sábado, 17 de janeiro de 2026

Perspectivas econômicas para 2026

Em 2026, o Brasil navega entre desemprego baixo e desaceleração, enquanto o mundo enfrenta estagnação avançada e bolhas de risco nos EUA...

Os dias que inauguram o ano costumam ser marcados pela proliferação de elaborados panegíricos proferidos por economistas e analistas financeiros, empenhados em delinear projeções acerca do cenário político-econômico do período vindouro, oscilando entre distintos matizes de otimismo e pessimismo.

No presente artigo, pretendemos oferecer ao leitor uma apreciação rápida e ponderada das tendências em curso que conformam as perspectivas da economia brasileira e mundial para o ano de 2026, bem como assinalar potenciais focos de tensão e pontos de inflexão no ambiente econômico-financeiro, os quais podem requerer atenção redobrada por parte dos agentes econômicos e dos formuladores de políticas públicas.

No contexto brasileiro, a conjuntura é cercada de perigos e incertezas. Por um lado, no período recente, o país registrou o menor desemprego da série histórica, chegando a 5,2% e foi acompanhado da menor taxa de informalidade, registrada em 37,7%. Esse movimento foi resultado direto do crescimento acelerado da economia entre o início de 2023 e a metade do ano de 2024, proporcionado pela forte expansão do consumo e do setor de serviços, além da reposição e incremento do estoque de capital em vista da maior expectativa de demanda gerada pelo impulso fiscal no ano de 2023.

Por outro, os indicadores recentes de atividade econômica revelam tendência de desaceleração da economia. Essa tendência é puxada, sobretudo, pelo fraco desempenho do consumo privado e da indústria de transformação, o que poderá, em breve, desacelerar os investimentos e reduzir o crescimento dos empregos diante de uma expectativa de demanda que dá sinais de esgotamento e de uma taxa de juros que inviabiliza o lucro empresarial, além de elevar o endividamento das famílias e encarecer o custo de capital das empresas.

Outro fator de destaque é a retração do impulso fiscal, conforme revela relatório da Secretaria de Política Econômica (SPE: após contribuir com 3,8% do PIB entre 2023 e 2024, o impulso tornou-se negativo em 2024-2025 (-2,84%), reforçando a desaceleração econômica. Ao contrário do que é frequentemente preconizado, o cenário recente reflete a combinação de políticas fiscal e monetária contracionistas.

Soma-se a isso o caráter cíclico do crescimento brasileiro. Sem elevação sustentada da taxa de investimento e da participação da indústria de transformação – hoje no menor nível histórico em relação ao PIB –, não é plausível manter taxas de crescimento acima da média da última década. A estagnação desses dois vetores centrais limita ganhos de produtividade e condena a economia a ciclos curtos de expansão baseados no consumo ou nas exportações.

No debate recente, atribui-se a desaceleração ao risco fiscal, somada à suposta ineficácia da política monetária. Contudo, se as projeções se confirmarem, o governo Lula III encerrará o período com a menor inflação média desde o regime de metas, favorecida sobretudo pela valorização cambial ao longo de 2025. Ainda assim, o cmantém uma postura restritiva, condicionada por uma meta de inflação excessivamente baixa para nossos padrões históricos, adiando o afrouxamento monetário.

A combinação de juros elevados e câmbio apreciado, apesar de contribuir para o controle dos preços, é responsável pela ampliação do déficit em transações correntes, redução do superávit comercial e intensificação da remessa de lucros e dividendos ao exterior. Nesse contexto, o Banco Central antecipa choques, eleva juros rapidamente e prolonga a restrição monetária, temendo a amplificação inflacionária via demanda e indexação.

Tal arranjo impõe elevado custo fiscal. Cada aumento de 1 ponto percentual na taxa básica eleva os encargos da União em 0,49% do PIB. Atualmente, os juros consomem cerca de 7,8% do PIB e mais de 40% do orçamento federal, pressionando a trajetória da dívida. Historicamente, os juros nominais explicaram mais de 80% do crescimento da dívida líquida, enquanto o resultado primário teve contribuição limitada, exceto durante a pandemia.

Entre 2003 e 2014, crescimento econômico, expansão do gasto e superávits fiscais reduziram a dívida em proporção do PIB. O período posterior, marcado pela austeridade permanente, resultou em estagnação, déficits recorrentes e piora fiscal. Cortes sistemáticos de gastos comprimem renda, investimento, emprego e arrecadação, agravando as próprias contas públicas.

Embora o atual governo tenha se aproximado do déficit zero em 2025, persiste a pressão por um ajuste adicional de 3% a 4% do PIB, incluindo cortes em benefícios sociais e pisos constitucionais. Tal estratégia é economicamente regressiva e ameaça reverter avanços do mandato. Em contraste, a isenção do IR para rendas até R$ 5 mil, acompanhada da tributação das altas rendas, representa vitória relevante para o crescimento da demanda e a redução da desigualdade.

O cenário internacional revela-se igualmente desafiador. Segundo projeções da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), embora a economia mundial tenha demonstrado relativa resiliência diante dos choques comerciais e financeiros recentes, a expansão global deve se situar em torno de 3,2%, patamar insuficiente para sustentar um ciclo robusto de crescimento nas economias emergentes.

Preocupa sobremaneira a estagnação dos países desenvolvidos que, mesmo após o fim dos ciclos de aperto monetário direcionados a combater o choque de oferta provocado pelas guerras na Rússia e em Israel, não chegaram a exibir o desempenho requerido para frear o processo de desindustrialização que acomete suas economias e a elevação do desemprego estrutural ligado ao avanço da indústria 4.0 sobre os setores industrial e de serviços.

Outro ponto de atenção diz respeito às valorações de mercado e à concentração de risco no setor tecnológico dos Estados Unidos. O grupo de empresas denominado Magnificent Seven (Sete magníficas) — composto por gigantes como Microsoft, Apple, Alphabet, Amazon, Meta, Tesla e Nvidia — alcançou uma capitalização conjunta que ultrapassa o Produto Interno Bruto de grandes economias, como a União Europeia.

A valorização desses ativos, impulsionada por expectativas otimistas sobre Inteligência artificial e lucros futuros, levou os múltiplos a níveis elevados e remete a episódios de exuberância financeira marcados por concentração de ganhos e distanciamento dos fundamentos. No S&P 500, essas empresas já representam cerca de 35% do índice, aumentando o risco sistêmico. Nos últimos cinco anos, enquanto o índice subiu 98,2%, as “sete magníficas” responderam por 57% do avanço, com crescimento agregado de 234,8%.

A valorização das ações norte-americanas já elevou o valor de mercado das empresas para cerca de 230% do PIB dos EUA, o dobro do nível pré-2008, enquanto os múltiplos de lucro se aproximam dos patamares observados antes da bolha dotcom e da Grande crise. Paralelamente, o fortalecimento do ouro e a maior demanda por títulos públicos sinalizam um reposicionamento defensivo e maior aversão ao risco. Esse conjunto de fatores sustenta a preocupação com uma nova crise financeira internacional, potencialmente mais difícil de conter do que a anterior.

•        A pirâmide financeira que ameaça o mercado. Por Luís Nassif

O processo de financeirização da economia global teve seu marco inicial na década de 1970, com o colapso do sistema de Bretton Woods e a suspensão da conversibilidade do dólar em ouro em 1971. Essa ruptura permitiu a transição para um padrão de “dólar flexível”, onde as moedas passaram a flutuar livremente, inaugurando uma era de liquidez internacional descontrolada e a ascensão da grande finança sobre o poder público. A dinâmica do crescimento global, que antes se baseava em ganhos de produtividade real, passou a ser impulsionada pela expansão do crédito e pelo endividamento massivo de governos e famílias.

A supervalorização dos ativos e a necessidade constante de gerar novos papéis financeiros foram provocados por um descolamento entre a economia real e a esfera financeira. Enquanto o PIB mundial crescia a taxas modestas (2-3%), o mercado financeiro exigia retornos muito superiores (10-15%), criando um abismo entre a riqueza concreta e o capital fictício. Para sustentar essa valorização, as instituições financeiras passaram a operar no modelo “originar para distribuir”, transformando dívidas e contratos de longo prazo em ativos negociáveis através da securitização. Esse processo permitiu que bancos limpassem seus balanços e contornassem exigências regulatórias de capital, alavancando o sistema em níveis extremos.

A disseminação da securitização e de inovações como os derivativos facilitou a formação de sucessivas bolhas especulativas. Ao diluir e redistribuir riscos de forma opaca, o sistema incentivou a concessão de crédito predatório, como as hipotecas subprime (empréstimos para clientes sem renda ou patrimônio, os “NINJA”), sob a falsa premissa de que o risco havia sido eliminado pela engenharia financeira. Esse cenário culminou em crises sistêmicas, como a de 2008, onde a insolvência de ativos “podres” paralisou a cadeia global de pagamentos.

<><> O caso brasileiro

No mercado brasileiro, a financeirização manifestou-se de forma peculiar através da expansão de fundos lastreados em “papéis” (títulos de dívida) em detrimento de ativos reais. Um exemplo notável é a evolução dos Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs), que passaram a incorporar largamente Certificados de Recebíveis (CRI) e Letras de Crédito (LCI). Em casos de gestão pública, como o FII-SP – uma experiência desastrosa do estado de São Paulo – observou-se a alocação de quase metade do patrimônio líquido em ativos financeiros não imobiliários geridos pela própria administradora, elevando o risco de concentração.

Essa estrutura abre espaço para o “efeito Ponzi”, onde a solvência do sistema não depende do fluxo de renda real (como aluguéis ou lucros produtivos), mas da valorização contínua dos ativos e do refinanciamento permanente das dívidas. No Brasil, as taxas de juros elevadas e a abertura para operações de curto prazo reforçam esse caráter especulativo, onde o pagamento de rendimentos muitas vezes depende apenas da entrada de novos capitais ou da inflação dos preços dos papéis, configurando uma armadilha.

Como a financeirização cresce muito mais rapidamente que a economia real, o mercado precisa  inventar novas cartas de papel fino para sustentar o topo, esperando que o vento (a confiança do mercado) nunca pare de soprar. Quando o vento cessar, irá se descobrir que a estrutura não tinha fundação, mas apenas cartas segurando outras cartas.

<><> Teto de gastos e PPP

A parte mais deletéria deste modelo, no país, foi a introdução do sistema de metas inflacionárias, com a Selic servindo de parâmetro para todas as demais taxas, eliminando qualquer outro tipo de taxa de juros que pudesse estimular o investimento produtivo.

Na gestão Maria Silvia, no BNDES, houve a substituição da TJLP pela TLP, em cima de estudos anteriores de Persio Arida.

O padrão tradicional de financiamento do BNDES baseava-se na TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), que era uma taxa flutuante e administrada, definida pelo Conselho Monetário Nacional em patamares geralmente inferiores às taxas de mercado. A nova TLP (Taxa de Longo Prazo) passou a acompanhar a NTN-B (Nota do Tesouro Nacional – Série B), um título público indexado ao IPCA acrescido de uma taxa de juros fixa.

Ao vincular a TLP à NTN-B, o custo do crédito do BNDES passou a refletir o custo real de financiamento do governo no mercado. Como a dívida pública mobiliária (muitas vezes atrelada à Selic ou a títulos como a NTN-B) funciona como um benchmark para o mercado privado, essa mudança “colou” o custo do BNDES na estrutura de juros de mercado.

O resultado foi impor ao BNDES um custo de captação extremamente elevado, transformando-o em um dos bancos de desenvolvimento com as taxas mais altas do mundo, desestimulando o investimento produtivo em favor do rentismo.

Outra taxa civilizada é a da caderneta de poupança. Desde os tempos de Paulo Guedes há um processo gradativo de esvaziamento da poupança e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.

Com isso, todo o sistema de crédito no país ficou amarrado à Selic. O sistema de metas inflacionárias cumpre esse papel. A Selic a 15% exige um superávit primário impossível. O orçamento fica todo amarrado, obrigando o governo a trocar o investimento público em infraestrutura por PPPs (Parcerias Público Privadas).

O setor privado se candidata a uma PPP, o Estado é o garantidor, mas o financiamento se dá na forma de securitização do investimento. E aí, amarra-se tudo à Selic, com a gestão da dívida pública transformando-se na maior máquina de concentração de renda da história.

<><> A efeito Ponzi

E aí se chega ao efeito Ponzi, ao esquema pirâmide, que ameaça todo o mercado brasileiro.

A taxa-piso de captação é a Selic, em valores estratosféricos. Para remunerar o investidor, o fundo tem que ter, na ponta tomadora, empresas dispostas a tomar dinheiro por uma taxa equivalente à Selic + spread do fundo.

Nenhuma empresa de primeira linha se interessará. A alternativa será buscar empresas mais fragilizadas, trazendo um componente adicional de risco ao mercado.

Mais que isso. Com a financeirização crescendo, e os ativos não conseguindo acompanhar, repete-se o mesmo fenômeno de outras bolhas especulativas, como o Encilhamento. Nessa fase, quem concede o empréstimo não tem interesse na solvência do devedor a longo prazo, mas sim nas taxas e comissões geradas pela transação imediata.

O mercado passa a criar toda a sorte de instrumentos. Bancos montam pacotes com os créditos de difícil recebimento e transferem para fundos, tipo o sistema Planner, ou bancos como o Master.

•        Para que investidores conservadores comprem esses papéis, agências de classificação de risco atribuem notas máximas (AAA) a pacotes que, na realidade, contêm dívidas de baixa qualidade. Complementarmente, são criados derivativos como os Credit Default Swaps (CDS), que funcionam como seguros contra calotes, gerando uma percepção artificial de que o risco foi eliminado.

•        Gestores de ativos vendem esses títulos estruturados (ABS ou CDO) para investidores finais, como fundos de pensão, governos locais e investidores estrangeiros, que buscam retornos superiores aos dos títulos públicos tradicionais.

A ciranda se sustenta enquanto o valor dos ativos subjacentes (como os imóveis) continua subindo. Os devedores, sem renda para pagar as parcelas crescentes, refinanciam suas dívidas dando o mesmo imóvel valorizado como garantia para novos empréstimos maiores, o que configura uma estrutura financeira do tipo Ponzi.

 

Fonte: Por Luiz Gonzaga Belluzzo, André Luiz Passos Santos, Nathan Caixeta e Murilo Tambasco, em A Terra é Redonda/Jornal GGN

 

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