Bernardo
Ricupero: O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
A
operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em
transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da
força bruta, característica de uma potência em declínio...
Em
1902, Alemanha, Reino Unido e Itália bombardearam portos venezuelanos. Alegaram
que o país não pagara dívidas. Tal ação claramente violara a “Doutrina Monroe”,
estabelecida em 1823 pelo então presidente dos EUA James Monroe, e, segundo a
qual, seu país não aceitaria a intervenção de potências europeias nos negócios
americanos, assim como não se envolveria nos negócios do Velho Mundo.
É
verdade que a mensagem que James Monroe enviara ao Congresso, criando a
doutrina que ficou conhecida com seu nome, era ambígua; afirmava a oposição ao
colonialismo europeu, mas deixava a porta aberta para o expansionismo
norte-americano. Tal ambiguidade refletia a própria situação da ex-colônia que
se transformava em potência, caracterizando o que foi chamado de
“anticolonialismo imperial” (Sexton, 2011).
No
entanto, dois anos depois do bombardeio a portos venezuelanos, em 1904, em meio
a nova ameaça de uso da força por parte de potências europeias por conta de
dívidas contraídas por nações americanas, no caso a República Dominicana, os
EUA esclarecem sua posição por meio de uma nova mensagem presidencial ao
Congresso. Afirma o então presidente Theodore Roosevelt que “qualquer país cujo
povo se comportar bem contará com a nossa calorosa amizade”.
Por
outro lado, o “crônico mau comportamento, ou a impotência que resulta no
afrouxamento dos laços da sociedade civilizada, pode levar na América, assim
como em outras partes, a requerer, em última instância, a intervenção por
alguma nação civilizada, e, no hemisfério ocidental, a adesão dos EUA à
Doutrina Monroe possivelmente os force a exercer, mesmo que relutantemente, em
casos flagrantes de mau comportamento ou impotência, um poder de polícia
internacional”. (Roosevelt in Holden e Zolov, 2000, p. 101).
A
reelaboração da Doutrina Monroe, mais de oitenta anos depois, passa a
estabelecer que os EUA poderiam agir tanto como juiz como polícia em relação a
seus vizinhos americanos. A inovação conceitual indicava a posição mais
afirmativa do país no cenário internacional: de colônia a império. O que ficou
conhecido como “corolário Roosevelt” da Doutrina Monroe instituía como condição
para a intervenção norte-americana a infração das regras de segurança – e não
apenas o não pagamento de dívidas – condição que a nova potência determinava
por ela mesma, agindo tanto como juiz como polícia.
Na
passagem do século XIX para o XX, os EUA emergiam como potência. Se tornavam a
maior economia mundial, possuindo, já em 1913, um nível de industrialização 10%
superior ao do Reino Unido (Bairoch, 1982). Significativamente, em 1898, o país
se envolvia, pela primeira vez, com aquela que ficou conhecida como Guerra
Hispano-Americana num conflito fora de suas fronteiras.
Os
combates, que se iniciaram, pouco antes, com a luta pela independência de uma
das últimas colônias espanholas, Cuba, levaram a que fora um dia a “invencível
armada” a mobilizar a maior frota naval até então a cruzar o Atlântico,
estimulando igualmente revolucionários filipinos a se levantarem em armas por
sua emancipação política. O resultado da guerra foi a cessão por parte da
Espanha das suas possessões de Porto Rico, Filipinas e Guam para os EUA. Cuba
se tornou independente, em 1902, mas a Emenda Platt, que vigorou até 1934,
garantiu a possibilidade de intervenção norte-americana na ilha.
Tais
iniciativas correspondiam bem a um momento histórico que o historiador
britânico Eric Hobsbawm (1988) chamou de “era dos impérios”. Marca infame dessa
época é a Conferência de Berlim que, em 1884, dividiu o continente africano
entre as potências europeias. Nesse quadro havia, em 1901, 140 colônias,
protetorados e dependências, que correspondiam a 2/3 do espaço da terra e 1/3
da população mundial (Herring, 2008).
Na
verdade, a América foi menos afetada pela partilha do globo entre antigas
potências, como a Inglaterra e a França, e novas, como a Alemanha, o Japão e os
próprios EUA. No caso do chamado Novo Mundo, a quase ausência de colônias se
devia, em boa medida, à Doutrina Monroe, que induziu o imperialismo europeu a
respeitar a “esfera de influência” de Washington, como ficara claro na disputa
territorial anglo-venezuelana, de 1895-96, decidida por um arbitramento
praticamente imposto pelos EUA.
Mas os
EUA não utilizavam na época apenas a força. Ou, como resumiu Teddy Roosevelt,
deveriam, ao lidarem com seus vizinhos, “speak softly and carry a big stick”, o
que o historiador e diplomata brasileiro Manoel Oliveira Lima traduziu
sugestivamente como “cacetão” (Lima, 1937, p. 222).
Buscando
atrair outras nações americanas, o país elaborou o que ficou conhecido como
panamericanismo, o termo tendo sido cunhado pelo Evening Post, de
Nova Iorque, em meio aos preparativos para a I Conferência Internacional de
Estados Americanos realizada, entre 1888 e 1889, em Washington. O objetivo do
encontro era organizar uma união aduaneira nas Américas, o exemplo da
unificação alemã estando ainda fresco. Apesar do fracasso da iniciativa, em boa
medida por conta da oposição de países como a Argentina e o Chile, mais nove
conferências panamericanas foram realizadas, ocorrendo até meados do século XX,
e surgiu o embrião da Organização dos Estados Americanos (OEA), ainda ativa
hoje em dia.
Em
2026, mais de cem anos depois dos bombardeios estrangeiros a portos
venezuelanos, os EUA atacaram Caracas. Cerca de 150 aviões desmantelaram a
defesa aérea da capital do país sul-americano, abrindo caminho para que
helicópteros transportassem quase 200 soldados altamente treinados. O resultado
da operação foi a morte de em torno de 100 pessoas – entre eles, 32 militares
cubanos, mas nenhum norte-americano – e o sequestro do presidente venezuelano
Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que serão julgados nos EUA.
A
acusação que pesa contra Nicolás Maduro não é mais de dívidas não pagas, mas,
como deixou claro o presidente norte-americano, Donald Trump, na entrevista
coletiva que se seguiu ao ataque, o que tem sido chamado de narcoterrorismo. O
termo justificou, desde o final de 2025, ataques norte-americanos a barcos no
Caribe e em outros mares, que custaram a vida a pelo menos 115 pessoas.
É
verdade que não se insistiu muito na desculpa do tráfico de drogas como motivo
do ataque norte-americano. Até porque a Venezuela tem participação irrisória na
venda de fentanil para os EUA, potente opioide que causa a maior parte das
mortes por overdose no país. Em contraste, o tráfico venezuelano é
principalmente de cocaína e destinado à Europa.
Na
verdade, o sequestro de Nicolás Maduro é melhor entendido à luz da Estratégia
de Segurança Nacional, divulgada pela Casa Branca em novembro de 2025.
Significativamente, o documento diz querer “afirmar e realizar um ‘corolário
Trump’ à Doutrina Monroe” (National Security Strategy, 2025, p. 5), que o
presidente norte-americano tem chamado de “Doutrina Donroe”. A Estratégia
insiste na necessidade de ter prioridades – o que não teria ocorrido com a
política dos EUA depois da Guerra Fria, envolvida com o que chama de globalismo
– o país devendo, ao contrário, se focar no hemisfério ocidental.
Nessa
referência, o documento assinala que a região é fonte de recursos estratégicos
importantes. Afirma também que os EUA precisariam garantir o domínio de fontes
de energia citando, num tom passadista, petróleo, carvão e energia nuclear, já
que elas abririam caminho para a reindustrialização e o florescimento da classe
média do país. Se poderia, nessa toada, interpretar o motivo do ataque
norte-americano à Venezuela como o acesso às maiores reservas de petróleo do
mundo. No entanto, a retomada da produção petrolífera venezuelana a níveis
razoáveis demanda investimentos vultuosos, não sendo seguro que as grandes
petroleiras norte-americanas estejam dispostas a se arriscarem num país
sabidamente instável.
Mas se
é duvidoso que os EUA atacaram a Venezuela por conta do petróleo é certo que
não o fizeram em defesa da liberdade. É sintomático que a palavra “democracia”
não foi mencionada em nenhum momento da entrevista coletiva de Donald Trump. A
própria Estratégia de Segurança Nacional norte-americana afirma não desejar
impor a democracia a nações cuja história e tradição não correspondem a esse
regime político.
Em
outras palavras, a ação militar dos EUA não foi realizada para promover uma
mudança de regime na Venezuela que poderia levar a uma situação caótica, como
ocorreu no Iraque pós-Saddam Hussein. Ao contrário, o governo norte-americano
tem demonstrado disposição de conviver com o governo da sucessora de Maduro,
sua vice-presidente Delcy Rodríguez. No que se refere ao governo venezuelano, a
recíproca também parece ser verdadeira, Delcy Rodríguez e seus ministros têm
dado seguidas demonstrações de disposição de colaboração com os EUA.
Antes,
Nicolás Maduro tinha indicado que estaria disposto a garantir o acesso dos EUA
ao petróleo e outras riquezas venezuelanas em troca de sua manutenção no poder
(https://www.nytimes.com/2025/10/10/world/americas/maduro-venezuela-us-oil.html).
Em outras palavras, há sinais de que os EUA desejam fazer da Venezuela uma
espécie de protetorado, como foi Cuba enquanto vigorou a Emenda Platt.
A
participação chinesa, russa e iraniana na exploração do petróleo venezuelano
tem, portanto, seus dias contados. No entanto, é improvável que os EUA consigam
reverter a presença cada vez maior da China na América Latina. Desde o ano 2000
até 2023, o comércio exterior chinês com a região cresceu exponencialmente, 38
vezes, ao passo que a participação dos EUA se reduziu de 54% para 37%. A China
é atualmente o segundo maior parceiro comercial da América Latina, sendo o
principal do Brasil, Chile, Peru e Venezuela (CEPAL, 2025).
Em
termos amplos, pode-se interpretar o sequestro de Nicolás Maduro como
basicamente uma demonstração de força. Nesse sentido, é possível considerar que
a hegemonia norte-americana sobre a América Latina se baseia cada vez mais na
coerção e menos no consentimento. Sintomaticamente, diferente do que era
costume para os EUA, não se justificou o ataque à Venezuela com base na defesa
da democracia.
Retoma-se
assim o “big stick”, mas não o “speak softly”, de Teddy
Roosevelt. Chega a ser curioso como a ação norte-americana na Venezuela é
reminiscente da “era dos Impérios”. No entanto, há uma diferença significativa
entre os dois momentos; os EUA eram, na passagem do século XIX para o XX, uma
potência em ascensão, são hoje uma potência em declínio.
¨
A história de Maduro, da escolha por Chávez para dar
continuidade a seu legado à captura em operação militar dos EUA
Em
2013, Nicolás Maduro substituiu um dos políticos latino-americanos mais
carismáticos dos últimos tempos, Hugo Chávez, como presidente da Venezuela, e
sobreviveu por mais de uma década à frente de um país instável. Ele resistiu à
pior crise humanitária e econômica da história recente da Venezuela, ao êxodo
de milhões de cidadãos e às repetidas pressões da oposição, de organismos
internacionais e de outros países para que cedesse o poder diante das denúncias
de autoritarismo e erosão democrática. Não resistiu, no entanto, a uma operação
militar relâmpago neste sábado, 03/01, na qual as forças americanas o
capturaram junto com sua esposa, Cilia Flores. Sua prisão e transferência para
os EUA ocorrem meses depois que o governo de Donald Trump aumentou a presença
militar no Caribe e alertou sobre um ataque contra o governo de Maduro, que
acusa de ligação com o narcotráfico. "Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia
Flores, foram acusados no Distrito Sul de Nova York. Nicolás Maduro foi acusado
de conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína,
posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos, e conspiração para posse de
metralhadoras e dispositivos destrutivos contra os Estados Unidos",
anunciou na rede social X a procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi. "Em
breve, eles enfrentarão todo o peso da justiça americana em solo americano e
nos tribunais americanos", acrescentou.
Assim
terminam quase 13 anos de Maduro no poder, marcados por sua astúcia para
superar vários momentos em que parecia estar em xeque. Depois de Hugo Chávez e
de Juan Vicente Gómez, que morreu em 1935, ninguém, exceto Maduro, ficou mais
tempo no poder na Venezuela. Uma história turbulenta que começou em 8 de
dezembro de 2012.
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O escolhido
Naquele
dia, o mundo viu Chávez pela última vez, que viajava de Caracas a Havana para
tratar um câncer. Após meses de incerteza e ausências, Chávez escolheu seu
sucessor na televisão. "Se algo acontecesse que me incapacitasse de alguma
forma, Nicolás Maduro não só deveria concluir o mandato, conforme determina a
Constituição, mas minha opinião firme, plena como a lua cheia, irrevogável,
absoluta, total, é que, nesse cenário, que obrigaria a convocar eleições
presidenciais, vocês elegessem Nicolás Maduro como presidente da República
Bolivariana da Venezuela".
O então
vice-presidente Maduro, sentado à sua esquerda, mostrava uma expressão entre o
medo e a preocupação. Chávez o escolhia. E o fazia porque o líder não seria
mais presidente. Em março de 2013, foi Maduro quem anunciou a morte do
comandante.
Chávez
elogiou Maduro, que o conheceu quando estava na prisão de Yare, onde cumpriu
dois anos de pena após o golpe de Estado fracassado de 4 de fevereiro de 1992. Em
suas visitas à prisão, o atual presidente também se encontrou com Cilia Flores,
que atuava como uma das advogadas do comandante e acabou se tornando sua esposa
e uma figura silenciosa a quem muitos atribuíram grande influência no governo. Sobre
Maduro, Chávez elogiou seu "dom de lidar com as pessoas" e o chamou
de "um revolucionário genuíno, com grande experiência apesar de sua
juventude".
Então,
aos 49 anos, Maduro era um homem de confiança que já havia sido presidente do
Parlamento, chanceler e vice-presidente. Alguns ficaram surpresos com a
nomeação de Maduro como sucessor, à frente do militar Diosdado Cabello, atual
ministro do Interior, e do poderoso ex-presidente da estatal PDVSA, Rafael
Ramírez.
Não foi
uma surpresa para aqueles que viram a ascensão progressiva de Maduro e suas
constantes viagens a Havana para se reunir com Chávez, que se encontrava com a
saúde debilitada. Chávez viu nele o civil que deveria dar continuidade à
revolução bolivariana. Um homem pragmático, não radical; com capacidade de
negociação e de atuar tanto em um comício político na rua, vestindo roupas
informais, quanto nos gabinetes, de terno e gravata.
Em
2018, quando foi declarado vencedor das eleições que renovaram seu primeiro
mandato, um ex-funcionário do governo alertou a BBC Mundo que Maduro tendia a
ser subestimado porque não tinha estudado nem tinha uma trajetória intelectual.
"Tende-se a pensar que ele é um bruto", disse essa fonte sob condição
de anonimato. Seus rivais da oposição o chamavam de "Maburro". O
desprezo tornou-se uma arma a favor que o presidente utilizou praticamente
durante todo o seu governo, mesmo quando Trump o advertia repetidamente sobre a
proximidade do seu fim e Maduro aparecia dançando em público e respondendo ao
americano, jocosamente, que "guerra, não; paz, sim".
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O presidente diante da crise
Maduro
anunciou a morte de Chávez em 5 de março de 2013. Ele liderou o funeral e os
dias de luto. E, logo depois, embarcou na campanha para as eleições de abril,
nas quais venceu Henrique Capriles por uma margem estreita. Muitos alegaram
fraude, mas Maduro assumiu o cargo em Miraflores. Sua tarefa não era apenas
tentar substituir o carisma e a devoção a Chávez, mas também enfrentar um
panorama econômico muito diferente, que o próprio comandante já havia
percebido.
Durante
o governo Chávez, foram elaboradas propostas macroeconômicas em um momento em
que os preços do petróleo começavam a desacelerar. Com a morte do comandante, a
tarefa de implementar reformas, como a do sistema cambial, acabou ficando nas
mãos de Maduro. Mas o ex-chanceler, com uma liderança muito mais fraca do que
seu antecessor e no centro de várias correntes políticas, não foi o reformista
que prometeu ser. Em 2014, os preços do petróleo despencaram e desencadearam a
terrível crise que até hoje assola os venezuelanos. Analistas criticaram então
a inércia do governo em um momento crítico.
Durante
seu mandato, Maduro deixou importantes tarefas administrativas a cargo de altos
comandantes do Exército, aos quais confiou a importação de alimentos e produtos
básicos e até mesmo a direção da petrolífera PDVSA, a fonte mais robusta de
receitas do país. A influência dos militares não evitou, no entanto, certo
descontentamento nos quartéis, conspirações, rumores de revolta e detenções.
Desde
então, Maduro parecia viver permanentemente por um fio.
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A primeira sobrevivência
Em
2015, a oposição obteve uma ampla maioria nas eleições para a Assembleia
Nacional (AN) pela primeira vez desde a chegada de Chávez ao poder em 1999. Com
107 cadeiras obtidas pela oposição da Mesa da Unidade Democrática contra as 55
do partido governista PSUV, a oposição estava habilitada a aprovar leis e
nomear membros de outros poderes públicos, como magistrados do Tribunal Supremo
de Justiça (TSJ), membros do Conselho Nacional Eleitoral ou altos funcionários,
como o Procurador-Geral da República, sem precisar contar com os votos do
partido governista. Esse revés eleitoral não pegou Maduro e o governo de
surpresa.
Nas
semanas festivas de dezembro, antes da instalação da nova Assembleia Nacional
em janeiro de 2016, Maduro nomeou novos magistrados do TSJ, instituição
alinhada ao governo, a partir da qual seria bloqueada a possibilidade de a
Assembleia Nacional exercer suas competências constitucionais. Entre outras
medidas, o tribunal suspendeu a posse de três deputados indígenas — com os
quais a oposição alcançava sua maioria qualificada — e, em seguida, declarou a
Assembleia Nacional em desacato, invalidando assim todas as suas decisões.
Figuras
emblemáticas do chavismo, como a então procuradora-geral Luisa Ortega Díaz,
romperam com o governo, enquanto o ex-secretário-geral da OEA, Luis Almagro,
falou em "autogolpe". Governos de diferentes países da região, como
Peru, Colômbia, Uruguai, Brasil, Argentina e Chile, questionaram duramente o
que ocorreu.
Em
outubro de 2016, o TSJ já havia emitido 27 decisões que bloqueavam o trabalho
do Legislativo. Naquele ano, ao completar metade do mandato de Maduro, surgiu a
possibilidade constitucional de convocar um referendo revogatório para
destituí-lo do poder, mas esses esforços da oposição foram bloqueados pelos
tribunais, que também impediram as tentativas da Assembleia Nacional de
submeter o presidente a um processo de impeachment.
Em
março de 2017, a oposição denunciou um "golpe de Estado" e a
"ruptura definitiva" da ordem constitucional depois que o TSJ decidiu
que basicamente assumia os poderes da AN, enquanto esta permanecesse em
"desacato". Embora o tribunal tenha "corrigido" a sentença
em 72 horas, o mal-estar provocou uma onda de protestos que se estendeu por
quatro meses, deixando cerca de 120 mortos. O governo respondeu com repressão,
mas também com suas próprias manifestações.
No
entanto, sua arma mais eficaz para neutralizar a oposição seria a convocação de
eleições regionais — diante das quais a oposição se dividiu — e uma Assembleia
Nacional Constituinte com poderes plenos, que lhe deu o controle de um órgão
legislativo que, em teoria, estava acima dos poderes constituídos. As eleições
foram marcadas por denúncias de fraude, incluindo as alegações da empresa de
software eleitoral Smartmatic, que afirmou que os números da eleição para a
Constituinte haviam sido manipulados. A repressão, o cansaço causado pelos
protestos e a constatação de que o governo permanecia inabalável ajudaram
Maduro a sair desse período conturbado. O ano terminou com o início de uma mesa
de diálogo entre o governo e a oposição na República Dominicana, que terminaria
sem acordo em fevereiro de 2018.
Fonte:
BBC News Brasil

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