sábado, 17 de janeiro de 2026

O plano de Trump para tomar o petróleo da Venezuela vai funcionar?

Donald Trump prometeu tirar proveito das reservas de petróleo da Venezuela após prender o presidente Nicolás Maduro e afirmar que os Estados Unidos vão "administrar" o país até uma transição "segura".

O presidente dos EUA quer que empresas petrolíferas norte-americanas invistam bilhões de dólares no país sul-americano, que possui as maiores reservas de petróleo bruto do planeta, para mobilizar um recurso em grande parte inexplorado.

Ele afirmou que empresas dos EUA recuperariam a infraestrutura petrolífera "gravemente deteriorada" da Venezuela e começariam "a gerar dinheiro para o país".

Mas especialistas alertam para enormes desafios no plano de Trump, dizendo que ele custaria bilhões de dólares e poderia levar até uma década para resultar em um aumento significativo na produção de petróleo.

Então, os EUA realmente podem assumir o controle das reservas de petróleo da Venezuela? E o plano de Trump vai funcionar?

Com uma estimativa de 303 bilhões de barris, a Venezuela abriga as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo.

Mas a quantidade de petróleo que o país efetivamente produz hoje é ínfima em comparação com a de outros países.

A produção despencou desde o início dos anos 2000, quando o ex-presidente Hugo Chávez e, depois, o governo Maduro, apertaram o controle sobre a estatal petrolífera PDVSA, provocando a saída de funcionários mais experientes.

Embora algumas empresas petrolíferas ocidentais, incluindo a norte-americana Chevron, ainda atuem no país, suas operações encolheram significativamente à medida que os EUA ampliaram sanções e passaram a mirar as exportações de petróleo da Venezuela com o objetivo de restringir o acesso de Maduro a uma fonte econômica vital.

As sanções — impostas inicialmente pelos EUA em 2015, durante o governo do presidente Barack Obama, por supostas violações de direitos humanos — também deixaram o país amplamente isolado dos investimentos e das peças de que necessita.

"O verdadeiro desafio deles é a infraestrutura", afirma Callum Macpherson, chefe de commodities do banco Investec.

Em novembro, a Venezuela produziu cerca de 860 mil barris por dia, segundo o relatório mais recente sobre o mercado de petróleo da Agência Internacional de Energia (AIE).

Isso representa pouco mais de um terço do volume de dez anos atrás e equivale a menos de 1% do consumo mundial de petróleo.

As reservas venezuelanas são compostas pelo chamado petróleo "pesado e ácido". Ele é mais difícil de refinar, mas é útil para a produção de diesel e asfalto. Já os EUA produzem, em geral, petróleo "leve e doce", usado para fabricar gasolina.

Na véspera dos ataques e da captura de Maduro, os EUA também apreenderam dois petroleiros na costa da Venezuela, além de ordenar um bloqueio a embarcações sancionadas que entram e saem do país.

Homayoun Falakshahi, analista sênior de commodities da plataforma de dados Kpler, afirma que os principais obstáculos para empresas petrolíferas interessadas em explorar as reservas venezuelanas são de natureza legal e política.

Em entrevista à BBC, ele disse que quem quiser perfurar poços na Venezuela precisará de um acordo com o governo — algo que não será possível até que o sucessor de Maduro esteja definido.

As empresas, acrescentou Falakshahi, teriam então de apostar bilhões de dólares em investimentos na estabilidade de um futuro governo venezuelano.

"Mesmo que a situação política seja estável, é um processo que leva meses", disse. As companhias interessadas em se beneficiar do plano de Trump precisariam assinar contratos com o novo governo assim que ele estivesse empossado, antes de iniciar o processo de ampliação dos investimentos em infraestrutura na Venezuela.

Analistas também alertam que seriam necessários dezenas de bilhões de dólares — e possivelmente até uma década — para restaurar os antigos níveis de produção do país.

Neil Shearing, economista-chefe do grupo Capital Economics, afirmou que os planos de Trump teriam impacto limitado sobre a oferta global de petróleo e, portanto, sobre os preços.

Ele disse à BBC que há "um número enorme de obstáculos a superar e o prazo do que pode acontecer é tão longo" que os preços do petróleo em 2026 provavelmente sofreriam pouca alteração.

Segundo Shearing, as empresas não investirão enquanto não houver um governo estável na Venezuela, e os projetos não trariam resultados por "muitos e muitos anos".

"O problema sempre foi décadas de subinvestimento, má gestão e o fato de a extração ser muito cara", afirmou.

Ele acrescentou que, mesmo que o país conseguisse retornar a níveis anteriores de produção, de em torno de três milhões de barris por dia, ainda ficaria fora do grupo dos dez maiores produtores do mundo.

Shearing também apontou para a elevada produção entre os países da Opep+, dizendo que o mundo atualmente "não sofre de escassez de petróleo".

A Chevron é a única produtora de petróleo norte-americana ainda ativa na Venezuela, após receber, em 2022, durante o governo do ex-presidente Joe Biden, uma licença para operar apesar das sanções dos EUA.

A empresa, atualmente responsável por cerca de um quinto da extração de petróleo venezuelana, afirmou que está focada na segurança de seus funcionários e que cumpre "todas as leis e regulamentações pertinentes".

Outras grandes empresas petrolíferas permaneceram em silêncio até agora sobre os planos, com apenas a Chevron se manifestando.

Falakshahi disse, no entanto, que executivos do setor devem estar discutindo internamente se vale a pena aproveitar a oportunidade.

Ele acrescentou: "O apetite para ir a um determinado lugar está ligado a dois fatores principais: a situação política e os recursos existentes no território".

Apesar da enorme incerteza política, Falakshahi afirmou que "o prêmio potencial pode ser considerado grande demais para ser ignorado".

¨      Trump afirma que Venezuela 'entregará entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo' aos EUA

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na noite desta terça-feira (06/01) que a Venezuela "entregará" até 50 milhões de barris de petróleo ao seu país.

"Tenho o prazer de anunciar que as autoridades interinas da Venezuela entregarão entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade" aos EUA, escreveu Trump em suas redes sociais.

O petróleo será vendido a preço de mercado, disse o republicano, acrescentando que o dinheiro será controlado por ele e usado para beneficiar as populações da Venezuela e dos EUA.

Trump já havia declarado que a indústria petrolífera dos EUA estaria "em pleno funcionamento" na Venezuela dentro de 18 meses.

Ele disse esperar que enormes investimentos chegassem ao país sul-americano.

Nesta quarta-feira (7/1), a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que o petróleo da Venezuela chegará aos EUA "muito em breve" e será usado para "beneficiar tanto o povo americano quanto o povo venezuelano".

Segundo analistas entrevistados anteriormente pela BBC, seriam necessárias dezenas de bilhões de dólares e até uma década para que o nível de produção que a Venezuela já teve seja restaurado.

O comentário de Trump veio um dia depois de Delcy Rodríguez, vice-presidente da Venezuela enquanto Nicolás Maduro era presidente, ter tomado posse como presidente interina.

Maduro foi detido no sábado (03/01) e levado aos EUA para responder por acusações de tráfico de drogas e porte de armas.

Na segunda-feira (05/01), o presidente dos EUA disse à NBC News: "Ter uma Venezuela produtora de petróleo é bom para os Estados Unidos porque mantém o preço do petróleo baixo."

Representantes das principais empresas petrolíferas americanas planejam se reunir com o governo Trump esta semana, informou a CBS (parceira da BBC nos EUA).

Nesta quarta, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse que os EUA têm "muita influência" sobre o petróleo da Venezuela e que os EUA garantirão acesso para empresas americanas e outras ao mercado.

Rubio disse que os EUA controlarão como o petróleo será distribuído "de forma a beneficiar o povo venezuelano".

Ele afirmou ainda que os EUA garantirão "anistias" para líderes da oposição venezuelana e rejeitou críticas de que o governo Trump estaria "improvisando".

Analistas que falaram à BBC se mostraram céticos quanto aos impactos dos planos de Trump na oferta global e no preço do petróleo.

Para os entrevistados, as empresas do setor buscariam garantias de que um governo estável esteja no poder da Venezuela e, mesmo se investirem lá, seus projetos demorariam anos para dar resultados.

Trump argumentou nos últimos dias que as empresas petrolíferas americanas podem consertar a infraestrutura petrolífera da Venezuela.

O país sul-americano tem reservas estimadas em 303 bilhões de barris — a maior reserva comprovada do mundo —, mas sua produção de petróleo está em declínio desde o início dos anos 2000.

O governo Trump vê nas reservas da Venezuela um potencial significativo para seu próprio futuro energético.

Mas aumentar a produção de petróleo lá seria caro para as empresas americanas.

O petróleo venezuelano é pesado e mais difícil de refinar. Há apenas uma empresa americana, a Chevron, operando atualmente no país.

Questionado sobre os planos de Trump para a produção na Venezuela, o porta-voz da Chevron, Bill Turenne, disse que a empresa "continua focada na segurança e no bem-estar de nossos funcionários, bem como na integridade de nossos ativos".

"Continuamos a operar em total conformidade com todas as leis e regulamentações relevantes", assegurou Turenne.

A ConocoPhillips, petrolífera americana que não opera mais no país sul-americano, "está monitorando os desdobramentos na Venezuela e suas potenciais implicações para o fornecimento e a estabilidade energética global", disse o porta-voz Dennis Nuss.

"Seria prematuro especular sobre quaisquer atividades comerciais ou investimentos futuros", acrescentou Nuss.

Uma terceira empresa, a Exxon, não respondeu imediatamente aos pedidos de posicionamento.

Ao justificar a detenção de Maduro em Caracas, Trump argumentou que a Venezuela "se apropriou e roubou unilateralmente o petróleo americano".

O vice-presidente americano JD Vance ecoou essas alegações após a detenção de Maduro, escrevendo no Twitter que "a Venezuela expropriou propriedades petrolíferas americanas e, até recentemente, usou essas propriedades roubadas para enriquecer e financiar suas atividades narcoterroristas".

A realidade, no entanto, é mais complexa.

As empresas petrolíferas americanas têm uma longa história na Venezuela, extraindo petróleo sob contratos de licença.

A Venezuela nacionalizou sua indústria petrolífera em 1976.

Em 2007, o então presidente Hugo Chávez impôs maior controle estatal sobre o restante de ativos em propriedade estrangeira, afetando diretamente empresas petrolíferas americanas que operavam no país sul-americano.

Em 2019, um tribunal do Banco Mundial ordenou que a Venezuela pagasse US$ 8,7 bilhões em indenização à ConocoPhillips por essa decisão de 2007.

A quantia não foi paga pela Venezuela — portanto, ao menos uma empresa petrolífera americana tem uma indenização pendente a receber.

¨      As suspeitas em torno de aposta que ganhou quase meio milhão de dólares com prisão de Maduro

Um apostador ganhou quase meio milhão de dólares com a captura do presidente da Venezuela pouco antes de o fato ser anunciado oficialmente, levantando questionamentos sobre se alguém lucrou com informações privilegiadas sobre a operação dos EUA.

Apostas na Polymarket, uma plataforma movida a criptomoedas, de que Nicolás Maduro deixaria o poder até o fim de janeiro aumentaram nas horas que antecederam o anúncio feito no sábado (3/1) pelo presidente americano Donald Trump de que o líder venezuelano havia sido detido.

Uma conta, que entrou na plataforma no mês passado e fez quatro apostas, todas relacionadas à Venezuela, lucrou mais de US$ 436 mil (R$ 2,3 milhões) a partir de uma aposta de US$ 32.537 (R$ 175 mil).

Ainda não está claro quem fez a aposta. A conta anônima tinha um identificador de blockchain, tecnologia de registro digital descentralizado, composto por letras e números.

Dados da Polymarket mostram que, na tarde de sexta-feira (2/1), os operadores estimavam as chances de saída de Maduro em apenas 6,5%.

Mas elas haviam saltado para 11% pouco antes da meia-noite e dispararam nas primeiras horas de 3 de janeiro, indicando uma mudança repentina de posições pouco antes de Trump publicar na rede social Truth Social que Maduro estava sob custódia dos EUA.

A Polymarket não respondeu a um pedido de comentário.

"Essa aposta em particular tem todas as características de uma negociação baseada em informação privilegiada", disse Dennis Kelleher, diretor-executivo da Better Markets, grupo apartidário que defende a reforma financeira, à CBS, parceira da BBC nos EUA.

Um pequeno número de outros usuários da Polymarket também ganhou dezenas de milhares de dólares com apostas na captura de Maduro.

<><> Como é a regulamentação de apostas nos EUA

Alguns parlamentares começam a prestar atenção ao tema.

O congressista Ritchie Torres, democrata de Nova York, apresentou na segunda-feira um projeto de lei que busca proibir funcionários do governo de fazer negociações em mercados de previsão se tiverem "informações relevantes não públicas" relacionadas a uma aposta.

Os mercados de apostas ganharam popularidade nos EUA nos últimos anos, com empresas como Polymarket e Kalshi permitindo que usuários apostem em tudo, de esportes a política.

As principais empresas do setor atraíram centenas de milhões de dólares em apostas sobre o resultado da eleição presidencial dos EUA de 2024.

O setor foi alvo de fiscalização e questionamentos por parte de reguladores durante o governo Biden. Mas recebeu uma acolhida mais favorável durante a presidência de Trump.

Donald Trump Jr., filho do presidente, atua em funções de consultoria na Kalshi e na Polymarket.

A negociação com informação privilegiada é ilegal no mercado de ações, mas há menos regulamentações nos mercados de apostas.

Um porta-voz da Kalshi afirmou que o site "proíbe explicitamente qualquer forma de negociação com informação privilegiada, incluindo funcionários do governo negociando em mercados de previsão relacionados a atividades governamentais"

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Nenhum comentário: