O
discurso de ódio
Conhecida
por sua teoria da “aporofobia”, a sistêmica aversão aos pobres e a pobreza,
Adela Cortina, filósofa espanhola, em seu estudo sobre as patologias sociais
contemporâneas, também nos oferece uma valorosa análise para dissecar a
anatomia (a organização estrutural) dos discursos de ódio.
Para
Adela Cortina, longe de serem meras opiniões agressivas ou insultos isolados,
os discursos de ódio são expressões irracionais de exclusão, desprezo e
manutenção de estratificações sociais que podemos analisar taxonomicamente em
seis verificações: a despersonalização do outro (convertido em um coletivo
abstrato); a estereotipação estigmatizante dessa coletividade; a crença em uma
desigualdade hierárquica natural; a negação da humanidade e dignidade alheia; a
precariedade argumentativa e a limitação das percepções de humanidade
possíveis.
Em
primeira instância, segundo Adela Cortina, tais discursos têm como principal
característica se dirigirem “contra um indivíduo, não porque esse indivíduo
tenha causado dano algum ao falante, mas porque goza de um traço que o inclui
em um determinado coletivo”. Assim, o alvo nunca é o indivíduo em sua
singularidade, mas sim o coletivo ao qual ele é arbitrariamente reduzido.
O
agressor não ataca “Douglas”, “Gustavo, “Lia” ou “Julia”, mas “um mendigo”, “um
imigrante”, “um velho”, “um gay”, “uma mulher”, “um muçulmano”. A pessoa
concreta dissolve-se no estereótipo do grupo, tornando-se intercambiável. Como
ilustra Adela Cortina, “Cada uma das vítimas poderia ser trocada por outra do
grupo com a que compartilha o traço ao qual se dirigem a intolerância e a
rejeição do agressor”. Para ela, essa característica fundamental diferencia o
discurso de ódio de uma reação indignada a uma injustiça concreta, que se
dirigiria a um agressor específico.
Ainda
segundo a filósofa, nesta abstração criada, aquele que deseja odiar dedica-se à
construção de uma narrativa difamatória que justifica o desprezo à categoria
criada ao grupo do outro, “atribuindo-lhe atos que são prejudiciais à
sociedade, ainda que seja difícil de comprová-los”.
Adela
Cortina observa que se atribuem ao grupo “atos que são prejudiciais à
sociedade, ainda que seja difícil de comprová-los, se não impossível, porque em
certas ocasiões remetem a uma história remota que foi gerando preconceito ou se
formam através de murmúrios e fofocas”. Se, no primeiro movimento, há a
construção de um coletivo abstrato para atacar, no segundo, cria-se um outro
coletivo abstrato: o nós, que, na narrativa criada, assume-se como vítima.
O que
nos leva a outra característica dos discursos dessa natureza: aqueles que o
proferem possuem uma genuína convicção de uma assimetria ontológica entre ele e
sua vítima. Para Adela Cortina, o agressor não se vê como um igual que se
desentendeu com outro igual; ele parte do pressuposto de que ocupa uma posição
superior inata em relação ao outro: assim, cria-se, em si, não uma escolha em
discursar contra o outro, mas um direito, uma obrigação em fazê-lo. Essa
suposta superioridade é o combustível que alimenta a necessidade de desprezar e
agredir. O discurso de ódio serve, então, como uma ferramenta ideológica no
sentido marxiano, uma “visão deformada e deformante da realidade que permite ao
grupo bem situado fortalecer essa ‘superioridade estrutural’ e manter a
identidade subordinada das vítimas”.
É essa
convicção de superioridade que leva à violação mais grave do ponto de vista
ético: a negação da humanidade e da dignidade do outro. Adela Cortina recorre
ao imperativo categórico de Immanuel Kant para destacar a gravidade dessa
violação. Segundo ela, os crimes de ódio “supõem uma violação flagrante do
princípio supremo da ética moderna que tem obtido na formulação do imperativo
categórico do fim em si mesmo: ‘Faça de tal modo que trates a humanidade, tanto
em sua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre ao mesmo tempo como um
fim e nunca somente como um meio’”.
O
agressor, convencido de sua superioridade, trata a vítima não como um sujeito
de direitos, mas como um objeto, um meio para extravasar seu desprezo, de
alimentar seu ressentimento e reafirmar seu poder. “Frente a esse princípio, o
agressor trata a vítima como um meio porque não lhe reconhece igual humano,
igual dignidade; trata a vítima como um objeto, não como um sujeito que deve
ser levado em conta”. Dessa forma, o discurso de ódio torna “impossível
compartilhar um mínimo de justiça, porque não existe uma relação de igualdade,
não existe um reconhecimento da dignidade do agredido e do respeito que
merece”.
No
final, mostra Adela Cortina, o discurso de ódio, talvez nem possa ser chamado
efetivamente de discurso, pois, costuma ser de sua natureza uma fundamental
pobreza argumentativa. Segundo a filósofa, diferente de um debate ideológico ou
político, onde há (ou deveria haver) um embate de argumentos, o ódio dispensa a
racionalidade. Sua função não é convencer pela lógica, “mas expressar desprezo
e incitar que isso seja compartilhado”.
Em seu
livro a filósofa usa a fábula do lobo e do cordeiro para ilustrar sua
observação: o lobo decide devorar o cordeiro e, para justificar sua violência,
inventa argumentos arbitrários e inconsistentes. Acusa o cordeiro de sujar a
água do rio, ainda que este esteja bebendo muito abaixo, onde não poderia
contaminá-la; depois, acusa-o de ofensas proferidas no passado, mesmo que o
cordeiro sequer fosse nascido naquela época. Diante das respostas lógicas e
defensivas do cordeiro, o lobo não se importa com a razão: encerra o diálogo
com a violência e simplesmente o devora.
Pode-se
perceber na moral da fábula que, quando há um ressentimento previamente
motivado (pelos mais distintos e variados motivos) a pôr limites às
manifestações de um outro em um campo compartilhado, nenhum argumento é
suficiente: ele já não opera na dimensão da razão, mas dos afetos. É exatamente
isso que caracteriza o discurso de ódio: a vítima é apenas um pretexto, “um
muro” que serve para projetar raiva, expiar uma falta e significar o conjunto
de afecções de seu corpo, pois a decisão de excluir ou destruir já está tomada
antes de qualquer diálogo, há uma dimensão de limite irracional que opera em
cada um, ainda que haja uma consciência clara disso. “Os pretextos,
irrelevantes e descartáveis. Sem mais juízos, o lobo o come”.
Apesar
de Adela Cortina nos propor um duplo caminho de resolução a este problema: a
edificação de uma igualdade substantiva pela educação e a contenção imediata
das violências pela força de uma boa lei bem aplicada; percebo nesta eleição de
remediação central um certo otimismo institucional, um legado da modernidade
que lhe é muito caro, pode soar como, talvez menos exequível em nossa
contemporaneidade fragmentada.
Ainda
assim, vejo que neste escopo sua contribuição decisiva não está na engenharia
social que esboça, mas no gesto primordial de nomear. Assim como fez com a
“aporofobia”, Adela Cortina ao dissecar a anatomia do discurso de ódio, ela não
oferece uma solução definitiva, mas realiza algo essencial: tornar mais
inteligível e analisável as partes que compõem os mecanismos desta afecção que
será um dos temas centrais do nosso século que, como nunca antes, terá a
difícil tarefa de pôr, com os limites éticos de nossa época, elencar as
distintas formas de vida em territórios democráticos de inclusão e respeito.
Seu
verdadeiro valor está em fornecer o diagnóstico preciso que nos permite
reconhecer o ódio não como disputa ideológica, mas como expressão afetiva
irracional. É nesse ato fundador de claridade conceitual que se estabelece a
condição para qualquer resposta possível, jurídica ou educativa, pois só se
pode enfrentar aquilo que antes se soube chamar pelo nome.
Fonte:
Por Flavio Rocha de Deus, em A Terra é Redonda

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