Lobotomia,
o polêmico procedimento no cérebro que era considerado 'mais fácil do que
tratar uma dor de dente'
Hoje em
dia parece incrível, mas houve um tempo em que a lobotomia era celebrada como
uma cura milagrosa, descrita pelos médicos e pela mídia como "mais fácil
do que curar uma dor de dente".
Somente
no Reino Unido, mais de 20 mil lobotomias foram realizadas entre o início dos
anos 1940 e o final dos anos 1970.
No
Brasil, a estimativa é de mil procedimentos até meados da década de 50.
Geralmente,
as lobotomias eram praticadas em pacientes com esquizofrenia, depressão grave
ou transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) — mas também, em alguns casos, em
pessoas com dificuldades de aprendizagem ou com comportamento agressivo.
Enquanto
uma minoria teve melhora em seus sintomas após o procedimento, algumas pessoas
ficaram grogues, incapazes de se comunicar, andar ou se alimentar.
Mas
levou anos para os profissionais de saúde perceberem que os efeitos negativos
superavam os benefícios e que os medicamentos desenvolvidos na década de 1950
eram mais eficazes e muito mais seguros.
Roteiristas
e diretores de cinema não foram gentis com os médicos que realizaram as
lobotomias.
Filmes
e séries, como Ratched, da Netflix, retrataram cirurgiões sádicos que atacam
pessoas vulneráveis e deixam pacientes em estado vegetativo.
A
realidade, porém, é muito mais complexa.
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Tentando ajudar
Os
lobotomistas eram frequentemente profissionais progressistas, movidos pelo
desejo de melhorar a vida de seus pacientes.
Na
década de 1940, não havia tratamentos eficazes para os doentes mentais graves.
Os
médicos haviam experimentado terapia de choque com insulina e terapia
eletroconvulsiva. O sucesso foi limitado, e asilos estavam lotados de pacientes
que não tinham esperança de serem curados ou de voltar para casa.
Foi
neste contexto que o neurologista português Egas Moniz desenvolveu a leucotomia
pré-frontal (mais tarde chamada de lobotomia), que possibilitou o surgimento da
psicocirurgia — pela qual ganhou o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1949,
partilhado com o fisiologista suíço Walter Rudolf Hess.
Seu
procedimento consistia em fazer dois orifícios no crânio e inserir um
instrumento afiado no tecido cerebral.
Ele
então o movia para frente e para trás para cortar as conexões entre os lobos
frontais e o resto do cérebro.
"Ele
se baseava nessa visão terrivelmente rude e simplista do cérebro, que via como
um mecanismo simples no qual você poderia simplesmente colocar as coisas. A
ideia era que pensamentos obsessivos e angustiantes giravam e giravam e, ao
interromper o circuito, era possível parar esses pensamentos", explica o
neurocirurgião e escritor Henry Marsh.
"Na
verdade, o cérebro é absolutamente complicado e nem começamos a entender como
tudo está interligado."
Moniz
relatou que seus primeiros 20 pacientes tiveram uma melhora dramática.
O jovem
neurologista americano Walter Freeman ficou muito impressionado.
Com seu
parceiro colaborador, James Watts, Freeman realizou a primeira lobotomia nos
Estados Unidos em 1936 e, no ano seguinte, o jornal americano The New York
Times se referiu à operação como "a nova 'cirurgia da alma".
Mas, no
início, o procedimento era complicado e demorado.
Enquanto
trabalhava no St Elizabeths Hospital, o maior hospital psiquiátrico do país, na
capital Washington, Freeman ficou chocado com "a perda de pessoal e da
capacidade feminina" que testemunhou lá.
Ele
queria ajudar os pacientes a sair do hospital e estabeleceu para si mesmo o
objetivo de tornar a lobotomia mais rápida e barata.
Com
isso em mente, em 1946, ele concebeu a "lobotomia transorbital", na
qual instrumentos de aço que pareciam pontas de gelo eram martelados no cérebro
através dos ossos frágeis na parte de trás das órbitas oculares.
O tempo
de operação foi reduzido drasticamente e os pacientes não precisavam de
anestesia: simplesmente eram nocauteados antes da operação com uma máquina de
"eletrochoque" portátil.
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'Lobotomias com picador de gelo'
Freeman
dirigia pelos Estados Unidos durante as longas férias de verão para realizar
suas "lobotomias com picador de gelo", às vezes levando seus filhos
com ele.
E
embora tenha sido inicialmente descrita como uma cirurgia de último recurso
para pacientes psiquiátricas com as quais todos os outros tratamentos
fracassaram, Freeman começou a promover a lobotomia como uma cura para tudo —
desde doenças mentais graves a depressão pós-parto e fortes dores de cabeça,
dor crônica, indigestão nervosa, insônia e dificuldades comportamentais.
Muitos
pacientes e suas famílias ficaram gratos a Freeman, que ficou com caixas cheias
de cartas de agradecimento e cartões de Natal enviados por eles.
Mas em
outros casos, os resultados foram desastrosos.
Uma das
pacientes de Freeman foi Rosemary Kennedy, irmã do futuro presidente dos
Estados Unidos John F. Kennedy.
Ela
ficou com incontinência e incapaz de falar claramente após uma lobotomia aos 23
anos.
Ao
longo de sua carreira, Freeman realizou lobotomias em 3,5 mil pacientes,
incluindo 19 crianças — a mais jovem com apenas 4 anos de idade.
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'Pacientes piores eram os que haviam feito uma lobotomia'
No
Reino Unido, o neurocirurgião Wylie McKissock realizou sua própria variação da
lobotomia em cerca de 3 mil pacientes.
"Esta
não é uma operação demorada. Uma equipe competente em um hospital psiquiátrico
bem organizado pode realizar quatro dessas operações em duas a duas horas e
meia", gabou-se.
"A
leucotomia pré-frontal bilateral real pode ser realizada por um neurocirurgião
devidamente treinado em seis minutos e raramente leva mais de 10",
acrescentou ele.
Graças
em grande parte a McKissock, mais lobotomias per capita foram realizadas no
Reino Unido do que nos Estados Unidos.
Como
estudante de medicina na década de 1970, Henry Marsh aceitou um emprego como
assistente de enfermagem em um hospital psiquiátrico — que ele descreveu como
"a enfermaria terminal onde os casos perdidos iam morrer".
Lá, ele
viu em primeira mão os efeitos devastadores da lobotomia.
"Tornou-se
dolorosamente aparente que não havia acompanhamento adequado para esses
pacientes", diz ele.
"Os
pacientes que eram os piores, os mais apáticos, os que haviam sido
desenganados, eram os que haviam feito uma lobotomia."
Todos
foram operados por McKissock e seus assistentes.
Depois
que Marsh foi treinado como neurocirurgião, um tipo de procedimento chamado de
leucotomia límbica ainda era usado.
Marsh a
descreve como "uma espécie de versão microscópica, muito mais refinada, do
tipo de lobotomias que as pessoas faziam muitos anos antes".
Ele
mesmo realizou essa operação em uma dúzia de pacientes com TOC grave em 1990.
"Eles
eram todos suicidas, todos os outros tratamentos falharam. Então eu não fiquei
particularmente preocupado, embora eu preferisse não fazer [o
procedimento]", diz ele.
"Depois,
não atendi os pacientes, era puramente técnico. Os psiquiatras envolvidos me
garantiram que as operações foram um sucesso."
Questionado
como se sente sobre essas operações agora, Marsh diz que "não gostava de
fazê-las" e que ficou "muito feliz em deixar a cirurgia".
No
início dos anos 1960, cerca de 500 lobotomias eram realizadas a cada ano no
Reino Unido, contra 1,5 mil em seu pico.
Em
meados da década de 1970, esse número caiu para cerca de 100-150 por ano, quase
sempre envolvendo cortes menores e objetivos de tratamento mais precisos.
A
promulgação da Lei de Saúde Mental de 1983 introduziu controles mais rígidos e
mais supervisão.
Hoje,
as operações psicocirúrgicas raramente são realizadas.
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Para pior
Howard
Dully, que foi lobotomizado por Walter Freeman aos 12 anos, diz que tenta
evitar pensar em como sua vida poderia ter sido diferente se ele não tivesse
passado pelo procedimento, por medo de ser dominado pela raiva.
"Tentei
reconstruir minha vida. Levei muito tempo", explica.
"Tive
muitos problemas quando era um jovem adulto: drogas, álcool e atividades
criminosas, tentando roubar e ganhar dinheiro, vencer na vida, então não foi
fácil."
Dully
diz acreditar que a operação, realizada porque ele confrontou sua madrasta,
lançou uma sombra sobre todos os aspectos de sua vida.
"Você
não vai até as pessoas e diz: 'Oi, eu fiz uma lobotomia', porque se fizer isso,
elas não ficarão com você por muito tempo", diz ele.
Sessenta
anos depois, ele pode se lembrar da operação com muitos detalhes.
"Eles
levantaram o olho e foram até o canto, acertaram e sacudiram com essa coisa que
parece um batedor de ovos", conta.
"É
uma loucura para mim. Quer dizer, você está falando sobre um cérebro. Não
deveria haver alguma precisão envolvida?"
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'Tão sutil quanto um tiro na cabeça'
A
lobotomia teve seus críticos desde o início, mas a oposição ficou mais forte à
medida que os maus resultados se tornaram aparentes.
Descobriu-se
que o procedimento de Walter Freeman, que inicialmente alegava uma taxa de
sucesso de 85%, tinha, na verdade, uma taxa de mortalidade de 15%.
E
quando os médicos investigaram os resultados de longo prazo, descobriram que
apenas um terço dos pacientes havia experimentado alguma melhora, enquanto
outro terço estava significativamente pior.
Um
ex-defensor da lobotomia nos Estados Unidos afirmou: "A lobotomia não era
menos sutil do que um tiro na cabeça."
Dezenove
anos atrás, um grupo de médicos e vítimas de lobotomia e suas famílias fizeram
campanha para que Egas Moniz fosse destituído do Prêmio Nobel.
A
Fundação Nobel, cujo estatuto declara que seus prêmios não podem ser retirados,
recusou.
Olhando
para trás, como devemos ver as pessoas que realizaram esse controverso
procedimento médico?
"Esse
negócio de dividir os médicos em heróis e vilões está errado. Somos todos uma
mistura dos dois, somos um produto de nosso tempo, nossa cultura, nosso
treinamento", diz Henry Marsh.
"A
geração de cirurgiões que me treinou tinha eu não diria poderes divinos, mas
uma autoridade enorme, ninguém os questionava ou interrogava. Posso pensar em
algumas das pessoas que me treinaram que eram, acima de tudo, pessoas decentes,
e foram corrompidos por este poder e se tornaram um pouco monstros como
resultado", conclui.
Fonte:
BBC News

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