quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

‘A igreja nos tirou terra, teto e trabalho’, denuncia Makota Celinha

Em homenagem à Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum, na Bahia, desde 2007, 21 de janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, pautando a diversidade de crenças e a liberdade de religião, em um país marcado pelo racismo.

Coordenadora do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileira (Cenarab), jornalista, ambientalista, professora e militante das causas populares, Makota Celinha explica que o enfrentamento às violências sofridas por pessoas de religiões de matriz africanas segue sendo um desafio no Brasil.

“Nenhuma forma de rezar pode ser coisificada, discriminada ou violentada pela prepotência dos que já se acham salvos. Quando a lei foi sancionada, ainda não tínhamos muito bem trabalhada a questão do racismo religioso, por isso o uso do termo ‘intolerância’. Com o passar dos anos, fomos reafirmando que não é intolerância, mas racismo religioso”, defende, em entrevista ao Conversa Bem Viver.

A coordenadora do Cenarab também analisa os primeiros acontecimentos políticos do ano. Para ela, a postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao atacar a Venezuela e sequestrar Nicolás Maduro, além das recentes investidas em relação à Groenlândia, precisam ser repudiadas pela comunidade internacional.

“Não dá para ficar em cima do muro com os ataques estadunidenses à democracia. Eu não sou cristã, mas digo que, se a ‘besta’ cristã existe, é o Trump. Estamos vivendo um momento de extremo perigo à vida humana. Temos que defender o Estado Democrático de Direito e condenar a invasão à Venezuela e as tentativas de compra de territórios, como a Groenlândia. Daqui a pouco é o Brasil, o México. Não podemos ser chantageados por uma potência”, analisa.

<><> Confira a entrevista completa:

•        2026 começou com a invasão dos Estados Unidos na Venezuela, mas também com a morte da sua irmã e mãe Ana de Ogum, uma divindade importante. Como foi esse início de ano para você?

Makota Celinha: É um ano de extremos desafios. Eu fico imaginando, e sempre digo, que estamos perdendo o sentido de ser humanidade. Temos um camarada que foi eleito presidente da República de um país [Donald Trump] e que se acha o presidente do mundo.

Não dá para ficar em cima do muro com os ataques estadunidenses à democracia. Estamos vivendo uma Terceira Guerra Mundial provocada pela prepotência de um homem que se acha dono da verdade. Eu não sou cristã, mas digo que, se a “besta” cristã existe, é ele.

Estamos vivendo um momento de extremo perigo à vida humana. O que está em jogo é a riqueza dos países. Temos que defender o Estado Democrático de Direito e condenar a invasão à Venezuela e as tentativas de compra de territórios, como a Groenlândia. Daqui a pouco é o Brasil, o México. Não podemos ser chantageados por uma potência.

Ao mesmo tempo, acho que a mãe Ana de Ogum, agora nesse lugar de ancestral, é alguém que está a olhar por nós. Ela estava bastante debilitada, doente por causa de um câncer e com idade bastante avançada.

Só temos a agradecer por ela ter nos permitido trilhar a sua estrada durante todos esses anos. Uma mãe de santo, uma zeladora, uma mulher de Ogum, uma mulher que cuidou de famílias no país inteiro, pois era mãe de pessoas e de lideranças religiosas em todo o país. Ela está no mundo da ancestralidade agora a cuidar de nós. Faz parte da vida. Eu costumo dizer que existem pessoas sem as quais eu não consigo imaginar como seria a nossa existência. E este janeiro nos traz também o dia 21.

•        Outra grande liderança foi Mãe Gilda de Ogum, que morreu em 21 de janeiro de 2000, após sofrer com  perseguição e notícias falsas. Desde então, a data marca o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. O termo correto é combate à intolerância religiosa ou ao racismo religioso?

Quando a lei foi sancionada, ainda não tínhamos muito bem trabalhada a questão do racismo religioso, por isso o uso do termo “intolerância”. Com o passar dos anos, fomos reafirmando que não é intolerância, mas racismo religioso. Quando o presidente Lula sancionou a lei, a palavra mais usada ainda era intolerância.

Mãe Gilda sofreu uma série de difamações e violências. Teve sua fotografia publicada nos jornais da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) à época, e isso acabou causando nela um infarto mortal em 21 de janeiro. Existem muitas formas de matar: algumas com armas letais, mas há também essas mortes, que são assassinatos.

Não dá para minimizar o fato. Ela foi assassinada pelo racismo religioso. Que isso fique muito claro e que não possa mais ser reproduzido no país. Por isso, reafirmamos o 21 de janeiro como essa data da memória. Não há nada no mundo que minimize a dor da família de Mãe Jaciara, que hoje está à frente do Abassá.

Enquanto religiosos, é preciso sempre reafirmar: não ao racismo religioso. Nenhuma forma de rezar pode ser coisificada, discriminada ou violentada pela prepotência dos que já se acham salvos.

•        Como foi a relação entre você e a Mãe Gilda?

Naquela época, tínhamos relação, mas ainda não era uma intimidade como a que mantenho hoje com a Mãe Jaciara. Quando Mãe Gilda morreu em 2000, ainda tínhamos um movimento muito incipiente, mas ela sempre foi uma figura extremamente forte na defesa da tradição e da religiosidade de matriz africana.

Para você ter uma ideia, ela registrou o terreiro dela em 1988. No ano 2000, ainda estávamos no início do processo democrático em nosso país. A matriz africana era muito mais discriminada e tínhamos lutas isoladas. Mas hoje faço questão de estar presente. Vou para Salvador amanhã e sempre faço questão de estar lá para reafirmar a importância da memória, para que ninguém nunca mais faça o que aconteceu.

•        O IBGE indicou, no ano passado, que o número de praticantes de religiões de matriz africana aumentou em 300%. Nos últimos 25 anos, quanto o Brasil avançou no combate ao racismo religioso?

Na verdade, esse dado é uma maquiagem. Não é que o número cresceu. É que as pessoas saíram do armário do racismo. Eu digo que o brasileiro é muito “macontólico” ou “macungélico”. Ele é um macumbeiro católico. Ele vai todo dia 31 de dezembro pular sete ondinhas no mar, mas não diz que isso é da macumba. No dia 24 de dezembro, come o peru de Natal, mas não diz que isso está dentro de uma solenidade religiosa.

Contudo, ele se incomoda com a galinha da macumba. Qual é o brasileiro que não tem um pé de Espada de São Jorge ou de Guiné, ou que não leva o filho para benzer de quebranto ou mau-olhado? Isso é nosso, mas ele continua se dizendo católico.

O que esses números do IBGE trazem é que, nesses 25 anos de luta, as pessoas estão se sentindo mais à vontade para se assumirem enquanto adeptas de outras religiões. Antigamente, havia um tabu muito grande. Era mais cômodo se colocar no lugar da aceitação cristã. Nossa luta amplia o debate e forma uma consciência cidadã de que todos têm direito a ser o que quiserem.

Outro fato interessante é a presença da classe média nesses lugares. Por mais que eu me preocupe, pois tenho receio dessa classe média que vai à macumba pelo exótico, pelo belo ou pela alegria. Os blocos afro são bonitos, mas até que ponto a chegada desse setor não significará tornar as tradições palatáveis ao ponto de vista deles?

Eu acho lindo, mas quero vê-la pegar na galinha. Esse debate também precisa ser feito. Acho positivo porque tira uma máscara e remove o pé da invisibilidade colocado pelo racismo. Mas é preciso cuidado para não “gourmetizar” e afastar da verdadeira raiz. A comida de boteco, por exemplo, chegou a um nível de gourmetização que perdeu sua pegada original.

Mas os números são positivos porque retiram a máscara da hipocrisia de quem vai à macumba tomar um passe apenas quando está escuro para ninguém ver.

•        Tivemos em 2025 as Marchas para Exu em São Paulo, Rio e Brasília, movimentando milhares de pessoas. Em São Paulo, reuniu mais de 60 mil pessoas. Você avalia isso como positivo?

Eu sou uma mulher que cultua Exu a vida inteira, assim como cultuo Oxalá, Iansã e qualquer outra divindade. Minha preocupação é que Exu, por ser tão polêmico devido ao racismo e à demonização da sua figura, seja usado como uma forma de dar um tapa na cara da sociedade, mas é preciso cuidado para não vulgarizar.

Exu é tão sagrado quanto Oxalá ou Iansã. Tenho medo da banalização do sagrado e de se trazer o debate sem considerar o cotidiano das práticas de matriz africana. Não é apenas cantar e louvar. É o direito a todas as práticas. Exu traz a irreverência, ele choca, mas tenho preocupação com a forma como isso é colocado. Afinal, quando se faz uma caminhada contra o racismo religioso, não aparecem 300 mil pessoas.

•        Estamos nos encaminhando para o primeiro ano do papado de Leão 14, após a despedida do Papa Francisco. A senhora se encontrou com ele no fim do ano passado?

Sim, estive em Roma no encontro dos movimentos populares por terra, teto e trabalho. Foi um encontro positivo. O Papa Leão 14 acaba nos surpreendendo na questão do debate da veia progressista que Francisco trazia. Apesar disso, acho que ainda é preciso avançar muito do ponto de vista racial e da reparação preta.

Não há dinheiro no mundo que repare o que a Igreja Católica e o Estado fizeram com os corpos pretos. Minha ida lá foi importante para colocar que é preciso debater a reparação sobre a violência da escravidão. O antecessor de nomenclatura dele, o Papa Leão 13, escreveu uma encíclica em maio de 1888 condenando a escravidão brasileira. O Papa Leão 14 tem a tarefa de dar continuidade: não basta condenar, é preciso reparar o crime.

Estive agora no Togo para o congresso pan-africanista [9º Congresso Pan-Africano], onde reafirmamos a importância desse debate. Se a Igreja discute terra, teto e trabalho, deve pautar que as principais vítimas da ausência desses direitos foram os negros. A América enriqueceu às custas do sangue preto. O debate começou com Francisco e deu continuidade, mas é preciso ser propositivo e consequente nas ações de reparação. Eu fui lá atrás dessa reparação.

•        No mês de combate à intolerância religiosa, terreiro no DF é apedrejado

O que deveria ser um momento de fé, silêncio e preparação espiritual transformou-se em cenário de medo e violência no último sábado (17). A Tenda Espírita Pai Benedito do Congo, terreiro localizado na cidade do Gama, no Distrito Federal, foi alvo de um ataque enquanto membros da casa realizavam a maceração de ervas e cantigas rituais. Pedras e tijolos foram arremessados contra o telhado da instituição.

De acordo com relatos da dirigente da casa, Lindaura de Melo, os integrantes começaram a chegar e se preparar para as liturgias religiosas, quando foram surpreendidos por um “estrondo ensurdecedor”. Segundo os depoimentos, o impacto foi tão forte que assustou não apenas quem estava dentro do terreiro, mas também moradores da vizinhança.

“Vimos pedras enormes e pedaços de tijolo, que indica que foi [jogado] inteiro e ao se deparar com o telhado ficou em vários pedaços”, relatou Lindaura. De acordo com os membros da casa que presenciaram a situação, a espessura das telhas evitou que os projéteis atingissem diretamente os fiéis que circulavam pelo local, o que poderia ter resultado em ferimentos graves.

Durante o episódio, os integrantes do terreiro chegaram a avistar mais duas pedras sendo arremessadas a partir de um imóvel vizinho. O ataque só cessou após um dos filhos da casa gritar, alertando que os agressores haviam sido percebidos.

A sacerdotisa do terreiro chegou a registrar um boletim de ocorrência na Polícia Civil. O autor dos disparos ainda não foi identificado formalmente. “Foi um momento desesperador, assustador e de nervosismo. Mas não ficamos calados, iniciamos hoje o que é correto. A mãe da casa junto com o advogado registrou ocorrência na Decrin [Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa, ou por Orientação Sexual, ou Contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência]. Vamos aguardar a perícia e tudo dando certo. Os responsáveis serão muito responsabilizados, cobrirão os danos que causaram e eu tenho fé que vão pagar na justiça”, afirmou Anísio Baba Ifa Shinan (Anisio Pereira), um dos integrantes do terreiro.

<><> Intolerância religiosa

Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), o canal de denúncias do órgão, Disque 100, registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026.

Entre as religiões explicitamente identificadas, as tradições de matriz africana concentram os maiores números de denúncias entre janeiro de 2025 e janeiro deste ano. A Umbanda reúne 228 registros, seguida pelo Candomblé (161) e por ocorrências classificadas como Umbanda e Candomblé (47), além de outras religiosidades afro-brasileiras (40).

A intolerância religiosa é crime no Brasil desde 2023. De acordo com a Lei nº 14.532, injúria religiosa pode levar a penas de 2 a 5 anos de reclusão. Além disso, o Código Penal, em seu artigo 208, prevê detenção para quem impedir ou perturbar cerimônia religiosa.

<><> Como denunciar

O Disque 100 funciona 24 horas por dia, de forma gratuita, incluindo sábados, domingos e feriados, e permite o registro de denúncias relacionada a violações de direitos humanos, da qual seja vítima ou tenha conhecimento, de maneira identificada ou anônima, sendo um dos principais instrumentos do Governo do Brasil para o acolhimento de denúncias de violações de direitos humanos e para o fortalecimento das ações de prevenção, proteção e responsabilização em todo o território nacional.

Para entrar em contato com a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), basta discar 100 do telefone fixo ou celular. O canal também pode ser acessado por meio do WhatsApp (61) 99611-0100; Telegram (digitar “direitoshumanosbrasil” na busca do aplicativo); e pelo site do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, disponível também para videochamadas em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

 

Fonte: Brasil de Fato

 

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