A
América Latina vê a Venezuela no espelho
Na
coletiva em Mar-a-Lago, na Flórida, Donald Trump colheu os louros do ataque do
Exército “mais forte e feroz do planeta” à Venezuela — ataque que incluiu o
sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, tratado
por ele como sinônimo da derrubada do governo bolivariano. Sem qualquer
constrangimento, desmontou a própria narrativa que ajudara a construir para
justificar o crime internacional: o suposto “combate ao narcoterrorismo”,
expediente que lhe permitiu agredir arbitrariamente outro país sem aval do
Congresso. O objetivo real, deixou claro, é a pilhagem do petróleo venezuelano
— tanto que ações da ExxonMobil e da Chevron dispararam!
“Vamos
administrar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e
criteriosa”, afirmou, esquivando-se de explicar como isso ocorreria quando
questionado pelos jornalistas — talvez já imaginando que, dali em diante, tudo
não passaria de um cruzeiro tranquilo pelo Caribe. Mas, bem, não seria a
primeira vez que Washington fala em administração temporária, tanto
na América Latina quanto no Oriente Médio…
Porém,
desta vez, a afirmação soava confusa, para dizer o mínimo: como uma nação pode
“administrar” outra sem derrubar suas instituições e sem ocupar militarmente o
território estrangeiro — algo que, no caso venezuelano, segundo planejadores de
guerra, exigiria o deslocamento de mais de 150 mil soldados estadunidenses para
a América do Sul? Nos dias seguintes, Marco Rubio, secretário de Estado dos
Estados Unidos e um dos principais arquitetos do acossamento à Venezuela,
tratou de relativizar a fala presidencial. Disse que Washington apostará no
bloqueio do petróleo para pressionar o país e que ainda seria “prematuro” falar
em novas eleições.
Essa
retórica virulenta e cronicamente instável da Casa Branca — feita de investidas
beligerantes, recuos deslavados, fala grossa e súbitas brechas para negociação,
como já se viu na onda de sanções econômicas e nas tratativas com Israel e
Rússia no ano passado — confunde analistas ao redor do mundo. O que é blefe, o
que é tubo de ensaio e o que é estratégia geopolítica, afinal, quando um
presidente atropela o bom-senso, o direito internacional e até as instituições
democráticas do próprio país, lançando-se numa cruzada quase fratricida contra
o multilateralismo?
Os
próximos dias trarão pistas mais claras. Por ora, o que se vê é uma mistura de
espetáculo de “estreia” da nova Doutrina de Segurança dos Estados Unidos com a
vaidade megalomaníaca de Trump, que devaneia tanto com o Nobel da Paz quanto
com o posto de “maior presidente da História”. E a região se pergunta: a
Venezuela é um caso isolado — ou o primeiro espelho de uma nova realidade?
A
Venezuela esteve no radar de Trump desde que ele pisou na Casa Branca.
Parecia-lhe um alvo fácil: agradaria petroleiras e o complexo
industrial-militar e, de quebra, lembraria a todos quem manda na América
Latina, enviando uma mensagem de intimidação — aos governos locais, atrevidos
em reformas e soberania, e a potências como China e Rússia, com investimentos
pesados em infraestrutura na região. E teria uma bem-vinda função doméstica,
pois demonstrações de força no exterior agitam sua base republicana e o
eleitorado nacionalista…
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Psicopatia americana
“Por
que não invadimos a Venezuela?”, perguntou Donald Trump a seu Gabinete em 2017,
como quem sugere um passeio de fim de semana na América do Sul. Estava em seu
primeiro ano na Casa Branca. Invasões, argumentou, haviam dado certo no Panamá
— em 1989, quando os Estados Unidos sequestraram o presidente Manuel Noriega e
o levaram a julgamento em território estadunidense — e em Granada, em 1983,
quando Ronald Reagan justificou a intervenção alegando a necessidade de
“proteger 600 estudantes norte-americanos”.
Incrédulos,
assessores trataram de dissuadi-lo: uma ação militar poderia sair pela culatra
e custar aos Estados Unidos o apoio, duramente conquistado, de líderes
latino-americanos contrários ao governo de Nicolás Maduro.
“O
presidente diz e pensa muitas coisas diferentes”, justificou, em off e
visivelmente constrangido, um assessor. Neste segundo mandato, Trump parece já
não contar com vozes minimamente sensatas ao pé do ouvido. Ao contrário: há
duas que sopraram, sem pudor, os tambores da guerra contra a Venezuela.
A
primeira é a do secretário de Defesa, Pete Hegseth, ex-apresentador da Fox News
— um sujeito que não acredita na existência de germes (e, por isso, nunca lava
as mãos), conhecido por chocar funcionários do Pentágono pelo amadorismo,
acusado de agressão sexual e fanfarrão dedicado a encarnar o modelo de
masculinidade vendido pelo MAGA. Quando vieram a público assassinatos
extrajudiciais no Mar do Caribe, inclusive de náufragos, correu à tevê para se
gabar. Após o sequestro de Maduro, excitou-se publicamente com a “pura coragem
e determinação, a galhardia e a glória dos guerreiros norte-americanos”.
A outra
voz é a do secretário de Estado, Marco Rubio — o “super-homem” da administração
Trump. Anticomunista feroz, filho de cubanos expatriados, sonha em ver a Cuba
de seus pais novamente sob tutela de Washington e, por extensão, sua nação-irmã
antiimperialista no continente: a Venezuela. Uma ação como a ocorrida no sábado
também funciona como palanque ideal para sua base eleitoral na Flórida,
composta por cubanos e venezuelanos “em fuga de ditaduras sanguinárias”. Rubio,
apesar de ser porta-voz dos “refugiados”, também lidera o pesadelo imigratório
nos Estados Unidos: trabalhou para acelerar deportações em massa e desmontar as
proteções concedidas a imigrantes durante o governo Biden.
Em
dezembro do ano passado, menos de um mês antes do ataque em Caracas e sequestro
de Maduro e sua esposa, esta trupe trumpista divulgou a nova Doutrina de
Segurança dos Estados Unidos. Sua alma: a reafirmação — e radicalização — do
lema “America First”, com ênfase renovada em tratar a América Latina como
quintal do Tio Sam. O documento adota uma visão abertamente maquiavélica:
alianças são instrumentos, e o poder econômico e militar, meios legítimos para
forçar concessões. A política externa é reorientada por meio de um “Corolário
Trump” à Doutrina Monroe de 1823, que recoloca o Hemisfério Ocidental como
esfera de influência prioritária e legitima ações unilaterais. Trump já adotou
nome próprio, com orgulho: a “Doutrina Donroe”. Afinal, impérios sempre recorrem
à violência bruta quando seus mecanismos sutis de controle, como diplomacia e
coerção econômica, falham…
Antes
mesmo disso vir a público na forma de documento, já víamos seus sinais. Na
Argentina, hoje anarcocapitalistamente pró-gringos, Trump condicionou
financiamento externo ao sucesso político de Javier Milei nas eleições
legislativas do ano passado, como se dissesse: pibe, se você não merecer, não
ganha a mesada do papai… Em Honduras, interferiu diretamente nas eleições,
ameaçando cortar remessas de dólares enviadas por imigrantes e dando indulto a
um ex-presidente hondurenho condenado por narcotráfico para influenciar o
pleito. Sobre o Panamá, declarou publicamente a intenção de “recuperar” o
controle do Canal, citando uma suposta influência chinesa como pretexto. Trump
também afirmou que o Canadá “deveria ser o 51º estado” e referiu-se cinicamente
ao primeiro-ministro de um país aliado histórico como “Governador Trudeau”. Seu
interesse em anexar a Groenlândia foi igualmente declarado sem rodeios,
repetidas vezes, levando a Dinamarca, membro da Otan, a classificar os Estados
Unidos como “ameaça potencial” à sua segurança nacional.
O
México chegou a ser classificado como “adversário” pelo Departamento de Justiça
estadunidense, abrindo espaço para ameaças explícitas de intervenção militar.
Em um gesto simbólico de dominação, longo em sua posse, Trump propôs rebatizar
o Golfo do México como “Golfo da América”. Recentemente, novas ameaças foram
dirigidas a Cuba e à Colômbia; e reforçadas contra o México e a Groenlândia.
Forma-se, assim, um padrão inequívoco de escalada retórica — e política —
contra as nações da região: a nova Doutrina de Segurança dos Estados Unidos em
implementação a toque de caixa no continente.
Se
antes estas nações estavam somente “apreensivas”, hoje cruzar os braços e
confiar que o bom-senso e o direito internacional triunfarão pelas vias
diplomáticas parece uma realidade distante… Afinal, a Venezuela fez
investimentos robustos em esquadrões aéreos e dispõe de um dos sistemas de
defesa antiaérea mais sofisticados da América Latina, com baterias russas
S-300VM, Buk-M2 e Pantsir-S1, capazes de criar camadas de proteção contra
aeronaves, drones e mísseis de cruzeiro. Porém, a primazia militar e tecnológica
dos Estados Unidos — que gastaram aproximadamente US$ 997 bilhões em defesa em
2024, sendo responsáveis por cerca de 37% de todo o gasto militar mundial. Esse
orçamento é maior que o total gasto pelos próximos nove países somados
(incluindo China, Rússia, Índia, Reino Unido, Alemanha, Arábia Saudita, Japão,
França e Coreia do Sul) — se impôs na missão criminosa em solo
latino-americano, que, pelo que se conta até agora, enfrentou pouca
resistência. Nenhum país da região — e talvez poucos no mundo — teria condições
de neutralizar um ataque desse porte. Basta uma ordem de Washington para
submeter quase qualquer governo, ainda que, em uma guerra terrestre prolongada,
o balanço de forças pudesse se tornar menos assimétrico.
A
agressão é um recado cristalino à América Latina: pode não haver invasão por
terra, mas haverá coerção política, econômica e, se necessário, militar. O que
cabe a países como o Brasil, que deveria exercer liderança regional? As
alianças do Sul Global, como o Brics, são banguelas quando se trata de defender
seus próprios aliados?
Devem
os governos insistir em um pragmatismo defensivo, com ajustes táticos e
discursivos para evitar confrontos diretos com os Estados Unidos, mantendo
cooperação seletiva em áreas de interesse comum e adiando a resolução de
vulnerabilidades estruturais? Devem seguir o caminho europeu e ampliar
significativamente os gastos militares? Ou apostar na autonomia estratégica por
meio do fortalecimento da cooperação regional e sul-sul, do investimento na
indústria nacional de defesa e da diversificação de parcerias — um processo
mais lento, custoso e inevitavelmente gerador de atritos com Washington?
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“O que você faria se um inimigo brutal viesse até você, armado até os dentes,
disposto a matá-lo?”
Esta
questão emerge num rap entoado pela juventude chavista. Quais seriam, então, os
desdobramentos calculados pela Casa Branca após o espetáculo militar em
Caracas? Num primeiro momento, Washington parece ter rifado o apoio a María
Corina Machado e a seu candidato, Edmundo González — autodeclarados vencedores
das controversas eleições presidenciais de 2024 — ao menos no curto prazo.
Delcy
Rodríguez foi empossada presidente interina da Venezuela, com o núcleo duro
chavista aparentemente sólido e mantendo o tom estratégico adotado por Maduro
nos últimos meses: defesa da paz, abertura à negociação e respeito à soberania,
sem deixar de reafirmar o recado central — “jamais seremos colônia de qualquer
império”.
O
movimento era previsível. É possível que Trump tenha apostado na agressão
militar para forçar novas eleições em até noventa dias, por vacância de poder,
como prevê a Constituição venezuelana. O plano, no entanto, esbarra em uma
lacuna jurídica: a legislação não contempla prisão internacional ou sequestro
por forças estrangeiras como causa automática de falta absoluta. Trata-se de um
precedente inédito. Assim, a defesa de Maduro como presidente de fato — e, por
consequência, da interinidade de Rodríguez — pode neutralizar essa estratégia
dos Estados Unidos diante da Assembleia Nacional e do Judiciário.
Outra
hipótese é que a sucessão interna no chavismo não desagrade a Washington. Delcy
acumulou a Vice-Presidência com o comando do Ministério dos Hidrocarbonetos,
onde demonstrou grande habilidade de negociação no setor petroleiro, inclusive
com corporações estadunidenses. Na lógica da Casa Branca, ao assumir o
Executivo em meio a uma crise profunda — inclusive, migratória: estimava-se que
cerca de 20% da população venezuelana esteja vivendo no exterior — e sob
coerção militar explícita — com a ameaça de ter “fim parecido ou pior”, nas
palavras de Trump —, Delcy ficaria de mãos atadas diante das exigências
impostas por Washington.
Se esse
for o cenário, trata-se de mais um teste extremo de resiliência para o governo
venezuelano: como negociar com uma potência inimiga, armada até os dentes no
quintal de sua casa — talvez cedendo anéis para não perder os dedos — enquanto
tenta ganhar tempo para mobilizar solidariedade internacional e articular novas
alianças geopolíticas, econômicas e militares capazes de furar o cerco de
Washington?
Desde
setembro do ano passado, quando Trump iniciou o envio de navios de guerra ao
Caribe, ficou claro para o Palácio de Miraflores que não se tratava de blefe.
Alguns cenários estavam no radar. O primeiro, uma guerra suja, com operações
que iam de ciberataques e sabotagem de infraestrutura a surtos de violência
armada para desgastar o governo. O segundo, o sequestro ou assassinato de
Maduro e do alto escalão bolivariano, à semelhança do que ocorreu com Qassem
Soleimani no Irã, em 2020. O terceiro, uma invasão terrestre — do ponto de
vista militar-estratégico, paradoxalmente, o cenário mais caro, arriscado e
politicamente desgastante para uma potência como os Estados Unidos, mesmo
quando há supremacia tecnológica absoluta.
Há
cerca de 23 anos, os Estados Unidos tentam derrubar o governo venezuelano.
Primeiro, evocaram violações de direitos humanos, corrupção e a suposta erosão
das instituições democráticas. Depois, passaram a falar em ameaças à segurança
nacional e aos interesses estratégicos de Washington. Mais recentemente,
juntaram-se acusações de narcoterrorismo e combate aos cartéis de drogas. As
justificativas mudam; o objetivo, não.
Muita
coisa passou, então, com este país que, além de deter a maior reserva
comprovada de petróleo do planeta, é uma potência em recursos estratégicos:
possui a oitava maior reserva mundial de gás natural, as principais reservas
globais de ouro, níquel e terras raras — minerais essenciais para a tecnologia
de ponta. Golpes militares fracassados, violência pós-eleitoral, tentativas de
“governo paralelo”, sanções econômicas, rapinagem de ativos no exterior e
operações de desestabilização — incluindo terrorismo e infiltração de
mercenários estadunidenses — não surtiram efeito. Faltava apenas a investida
militar direta de Washington. E o chavismo vinha se preparando para esse
cenário há anos: da organização das milícias bolivarianas à cooperação em
defesa, ainda que limitada, com Irã, Rússia e China; das tentativas de
diversificar parcerias econômicas no Sul Global à busca de ingresso nos Brics —
vetada pelo Brasil.
Há um
ponto central frequentemente subestimado em Washington: um ataque estadunidense
tende a produzir mais resistência do que submissão popular, mesmo em um país
atravessado por crises profundas. A agressão está longe de ser um atestado de
óbito. Diante de um invasor externo, o chavismo não necessariamente se
fragiliza — pode, ao contrário, ganhar coesão, inclusive frustrando a aposta de
que a pressão bélica provocaria fissuras na alta cúpula das Forças Armadas.
Nesses cenários, a ofensiva inicial costuma converter-se em guerra de desgaste,
na qual a superioridade tecnológica perde eficácia frente ao custo econômico e
político interno exigidos por uma operação de coerção permanente — ou, no
limite, por uma tentativa de ocupação. Esta parece ser a fé do governo
bolivariano.
Já em
2019, em meio à escalada de tensão com os Estados Unidos, o então dirigente
chavista e hoje ministro do Interior, da Justiça e da Paz, Diosdado Cabello,
advertia: “Irmãos, preciso ser franco com vocês. A única coisa que resta é a
invasão norte-americana. É provável que eles entrem na Venezuela. Mas o
problema é como eles vão sair — porque nos tornaremos o Vietnã.”
Não se
tratará, portanto, de um desfecho virtuoso, imediato ou linear, mas de um
processo marcado por ambivalências, no qual a resistência tende a conviver com
tensões internas, ameaças permanentes, disputas políticas e episódios de
violência. No atual contexto geopolítico, Delcy Rodriguez terá que adaptar a
cartilha cubana de antiimperialismo intransigente sob esta ameaça existencial
da revolução bolivariana? Incontestavelmente, é o início de uma nova fase
perigosa, mas também cheia de oportunidades históricas para a luta pela
soberania latino-americana.
Resta
acompanhar de perto as cartas que a Venezuela colocará sobre a mesa. E, tão
importante quanto isso, saber se jogará sozinha diante da ameaça-Trump que
ronda toda a América Latina. O drama venezuelano de hoje pode ser o drama que
Colômbia, Cuba e Groenlândia — já ameaçadas — viverão amanhã. E, depois de
amanhã, o de México, Brasil e de qualquer país que se coloque à frente dos
interesses imperialistas. Só para somar à playlist deste momento, outro rap da
juventude venezuelana: “Nossa voz não se calará. Somos esse bravo povo pelo
qual Bolívar deu sua vida pela liberdade. E há muito nos livramos das correntes
e juramos que elas não voltarão.”
Fonte: Por
Rôney Rodrigues, em A Terra é Redonda

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