Perspectivas
econômicas para 2026
Em
2026, o Brasil navega entre desemprego baixo e desaceleração, enquanto o mundo
enfrenta estagnação avançada e bolhas de risco nos EUA...
Os dias
que inauguram o ano costumam ser marcados pela proliferação de elaborados
panegíricos proferidos por economistas e analistas financeiros, empenhados em
delinear projeções acerca do cenário político-econômico do período vindouro,
oscilando entre distintos matizes de otimismo e pessimismo.
No
presente artigo, pretendemos oferecer ao leitor uma apreciação rápida e
ponderada das tendências em curso que conformam as perspectivas da economia
brasileira e mundial para o ano de 2026, bem como assinalar potenciais focos de
tensão e pontos de inflexão no ambiente econômico-financeiro, os quais podem
requerer atenção redobrada por parte dos agentes econômicos e dos formuladores
de políticas públicas.
No
contexto brasileiro, a conjuntura é cercada de perigos e incertezas. Por um
lado, no período recente, o país registrou o menor desemprego da série
histórica, chegando a 5,2% e foi acompanhado da menor taxa de informalidade,
registrada em 37,7%. Esse movimento foi resultado direto do crescimento
acelerado da economia entre o início de 2023 e a metade do ano de 2024,
proporcionado pela forte expansão do consumo e do setor de serviços, além da
reposição e incremento do estoque de capital em vista da maior expectativa de
demanda gerada pelo impulso fiscal no ano de 2023.
Por
outro, os indicadores recentes de atividade econômica revelam tendência de
desaceleração da economia. Essa tendência é puxada, sobretudo, pelo fraco
desempenho do consumo privado e da indústria de transformação, o que poderá, em
breve, desacelerar os investimentos e reduzir o crescimento dos empregos diante
de uma expectativa de demanda que dá sinais de esgotamento e de uma taxa de
juros que inviabiliza o lucro empresarial, além de elevar o endividamento das
famílias e encarecer o custo de capital das empresas.
Outro
fator de destaque é a retração do impulso fiscal, conforme revela relatório da
Secretaria de Política Econômica (SPE: após contribuir com 3,8% do PIB entre
2023 e 2024, o impulso tornou-se negativo em 2024-2025 (-2,84%), reforçando a
desaceleração econômica. Ao contrário do que é frequentemente preconizado, o
cenário recente reflete a combinação de políticas fiscal e monetária
contracionistas.
Soma-se
a isso o caráter cíclico do crescimento brasileiro. Sem elevação sustentada da
taxa de investimento e da participação da indústria de transformação – hoje no
menor nível histórico em relação ao PIB –, não é plausível manter taxas de
crescimento acima da média da última década. A estagnação desses dois vetores
centrais limita ganhos de produtividade e condena a economia a ciclos curtos de
expansão baseados no consumo ou nas exportações.
No
debate recente, atribui-se a desaceleração ao risco fiscal, somada à suposta
ineficácia da política monetária. Contudo, se as projeções se confirmarem, o
governo Lula III encerrará o período com a menor inflação média desde o regime
de metas, favorecida sobretudo pela valorização cambial ao longo de 2025. Ainda
assim, o cmantém uma postura restritiva, condicionada por uma meta de inflação
excessivamente baixa para nossos padrões históricos, adiando o afrouxamento
monetário.
A
combinação de juros elevados e câmbio apreciado, apesar de contribuir para o
controle dos preços, é responsável pela ampliação do déficit em transações
correntes, redução do superávit comercial e intensificação da remessa de lucros
e dividendos ao exterior. Nesse contexto, o Banco Central antecipa choques,
eleva juros rapidamente e prolonga a restrição monetária, temendo a
amplificação inflacionária via demanda e indexação.
Tal
arranjo impõe elevado custo fiscal. Cada aumento de 1 ponto percentual na taxa
básica eleva os encargos da União em 0,49% do PIB. Atualmente, os juros
consomem cerca de 7,8% do PIB e mais de 40% do orçamento federal, pressionando
a trajetória da dívida. Historicamente, os juros nominais explicaram mais de
80% do crescimento da dívida líquida, enquanto o resultado primário teve
contribuição limitada, exceto durante a pandemia.
Entre
2003 e 2014, crescimento econômico, expansão do gasto e superávits fiscais
reduziram a dívida em proporção do PIB. O período posterior, marcado pela
austeridade permanente, resultou em estagnação, déficits recorrentes e piora
fiscal. Cortes sistemáticos de gastos comprimem renda, investimento, emprego e
arrecadação, agravando as próprias contas públicas.
Embora
o atual governo tenha se aproximado do déficit zero em 2025, persiste a pressão
por um ajuste adicional de 3% a 4% do PIB, incluindo cortes em benefícios
sociais e pisos constitucionais. Tal estratégia é economicamente regressiva e
ameaça reverter avanços do mandato. Em contraste, a isenção do IR para rendas
até R$ 5 mil, acompanhada da tributação das altas rendas, representa vitória
relevante para o crescimento da demanda e a redução da desigualdade.
O
cenário internacional revela-se igualmente desafiador. Segundo projeções da
Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), embora a
economia mundial tenha demonstrado relativa resiliência diante dos choques
comerciais e financeiros recentes, a expansão global deve se situar em torno de
3,2%, patamar insuficiente para sustentar um ciclo robusto de crescimento nas
economias emergentes.
Preocupa
sobremaneira a estagnação dos países desenvolvidos que, mesmo após o fim dos
ciclos de aperto monetário direcionados a combater o choque de oferta provocado
pelas guerras na Rússia e em Israel, não chegaram a exibir o desempenho
requerido para frear o processo de desindustrialização que acomete suas
economias e a elevação do desemprego estrutural ligado ao avanço da indústria
4.0 sobre os setores industrial e de serviços.
Outro
ponto de atenção diz respeito às valorações de mercado e à concentração de
risco no setor tecnológico dos Estados Unidos. O grupo de empresas denominado
Magnificent Seven (Sete magníficas) — composto por gigantes como Microsoft,
Apple, Alphabet, Amazon, Meta, Tesla e Nvidia — alcançou uma capitalização
conjunta que ultrapassa o Produto Interno Bruto de grandes economias, como a
União Europeia.
A
valorização desses ativos, impulsionada por expectativas otimistas sobre
Inteligência artificial e lucros futuros, levou os múltiplos a níveis elevados
e remete a episódios de exuberância financeira marcados por concentração de
ganhos e distanciamento dos fundamentos. No S&P 500, essas empresas já
representam cerca de 35% do índice, aumentando o risco sistêmico. Nos últimos
cinco anos, enquanto o índice subiu 98,2%, as “sete magníficas” responderam por
57% do avanço, com crescimento agregado de 234,8%.
A
valorização das ações norte-americanas já elevou o valor de mercado das
empresas para cerca de 230% do PIB dos EUA, o dobro do nível pré-2008, enquanto
os múltiplos de lucro se aproximam dos patamares observados antes da bolha
dotcom e da Grande crise. Paralelamente, o fortalecimento do ouro e a maior
demanda por títulos públicos sinalizam um reposicionamento defensivo e maior
aversão ao risco. Esse conjunto de fatores sustenta a preocupação com uma nova
crise financeira internacional, potencialmente mais difícil de conter do que a
anterior.
• A pirâmide financeira que ameaça o
mercado. Por Luís Nassif
O
processo de financeirização da economia global teve seu marco inicial na década
de 1970, com o colapso do sistema de Bretton Woods e a suspensão da
conversibilidade do dólar em ouro em 1971. Essa ruptura permitiu a transição
para um padrão de “dólar flexível”, onde as moedas passaram a flutuar
livremente, inaugurando uma era de liquidez internacional descontrolada e a
ascensão da grande finança sobre o poder público. A dinâmica do crescimento
global, que antes se baseava em ganhos de produtividade real, passou a ser
impulsionada pela expansão do crédito e pelo endividamento massivo de governos
e famílias.
A
supervalorização dos ativos e a necessidade constante de gerar novos papéis
financeiros foram provocados por um descolamento entre a economia real e a
esfera financeira. Enquanto o PIB mundial crescia a taxas modestas (2-3%), o
mercado financeiro exigia retornos muito superiores (10-15%), criando um abismo
entre a riqueza concreta e o capital fictício. Para sustentar essa valorização,
as instituições financeiras passaram a operar no modelo “originar para
distribuir”, transformando dívidas e contratos de longo prazo em ativos
negociáveis através da securitização. Esse processo permitiu que bancos
limpassem seus balanços e contornassem exigências regulatórias de capital,
alavancando o sistema em níveis extremos.
A
disseminação da securitização e de inovações como os derivativos facilitou a
formação de sucessivas bolhas especulativas. Ao diluir e redistribuir riscos de
forma opaca, o sistema incentivou a concessão de crédito predatório, como as
hipotecas subprime (empréstimos para clientes sem renda ou patrimônio, os
“NINJA”), sob a falsa premissa de que o risco havia sido eliminado pela
engenharia financeira. Esse cenário culminou em crises sistêmicas, como a de
2008, onde a insolvência de ativos “podres” paralisou a cadeia global de
pagamentos.
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O caso brasileiro
No
mercado brasileiro, a financeirização manifestou-se de forma peculiar através
da expansão de fundos lastreados em “papéis” (títulos de dívida) em detrimento
de ativos reais. Um exemplo notável é a evolução dos Fundos de Investimento
Imobiliário (FIIs), que passaram a incorporar largamente Certificados de
Recebíveis (CRI) e Letras de Crédito (LCI). Em casos de gestão pública, como o
FII-SP – uma experiência desastrosa do estado de São Paulo – observou-se a
alocação de quase metade do patrimônio líquido em ativos financeiros não
imobiliários geridos pela própria administradora, elevando o risco de
concentração.
Essa
estrutura abre espaço para o “efeito Ponzi”, onde a solvência do sistema não
depende do fluxo de renda real (como aluguéis ou lucros produtivos), mas da
valorização contínua dos ativos e do refinanciamento permanente das dívidas. No
Brasil, as taxas de juros elevadas e a abertura para operações de curto prazo
reforçam esse caráter especulativo, onde o pagamento de rendimentos muitas
vezes depende apenas da entrada de novos capitais ou da inflação dos preços dos
papéis, configurando uma armadilha.
Como a
financeirização cresce muito mais rapidamente que a economia real, o mercado
precisa inventar novas cartas de papel
fino para sustentar o topo, esperando que o vento (a confiança do mercado)
nunca pare de soprar. Quando o vento cessar, irá se descobrir que a estrutura
não tinha fundação, mas apenas cartas segurando outras cartas.
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Teto de gastos e PPP
A parte
mais deletéria deste modelo, no país, foi a introdução do sistema de metas
inflacionárias, com a Selic servindo de parâmetro para todas as demais taxas,
eliminando qualquer outro tipo de taxa de juros que pudesse estimular o
investimento produtivo.
Na
gestão Maria Silvia, no BNDES, houve a substituição da TJLP pela TLP, em cima
de estudos anteriores de Persio Arida.
O
padrão tradicional de financiamento do BNDES baseava-se na TJLP (Taxa de Juros
de Longo Prazo), que era uma taxa flutuante e administrada, definida pelo
Conselho Monetário Nacional em patamares geralmente inferiores às taxas de
mercado. A nova TLP (Taxa de Longo Prazo) passou a acompanhar a NTN-B (Nota do
Tesouro Nacional – Série B), um título público indexado ao IPCA acrescido de
uma taxa de juros fixa.
Ao
vincular a TLP à NTN-B, o custo do crédito do BNDES passou a refletir o custo
real de financiamento do governo no mercado. Como a dívida pública mobiliária
(muitas vezes atrelada à Selic ou a títulos como a NTN-B) funciona como um
benchmark para o mercado privado, essa mudança “colou” o custo do BNDES na
estrutura de juros de mercado.
O
resultado foi impor ao BNDES um custo de captação extremamente elevado,
transformando-o em um dos bancos de desenvolvimento com as taxas mais altas do
mundo, desestimulando o investimento produtivo em favor do rentismo.
Outra
taxa civilizada é a da caderneta de poupança. Desde os tempos de Paulo Guedes
há um processo gradativo de esvaziamento da poupança e do Fundo de Garantia por
Tempo de Serviço.
Com
isso, todo o sistema de crédito no país ficou amarrado à Selic. O sistema de
metas inflacionárias cumpre esse papel. A Selic a 15% exige um superávit
primário impossível. O orçamento fica todo amarrado, obrigando o governo a
trocar o investimento público em infraestrutura por PPPs (Parcerias Público
Privadas).
O setor
privado se candidata a uma PPP, o Estado é o garantidor, mas o financiamento se
dá na forma de securitização do investimento. E aí, amarra-se tudo à Selic, com
a gestão da dívida pública transformando-se na maior máquina de concentração de
renda da história.
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A efeito Ponzi
E aí se
chega ao efeito Ponzi, ao esquema pirâmide, que ameaça todo o mercado
brasileiro.
A
taxa-piso de captação é a Selic, em valores estratosféricos. Para remunerar o
investidor, o fundo tem que ter, na ponta tomadora, empresas dispostas a tomar
dinheiro por uma taxa equivalente à Selic + spread do fundo.
Nenhuma
empresa de primeira linha se interessará. A alternativa será buscar empresas
mais fragilizadas, trazendo um componente adicional de risco ao mercado.
Mais
que isso. Com a financeirização crescendo, e os ativos não conseguindo
acompanhar, repete-se o mesmo fenômeno de outras bolhas especulativas, como o
Encilhamento. Nessa fase, quem concede o empréstimo não tem interesse na
solvência do devedor a longo prazo, mas sim nas taxas e comissões geradas pela
transação imediata.
O
mercado passa a criar toda a sorte de instrumentos. Bancos montam pacotes com
os créditos de difícil recebimento e transferem para fundos, tipo o sistema
Planner, ou bancos como o Master.
• Para que investidores conservadores
comprem esses papéis, agências de classificação de risco atribuem notas máximas
(AAA) a pacotes que, na realidade, contêm dívidas de baixa qualidade.
Complementarmente, são criados derivativos como os Credit Default Swaps (CDS),
que funcionam como seguros contra calotes, gerando uma percepção artificial de
que o risco foi eliminado.
• Gestores de ativos vendem esses títulos
estruturados (ABS ou CDO) para investidores finais, como fundos de pensão,
governos locais e investidores estrangeiros, que buscam retornos superiores aos
dos títulos públicos tradicionais.
A
ciranda se sustenta enquanto o valor dos ativos subjacentes (como os imóveis)
continua subindo. Os devedores, sem renda para pagar as parcelas crescentes,
refinanciam suas dívidas dando o mesmo imóvel valorizado como garantia para
novos empréstimos maiores, o que configura uma estrutura financeira do tipo
Ponzi.
Fonte:
Por Luiz Gonzaga Belluzzo, André Luiz Passos Santos, Nathan Caixeta e Murilo
Tambasco, em A Terra é Redonda/Jornal GGN

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