A encruzilhada da soberania digital em 2026
O comum das previsões sobre tecnologia
digital para os anos que chegam é sempre analisar as tendências que serão
adotadas e quais possuem mais chance de dominar a cena global. Tudo muito
alimentado pelos relatórios de consultorias privadas interessadas em promover
esta ou aquela novidade. Proponho aqui um olhar menos instrumental e mais
geopolítico, regulatório e econômico para saber como a agenda digital vai se
desenvolver ao longo de 2026.
E faço isso através de quatro eixos sem
previsões peremptórias. Primeiro, o debate sobre soberania digital e a
queda-de-braço entre estados nacionais e as grandes empresas de tecnologia.
Depois, abordarei inteligência artificial sob a perspectiva da corrida
geoeconômica e dos impactos sobre o futuro da web. Será reservado também um
olhar sobre a economia digital, do ponto-de-vista regulatório e de política
industrial. A visão geral da análise é onde o Brasil se encontra neste
tabuleiro.
O ano de 2026 projeta-se como o epicentro de,
como tenho chamado, uma “tempestade perfeita” na agenda digital global, onde a
retórica da neutralidade ruiu e deu lugar ao poder extraterritorial de fato das
chamadas big techs. Cada vez mais, o mundo deixará de discutir a “Internet” no
singular para gerir o fenômeno das “Internets”, marcadas por um federalismo de
confiança e perímetros de soberania calibrada provocada por IA. Para o Brasil,
o ano eleitoral de 2026 será o ano da decisão entre consolidar o sequestro de
sua autonomia tecnológica ou liderar uma reconstrução sistêmica de um
ecossistema digital.
>>>> 1. Soberania Digital: do
discurso à infraestrutura de confiança
A soberania digital deixará de ser tratada
como um conceito abstrato para se tornar um imperativo estratégico de Estado em
2026, definida como a capacidade nacional de entender, desenvolver e regular
efetivamente seus próprios ativos digitais. O cenário global atual é marcado
por um “sequestro silencioso” da autonomia dos países, onde o controle global
de 50% dos cabos submarinos e de dois terços dos serviços de nuvem por três ou
quatro corporações dos Estados Unidos permite que a infraestrutura digital seja
instrumentalizada como ferramenta de coerção geopolítica. Episódios como o
bloqueio de e-mails do Tribunal Penal Internacional pelos EUA demonstram que
decisões administrativas estrangeiras podem paralisar instituições inteiras,
reforçando a urgência de o Brasil consolidar a estratégia do governo federal de
trazer dados críticos para o território nacional até 2030.
Este cenário será marcado fortemente pelos
rumos que tomará o bloco europeu que encontra-se em um dilema: manter a
tradição regulatória do “Efeito Bruxelas” ou o pragmatismo econômico necessário
para competir com os EUA e a China. Os líderes do continente enfrentam o
paradoxo de que a inovação europeia de ponta ainda depende da infraestrutura
massiva dos hyperscalers americanos para treinar seus modelos de IA. Como
resultado da Cúpula de Berlim, os países sacramentaram um recuo estratégico,
propondo o adiamento da vigência de determinados mecanismos do AI Act e a
simplificação do regulamento geral de proteção de dados (GDPR, na sigla em
inglês) para favorecer investimentos locais e evitar que a Europa se torne um
“vassalo tecnológico”, como dito pelo presidente francês, Emmanuel Macron. Essa
nova fase de pragmatismo define a soberania não como uma autossuficiência
irrealista, mas como a capacidade de agir de forma independente e
autodeterminada onde for essencial.
Para o Brasil, a saída dessa dependência
exige a construção de infraestruturas de confiança, priorizando uma nuvem de
governo com autonomia real e gestão estatal direta de dados sensíveis. Modelos
bem-sucedidos em outros países, como o Polo Strategico Nazionale na Itália e o
projeto La Suite Numérique na França, mostram que é possível utilizar chaves de
criptografia sob controle estatal e padrões abertos para garantir que
informações estratégicas permaneçam sob jurisdição nacional. A arquitetura
institucional brasileira para 2026 deve focar em uma política industrial
capitaneada por um órgão capaz de coordenar compras públicas e impedir que o
Estado continue financiando licenças proprietárias que geram aprisionamento
tecnológico (lock-in).
Tudo isso, porém, pode esbarrar no
recrudescimento da ação do governo Trump sobre as demais nações em apoio às
estratégias de suas big techs. Mais do que nunca, por razões econômicas e
políticas, sempre ao sabor do humor presidencial, o longo braço do império
tenderá a defender de forma radical a liberdade destas empresas em atuarem nos
mais diversos países, seguindo apenas as legislações e a jurisdição dos EUA. E
isso será feito por meio de vários instrumentos, acirrando as medidas
comerciais de sanções já postas em prática ao longo de 2025.
>>>> 2. A bolha de IA e a morte
da web
A corrida pela Inteligência Artificial (IA)
generativa atingirá um ponto crítico de saturação em 2026. Nos EUA, o
descompasso entre o investimento massivo em data centers e a demora nos ganhos
reais de produtividade configura uma bolha financeira com risco sistêmico de
reprecificação em cascata que pode estourar no final do ano ou meados de 2027.
O resultado é uma bifurcação econômica entre um núcleo intensivo em IA que puxa
os índices para cima e o restante da economia, que estagna sob o peso da inflação
setorial de energia e insumos.
Diferente do modelo americano, a China adota
uma estratégia de “negócios primeiro, lucro depois”, desacoplando o preço dos
ativos do hype e focando em aplicações “software-first” e código aberto. No
provável cenário de correção de mercado em 2026, surgirá a oportunidade de
capturar o “resíduo produtivo” — composto por GPUs baratas, infraestrutura
ociosa e talentos especializados disponíveis. O desafio estratégico para o
Brasil será criar governanças públicas, como “compute commons”, para absorver
esses ativos e difundir a IA para setores “não-IA”, impedindo que eles sejam
reconcentrados pelas mãos das big techs.
Paralelamente ao risco financeiro, a
estrutura da rede mundial de computadores vem migrando para uma “Internet
Artificial“, onde o ciclo clássico de “busca e clique” é substituído por
mecanismos de resposta direta (answer engines) que retêm o usuário em ecossistemas
fechados. Esse fenômeno é agravado pela deterioração digital, evidenciada pelo
fato de que 38% das páginas de 2013 já desapareceram, e pela “teoria da
internet morta”, na qual agentes autônomos e conteúdo sintético passam a
dominar o tráfego. A web deixa de ser um local de pesquisa para se tornar um
ambiente de “mandar fazer”, removendo os criadores originais da cadeia de
valor.
Na ponta da criação, veículos jornalísticos e
autores independentes tornam-se reféns de técnicas de web scraping que
alimentam modelos de IA sem contrapartida financeira, gerando custos
insustentáveis. A sustentabilidade da web aberta em 2026 dependerá de pressões
regulatórias por modelos de compensação, como o pay-per-crawl, e pela criação
de camadas de identidade que diferenciem humanos de robôs. Sem transparência
algorítmica e proteção contra a “colonização cognitiva”, o espaço público
digital corre o risco de implodir sob o peso de alucinações e da perda de
consciência histórica. A atual corrida pela IA assemelha-se a uma festa de gala
em um palácio construído sobre areia movediça: enquanto os convidados no salão
principal (as big techs e seus investidores) celebram lucros monumentais, as
vigas de sustentação (a web aberta e os produtores de conteúdo) estão sendo
silenciosamente devoradas para manter a estrutura de pé.
>>>> 3. Industrialização digital
e a soberania em silício
O que chamo de “guerra fria azul” ditará o
ritmo da industrialização digital por meio dos semicondutores. A guerra
comercial por este insumo estratégico é marcada desde 2024 pelo uso de
controles de exportação como ferramenta de asfixia geoeconômica, visando
impedir que a China alcance o estado da arte na fabricação de chips. O eixo
central dessa disputa é a aplicação da regra de produto direto estrangeiro
(Foreign-Produced Direct Product Rule – FDPR), que permite aos Estados Unidos
exercerem jurisdição extraterritorial sobre chips fabricados em outros países,
desde que utilizem tecnologia ou software norte-americano em sua produção. Essa
estratégia cria um funil intransponível em pontos de estrangulamento vitais,
como o fornecimento de máquinas de litografia ultravioleta extrema (EUV) e
softwares de design eletrônico (EDA), efetivamente vetando o acesso chinês a
componentes essenciais para supercomputação e inteligência artificial.
Nesse cenário, as indústrias norte-americanas
estão sendo cada vez mais instrumentalizadas como extensões do poder estatal,
configurando o que as fontes chamam de capitalismo estatal de plataforma. O
governo dos EUA mudou seu papel de apenas contratante para investidor direto,
exemplificado pela aquisição de 10% das ações da Intel para garantir a
resiliência da manufatura doméstica e reduzir a dependência de fundições
estrangeiras. Apesar da retórica de isolamento, a relação entre as indústrias
permanece pendular e contraditória: enquanto Washington impõe sanções severas,
também estabelece acordos e licenças que permitem a empresas como a Nvidia e
AMD exportarem chips potentes para o mercado chinês, tentando equilibrar a
proteção da propriedade intelectual com a necessidade de lucro das corporações
do Vale do Silício.
A China responde a essa pressão mobilizando
recursos massivos para quebrar o quase monopólio da Nvidia e desenvolver um
ecossistema de semicondutores totalmente soberano e integrado. Pequim investe
pesadamente em políticas industriais de longo prazo, como o projeto
“Leste-Dados e Oeste-Computação”, e prioriza soluções de código aberto para
mitigar a falta de acesso a insumos controlados pelos EUA e seus aliados. Essa
disputa resulta em um sistema de interoperabilidade seletiva, no qual até
encomendas de outros países, como o Brasil, poderão ser submetidas aos filtros
regulatórios de Washington, forçando as nações a escolherem entre cadeias
tecnológicas rivais e consolidando o chip como a moeda definitiva de poder
geopolítico.
O Brasil, em vez de tentar competir na cadeia
de chips de alta performance, terá espaço para focar em uma “resiliência
inteligente”, priorizando design, empacotamento avançado e manufatura de nós
maduros (28-65nm) essenciais para a indústria civil e de defesa. O Programa
Brasil Semicondutores (Lei 14.968/2024) será o pilar para capturar valor em
elos onde há espaço real, condicionado a parcerias que garantam transferência
de conhecimento e P&D local. Além disso, 2026 marca o provável fim da
moratória da OMC sobre tarifas aduaneiras em transmissões eletrônicas, abrindo
uma janela histórica para o Brasil tributar o fluxo de dados e financiar sua
própria economia digital.
>>>> 4. O papel do Brasil:
regulação econômica e soberania sob pressão geopolítica
Internamente, o Brasil consolidou-se como um
“laboratório a céu aberto” para a atuação das big techs, sendo uma das maiores
potências mundiais em uso de redes sociais e geração de dados, o que torna o
país um alvo estratégico para a extração de valor por empresas estrangeiras. O
desafio interno reside na fragmentação da agenda digital, dispersa em mais de
20 órgãos federais, o que dificulta uma coordenação sistêmica entre política
industrial e regulação. Atualmente, o país busca avançar com o PL 4.675/2025,
que propõe uma regulação econômica ex-ante inspirada no modelo europeu, visando
garantir que parte da riqueza gerada pelos dados brasileiros retorne ao
ecossistema nacional de inovação.
No entanto, essa ambição regulatória enfrenta
fortes pressões geopolíticas, especialmente dos Estados Unidos, que utilizam a
retórica da “solidariedade digital” e da “liberdade de expressão” para proteger
o mercado de suas empresas contra o que classificam como “excessos
regulatórios”. A administração Trump escalou essa tensão ao ameaçar o Brasil
com a Seção 301 da Lei de Comércio, prevendo investigações e a imposição de
tarifas substanciais sobre exportações brasileiras caso o país implemente taxas
ou regulações discriminatórias contra as big techs americanas. Isso ajudou a
fazer com que o governo recuasse de alguns objetivos, como a regulação da
moderação de conteúdos das plataformas digitais. Diante dessa asfixia, o Brasil
pode vir a projetar seu papel no multilateralismo a fim promover a construção
de infraestruturas soberanas que permitam ao Sul Global ditar suas próprias
regras e escapar da dependência de jurisdições extraterritoriais estrangeiras.
O risco de estabelecer essa agenda digital em
um ano de eleições gerais 2026 é agravado pela incerteza jurídica e pelo timing
das decisões institucionais, que podem deixar o país em um perigoso vácuo
normativo no momento de maior vulnerabilidade democrática. A demora no
julgamento dos embargos sobre o Marco Civil da Internet (MCI) pode postergar a
vigência de regras mais rigorosas de moderação de conteúdo, criando um campo
fértil para a proliferação de desinformação, deepfakes e o uso opaco de “IA
afetiva” para manipular o voto de forma personalizada e invisível. Além disso,
há uma convergência de interesses onde o lobby das empresas estrangeiras se
alinha a partidos de oposição para barrar qualquer regulação proativa antes do
pleito, visando manter o laissez-faire digital que beneficia a mobilização de
milícias digitais e compromete a integridade do processo eleitoral.
Como se vê, os percalços não serão poucos
para consolidar uma nova agenda digital para o Brasil e o Sul Global. Em meio a
uma disputa entre China e Estados Unidos no campo de IA, e possivelmente do 6G,
uma bolha financeira e embates em torno da soberania nacional, o Brasil terá
que decidir qual será seu plano de vôo para estes temas. Caberá também aos
candidatos a Presidente deixarem claro para onde decidirão rumar neste tão
incerto mundo da floresta digital em tempos de transição.
Fonte: Por James Görgen, em Outras Palavras

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