sexta-feira, 30 de janeiro de 2026


 

Luiz Marques: O declínio do homem público

Após a morte do imperador Augusto, a decadência de Roma leva à indiferença com a vida pública. Eis o motivo da atração dos romanos pela transcendência da religião cristã, em meio à acelerada erosão moral e à corrupção que minava a República.

A ansiedade que toma conta dos indivíduos joga para escanteio os assuntos do Estado, em proveito da preocupação com a salvação particular das almas. Para Richard Sennett, em O declínio do homem público: As tiranias da intimidade, esse processo degenerativo se expande pelo Ocidente desde os anos 1970.

O vácuo social e a inflação egoica incentivam os ideais da autorrealização, hoje empreendedorismo, isolando o destino pessoal da solidariedade institucional. Os espertos se aproveitam do clima de desamparo para faturar com palestras de autoajuda. “O mundo dos sentimentos íntimos perde suas fronteiras; não se acha mais refreado por um mundo público onde as pessoas fazem um investimento alternativo e balanceado de si mesmas”.

Forma-se uma comunidade que não descreve a vontade geral, mas subjetividades envelopadas no solipsismo. Os relacionamentos são considerados autênticos, quanto mais próximos estiverem do âmbito das relações pessoais. Nesta perspectiva, os males da sociedade são condensados “na impessoalidade, na alienação e na frieza; a soma dos três constitui a ideologia da intimidade”.

A fé condominial supera o solidarismo de classe, que envolve estranhos. A opção é por uma racialidade e um perfil socioeconômico similares. A estrutura intimista comprime a sociabilidade com a interação entre iguais. O higienismo constrói barricadas na periferia e equipamentos urbanos em zonas nobres. Desnecessário lembrar que esta versão de fraternidade conduz ao fratricídio pela via cheia de pedras do racismo e da aporofobia.

theatrum mundi exacerba a lógica do casulo em detrimento do exercício de cidadão e cidadã. O gozo em grupos escapistas bloqueia a luta pela fruição completa da cidade, que evoca sempre uma possibilidade de intercâmbios com a diversidade. Privatizar a convivialidade encoraja as posturas retraídas e, no limite, violentas. Para não mencionar as doenças do psiquismo: o medo da alteridade, a inibição emocional e a desordem cognitiva.

A procura por interesses comuns é substituída pelo conforto da identidade comum. O “homem cordial” no circuito de valores da família e dos amigos tem horror à impessoalidade. Recusa a regra básica da democracia – a lei é para todos indistintamente. Rompe com o regime democrático. O compadrio deixa fértil o terreno ao Estado de exceção autoritário, sob um palhaço sociopata.

A cultura da personalidade do século XIX, ilustrada pelos romances de Honoré de Balzac (1799-1850), Charles Dickens (1812-1870) e Machado de Assis (1839-1908), deteriora a vocação pública e o cuidado com o patrimônio público. O carisma secular aparece no strip-tease psíquico dos políticos no decênio 1930, pela incivilidade e exibicionismo. O filme de Charlie Chaplin, O grande ditador, capta o fenômeno com humor.

O jornalismo é compulsivamente personalista, faz da vida privada dos governantes o centro das notícias para explicar o xadrez de posições, na esfera pública. Com o que o bom pai de família sobrepuja o responsável pela austeridade fiscal que espalha a miséria. Trata-se de uma “pessoa de bem”; o tom é de aceitação. Em contrapartida, quem denuncia o genocídio palestino na Faixa de Gaza, pelo governo de Israel, é acusado de “terrorista”.

Como no antigo mito, Narciso não percebe o perigo de se importar somente consigo. Embevecido com sua beleza refletida na superfície do lago, cai e se afoga (no eu). A cultura voltada ao egocentrismo é trágica. A tirania da intimidade barra a emancipação coletiva e camufla o evanescimento da res publica, enquanto a extrema direita simula a vingança contra o “sistema”.

Que falta fazem o civismo do heroico Salvador Allende, o primeiro socialista eleito presidente na América Latina (1970-1973), e o nacionalismo do sábio Pepe Mujica, o presidente simplesmente humano do Uruguai (2010-2015). Nosso tempo carece de heroísmo e sabedoria no ajuste de contas com o irracionalismo que paira sobre o futuro. Contudo, novas luzes surgem na manhã a exemplo da improvável estrela de Lula.

No Brasil, o obscurantismo ganha fôlego no impeachment da mulher honesta com um programa popular. Aprofunda-se no lawfare midiático-judicial do estadista para sepultar a esquerda, e esbarra no golpe flopado da elite vira-lata. O agravante agora é o Congresso Nacional que protege o crime organizado e as grandes fortunas para ferrar os pequenos. No livre mercado da hipocrisia, o povo assiste – não sem indignação e disposição de luta nas ruas – ao vergonhoso e desaforado declínio do homem público.

Parlamentares impúblicos moldam-se em emendas impositivas milionárias, de costas para a sociedade e o meio ambiente, e votam na madrugada a anistia para os inimigos da democracia. Julgam-se acima da lei e da justiça. Os escândalos de lesa-pátria coram até os frades de vitrais, tamanho o descaramento. “Que é feito daquelas caras / escondendo o seu segredo?” – indaga a poeta.

¨      Insegurança informacional: quando a mídia cria um país mais violento do que ele realmente é. Por Cleyton Douglas Vital

A sensação de insegurança no Brasil tornou-se uma das marcas afetivas mais persistentes da vida pública. Embora a violência letal apresente tendência de queda, a percepção de perigo permanece elevada — e, em alguns casos, mais intensa do que há uma década. Esse descompasso tem sido interpretado por pesquisadores como um sintoma de um fenômeno mais amplo: a insegurança informacional, quando a percepção do risco é moldada menos pela realidade empírica e mais pelo ambiente comunicacional que organiza, amplifica e estetiza o medo.

Os dados oficiais ilustram essa contradição. O Atlas da Violência 2025, do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou 45.747 homicídios em 2023, a menor taxa em 11 anos (21,2 por 100 mil habitantes). Em 2024, segundo o Mapa da Segurança Pública do governo federal, houve nova queda: 35.365 homicídios dolosos, 6,3% a menos do que no ano anterior. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 também aponta redução nas Mortes Violentas Intencionais, que somaram 44.127 casos em 2024, reforçando o movimento descendente dos últimos anos.

Apesar disso, a sensação coletiva de que o país vive sob ameaça constante permanece inalterada. Para o sociólogo Zygmunt Bauman, o medo contemporâneo é “difuso, flutuante e desancorado”, resultado de uma sociedade que já não organiza o risco por fronteiras claras. A violência que antes parecia localizada — em momentos ou territórios específicos — torna-se percepção ubíqua. A mídia, ao veicular acontecimentos violentos como fluxo contínuo, alimenta justamente esse medo líquido: um sentimento que não se prende ao fato, mas à possibilidade permanente do fato.

A circulação digital intensifica essa lógica. Em plataformas sociais, vídeos de crimes circulam sem contexto temporal ou espacial. Um assalto de 2016 pode viralizar como se fosse de ontem; um ataque isolado em outro país pode ser interpretado como parte da realidade brasileira. O ambiente informacional se aproxima daquilo que Ulrich Beck descreveu como “sociedade de risco”: não apenas uma sociedade que vive perigos concretos, mas uma sociedade que produz riscos simbolicamente, por meio de discursos, imagens e expectativas. O risco, assim, é menos aquilo que acontece e mais aquilo que poderia acontecer — um futuro ameaçador projetado continuamente no presente.

Nesse cenário, os meios de comunicação desempenham papel fundamental. Para Niklas Luhmann, os meios não apenas transmitem informações: eles constroem a realidade social ao definir o que merece ser percebido. A mídia opera como um sistema que seleciona acontecimentos, cria relevância, atribui sentido e estabelece hierarquias. Quando a cobertura enfatiza o extraordinário — crimes dramáticos, episódios violentos, narrativas de choque — ela cria uma percepção de que tais episódios são mais frequentes do que realmente são. A lógica da notícia, centrada na excepcionalidade, acaba produzindo um efeito paradoxal: aquilo que é exceção passa a ser percebido como norma.

Essa lógica é reforçada pela economia política da comunicação. Herman e Chomsky, no clássico Manufacturing Consent, explicam que o noticiário é filtrado por interesses estruturais — entre eles, a busca por audiência. No Brasil, programas policialescos se beneficiam diretamente da dramatização da violência. A repetição de cenas de assalto, perseguições e homicídios é acompanhada de narrativas indignadas, trilhas tensas e comentários moralizantes. A violência, nesses programas, não é apenas notícia: é espetáculo. E, como todo espetáculo, obedece a uma dramaturgia própria, mais preocupada com impacto emocional do que com precisão contextual.

O resultado é um aumento da sensação de risco independente do comportamento real da criminalidade. Para David Garland, autor de A Cultura do Controle, sociedades contemporâneas tendem a transformar a segurança pública em uma questão emocional. O medo, mais do que os dados, passa a orientar o debate. No Brasil, isso se traduz em apoio recorrente a políticas de endurecimento penal, mesmo quando a violência letal cai. A insegurança informacional, assim, converte-se em força política — capaz de influenciar eleições, fortalecer discursos punitivos e legitimar intervenções estatais mais duras, frequentemente dirigidas aos mesmos grupos racializados e vulneráveis.

Essa dinâmica tem efeitos territoriais. O medo constrói mapas simbólicos da cidade. Bairros periféricos, frequentemente associados ao crime pela mídia, tornam-se sinônimo de perigo. A violência é territorializada simbolicamente, mesmo quando os dados oficiais mostram distribuição desigual e complexa. O sociólogo Pierre Bourdieu chamaria esse processo de violência simbólica: uma forma de imposição de percepções que naturaliza desigualdades e coloca determinados grupos em posição permanente de suspeição. Jovens negros das periferias, alvo recorrente de representações midiáticas, sofrem não apenas estigmatização social, mas abordagens policiais intensificadas e discriminação cotidiana.

O medo, contudo, não opera apenas na esfera macro. Ele impacta também o cotidiano, levando indivíduos a alterar rotas, restringir circulação, evitar espaços públicos e adotar estratégias defensivas, mesmo quando os dados mostram redução da violência. O escritor Richard Sennett, ao analisar a transformação do espaço urbano, mostra como o medo fragmenta a vida pública: a cidade deixa de ser espaço de convivência e torna-se território de vigilância. A retração cívica é uma das consequências da insegurança informacional — e tem implicações profundas para a democracia e para a qualidade de vida urbana.

A mídia, por sua vez, muitas vezes organiza sua cobertura da violência como ritual. Katz e Dayan, ao analisarem os “eventos midiáticos”, descrevem como certos acontecimentos são estruturados de modo a produzir coesão social em torno de emoções compartilhadas. Programas policialescos funcionam assim: convocam o público a participar de uma experiência comunitária de indignação, medo e julgamento moral. Mais do que informar, constroem uma comunhão emocional baseada na ameaça.

Nada disso significa que a violência no Brasil seja pequena ou irrelevante. Pelo contrário: é grave e persistente, especialmente em regiões marcadas pela desigualdade. O problema é que, ao difundir a violência sem contexto e fora de proporção, a mídia empobrece o debate público e dificulta o desenvolvimento de políticas eficazes. A insegurança informacional transforma fenômenos complexos em caricaturas emocionais, bloqueando a percepção de avanços reais e obscurecendo as causas estruturais da violência — como desigualdade, ausência de políticas preventivas, precarização das relações de trabalho e racismo institucional.

A resposta para esse cenário não é silenciar a violência, mas contextualizá-la. Uma cobertura responsável deve trazer dados, discutir tendências, revelar nuances e mostrar contradições. Deve, sobretudo, ajudar a sociedade a compreender que a violência não é um fluxo homogêneo de caos, mas um fenômeno multifacetado, influenciado por fatores sociais, econômicos, políticos e históricos. Sem isso, permaneceremos aprisionados em um ciclo em que a percepção do perigo supera a realidade — e em que o medo se torna instrumento de controle social.

A insegurança informacional é, portanto, um dos maiores desafios do debate público brasileiro. Reduzi-la exige alfabetização midiática, políticas de comunicação, jornalismo comprometido com o contexto e uma sociedade capaz de diferenciar fatos de atmosferas emocionais. Em um país tão desigual e tão afetado pela violência, compreender a realidade é o primeiro passo para transformá-la.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Observatório da Imprensa


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