terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Moisés Mendes: As vítimas de todos os golpes de Vorcaro, Bolsonaro, Tarcísio, Flávio

É pretensa e genericamente moralista a abordagem que prevalece, na grande mídia e nas redes, sobre o caso Master. O que mais se expressa é o espanto: como puderam fazer isso com os que confiaram no pagamento de juros tão altos?

E temos então o que sabemos sobre a pirâmide, o rombo nas contas do Master, as mutretas com gente do Banco de Brasília, a promiscuidade com políticos, a leniência do Banco Central e o desespero de parte da grande imprensa.

Mas o que predomina é, a partir dessas anormalidades, a pauta que puxa a conversa para as questões éticas, incluindo a quase lenda do contrato da mulher de Alexandre de Moraes com o banco.

Essa é a pauta de Marcelo Rubens Paiva em artigo na Folha, no qual admite que aplicava dinheiro no banco e que teme agora levar um calote.

O escritor atribui a tentação ao fato de que “os papéis eram oferecidos efusivamente por assessores da nossa personal fintech”. A fintech era efusiva, o aplicador aderiu à efusão e aconteceu o que se sabe.

É raso demais apontar o dedo para os aplicadores e dizer: ah, caiu na pirâmide do Daniel Vorcaro. Assim como é fácil, pelo ponto de vista da vítima, atribuir tudo aos ‘outros’.

Os outros são as fintechs efusivas em demasia, os que fizeram propaganda aberta para o banco, os que ajudaram a expandir o boca a boca e todos os que teriam sido cúmplices de Vorcaro.

Tratavam o Master como tratam todas as corporações e marcas do mercado financeiro, onde quase tudo é considerado normal, até o envolvimento da Faria Lima com o PCC.

Mas o tamanho do estrondo, principalmente nos jornalões, expôs desde o começo que há mais do que poupadores ‘simples e normais’, como Rubens Paiva, nessa história.

Há o que no Rio Grande do Sul se define como vítima de talagaços. Pelo tom de desespero da cobertura, percebe-se que há danos grandes não só para o que chamam genericamente de mercado. Há danos pessoais e empresariais pesados, o tal talagaço, o estrago das grandes perdas.

E aí a abordagem pretensamente moral não vale nada. Porque até a última aplicação, antes da implosão do banco, tudo parecia normal na anormalidade de quem pagava o que ninguém mais estava pagando.

Rubens Paiva, jornalista esperto, uma cabeça brilhante, escreveu na Folha:

“O banqueiro ostentação Daniel Vorcaro, figurinha carimbada da tradicional sociedade mineira, descobriu os furos do queijo suíço brasileiro, o poder, para praticar o golpe do século, tão manjado quanto a ameixa de um manjar branco, e montou uma pirâmide financeira”.

É como cair, muito antes das fintechs efusivas, no golpe do pacote, que só funcionava quando aplicado nos outros, até que um dia acontece com a gente. A abordagem moral não pode se manifestar só quando nós somos a vítima.

Os que levaram o talagaço estão sabendo, tanto quanto os que votaram em Bolsonaro em 2018 e em 2022 e podem votar em Flávio ou Tarcísio em 2026, que é tudo uma fria, é tudo pirâmide e golpe do pacote financeiro ou político.

•        O que é bom para Marcelo Rubens Paiva, não é bom para Daniel Vorcaro. Por Alex Solnik

Quando o escritor Marcelo Rubens Paiva e os demais 1 milhão e 600 mil brasileiros investiram suas economias no Banco Master, atraídos pelos generosos dividendos que obteriam, estavam certos de que não havia risco algum. Afinal, se desse chabu, o Fundo Garantidor de Crédito devolveria investimentos até R$ 250 mil.

Só que eles não leram o que estava escrito em letras microscópicas: o dinheiro só será devolvido depois que o banco liquidado entregar ao BC a lista de credores.

Daniel Vorcaro, que conhece as regras de cor e salteado, até hoje não aceitou a liquidação do Master. Muito ao contrário: seu exército de advogados trabalha dia e noite para anular a decisão do BC, em várias frentes.

Nem ele nem seus brilhantes causídicos pretendem desistir de seu intento tão cedo. É óbvio: se desistirem, tanto ele quanto eles vão abrir mão da fortuna que está em jogo. O que não está em seus planos.

Cientes de que, ao entregarem a milionária lista, a liquidação estará consumada, escondem seu trunfo a sete chaves, escudados no fato de que nada nem ninguém pode pressioná-los.

Não só a escondem, como trabalham com denodo para substituir o liquidante, Eduardo Félix Bianchini, sob cuja guarda estão os R$ 41 bilhões dos 1 milhão e 600 mil pequenos e incautos investidores. Ou o que sobrou deles. E que equivalem a 30% do fundo.

Não adianta pressionar o gestor do Fundo Garantidor de Crédito. Ele está de mãos atadas. Não pode fazer nada enquanto a lista não chega. Só o Master tem os nomes e os CPFs de suas vítimas.

Enquanto o dinheiro não volta, fica parado, sem render qualquer juro, há dois meses já. Ou seja: tudo o que os investidores auferiram enquanto o Master existia, estão perdendo agora.

O que é bom para Marcelo Rubens Paiva não é bom para Daniel Vorcaro. Nem para seus aliados e defensores. Muito mais numerosos do que apenas os advogados.

•        O menino "nazista" de Mossoró. Por Ricardo Nêggo Tom

Para aqueles que estão assustados com a fantasia que remete ao exército nazista alemão, usada por um adolescente durante a formatura de uma turma de medicina em Mossoró, Rio Grande do Norte, devo lembrá-los que o Brasil teve a maior seção do Partido Nazista fora da Alemanha, antes mesmo de Adolph Hitler chegar ao poder. Com quase 3.000 membros distribuídos em 17 estados, o Partido Nazista Brasileiro foi fundado em 1928, na cidade de Timbó, em Santa Catarina, e só veio a ser considerado ilegal 10 anos depois, no governo de Getúlio Vargas. Isto prova que nosso país sempre flertou com ideologias políticas criminosas e desumanas, o que justifica a eleição de Jair Bolsonaro e a morte de mais de 700 mil pessoas durante a pandemia, graças à negligência do seu governo e à sua política de extermínio de minorias.

Não seria exagero se disséssemos que o bolsonarismo e o neonazismo crescente no país convergem em ideologia política, social e cultural, tendo na igreja evangélica um vigoroso pilar de sustentação. Assim como a maioria dos adeptos ao protestantismo de Martinho Lutero, constituiu uma importante base de apoio para os ideais nazistas de Adolf Hitler. Aliás, o antissemitismo de Lutero serviu de inspiração para o Hitler, que construiu a base ideológica da propaganda do regime nazista sob os escritos odiosos e virulentos de Lutero sobre os judeus. O “ungido” alemão, conhecido como o reformador da igreja, escreveu um livro (tratado) chamado “Sobre os judeus e suas mentiras”, no qual defendia medidas como: incendiar sinagogas e escolas judaicas, destruir seus livros de oração e forçar os judeus a realizarem trabalhos manuais ou serem expulsos. A última medida deve ter inspirado a criação dos campos de concentração nazista.

No Brasil, apesar da Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 (Lei do Crime Racial), que criminaliza a fabricação, comercialização, distribuição ou veiculação de símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada para fins de divulgação do nazismo, um adolescente conseguiu comprar um uniforme do exército nazista para usá-lo como fantasia na formatura de futuros médicos brasileiros. Peço perdão pela ignorância em não saber que convidados poderiam ir fantasiados a festas de formaturas de colação de grau, e pensar que tudo havia sido planejado exatamente para chamar a atenção e provocar mais uma polêmica sobre liberdade de expressão no país. Ainda mais suspeitando da inocência de um adolescente cujo perfil na rede social trazia escrito no bio: "Ein Volk, ein Reich, ein Führer", o slogan central da propaganda nazista. Senhor Hitler, perdoai-me! Eu não sei o que falo. Ou sei?

Enquanto o menino nazista de Mossoró vem sendo atacado nas redes sociais, seus pais, e suas irmãs celebradas como novas médicas na festa onde ele foi fantasiado de nazista, ainda não deram o ar da graça e não se manifestaram sobre o episódio. Para piorar, fizeram o adolescente gravar um vídeo de desculpas, dizendo que ele é um “menino bom” que sempre gostou de se fantasiar de super-heróis, como o Capitão América. Para piorar só mais um pouquinho, o vídeo foi todo trabalhado na estética racista arrependido, com o adolescente vestindo uma camisa branca visivelmente amarrotada, tendo ao fundo um quadro de Jesus e seus apóstolos, e pedindo perdão “a quem se sentiu ofendido”. Aparentemente sob orientação jurídica, a família do menino se exime da responsabilidade de ter fomentado no filho um sentimento heróico e lúdico com relação ao nazismo, e o submete a mais uma cena de constrangimento público.

Outro fato curioso é que olhando os depoimentos dos presentes na festa, incluindo professores da turma de medicina e organizadores do evento, ninguém percebeu que havia um mini craque do 3º Reich entre os convidados. Seria o menino um agente secreto do Partido Nazista de Mossoró? Merece um Globo de Ouro por ter conseguido passar batido diante dos olhos de tanta gente que agora está vindo a público repudiar o ocorrido. Gente que não viu ele e seus familiares posando para fotografias e fazendo a saudação nazista com um sorriso de quem acabara de asfixiar um judeu numa câmara de gás. Se todos esses futuros médicos tiverem essa dificuldade de enxergar o que está diante dos seus olhos no exercício de sua função clínica, seus pacientes correrão o risco de serem operados por uma suástica, ao invés de um bisturi. Mas ok! Pode ser que ninguém tenha percebido mesmo, até porque, segundo informações, o menino teria chegado com outra roupa e vestiu a fantasia no local do evento. Tão insignificante assim para não ser notado, ele pode interpretar a versão mossoroense de “Esqueceram de mim”. Ariano igual ao Macaulay Culkin ele já pensa que é.

Tudo normal num país onde mais de 57 milhões de pessoas fizeram apologia ao nazismo elegendo Jair Bolsonaro como presidente. Segue o jogo. A Faculdade de Enfermagem Nova Esperança, já emitiu nota de repúdio dizendo que o corrido “afronta os valores democráticos, a dignidade humana e a memória das vítimas do nazismo, sendo totalmente incompatível com os princípios éticos, humanísticos e acadêmicos que orientam a instituição” A empresa organizadora do evento disse que “repudia de forma veemente qualquer ato, símbolo ou manifestação relacionada ao nazismo ou a ideologias de ódio” Resta saber com quantas notas de repúdio se faz mais um nazista. O Ministério Público e a Polícia Civil do Estado estão investigando o caso, e não devem concluir absolutamente nada sobre o fato. Na verdade, eu acho que cabe a sociedade, sobretudo, aos pais e responsáveis, não alimentar certas fantasias em crianças e adolescentes. Principalmente, quando a imaginação pode dar asas a uma realidade criminosa e desumana.

 

Fonte: Brasil 247

 

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