Como
a compra de créditos de carbono favorece setores que destroem a natureza
A
prateleira de soluções criadas – e vendidas – para frear o aquecimento global
está cada vez mais diversa, tanto em métodos quanto em siglas: projetos Redd+,
Blue Carbon, ERW, ARR, IFM, DAC, BECCS, e outras tantas que ainda podem surgir.
Em comum, a maioria delas encontra na financeirização da natureza, ou seja, em
transformar bens naturais em ativos do mercado financeiro, seu principal
mecanismo.
Primeiro,
quantifica-se o carbono estocado em florestas ou mangues preservados por povos
e comunidades tradicionais, por exemplo; depois, precificam-se esses estoques,
que em seguida são transformados em créditos de carbono para serem
comercializados no mercado financeiro.
Do
outro lado do balcão, estão empresas que não conseguem – ou não querem –
reduzir suas emissões diretas de gases de efeito estufa, e que compram os
créditos para seguir poluindo, apoiando-se nas costas de indígenas,
quilombolas, ribeirinhos e outros povos e comunidades tradicionais que mantêm,
há gerações, seus territórios preservados.
“Ainda
que estes programas representem iniciativas necessárias e urgentes, é
imprescindível questionar até que ponto estas ações não significam uma gestão
da crise climática e não instrumentos significativos de sua superação”, reflete
Andrei Cornetta, pesquisador e professor do Instituto Federal de São Paulo, o
IFSP, na pesquisa “Políticas climáticas e desdobramentos territoriais no estado
do Maranhão: diagnóstico sobre projetos de carbono florestal – REDD+
Jurisdicional”, lançada em dezembro de 2025.
No
estudo, encomendado pela Rede de Agroecologia do Maranhão, a Rama, e pelo
Observatório Popular de Políticas de Sociobiodiversidade e Clima do Maranhão,
Cornetta avalia a implementação de uma dessas soluções na prateleira, o REDD+
Jurisdicional, naquele estado.
REDD+ é
a sigla para Redução das Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal, e o +
significa outros esforços para garantir as florestas em pé. O termo
jurisdicional indica que o projeto REDD+ de preservação com comercialização de
créditos de carbono será realizado em nível estadual, com administração
encabeçada pelo próprio governo.
A
diferença em relação aos projetos REDD+ do chamado “mercado voluntário” é que
nestes são as próprias empresas privadas que fecham acordos diretamente com
povos e comunidades tradicionais para usar áreas limitadas de seus territórios.
No caso
do Maranhão, a gestão do REDD+ Jurisdicional será através da Maranhão
Parcerias, o Mapa, sociedade mista formada pelo Estado e empresas privadas e
vinculada à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico e Programas
Estratégicos, a Sedepe.
Os
achados de Cornetta apontam contradições importantes do governo de Carlos
Brandão, atualmente sem partido, na implementação do projeto.
A
principal delas é a falta de consulta e participação efetiva dos povos e
comunidades tradicionais do Maranhão no processo de criação e regulamentação da
política jurisdicional de REDD+ no estado. Em sua maioria, as florestas
preservadas e “precificadas” ficam nos territórios habitados por estes povos, e
a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, a OIT, determina que
eles sejam consultados antes da implementação de qualquer projeto ou ação
administrativa que possam impactá-los.
Outra
contradição destacada pelo professor do IFSP é a contratação de uma empresa
privada, a Future Carbon, para desenhar o mecanismo financeiro que será operado
na venda dos créditos de carbono. “Empresa focada no lucro pode não priorizar o
social e o desenvolvimento comunitário, gerando um cenário de insegurança”,
disse a Cornetta um de seus entrevistados na pesquisa.
A falta
de transparência na discussão do projeto tem gerado apreensão nas comunidades
potencialmente impactadas. Segundo relato de uma representante da Coordenação
Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, a CONAQ,
ouvido pelo pesquisador, “durante o
processo de elaboração da minuta do decreto de REDD+ Jurisdicional, as pessoas
que participaram dos eventos não souberam dizer como se daria a repartição de
benefícios”.
Segundo
Cornetta, a falta de transparência vem emperrando a implementação do projeto no
estado, atualmente paralisada. “Entendo que a implementação foi paralisada, em
grande parte, por receio de intervenção do Ministério Público, visto que o
processo de elaboração da minuta do decreto ocorreu sem a participação e
consulta efetiva de povos e comunidades tradicionais, o que compromete a
legitimidade da ação”, analisa o pesquisador, em entrevista ao Intercept
Brasil.
Projetos
de crédito de carbono feitos por empresas privadas no mercado voluntário têm
gerado conflitos e violações de direitos em territórios tradicionais do
Maranhão mesmo antes de serem implementados, como já mostramos em pelo menos
duas reportagens.
Nestes
conflitos, a falta de consulta prévia, de transparência e a financeirização da
natureza, que a transforma em ativo na bolsa de valores e retira dos povos a
autonomia sobre seus territórios, estão na raiz dos problemas. A pesquisa da
Rama mostra que, mesmo quando o estado está envolvido, a receita seguida é a
mesma. iniciativas feitas
>>>>
Confira a entrevista completa.
• Em que pé está a implementação do REDD+
Jurisdicional no Maranhão? O que falta para ser efetivado?
Andrei
Cornetta – O sistema de REDD+ Jurisdicional no Maranhão ainda não está
totalmente implementado, apesar de o arcabouço legal ter sido estabelecido por
uma lei estadual em 2021. Já existe uma estrutura que conta com a Maranhão
Parcerias, Mapa, enquanto órgão de gestão financeira e comercialização, e a
empresa Future Carbon foi selecionada em chamada pública para estruturar o
sistema. No entanto, entendo que a implementação foi paralisada, em grande
parte, por receio de intervenção do Ministério Público, visto que o processo de
elaboração da minuta do decreto ocorreu sem a participação e consulta efetiva
de povos e comunidades tradicionais, o que compromete a legitimidade da ação, a
exemplo do que está acontecendo no estado do Amazonas. Penso que para ser
efetivado, falta que o Estado retome o processo a partir das diretrizes de
salvaguarda e que tenha mais transparência em relação à repartição de
benefícios. Faltam esclarecimentos cruciais sobre isso, e sobre como os
diferentes territórios com florestas serão incluídos na contabilidade do
sistema. Acredito que a posição recente da Fundação Nacional dos Povos
Indígenas, a Funai, desaconselhando projetos de REDD+ em Terras Indígenas, e a
decisão judicial que suspendeu a implantação de projeto de crédito de carbono
na Terra Indígena Alto Turiaçu, no Maranhão, também contribuíram para “esfriar”
a atuação do governo em relação ao programa de REDD+ Jurisdicional.
• No estudo, me chamou a atenção a falta
de transparência do governo para com povos e comunidades tradicionais em
relação às informações sobre implementação do REDD+ Jurisdicional no estado.
Como essa opacidade pode afetar a implementação do projeto e mesmo sua
legalidade?
A falta
de transparência e a omissão na consulta efetiva podem ser consideradas falhas
estruturais no processo de criação e regulamentação da política. E essa é uma
reivindicação comum às diferentes representatividades dos povos indígenas,
quilombolas e tradicionais do estado. Os movimentos têm se amparado, sobretudo,
no que diz a Convenção 169 da OIT, que exige a consulta prévia, livre e
informada para qualquer intervenção em territórios indígenas e de povos
tradicionais.
Sem
dúvida, isso faz com que se aumente a desconfiança por parte daquela população
que abriga as principais áreas com vegetação nativa do estado. A falta de
transparência cria uma apreensão nas comunidades e gera um cenário de
insegurança, sobretudo pela desconfiança de que o programa se torne uma
imposição aos territórios incorporados ao Sistema de REDD+ Jurisdicional.
Outro
aspecto que chama a atenção no posicionamento dos movimentos sociais é a
comparação com aquilo que vem ocorrendo em outros estados da Amazônia Legal. O
que vem acontecendo no Amazonas é emblemático nesse sentido. Em muitos casos,
os projetos de REDD+ vinculados ao mercado voluntário têm estabelecido
contratos de médio a longo prazo (no mínimo 30 anos), o que gera muita
apreensão em relação à autonomia da população sobre o uso das áreas com
florestas e vegetação nativa.
Muitos
falam, inclusive, numa espécie de arrendamento da floresta para compensar as
emissões de gases de efeito estufa de uma empresa poluidora situada em algum
país do Norte Global.
• Também no estudo você diz que “a
implementação do REDD+ Jurisdicional pode reconfigurar dinâmicas fundiárias e
socioambientais no estado, potencializando conflitos ou criando novas formas de
controle territorial”. Como se daria essa reconfiguração e como se dariam os
conflitos e novas formas de controle?
O REDD+
Jurisdicional pode reconfigurar as dinâmicas territoriais ao converter porções
significativas de territórios com florestas e outras vegetações nativas, como
os mangues, em plataformas de compensação de gases de efeito estufa, o que
ratifica a conversão das florestas em ativos compensatórios financeirizados.
Vejo
isso como uma forma mais sutil (e por isso mesmo perigosa) de se apropriar de
bens comuns, isto é, de áreas que são utilizadas dentro dos diferentes modos de
vida e que têm na floresta uma importante parte de seus territórios para a sua
manutenção como tal – é um elemento crucial de coesão social.
Essa
ressignificação econômica que o mercado de carbono traz às florestas, por mais
bem-intencionada que seja, pode acarretar,como já vem acarretando, problemas
sérios que ferem a autonomia e o direito territorial desses grupos sociais.
Um
exemplo disso é um tipo de reclusão territorial ou uma espécie de
“desterritorialização territorializada”, na medida em que as comunidades não
são expropriadas de fato, isto é, não há um deslocamento físico do território,
mas têm o acesso e o uso tradicional da floresta proibidos ou limitados pelas
regras contratuais. Essa restrição é vista como necessária para evitar o
“vazamento” de carbono estocado na contabilidade do projeto.
Outro
aspecto que tem sido identificado em diversos casos de projetos de REDD+ na
Amazônia é a cooptação e a quebra da coesão social. Em outras situações,
identifica-se que os projetos de REDD+ vêm potencializando conflitos internos e
a ruptura da coesão social das comunidades, como visto no caso da TI Alto
Turiaçu. A oferta de grandes cifras financeiras é “sedutora” e atrai lideranças
que não têm uma visão coletiva, o que pode ser considerado uma exploração da
vulnerabilidade econômica dessas comunidades.
• O que muda, essencialmente, na
perspectiva da proteção das florestas proposta por projetos REDD+ (mercado
voluntário e/ou jurisdicional) e a proteção que é feita desde sempre pelos
povos e comunidades tradicionais? Como essas diferenças se refletem na busca
por soluções reais para a emergência climática?
A
mudança essencial reside na maneira como se valoriza a floresta e no propósito
da preservação. Como comentei anteriormente, a floresta é um elemento central
de coesão social e faz parte de um modo de vida secular, no caso dos povos
tradicionais, e milenar, no caso dos indígenas.
E é
justamente essa relação histórica que estes grupos possuem com as florestas que
é central na garantia da sobrevivência das comunidades. E quando falo em
sobrevivência, não estou me referindo apenas ao aspecto econômico, mas, de
maneira ampla, à sobrevivência enquanto um grupo social que é organizado por
uma lógica que se afasta dos princípios que organizam a sociedade
moderna-capitalista, isto é, a competição e o individualismo.
Portanto,
quando se instala um projeto desta natureza, o argumento principal é o de que é
necessário valorar a floresta economicamente (e, no caso, pela lógica
financeirizada) para que ela permaneça em pé.
Eu
discordo radicalmente desta argumentação, considerando que a insustentabilidade
de um modelo social está justamente na maneira como se estabelecem as relações,
sejam elas entre a sociedade ou entre a sociedade e o que chamamos de
“natureza”.
Em
suma, estes projetos, de novo, por mais bem-intencionados que sejam, estão
dentro desta lógica da competitividade e do individualismo. Faz parte da
essência de qualquer negócio ou ação da sociedade capitalista. E entendo que a
insustentabilidade reside justamente neste ponto.
Veja,
movimentos sociais como a CONAQ e o Conselho Indigenista Missionário, o CIMI,
veem o REDD+ como uma “moeda de troca” que não resolve a crise climática, mas
sim permite que o outro continue degradando, ou seja, atuando no mercado da
mesma maneira como sempre atuou.
• O governo do Maranhão aposta no REDD+
Jurisdicional ao mesmo tempo em que turbina a expansão do agronegócio no
estado. Como você vê essas duas apostas em projetos com horizontes opostos? O
REDD+ Jurisdicional seria, de alguma forma, benéfico ao agronegócio?
Aparentemente,
isso pode soar como uma “inconsistência programática” entre as iniciativas
ambientais e as políticas de expansão da fronteira agrícola no Matopiba
(fronteira agrícola que une Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde o avanço
das monoculturas resulta na supressão de grandes áreas de vegetação nativa,
sobretudo do Cerrado maranhense. No entanto, apesar dos horizontes
aparentemente opostos, há uma convergência entre a agenda climática e os
interesses do agronegócio, ou, melhor dizendo, há um processo de apropriação da
agenda ambiental pelo agronegócio.
Basta
ver como vem sendo a atuação do agronegócio nas COPs, o que ficou ainda mais
claro na COP-30, com tudo o que aconteceu na chamada “agrizone”. É preciso
entender que o agronegócio não é um bloco homogêneo. Há setores, digamos, mais
voltados à inovação, que vêm se beneficiando sobremaneira da pauta ambiental,
especialmente em um contexto de transição energética.
Setores
como o sucroenergético e o de papel e celulose têm se inserido cada vez mais no
mercado de energia renovável. Além das inovações, estes setores se valem de uma
propaganda de uma suposta “responsabilidade ambiental”, o que, convenhamos, cai
muito bem para certos setores que historicamente estão associados às
degradações socioambientais no Brasil.
• O REDD+ Jurisdicional no Maranhão, da
maneira como está pensado, avança na superação da crise climática ou apenas a
administra? O que seria uma política pública que avança na busca por soluções
reais?
Penso
que não é uma questão do sistema Jurisdicional do Maranhão, mas o conjunto das
medidas que vêm sendo tomadas em relação ao enfrentamento às mudanças
climáticas. Tem se dado muito mais atenção aos instrumentos econômicos de
compensação de emissões – o que gera inúmeras mercadorias e inovações
tecnológicas e financeiras – em detrimento das adaptações territoriais que são
urgentes.
Evidentemente,
a manutenção das florestas em pé é crucial para o enfrentamento das mudanças
climáticas. Mas entendo que já possuímos os instrumentos jurídicos e
tecnológicos para que essa manutenção seja efetiva no país.
Os
instrumentos jurídicos, garantidos na legislação brasileira, residem na
garantia de direitos territoriais coletivos dos povos indígenas, quilombolas,
povos tradicionais e os assentamentos da reforma agrária.
São
nessas modalidades fundiárias que se encontram as principais áreas preservadas
do Brasil. E não é porque estes grupos são “amigos da natureza”, mas, sim,
porque o modo de vida destes grupos se distancia da lógica predatória do
capitalismo.
Estudos
demonstram que as terras indígenas perderam apenas 1% de vegetação nativa entre
1985 e 2023, e os territórios quilombolas titulados são altamente eficientes na
preservação das florestas e no armazenamento de carbono. Essa garantia de
direitos se coloca como uma política fundamental para a conservação das
florestas, contrastando com os instrumentos econômicos que podem intensificar
conflitos sociais.
O
próprio REDD+, com sua lógica de compensação, vem sendo criticado por diversas
pesquisas por ser um sistema diversivo, que não exige a mudança necessária e
acaba legitimando a continuidade das emissões. O próprio Papa Francisco alertou
sobre isso: a compra de créditos de carbono pode ser uma “solução rápida e
fácil” que sustenta o mesmo modelo econômico baseado nas degradações.
Diante
disso, penso que uma política pública que avance de fato no enfrentamento às
mudanças climáticas seria a ampliação urgente das medidas de adaptação
territorial, de acordo com as particularidades dos municípios, e uma política
que coloque no centro a garantia efetiva dos direitos territoriais coletivos:
demarcação de terras indígenas, reconhecimento de territórios quilombolas,
reforma agrária popular, criação de Reservas Extrativistas. Veja que é algo que
já possuímos e que já se provou altamente eficaz na manutenção das florestas em
pé.
Além de
evitar os conflitos que o mercado pode gerar, reconhece o verdadeiro
protagonismo dos povos que historicamente vêm produzindo a floresta. O avanço
real, portanto, está em potencializar a permanência e a ampliação desses
territórios. Veja que não é possível pensar separado, sobretudo no Brasil,
justiça ambiental e justiça social, e isso, em grande medida, envolve uma ação
de reparação histórica.
Fonte:
Por Felipe Sabrina, em The Intercept

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