Neoimperialismo: se nada será como antes, é
hora de abandonar as velhas soluções
Steven Forti, professor da Universidade
Autônoma de Barcelona, declarou que o retorno de Trump à Casa Branca em janeiro
de 2025 inaugurou uma nova era. O “mundo de ontem”, na expressão de Stefan
Zweig, acabou. Nessa nova era, o neoimperialismo substitui a ordem liberal
global criada no final da Segunda Grande Guerra pela lógica imperial governada
pela mistura da lei da barbárie (a força faz o direito) e a divisão do mundo em
esferas de influência (a nova doutrina trumpista da “geopolítica hemisférica”):
a Rússia cuida da Ucrânia; a China, de Taiwan; Israel, de Gaza; os EUA, do
continente americano acrescido do Canadá e da Groenlândia, etc.
Para a Casa Branca, diplomacia e
multilateralismo são coisas do passado. Organizações supranacionais, como as
Nações Unidas, não são mais reconhecidas como detentoras de qualquer
autoridade, nem mesmo formal. “Chegou a hora dos predadores”, alerta Giuliano
Da Empoli. A nova era assemelha-se à época do imperialismo do final do século
19. Agora trata-se de um hiperimperialismo, ou seja, um novo tipo caracterizado
por uma hegemonia militarizada, coercitiva e tecnologicamente imposta sobre o
Sul Global devido ao declínio do Norte Global.
Portanto, não se trata de um retorno à era
imperialista clássica, e sim do estabelecimento de um sistema internacional
neomonárquico estruturado por um pequeno grupo de elites hiperprivilegiadas.
Chegamos a este ponto após três décadas de
hegemonia neoliberal que, com a força de picaretas e motosserras, demoliu as
paredes de sustentação do edifício tão meticulosamente construído após 1945.
Primeiro, as políticas neoliberais — privatizações, uberização das relações
trabalhistas, cortes nos gastos sociais etc. — enfraqueceram o modelo do Estado
de bem-estar social, aumentaram as desigualdades e fragmentaram a coesão
social. Tudo isso reforçado pelo neoliberalismo ao incutir uma série de
“valores”, como o individualismo desenfreado e a competitividade extrema, a
ponto de se aliar aos setores etnonacionalistas e identitários da direita.
O conceito de democracia vem sendo esvaziado
e o poder efetivo desloca-se para as elites econômicas. O resultado é a configuração de um sistema pós-democrático,
no qual os organismos intermediários — partidos, sindicatos, associações da
sociedade civil — se declinam gradualmente. E os tecnoligarcas assumem o
controle do Estado.
Na era do neoliberalismo triunfante, a
conivência entre os poderes político e econômico era evidente. A influência das
elites econômicas era visível, malgrado as tentativas de ocultá-la. Na nova
era, tudo é feito às escancaras. Isso se aplica tanto à geopolítica quanto às
relações com as potências econômicas. Por um lado, Trump bombardeia Caracas e
sequestra Maduro para controlar diretamente os poços de petróleo venezuelanos.
A palavra “democracia” não aparece em seus discursos e está longe de ser um de
seus objetivos, mesmo que apenas superficialmente.
Por outro, os tecnoligarcas do Vale do
Silício não querem apenas encher os bolsos; defendem abertamente projetos
autoritários e antidemocráticos — novas monarquias absolutas movidas pela
eficiência e governadas por CEOs-reis, seguindo o modelo do Catar ou de
Singapura. Passamos da união entre política e economia do tipo neoliberal
“clássico” para a vontade explícita de capturar o Estado através da criação de
um “complexo tecnológico autoritário” que visa controlar os mecanismos de
governança.
Na era do declínio do neoliberalismo, a
democracia, mesmo como mera formalidade, é considerada um ornamento. De fato,
está reduzida a uma sombra do que já foi. Desde 2008, a porcentagem da
população mundial vivendo em democracias diminui constantemente. Hoje atinge o
modesto patamar de 28% (dado de 2024).
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A tendência é clara. Há cerca de 20 anos,
vivenciamos a primeira grande onda de autocratização desde a Segunda Grande
Guerra. Isto é, cada vez mais países se tornam autocracias eleitorais. Mantêm
uma aparência de respeito às regras democráticas — até mesmo na Rússia de Putin
eleições são realizadas —, mas a democracia é, na melhor das hipóteses, uma
casca vazia. Quer queiramos ou não, a era que se iniciou está destinada a ser a
era das autocracias.
A extrema-direita é o principal ator da nova
era, juntamente com os líderes autoritários no poder em grande parte do mundo —
Putin, Xi Jinping, Erdogan, Modi, os petro-monarcas do Golfo, etc.
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No Ocidente, é a extrema-direita que melhor
representa esta nova era. Ganha terreno eleitoral e chega ao poder em diversos
países, dos EUA à Argentina, de Israel à Itália, da Hungria a El Salvador e ao
Chile. Tão logo tem oportunidade, estabelece sistemas eleitorais autocráticos:
a separação de poderes é corroída, o pluralismo midiático é atacado e os
direitos de grandes segmentos da população desaparecem. O homem forte se
apresenta como representante do povo, despreza os controles democráticos e
coloca em movimento um projeto etnonacionalista reacionário.
Embora existam diferenças e peculiaridades
nacionais — afinal, cada partido é produto da cultura política de seu país —, a
extrema-direita deve ser entendida como uma grande família global. As
referências ideológicas e as estratégias políticas e de comunicação utilizadas
são, na verdade, idênticas. Além disso, participam das mesmas redes
transnacionais formadas por fundações, institutos e think tanks que, nos
últimos anos, têm trabalhado incansavelmente para desenvolver uma agenda comum,
exportável e adaptável a diferentes contextos: veja-se a Heritage Foundation ou
a rede Conservadorismo Nacional.
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Os governos autoritários de direita acreditam
travar uma batalha conjunta contra inimigos comuns: a esquerda, o liberalismo,
o globalismo, o movimento Woke e o politicamente correto. Contudo, as
características desta nova era não são as mesmas do período entre guerras:
passou-se um século desde os regimes de Hitler e Mussolini. O mundo mudou
profundamente: a política de massas já não existe; a atomização, graças à
tecnologia digital, é a marca distintiva desta nova era. O “povo”, a “massa”,
agora se fragmenta em indivíduos encerrados em suas bolhas digitais. O que
temos diante de nós é uma nova extrema-direita que defende um autoritarismo
pós-liberal, anti-igualitário e orientado para a eficiência. As suas raízes
encontram-se no pensamento anti-iluminismo e no reacionarismo antiliberal do
final do século 18.
Nas últimas décadas, ideias extremistas se
normalizaram. Ideias antes consideradas inaceitáveis tornaram-se senso comum e,
como último recurso, são consagradas em lei. Na Rússia e na Hungria, a
homossexualidade é legalmente equiparada à pedofilia. Nos EUA, declarar-se
antifascista implica ser membro de um grupo terrorista. Já não choca ninguém
quando influenciadores proeminentes do movimento Make America Great Again (MAGA
– Fazer a América Grande de Novo, em tradução livre) afirmam publicamente que
as mulheres não deveriam ter o direito ao voto, ou quando o presidente
argentino Javier Milei considera a justiça social um câncer que deve ser
erradicado, ou quando membros do governo israelense definem os palestinos como
“animais” e defendem o genocídio no cenário mundial.
Teorias da conspiração abundam, a começar
pela Grande Substituição, segundo a qual as elites globalistas estariam
executando um plano para substituir a população europeia por imigrantes
muçulmanos. O presidente da maior potência mundial pode declarar repetidamente
sua intenção de anexar outros territórios, mesmo os de países aliados como a
Groenlândia ou o Canadá, desprezando o direito internacional.
A nova era não é apenas a da pós-verdade, da
desinformação e das notícias falsas, mas também um tempo em que a polarização
se tornou comum. Além das consequências da hegemonia neoliberal, essa mudança
não pode ser compreendida sem considerar o impacto das novas tecnologias, que
possibilitaram a disseminação viral de ideias e narrativas extremistas e,
consequentemente, a normalização da extrema-direita e do autoritarismo.
Não é coincidência que as duas últimas
palavras do ano de 2024, segundo o Dicionário Oxford, tenham sido “brain rot”
(apodrecimento cerebral), referindo-se à deterioração mental causada pelo
consumo excessivo de conteúdo online de baixa qualidade e, em 2025, “rage bait”
(isca de raiva), referindo-se a conteúdo online criado para provocar indignação
e gerar fortes reações emocionais, explorando a polarização e o funcionamento
dos algoritmos das redes sociais.
A maioria dos partidos e instituições
democráticas não compreende que tudo mudou. Raciocinam com base em paradigmas
ultrapassados e propõem soluções antiquadas que, além de serem irrealistas
neste século 21, já não despertam qualquer interesse, nem mesmo entre aqueles
que as defendem. Assim, vemos uma direita democrática em claro declínio e em
profunda crise de identidade (vide PSDB). Apesar de seus erros e deficiências,
poucos — Lula, Sánchez, Sheinbaum, Petro, Mamdami — parecem compreender o cerne
da questão: nada será como antes.
A nova era é caracterizada pela renovada
centralidade do uso político da religião em todo o mundo. Embora esse não seja
um fenômeno recente nos mundos muçulmano ou hindu, certamente é no Ocidente
moderno, onde, após décadas de secularização, muitos consideravam a religião
algo do passado. Apesar do aumento do número de ateus e agnósticos, atualmente
líderes autoritários utilizam a religião mais do que nunca, invocando a suposta
proteção de Deus, como se fossem monarcas absolutos por graça divina. Encontramos
suas variações mais díspares nos mundos católico, protestante, evangélico e
ortodoxo, mas também no judaísmo, hinduísmo e islamismo: a bênção do Patriarca
Kirill à invasão da Ucrânia; as referências de Netanyahu ao Antigo Testamento
para justificar o genocídio em Gaza e a ocupação da Cisjordânia; o uso do
hinduísmo por Modi; Trump, que se considera salvo por Deus por ter escapado da
tentativa de assassinato em Boulder; Milei citando compulsivamente a Torá;
Bolsonaro batizado no Rio Jordão e recebendo assistência espiritual de
pastores; a defesa da identidade cristã da Hungria e da Itália por Orbán e
Meloni…
Um novo tipo de nacionalismo cristão, que
caminha lado a lado com o sionismo judaico, está cada vez mais ativo nas
fileiras da extrema-direita. É uma religião que se manifesta de forma
agressiva, excludente e baseada na identidade.
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Diante dessa conjuntura, a resposta à antiga
questão leninista “O que fazer?” só pode ser coletiva. Iludir-se pensando que a
derrota da extrema-direita em uma eleição específica significa uma virada é
pura ilusão. Enquanto isso, podemos evitar cair no abismo. Os partidos
democráticos devem evitar sucumbir ao canto de sereia da extrema-direita e
defender as instituições e os direitos arduamente conquistados. E as
instituições europeias opor-se veementemente ao neoimperialismo autoritário dos
EUA, emergindo da letargia da “vassalagem feliz”.
Neste momento, é necessário desvincular-se do
que se tornou o vínculo atlântico: construir uma autonomia estratégica genuína
— que não pode ser meramente militar e, muito menos, baseada em fundamentos
nacionais — e defender o que resta do multilateralismo, abrindo-se aos atores
democráticos do Sul Global. No mínimo, devem ser envidados esforços para
governar a economia, redistribuir a riqueza e reduzir as desigualdades. E
enfatizar a questão ambiental — agora relegada a segundo plano — e a
tecnológica, com tudo o que isso implica, como a urgente regulação das redes,
pondo fim à dependência das grandes empresas de tecnologia dos EUA, cujos
projetos autoritários devem ser combatidos sem hesitação.
É necessário repensar completamente os
paradigmas existentes: os antigos já não funcionam nesta nova era. Portanto,
devemos reconstruir a sociedade, agora fragmentada e atomizada, criar um senso
de comunidade, que não seja do tipo identitário e etnonacionalista da
extrema-direita, reacender a batalha de ideias, e forjar alianças e redes
transnacionais, porque a solução não pode ser meramente local. Todos devemos
nos comprometer coletivamente.
Fonte: Diálogos do Sul Global

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