é para cristãos, judeus e
islâmicos: um território sagrado, não de ruínas, mas do fascínio que um dia
Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Sócrates e Zico despertaram no mundo.
Fonte:
Por Vinicius Almeida Ribeiro de Miranda, no Le Monde

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