'Dinamarqueses
nunca trataram o povo da Groenlândia como iguais. São nossa colônia,
dinamarqueses de segunda classe'
"—
Olha, sua filha é impossível. Ela quer que todo mundo a veja. Essa garota!
Impossível... Levanto a cabeça e vejo a mesma imagem: uma garota miúda como um
pardal, uma mulher jovem, miúda como um pardal, que caminha se equilibrando
sobre um muro de concreto de sete metros de altura. Ela mantém os braços
abertos, de modo que se possa ler claramente o que está escrito em sua
camiseta, sobre o peito: OS MUROS SÃO A GUERRA
Ela
permanece imóvel e, depois, lenta e cuidadosamente, gira sem perder o
equilíbrio em nenhum momento, senta-se com as pernas cruzadas e fica de costas
para as câmeras e para todo um mundo de espectadores. No verso da camiseta,
lê-se: AS PALAVRAS SÃO A PAZ."
A jovem
solitária que se equilibra sobre o muro em um protesto radical nos territórios
ocupados é Joanna. Seu pai, Theodore, acompanha pela televisão o ato da filha,
uma ativista apaixonada pelos direitos dos palestinos. Já ele é um diplomata, o
embaixador da Dinamarca em Berlim, na Alemanha. No terceiro dia de protesto, a
jovem está debilitada; no quarto, as câmeras dos jornalistas se apagam. Ninguém
presencia a sua queda. Nem a sua morte. Quatro anos depois, Theodore decide
investigar o que ocorreu.
A
escritora dinamarquesa de 61 anos,
ensaísta e ex-diplomata da Organização das Nações Unidas (ONU), Janne
Teller, reconhecida internacionalmente por seu livro Nada (Ed.
Record, 2013), apresenta a história narrada acima em seu romance mais recente,
chamado Justiça (em tradução livre), ainda sem previsão de
lançamento no Brasil. O título original, adaptado na edição em espanhol,
era Você está orgulhosa de mim, Joanna? — pergunta que o pai
se faz repetidas vezes durante sua investigação. Pelas causas, pelos culpados,
pela verdade e por aquilo que, às vezes, é impossível: a justiça.
Durante
o Hay Festival de Cartagena (Colômbia), a BBC News Mundo, serviço em espanhol
da BBC, conversou com a autora sobre o livro, sobre essa investigação. E também
abordou a relação dos dinamarqueses com a Groenlândia, hoje no centro das
atenções internacionais diante do interesse de Donald Trump, presidente dos
EUA, em negociar a compra da ilha, de soberania dinamarquesa. "Curiosamente,
o fato de Trump querer se apropriar da Groenlândia abriu espaço para algo
interessante, porque os dinamarqueses nunca trataram os groenlandeses como
iguais. Eles são nossa colônia", diz a escritora. Segundo ele, pessoas da
Groenlândia costumam ser tratadas como "dinamarqueses de segunda
classe".
"O
melhor seria que eles conquistassem maior independência."
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Confira abaixo trechos da entrevista:
·
Como é a busca de Theodore, o pai de Joanna, por justiça?
Janne
Teller: Gosto
de colocar o pai nessa posição porque ele é um homem habilidoso e com recursos.
Ele tem um emprego de alto nível, não é multimilionário, mas tem dinheiro
suficiente para contratar bons advogados. Mas, mesmo assim, existem situações
que escapam ao alcance do sistema legal. Vemos isso no caso de pais de crianças
que sofrem assédio na internet e depois se suicidam; não existem códigos que
cubram esse tipo de coisa. O que resta é um sentimento de injustiça. Esse pai,
mesmo quando descobre a verdade, não tem meios legais para obter justiça. E
surge a pergunta: quando recorremos à violência ou a meios ilegais para
consegui-la?
·
É válido fazer justiça com as próprias mãos, como
Theodore está pensando em fazer?
Teller: Isso é válido em
diversas situações, mas deve ser feito com racionalidade. Não podemos
simplesmente punir, nem mesmo os ladrões que nos roubaram. Isso não contribui
para uma boa sociedade; para isso, existe o sistema legal. Quando ele não dá
conta, então precisamos ver o que podemos fazer por conta própria. Penso na
mudança climática. Acho que os jovens têm toda razão ao dizer que se trata de
uma injustiça imposta pelas gerações mais velhas. Não estou nas ruas com eles,
mas concordo com [a ativista sueca] Greta Thunberg e seus colegas quando eles
obstruem certas reuniões, porque não conseguem obter justiça de outra forma que
não seja tentando criar esse movimento para mudar a política mundial.
·
Mas usar a
violência, como esse pai pensa em fazer…
Teller: Não concordo; nesse
sentido, sou pacifista. Ainda que existam situações em que seja preciso
contraatacar, não se pode dizer aos palestinos ou aos ucranianos que deveriam
ser pacifistas quando tanques e bombas caem sobre eles. Mas, como integrante da
sociedade civil, não concordo com a violência, nem com o que o pai está
pensando em fazer: matar um homem. O maravilhoso da escrita é que você pode
conduzir seus personagens por caminhos que considera errados, desde que
acredite que aquilo faz sentido para eles naquela situação. E o pai está
desesperado. Sente que não tem mais nada pelo que viver além de tentar
compensar a morte da filha. Por isso, vai longe, apesar das próprias dúvidas. É
um plano horrível, eu nunca faria isso, mas consigo entender por que ele age
assim.
·
Diríamos que ele busca mais vingança do que justiça?
Teller: A vingança surge
porque ele não consegue obter justiça. Por isso é tão importante a pergunta do
título original: Você está orgulhosa de mim, Joanna? O fato de ele ser
diplomata e acreditar no diálogo faz com que tenha sempre presente a conversa
que teve com a filha antes de ela morrer: ela acreditava no ativismo, em fazer
as coisas aqui e agora. Mais do que a vingança, ele busca uma ação da qual, em
sua mente, a filha se orgulharia. Ele busca a paz com a morte dela; essa é sua
força motriz, e por isso repete essa pergunta em diferentes situações. Ela se
orgulharia mais se ele atirasse no responsável ou se não o fizesse? Ele não
encontra uma resposta, mas reflete sobre isso.
·
Por que você afirma que, em certos casos, é possível
obter reparações, mas não justiça?
Teller: São situações em que
as pessoas foram mortas, porque elas nunca poderão ser recuperadas. Quando
falamos das guerras na Ucrânia, na Palestina ou em outros lugares, para quem
morre nelas nunca haverá justiça. Talvez ela exista por meio da memória, mas
não para essas pessoas enquanto seres humanos vivos. É aí que entram as
reparações, que são importantes porque dão a sensação de que a injustiça foi
reconhecida a ponto de alguém pagar, ou tentar pagar, por ela.
Vimos
isso na África do Sul, com a Comissão da Verdade e Reconciliação, que foi
extraordinária, quando a população negra disse: "Bem, deixaremos livres os
líderes brancos do apartheid [regime de segregação racial que vigorou no país
entre 1948 e 1991] se eles admitirem o que fizeram e reconhecerem que foi
errado". Foi algo poderoso. O país se uniu no reconhecimento da verdade,
porque não obteria justiça para aqueles que morreram pela causa, mas, olhando
para o futuro, houve reconhecimento. Esse aspecto fundamental de como superaram
as cicatrizes do apartheid foi um mecanismo impressionante.
·
Mas a verdade nem sempre parece suficiente, tampouco no
caso do pai de Joanna…
Teller: A verdade não é
reparação nem justiça. Mas é uma base a partir da qual se pode avançar, se
houver consenso, tanto por parte da vítima quanto do perpetrador. Então,
pode-se dizer: seguimos adiante. Por outro lado, quando a verdade não é
reconhecida, é quase impossível. Você pode tentar esquecer, mas, do ponto de
vista psicológico, estará sempre lidando com um trauma que foi deixado para
trás.
·
No Chile, com o pinochetismo; na Espanha, com o
franquismo; e na Alemanha, com o nazismo, algumas pessoas começam a questionar
certas verdades que haviam sido consensualizas como sociedade. Você observa
esse fenômeno?
Teller: A situação parece
grave para esse nível de verdades compartilhadas. Estive no Chile visitando o
Museu da Memória e dos Direitos Humanos; foi muito impressionante. Mas surgem
líderes que querem ocultar os crimes e dizem que não foi tão grave assim, que
apenas prenderam pessoas más. E [o presidente americano Donald] Trump reescreve
a história americana ao dizer que a escravidão não foi tão terrível assim; ou
ainda vemos pessoas da direita na Alemanha tentando afirmar que os nazistas
nunca cometeram crimes tão atrozes, em vez de se orgulharem de terem conseguido
transformar a sociedade. Isso é perigoso, embora eu seja otimista. Acho que,
quando avançamos no reconhecimento de certas verdades, podem surgir ondas de
pessoas que tentem negá-las, mas não conseguem fazê-lo completamente.
Haverá
uma corrente contrária, e os jovens ainda têm acesso a livros e informações
para formar seus próprios julgamentos. Imagino que, na Rússia, isso deva ser
mais difícil, porque não existe esse acesso. Mas é algo que não podemos tomar
como garantido; precisamos continuar lutando por isso.
·
E o que esse pai e essa filha representam no mundo?
Teller: O pai representa a
tentativa de resolver conflitos por meio de negociações, que às vezes
funcionam, mas costumam ser lentas e, nessa lentidão, as pessoas morrem. Ela,
por sua vez, representa o ativista de todos os tempos: para que as coisas
mudem, é preciso estar nas barricadas agora; não dá para esperar até amanhã.
Para ela, é inaceitável que o mundo político fique paralisado na implementação
de soluções. À medida que envelhecemos, nos tornamos mais pragmáticos, o que é
um lado cínico, mas também mais realista. Em uma situação de guerra, é preciso
encontrar um equilíbrio que funcione olhando para o futuro. Se um cessar-fogo
for imposto, ele não se sustentará a menos que as partes compreendam os
benefícios, e isso leva tempo. Essa é uma luta que tive comigo mesma, porque
trabalhei para as Nações Unidas (ONU) e venho da diplomacia; conheci o lado bom
e ruim dela.
Estive
em Moçambique no processo de paz entre 1993 e 1994, e foi uma das poucas
missões da ONU que deram certo. Mas também vi como tudo desmoronou na
Iugoslávia, onde não foi possível proteger a população. Portanto, conheço as
frustrações. E, desde que me tornei escritora, passei a participar mais do
ativismo, não nas barricadas, mas por meio de petições que podem ter impacto na
imprensa.
Se os
jovens não protestassem contra a mudança climática, o tema não teria destaque
na agenda. Mas eles não podem mudar a lei; para isso, precisamos de diplomatas,
políticos e funcionários com profundo conhecimento do assunto. É bonito dizer
que não deveríamos poluir mais, mas há a produção industrial e agrícola em
jogo. E como aquecer as casas ou manter os hospitais funcionando?
A
conclusão é que precisamos dos dois lados, que não são opostos; como no caso do
pai e da filha, eles estão interligados.
·
Joanna usa uma camiseta que, de um lado, diz "as
palavras são a paz" e, do outro, "os muros são a guerra". Os
muros estão crescendo no mundo?
Teller: Com certeza,
também na Europa. Talvez não um muro físico, mas isso pouco importa quando se
trata de cercas elétricas. Gosto dessas palavras e, claro, elas são ingênuas em
certo sentido, porque às vezes um muro é simplesmente a proteção de antigas
fortalezas. Mas, no mundo moderno, os muros são a guerra. Eles separam pessoas,
por iniciativa de lideranças que não querem que elas se entendam, se conheçam e
se valorizem; mantê-las separadas cria inimigos. Foi o que vimos na antiga
Iugoslávia. Um terço dos casamentos eram mistos, e não se pode permitir que
croatas ou sérvios matem bósnios quando são casados com eles e têm filhos.
Mas, se
você contar histórias horríveis sobre o que um bósnio teria feito a um sérvio,
aos poucos muda a percepção; depois, comete algumas chacinas e culpa os outros
grupos. E de repente, vizinhos começam a se matar entre si; alguns foram
obrigados a matar com uma arma apontada para a cabeça, se não o fizessem,
seriam mortos. Eles iam de casa em casa. Foi horrível. A construção de muros
tem o mesmo efeito: você separa pessoas que, de outra forma, se conheceriam, e
assim fica muito mais fácil criar o mito do inimigo.
·
A queda do Muro de Berlim foi um símbolo para várias
gerações, com a ilusão de que isso não voltaria a acontecer. Mas, 35 anos
depois, essa ideia se dissipou…
Teller: Nossa geração, de
1989 até o início dos anos 1990, pensou: 'Uau! A democracia realmente triunfou
neste mundo! Daqui em diante, só vai melhorar'. Os historiadores vão analisar a
fundo por que isso não aconteceu. Acho que a indústria armamentista é muito
poderosa; ela precisa de inimigos e de guerras. Soma-se a isso a desigualdade
econômica que alguns promovem, porque enriquecem enquanto o resto de nós
empobrece. Há, portanto, pessoas com grande interesse em criar esses muros ou
essas entidades de separação no mundo, porque lucram sempre que há um conflito.
Por exemplo, quem produz armas.
·
A senhora, como dinamarquesa: Donald Trump vai conseguir
ficar com a Groenlândia?
Teller: Ela [Groenlândia]
está muito perto dos EUA, que já mantêm forças ali; basicamente, poderiam
assumir o controle em duas horas. Mas talvez fosse possível negociar com Trump
para encontrar uma forma de deixá-lo satisfeito; chegar a um acordo entre a
Dinamarca, talvez no plano cultural, e os EUA para a defesa. É possível
imaginar diferentes soluções diplomáticas que não impliquem que a Groenlândia
se torne uma colônia americana. Não acho que Trump esteja pronto para dizer:
"Vamos dar à Groenlândia o status de um novo Estado".
No
entanto, como são cerca de 60 mil habitantes, ele possa pensar que o custo de
lhes conceder cidadania seria pequeno em comparação com os recursos da ilha. Não
sei e não acredito que os groenlandeses queiram isso. Em todo caso,
provavelmente estão cansados de fazer parte de outros países. E, como o mundo
ocidental não reagiu quando falávamos de Gaza e da Cisjordânia, e a Europa não
foi firme diante do que ocorreu na Venezuela, é difícil assumir uma
superioridade moral no caso da Groenlândia, porque a situação é semelhante. Talvez
devêssemos reconhecer que, enquanto Trump for presidente, é preciso lidar com o
mundo de outra forma; temos de considerar o poder e, ao menos economicamente, a
Europa é uma potência forte.
Poderíamos
pressionar dizendo: não compraremos armas americanas; não compraremos seus
aviões, o que os prejudicaria e seria necessário para que recuassem. É como se
o único idioma que ele entendesse fosse o do poder. E o poder econômico é o
mais forte para ele.
·
O que seria o justo nesse caso?
Teller: Curiosamente, o fato
de Trump querer se apropriar da Groenlândia abriu espaço para algo
interessante, porque os dinamarqueses nunca trataram os groenlandeses como
iguais. Eles são nossa colônia. E, embora tenham assentos em nosso Parlamento,
são dinamarqueses de segunda classe. O melhor seria que conquistassem maior
independência. São uma unidade autônoma, mas fazem parte da união dinamarquesa,
na qual tomamos decisões sobre política externa, defesa e outras áreas, como a
política de saúde. E há muito do passado a ser compensado, porque, quando a
Dinamarca atuou como colonizadora, os groenlandeses não tinham voz nem voto
sobre suas próprias vidas nem sobre o uso de seus recursos. O reconhecimento
disso pelo governo dinamarquês pode ser um resultado positivo, e já está
acontecendo. Recentemente, pediu desculpas pela esterilização forçada de
mulheres groenlandesas, muitas vezes sem que elas soubessem, para que não
tivessem mais filhos. Também foi criada uma fundação para indenizá-las, ao
menos financeiramente, por essa perda. Por isso, acho que a relação entre a
Dinamarca e a Groenlândia caminha para melhorar graças à pressão americana. Mas
temo que isso possa ter vindo tarde demais, considerando que Trump quer a
Groenlândia.
·
As Nações Unidas perderam seu papel se você compara a sua
época com a de hoje?
Teller: As Nações Unidas
sempre foram algo paradoxal: é uma organização impotente a menos que os Estados
membros lhe concedam poder em situações específicas. No início dos anos 1990,
antes do genocídio em Ruanda e de a Bósnia ser devastada, ainda existia a ideia
de que a ONU poderia ser uma força para a paz.
Mas, em
conflitos nos quais os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU têm
interesses fortes, a ONU pode fazer muito pouco, porque Rússia, China ou os
Estados Unidos exercem o direito de veto. O triste é que, em vez de ser
fortalecida e se tornar mais funcional, com o estilo de Donald Trump a ONU está
se tornando cada vez mais irrelevante. Há cinco ou dez anos, embora houvesse
hipocrisia, ainda se acreditava em seus ideais. Até mesmo o governo Bush
(2001-2009), quando entrou no Iraque, pôde ser responsabilizado pela mentira
sobre a inexistência de armas de destruição em massa. Esses critérios não
existem mais. Há alguns dias, em uma entrevista, Trump disse que não se importa
com o direito internacional. E vimos que os EUA se retiraram da convenção
climática e de outras 50 convenções, que eram a base do funcionamento do mundo
desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
A
agenda geral na Europa é seguir a ordem internacional. No entanto, o governo
dinamarquês, embora social-democrata, quer se retirar de partes da Convenção
Europeia de Direitos Humanos porque isso dificulta a deportação de imigrantes
criminosos da Dinamarca, ou por causa de pontos específicos que não deseja
cumprir.
Eles
não percebem que, se nos retirarmos, tudo começará a desmoronar. Por que alguém
continuaria a seguir a convenção sobre armas químicas ou qualquer outra?
Negociá-las
levou anos, e elas só funcionam se todos as respeitam. Nenhuma é perfeita e nem
todas são plenamente implementadas, mas estabeleceram os ideais que buscávamos
em cada área.
A
convenção contra as armas químicas, ao menos, fez com que líderes pensassem
duas vezes antes de usá-las contra sua própria população. A ONU não é apenas o
melhor que temos; é o único fórum para debater conflitos globais e tentar
enfrentá-los de alguma forma. Precisamos da ONU. Ela poderia ser melhor, mas,
sem ela, o mundo estaria muito pior do que está.
Fonte:
BBC News Mundo

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