‘A
igreja nos tirou terra, teto e trabalho’, denuncia Makota Celinha
Em
homenagem à Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum, na Bahia,
desde 2007, 21 de janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa,
pautando a diversidade de crenças e a liberdade de religião, em um país marcado
pelo racismo.
Coordenadora
do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileira (Cenarab),
jornalista, ambientalista, professora e militante das causas populares, Makota
Celinha explica que o enfrentamento às violências sofridas por pessoas de
religiões de matriz africanas segue sendo um desafio no Brasil.
“Nenhuma
forma de rezar pode ser coisificada, discriminada ou violentada pela
prepotência dos que já se acham salvos. Quando a lei foi sancionada, ainda não
tínhamos muito bem trabalhada a questão do racismo religioso, por isso o uso do
termo ‘intolerância’. Com o passar dos anos, fomos reafirmando que não é
intolerância, mas racismo religioso”, defende, em entrevista ao Conversa Bem
Viver.
A
coordenadora do Cenarab também analisa os primeiros acontecimentos políticos do
ano. Para ela, a postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao
atacar a Venezuela e sequestrar Nicolás Maduro, além das recentes investidas em
relação à Groenlândia, precisam ser repudiadas pela comunidade internacional.
“Não dá
para ficar em cima do muro com os ataques estadunidenses à democracia. Eu não
sou cristã, mas digo que, se a ‘besta’ cristã existe, é o Trump. Estamos
vivendo um momento de extremo perigo à vida humana. Temos que defender o Estado
Democrático de Direito e condenar a invasão à Venezuela e as tentativas de
compra de territórios, como a Groenlândia. Daqui a pouco é o Brasil, o México.
Não podemos ser chantageados por uma potência”, analisa.
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Confira a entrevista completa:
• 2026 começou com a invasão dos Estados
Unidos na Venezuela, mas também com a morte da sua irmã e mãe Ana de Ogum, uma
divindade importante. Como foi esse início de ano para você?
Makota
Celinha: É um ano de extremos desafios. Eu fico imaginando, e sempre digo, que
estamos perdendo o sentido de ser humanidade. Temos um camarada que foi eleito
presidente da República de um país [Donald Trump] e que se acha o presidente do
mundo.
Não dá
para ficar em cima do muro com os ataques estadunidenses à democracia. Estamos
vivendo uma Terceira Guerra Mundial provocada pela prepotência de um homem que
se acha dono da verdade. Eu não sou cristã, mas digo que, se a “besta” cristã
existe, é ele.
Estamos
vivendo um momento de extremo perigo à vida humana. O que está em jogo é a
riqueza dos países. Temos que defender o Estado Democrático de Direito e
condenar a invasão à Venezuela e as tentativas de compra de territórios, como a
Groenlândia. Daqui a pouco é o Brasil, o México. Não podemos ser chantageados
por uma potência.
Ao
mesmo tempo, acho que a mãe Ana de Ogum, agora nesse lugar de ancestral, é
alguém que está a olhar por nós. Ela estava bastante debilitada, doente por
causa de um câncer e com idade bastante avançada.
Só
temos a agradecer por ela ter nos permitido trilhar a sua estrada durante todos
esses anos. Uma mãe de santo, uma zeladora, uma mulher de Ogum, uma mulher que
cuidou de famílias no país inteiro, pois era mãe de pessoas e de lideranças
religiosas em todo o país. Ela está no mundo da ancestralidade agora a cuidar
de nós. Faz parte da vida. Eu costumo dizer que existem pessoas sem as quais eu
não consigo imaginar como seria a nossa existência. E este janeiro nos traz
também o dia 21.
• Outra grande liderança foi Mãe Gilda de
Ogum, que morreu em 21 de janeiro de 2000, após sofrer com perseguição e notícias falsas. Desde então, a
data marca o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. O termo correto
é combate à intolerância religiosa ou ao racismo religioso?
Quando
a lei foi sancionada, ainda não tínhamos muito bem trabalhada a questão do
racismo religioso, por isso o uso do termo “intolerância”. Com o passar dos
anos, fomos reafirmando que não é intolerância, mas racismo religioso. Quando o
presidente Lula sancionou a lei, a palavra mais usada ainda era intolerância.
Mãe
Gilda sofreu uma série de difamações e violências. Teve sua fotografia
publicada nos jornais da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) à época, e
isso acabou causando nela um infarto mortal em 21 de janeiro. Existem muitas
formas de matar: algumas com armas letais, mas há também essas mortes, que são
assassinatos.
Não dá
para minimizar o fato. Ela foi assassinada pelo racismo religioso. Que isso
fique muito claro e que não possa mais ser reproduzido no país. Por isso,
reafirmamos o 21 de janeiro como essa data da memória. Não há nada no mundo que
minimize a dor da família de Mãe Jaciara, que hoje está à frente do Abassá.
Enquanto
religiosos, é preciso sempre reafirmar: não ao racismo religioso. Nenhuma forma
de rezar pode ser coisificada, discriminada ou violentada pela prepotência dos
que já se acham salvos.
• Como foi a relação entre você e a Mãe
Gilda?
Naquela
época, tínhamos relação, mas ainda não era uma intimidade como a que mantenho
hoje com a Mãe Jaciara. Quando Mãe Gilda morreu em 2000, ainda tínhamos um
movimento muito incipiente, mas ela sempre foi uma figura extremamente forte na
defesa da tradição e da religiosidade de matriz africana.
Para
você ter uma ideia, ela registrou o terreiro dela em 1988. No ano 2000, ainda
estávamos no início do processo democrático em nosso país. A matriz africana
era muito mais discriminada e tínhamos lutas isoladas. Mas hoje faço questão de
estar presente. Vou para Salvador amanhã e sempre faço questão de estar lá para
reafirmar a importância da memória, para que ninguém nunca mais faça o que
aconteceu.
• O IBGE indicou, no ano passado, que o
número de praticantes de religiões de matriz africana aumentou em 300%. Nos
últimos 25 anos, quanto o Brasil avançou no combate ao racismo religioso?
Na
verdade, esse dado é uma maquiagem. Não é que o número cresceu. É que as
pessoas saíram do armário do racismo. Eu digo que o brasileiro é muito
“macontólico” ou “macungélico”. Ele é um macumbeiro católico. Ele vai todo dia
31 de dezembro pular sete ondinhas no mar, mas não diz que isso é da macumba.
No dia 24 de dezembro, come o peru de Natal, mas não diz que isso está dentro
de uma solenidade religiosa.
Contudo,
ele se incomoda com a galinha da macumba. Qual é o brasileiro que não tem um pé
de Espada de São Jorge ou de Guiné, ou que não leva o filho para benzer de
quebranto ou mau-olhado? Isso é nosso, mas ele continua se dizendo católico.
O que
esses números do IBGE trazem é que, nesses 25 anos de luta, as pessoas estão se
sentindo mais à vontade para se assumirem enquanto adeptas de outras religiões.
Antigamente, havia um tabu muito grande. Era mais cômodo se colocar no lugar da
aceitação cristã. Nossa luta amplia o debate e forma uma consciência cidadã de
que todos têm direito a ser o que quiserem.
Outro
fato interessante é a presença da classe média nesses lugares. Por mais que eu
me preocupe, pois tenho receio dessa classe média que vai à macumba pelo
exótico, pelo belo ou pela alegria. Os blocos afro são bonitos, mas até que
ponto a chegada desse setor não significará tornar as tradições palatáveis ao
ponto de vista deles?
Eu acho
lindo, mas quero vê-la pegar na galinha. Esse debate também precisa ser feito.
Acho positivo porque tira uma máscara e remove o pé da invisibilidade colocado
pelo racismo. Mas é preciso cuidado para não “gourmetizar” e afastar da
verdadeira raiz. A comida de boteco, por exemplo, chegou a um nível de
gourmetização que perdeu sua pegada original.
Mas os
números são positivos porque retiram a máscara da hipocrisia de quem vai à
macumba tomar um passe apenas quando está escuro para ninguém ver.
• Tivemos em 2025 as Marchas para Exu em
São Paulo, Rio e Brasília, movimentando milhares de pessoas. Em São Paulo,
reuniu mais de 60 mil pessoas. Você avalia isso como positivo?
Eu sou
uma mulher que cultua Exu a vida inteira, assim como cultuo Oxalá, Iansã e
qualquer outra divindade. Minha preocupação é que Exu, por ser tão polêmico
devido ao racismo e à demonização da sua figura, seja usado como uma forma de
dar um tapa na cara da sociedade, mas é preciso cuidado para não vulgarizar.
Exu é
tão sagrado quanto Oxalá ou Iansã. Tenho medo da banalização do sagrado e de se
trazer o debate sem considerar o cotidiano das práticas de matriz africana. Não
é apenas cantar e louvar. É o direito a todas as práticas. Exu traz a
irreverência, ele choca, mas tenho preocupação com a forma como isso é
colocado. Afinal, quando se faz uma caminhada contra o racismo religioso, não
aparecem 300 mil pessoas.
• Estamos nos encaminhando para o primeiro
ano do papado de Leão 14, após a despedida do Papa Francisco. A senhora se
encontrou com ele no fim do ano passado?
Sim,
estive em Roma no encontro dos movimentos populares por terra, teto e trabalho.
Foi um encontro positivo. O Papa Leão 14 acaba nos surpreendendo na questão do
debate da veia progressista que Francisco trazia. Apesar disso, acho que ainda
é preciso avançar muito do ponto de vista racial e da reparação preta.
Não há
dinheiro no mundo que repare o que a Igreja Católica e o Estado fizeram com os
corpos pretos. Minha ida lá foi importante para colocar que é preciso debater a
reparação sobre a violência da escravidão. O antecessor de nomenclatura dele, o
Papa Leão 13, escreveu uma encíclica em maio de 1888 condenando a escravidão
brasileira. O Papa Leão 14 tem a tarefa de dar continuidade: não basta
condenar, é preciso reparar o crime.
Estive
agora no Togo para o congresso pan-africanista [9º Congresso Pan-Africano],
onde reafirmamos a importância desse debate. Se a Igreja discute terra, teto e
trabalho, deve pautar que as principais vítimas da ausência desses direitos
foram os negros. A América enriqueceu às custas do sangue preto. O debate
começou com Francisco e deu continuidade, mas é preciso ser propositivo e
consequente nas ações de reparação. Eu fui lá atrás dessa reparação.
• No mês de combate à intolerância
religiosa, terreiro no DF é apedrejado
O que
deveria ser um momento de fé, silêncio e preparação espiritual transformou-se
em cenário de medo e violência no último sábado (17). A Tenda Espírita Pai
Benedito do Congo, terreiro localizado na cidade do Gama, no Distrito Federal,
foi alvo de um ataque enquanto membros da casa realizavam a maceração de ervas
e cantigas rituais. Pedras e tijolos foram arremessados contra o telhado da
instituição.
De
acordo com relatos da dirigente da casa, Lindaura de Melo, os integrantes
começaram a chegar e se preparar para as liturgias religiosas, quando foram
surpreendidos por um “estrondo ensurdecedor”. Segundo os depoimentos, o impacto
foi tão forte que assustou não apenas quem estava dentro do terreiro, mas
também moradores da vizinhança.
“Vimos
pedras enormes e pedaços de tijolo, que indica que foi [jogado] inteiro e ao se
deparar com o telhado ficou em vários pedaços”, relatou Lindaura. De acordo com
os membros da casa que presenciaram a situação, a espessura das telhas evitou
que os projéteis atingissem diretamente os fiéis que circulavam pelo local, o
que poderia ter resultado em ferimentos graves.
Durante
o episódio, os integrantes do terreiro chegaram a avistar mais duas pedras
sendo arremessadas a partir de um imóvel vizinho. O ataque só cessou após um
dos filhos da casa gritar, alertando que os agressores haviam sido percebidos.
A
sacerdotisa do terreiro chegou a registrar um boletim de ocorrência na Polícia
Civil. O autor dos disparos ainda não foi identificado formalmente. “Foi um
momento desesperador, assustador e de nervosismo. Mas não ficamos calados,
iniciamos hoje o que é correto. A mãe da casa junto com o advogado registrou
ocorrência na Decrin [Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por
Discriminação Racial, Religiosa, ou por Orientação Sexual, ou Contra a Pessoa
Idosa ou com Deficiência]. Vamos aguardar a perícia e tudo dando certo. Os
responsáveis serão muito responsabilizados, cobrirão os danos que causaram e eu
tenho fé que vão pagar na justiça”, afirmou Anísio Baba Ifa Shinan (Anisio
Pereira), um dos integrantes do terreiro.
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Intolerância religiosa
Segundo
o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o canal de denúncias
do órgão, Disque 100, registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre
janeiro de 2025 e janeiro de 2026.
Entre
as religiões explicitamente identificadas, as tradições de matriz africana
concentram os maiores números de denúncias entre janeiro de 2025 e janeiro
deste ano. A Umbanda reúne 228 registros, seguida pelo Candomblé (161) e por
ocorrências classificadas como Umbanda e Candomblé (47), além de outras
religiosidades afro-brasileiras (40).
A
intolerância religiosa é crime no Brasil desde 2023. De acordo com a Lei nº
14.532, injúria religiosa pode levar a penas de 2 a 5 anos de reclusão. Além
disso, o Código Penal, em seu artigo 208, prevê detenção para quem impedir ou
perturbar cerimônia religiosa.
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Como denunciar
O
Disque 100 funciona 24 horas por dia, de forma gratuita, incluindo sábados,
domingos e feriados, e permite o registro de denúncias relacionada a violações
de direitos humanos, da qual seja vítima ou tenha conhecimento, de maneira
identificada ou anônima, sendo um dos principais instrumentos do Governo do
Brasil para o acolhimento de denúncias de violações de direitos humanos e para
o fortalecimento das ações de prevenção, proteção e responsabilização em todo o
território nacional.
Para
entrar em contato com a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), basta
discar 100 do telefone fixo ou celular. O canal também pode ser acessado por
meio do WhatsApp (61) 99611-0100; Telegram (digitar “direitoshumanosbrasil” na
busca do aplicativo); e pelo site do Ministério dos Direitos Humanos e da
Cidadania, disponível também para videochamadas em Língua Brasileira de Sinais
(Libras).
Fonte:
Brasil de Fato

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