Vaquejada:
do mito da tradição à estética da brutalidade
A
vaquejada costuma ser apresentada como herança cultural, como se estabelecesse
uma ligação natural entre o passado rural nordestino e um presente festivo,
supostamente inofensivo. Essa narrativa não se sustenta. O que hoje recebe esse
nome é uma construção recente, forjada por interesses econômicos,
cuidadosamente polida no discurso público e brutal na execução. Uma exibição
que se ancora no mito da tradição para normalizar a violência contra animais e
ocultar uma engrenagem de lucro muito bem organizada.
O
vaqueiro existiu. Existiu a lida árdua no sertão, o manejo do gado em condições
adversas, a improvisação necessária para conter animais soltos na caatinga.
Nada disso está em disputa. A distorção ocorre quando essa experiência
histórica é instrumentalizada para servir de justificativa a um evento
competitivo, estruturado por regulamentos, arquibancadas, grandes premiações,
transmissões ao vivo e patrocínios milionários.
A
vaquejada contemporânea não preserva cultura nem tradição, apenas converte esse
legado em performance de alto rendimento financeiro a serviço de interesses
privados.
O boi,
antes contido para não fugir ou se ferir no mato, passa a ser perseguido até a
queda. O cavalo, reduzido a instrumento de pontuação, tem o corpo explorado
como meio de tração e impacto, submetido a exaustão, dor e risco físico em nome
de um desempenho fabricado. A violência não surge como desvio eventual, mas
como núcleo estrutural da prova. Isso se materializa, por exemplo, quando o
rabo do boi é tracionado com tamanha força que se rompe. Há vários registros de
arrancamento parcial ou total da cauda, além de fraturas, lesões internas e
sofrimento intenso. Nenhuma regulamentação é capaz de neutralizar esse fato
elementar.
Tradições
não são entidades fixas, mas narrativas construídas e mobilizadas conforme
vontades predominantes. Quando uma atividade deixa de responder a uma
necessidade social e passa a obedecer à lógica do mercado, sua própria natureza
se transforma. A vaquejada percorreu esse caminho. Tornou-se um produto
violento, sustentado por uma economia que depende da negação sistemática do
sofrimento animal e da estetização da brutalidade.
O
argumento da antiguidade sequer tem fundamento. O fato de algo ter sido
praticado no passado não o torna automaticamente aceitável no presente. Esse
mesmo raciocínio já foi mobilizado para legitimar injustiças hoje amplamente
reconhecidas como intoleráveis. O pensamento moral avança quando reconhece que
o sofrimento não pode ser relativizado, independentemente da narrativa cultural
que o envolva.
Também
fracassam as tentativas de legitimação técnica. Laudos que minimizam lesões,
protocolos que prometem bem-estar e discursos sobre “animais atletas” não
resistem a uma análise honesta. Derrubar um boi puxando-o pelo rabo em alta
velocidade não é compatível com cuidado. Submeter cavalos a estresse extremo e
esforço desmedido também não se justifica.
Esse
quadro se agrava quando a vaquejada se associa ao discurso ambiental
corporativo. O anúncio de que a Arena Pernambuco sediará a final do Circuito
Nacional BYD de Vaquejada carrega, em si, um peso revelador.
Um
estádio concebido para o encontro público e para a experiência coletiva do jogo
é reconfigurado para acolher uma encenação fundada na assimetria absoluta.
O campo
destinado a um esporte humano, que pressupõe participação voluntária e direito
de recusa, passa a abrigar a submissão de corpos que não têm escolha nem saída.
Esta
transmutação consagra uma inversão perversa de valores e comprova até que ponto
a racionalidade mercantil é capaz de esvaziar o sentido social dos espaços
comuns, transformando lugares de convivência em cenários de dominação
legitimada. Quando um estádio assume essa função, a violência deixa de ser
exceção e passa a integrar a normalidade institucional.
O
principal patrocinador é a BYD, empresa que constrói sua imagem global em torno
da promessa de um “mundo verde”, da inovação sustentável e de um futuro limpo.
A contradição não é mera incoerência, é um caso explícito de greenwashing.
Financiar
a exploração animal como espetáculo esvazia completamente a promessa de um
planeta vivo e saudável, reduzindo-a a uma simples tática mercadológica.
Sustentabilidade pressupõe compromisso ético com toda forma de vida. Não há
horizonte ambiental possível amparado pela naturalização da opressão.
Diante
dessa máquina bem azeitada de lucro e poder, surge uma pergunta inevitável: que
valores nossa sociedade celebra e financia ao aplaudir um evento como esse?
A
resposta não é abstrata e se corporifica no caso da Arena Pernambuco. A
vaquejada persiste não por força cultural espontânea, mas por alianças
políticas, interesses econômicos e permissividade estatal. Perdura porque ainda
encontra abrigo em discursos que confundem identidade com abuso. Mas
narrativas, por mais arraigadas que pareçam, não são eternas.
A
vaquejada, tal como praticada hoje, não representa o meu Nordeste – Pernambuco
é meu berço – , não honra o vaqueiro histórico, e distorce a cultura popular.
Apenas desnuda um modelo ultrapassado de relação com os animais, cada vez mais
incompatível com qualquer concepção consistente de justiça e futuro.
Desmontar
esse mito não significa atacar a cultura nordestina, mas libertá-la de uma
caricatura violenta que lhe foi imposta. Significa afirmar que tradição não é
imobilidade.
O
critério é inequívoco. Uma sociedade não se mede por seus rituais de poder, mas
pela capacidade de estabelecer limites éticos diante de seres sencientes
submetidos à exploração. E, entre todos os expostos à arbitrariedade humana, os
animais seguem ocupando a posição mais vulnerável.
Quando
a dor se converte em diversão, o que está em questão não é a cultura, é a
falência moral do entretenimento.
Fonte:
Por Por Silvana Andrade, em Outras Palavras

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