Luiz
Marques: O declínio do homem público
Após a
morte do imperador Augusto, a decadência de Roma leva à indiferença com a vida
pública. Eis o motivo da atração dos romanos pela transcendência da religião
cristã, em meio à acelerada erosão moral e à corrupção que minava a República.
A
ansiedade que toma conta dos indivíduos joga para escanteio os assuntos do
Estado, em proveito da preocupação com a salvação particular das almas. Para
Richard Sennett, em O declínio do homem público: As tiranias da
intimidade, esse processo degenerativo se expande pelo Ocidente desde os
anos 1970.
O vácuo
social e a inflação egoica incentivam os ideais da autorrealização, hoje
empreendedorismo, isolando o destino pessoal da solidariedade institucional. Os
espertos se aproveitam do clima de desamparo para faturar com palestras de
autoajuda. “O mundo dos sentimentos íntimos perde suas fronteiras; não se acha
mais refreado por um mundo público onde as pessoas fazem um investimento
alternativo e balanceado de si mesmas”.
Forma-se
uma comunidade que não descreve a vontade geral, mas subjetividades envelopadas
no solipsismo. Os relacionamentos são considerados autênticos, quanto mais
próximos estiverem do âmbito das relações pessoais. Nesta perspectiva, os males
da sociedade são condensados “na impessoalidade, na alienação e na frieza; a
soma dos três constitui a ideologia da intimidade”.
A fé
condominial supera o solidarismo de classe, que envolve estranhos. A opção é
por uma racialidade e um perfil socioeconômico similares. A estrutura intimista
comprime a sociabilidade com a interação entre iguais. O higienismo constrói
barricadas na periferia e equipamentos urbanos em zonas nobres. Desnecessário
lembrar que esta versão de fraternidade conduz ao fratricídio pela via cheia de
pedras do racismo e da aporofobia.
O theatrum
mundi exacerba a lógica do casulo em detrimento do exercício de
cidadão e cidadã. O gozo em grupos escapistas bloqueia a luta pela fruição
completa da cidade, que evoca sempre uma possibilidade de intercâmbios com a
diversidade. Privatizar a convivialidade encoraja as posturas retraídas e, no
limite, violentas. Para não mencionar as doenças do psiquismo: o medo da
alteridade, a inibição emocional e a desordem cognitiva.
A
procura por interesses comuns é substituída pelo conforto da identidade comum.
O “homem cordial” no circuito de valores da família e dos amigos tem horror à
impessoalidade. Recusa a regra básica da democracia – a lei é para todos
indistintamente. Rompe com o regime democrático. O compadrio deixa fértil o
terreno ao Estado de exceção autoritário, sob um palhaço sociopata.
A
cultura da personalidade do século XIX, ilustrada pelos romances de Honoré de
Balzac (1799-1850), Charles Dickens (1812-1870) e Machado de Assis (1839-1908),
deteriora a vocação pública e o cuidado com o patrimônio público. O carisma
secular aparece no strip-tease psíquico dos políticos no
decênio 1930, pela incivilidade e exibicionismo. O filme de Charlie
Chaplin, O grande ditador, capta o fenômeno com humor.
O
jornalismo é compulsivamente personalista, faz da vida privada dos governantes
o centro das notícias para explicar o xadrez de posições, na esfera pública.
Com o que o bom pai de família sobrepuja o responsável pela austeridade fiscal
que espalha a miséria. Trata-se de uma “pessoa de bem”; o tom é de aceitação.
Em contrapartida, quem denuncia o genocídio palestino na Faixa de Gaza, pelo
governo de Israel, é acusado de “terrorista”.
Como no
antigo mito, Narciso não percebe o perigo de se importar somente consigo.
Embevecido com sua beleza refletida na superfície do lago, cai e se afoga (no
eu). A cultura voltada ao egocentrismo é trágica. A tirania da intimidade barra
a emancipação coletiva e camufla o evanescimento da res publica,
enquanto a extrema direita simula a vingança contra o “sistema”.
Que
falta fazem o civismo do heroico Salvador Allende, o primeiro socialista eleito
presidente na América Latina (1970-1973), e o nacionalismo do sábio Pepe
Mujica, o presidente simplesmente humano do Uruguai (2010-2015). Nosso tempo
carece de heroísmo e sabedoria no ajuste de contas com o irracionalismo que
paira sobre o futuro. Contudo, novas luzes surgem na manhã a exemplo da
improvável estrela de Lula.
No
Brasil, o obscurantismo ganha fôlego no impeachment da mulher
honesta com um programa popular. Aprofunda-se no lawfare midiático-judicial
do estadista para sepultar a esquerda, e esbarra no golpe flopado da elite
vira-lata. O agravante agora é o Congresso Nacional que protege o crime
organizado e as grandes fortunas para ferrar os pequenos. No livre mercado da
hipocrisia, o povo assiste – não sem indignação e disposição de luta nas ruas –
ao vergonhoso e desaforado declínio do homem público.
Parlamentares
impúblicos moldam-se em emendas impositivas milionárias, de costas para a
sociedade e o meio ambiente, e votam na madrugada a anistia para os inimigos da
democracia. Julgam-se acima da lei e da justiça. Os escândalos de lesa-pátria
coram até os frades de vitrais, tamanho o descaramento. “Que é feito daquelas
caras / escondendo o seu segredo?” – indaga a poeta.
¨ Insegurança
informacional: quando a mídia cria um país mais violento do que ele realmente
é. Por Cleyton Douglas Vital
A
sensação de insegurança no Brasil tornou-se uma das marcas afetivas mais
persistentes da vida pública. Embora a violência letal apresente tendência de
queda, a percepção de perigo permanece elevada — e, em alguns casos, mais
intensa do que há uma década. Esse descompasso tem sido interpretado por
pesquisadores como um sintoma de um fenômeno mais amplo: a insegurança
informacional, quando a percepção do risco é moldada menos pela realidade
empírica e mais pelo ambiente comunicacional que organiza, amplifica e estetiza
o medo.
Os
dados oficiais ilustram essa contradição. O Atlas da Violência 2025, do
Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 45.747
homicídios em 2023, a menor taxa em 11 anos (21,2 por 100 mil habitantes). Em
2024, segundo o Mapa da Segurança Pública do governo federal, houve
nova queda: 35.365 homicídios dolosos, 6,3% a menos do que no ano
anterior. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 também
aponta redução nas Mortes Violentas Intencionais, que somaram 44.127
casos em 2024, reforçando o movimento descendente dos últimos anos.
Apesar
disso, a sensação coletiva de que o país vive sob ameaça constante permanece
inalterada. Para o sociólogo Zygmunt Bauman, o medo contemporâneo é
“difuso, flutuante e desancorado”, resultado de uma sociedade que já não
organiza o risco por fronteiras claras. A violência que antes parecia
localizada — em momentos ou territórios específicos — torna-se percepção
ubíqua. A mídia, ao veicular acontecimentos violentos como fluxo contínuo,
alimenta justamente esse medo líquido: um sentimento que não se prende ao fato,
mas à possibilidade permanente do fato.
A
circulação digital intensifica essa lógica. Em plataformas sociais, vídeos de
crimes circulam sem contexto temporal ou espacial. Um assalto de 2016 pode
viralizar como se fosse de ontem; um ataque isolado em outro país pode ser
interpretado como parte da realidade brasileira. O ambiente informacional se
aproxima daquilo que Ulrich Beck descreveu como “sociedade de risco”:
não apenas uma sociedade que vive perigos concretos, mas uma sociedade que
produz riscos simbolicamente, por meio de discursos, imagens e expectativas. O
risco, assim, é menos aquilo que acontece e mais aquilo que poderia acontecer —
um futuro ameaçador projetado continuamente no presente.
Nesse
cenário, os meios de comunicação desempenham papel fundamental.
Para Niklas Luhmann, os meios não apenas transmitem informações: eles
constroem a realidade social ao definir o que merece ser percebido. A mídia
opera como um sistema que seleciona acontecimentos, cria relevância, atribui
sentido e estabelece hierarquias. Quando a cobertura enfatiza o extraordinário
— crimes dramáticos, episódios violentos, narrativas de choque — ela cria uma
percepção de que tais episódios são mais frequentes do que realmente são. A
lógica da notícia, centrada na excepcionalidade, acaba produzindo um efeito
paradoxal: aquilo que é exceção passa a ser percebido como norma.
Essa
lógica é reforçada pela economia política da comunicação. Herman e
Chomsky, no clássico Manufacturing Consent, explicam que o
noticiário é filtrado por interesses estruturais — entre eles, a busca por
audiência. No Brasil, programas policialescos se beneficiam diretamente da
dramatização da violência. A repetição de cenas de assalto, perseguições e
homicídios é acompanhada de narrativas indignadas, trilhas tensas e comentários
moralizantes. A violência, nesses programas, não é apenas notícia: é espetáculo.
E, como todo espetáculo, obedece a uma dramaturgia própria, mais preocupada com
impacto emocional do que com precisão contextual.
O
resultado é um aumento da sensação de risco independente do comportamento real
da criminalidade. Para David Garland, autor de A Cultura do
Controle, sociedades contemporâneas tendem a transformar a segurança
pública em uma questão emocional. O medo, mais do que os dados, passa a
orientar o debate. No Brasil, isso se traduz em apoio recorrente a políticas de
endurecimento penal, mesmo quando a violência letal cai. A insegurança
informacional, assim, converte-se em força política — capaz de influenciar eleições,
fortalecer discursos punitivos e legitimar intervenções estatais mais duras,
frequentemente dirigidas aos mesmos grupos racializados e vulneráveis.
Essa
dinâmica tem efeitos territoriais. O medo constrói mapas simbólicos da cidade.
Bairros periféricos, frequentemente associados ao crime pela mídia, tornam-se
sinônimo de perigo. A violência é territorializada simbolicamente, mesmo quando
os dados oficiais mostram distribuição desigual e complexa. O
sociólogo Pierre Bourdieu chamaria esse processo de violência
simbólica: uma forma de imposição de percepções que naturaliza
desigualdades e coloca determinados grupos em posição permanente de suspeição.
Jovens negros das periferias, alvo recorrente de representações midiáticas,
sofrem não apenas estigmatização social, mas abordagens policiais
intensificadas e discriminação cotidiana.
O medo,
contudo, não opera apenas na esfera macro. Ele impacta também o cotidiano,
levando indivíduos a alterar rotas, restringir circulação, evitar espaços
públicos e adotar estratégias defensivas, mesmo quando os dados mostram redução
da violência. O escritor Richard Sennett, ao analisar a transformação do
espaço urbano, mostra como o medo fragmenta a vida pública: a cidade deixa de
ser espaço de convivência e torna-se território de vigilância. A retração
cívica é uma das consequências da insegurança informacional — e tem implicações
profundas para a democracia e para a qualidade de vida urbana.
A
mídia, por sua vez, muitas vezes organiza sua cobertura da violência como
ritual. Katz e Dayan, ao analisarem os “eventos midiáticos”, descrevem
como certos acontecimentos são estruturados de modo a produzir coesão social em
torno de emoções compartilhadas. Programas policialescos funcionam assim:
convocam o público a participar de uma experiência comunitária de indignação,
medo e julgamento moral. Mais do que informar, constroem uma comunhão emocional
baseada na ameaça.
Nada
disso significa que a violência no Brasil seja pequena ou irrelevante. Pelo
contrário: é grave e persistente, especialmente em regiões marcadas pela
desigualdade. O problema é que, ao difundir a violência sem contexto e fora de
proporção, a mídia empobrece o debate público e dificulta o desenvolvimento de
políticas eficazes. A insegurança informacional transforma fenômenos complexos
em caricaturas emocionais, bloqueando a percepção de avanços reais e
obscurecendo as causas estruturais da violência — como desigualdade, ausência
de políticas preventivas, precarização das relações de trabalho e racismo
institucional.
A
resposta para esse cenário não é silenciar a violência, mas contextualizá-la.
Uma cobertura responsável deve trazer dados, discutir tendências, revelar
nuances e mostrar contradições. Deve, sobretudo, ajudar a sociedade a
compreender que a violência não é um fluxo homogêneo de caos, mas um fenômeno
multifacetado, influenciado por fatores sociais, econômicos, políticos e
históricos. Sem isso, permaneceremos aprisionados em um ciclo em que a
percepção do perigo supera a realidade — e em que o medo se torna instrumento
de controle social.
A
insegurança informacional é, portanto, um dos maiores desafios do debate
público brasileiro. Reduzi-la exige alfabetização midiática, políticas de
comunicação, jornalismo comprometido com o contexto e uma sociedade capaz de
diferenciar fatos de atmosferas emocionais. Em um país tão desigual e tão
afetado pela violência, compreender a realidade é o primeiro passo para
transformá-la.
Fonte:
A Terra é Redonda/Observatório da Imprensa

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