Quando
o corpo pede pausa: veja cuidados necessários para evitar lesões
A
prática de atividades físicas traz inúmeros benefícios para a saúde, mas exige
atenção, técnica e acompanhamento adequado. Lesões decorrentes de erros de
execução, excesso de carga ou falta de orientação profissional ainda são
frequentes e podem afastar praticantes do esporte por meses, ou até
definitivamente. A história da estudante de nutrição Luísa Lofrano, 22 anos,
ilustra como uma lesão pode impactar não apenas o corpo, mas também a saúde
mental e a vida social.
"Tive
um rompimento do ligamento cruzado anterior e estiramento grau 3 do colateral
medial. Eu estava treinando uma rotina de competição de cheerleader (Full
Out)", relata. Segundo Luísa, o treino acontecia em grupo, com várias
equipes e treinadores experientes, mas nem sempre com formação em educação
física. "Como o cheerleader ainda é um esporte consideravelmente pequeno
no Brasil, quase todos os treinadores são atletas, não necessariamente formados
em educação física."
A lesão
ocorreu durante a execução de um movimento complexo e coletivo. "Houve
erro de execução dos movimentos, mas é algo esperado dentro do esporte. Eu
estava recepcionando um 'berço', em que jogamos a flyer para cima e depois
recebemos. A flyer (pessoa levantada no ar, que realiza manobras aéreas) acabou
se assustando com o arremesso, o que fez com que se mexesse muito, dificultando
a recepção. Uma das bases acabou acertando meu joelho na hora de recepcionar,
com o próprio joelho."
Na
época, a carga de treinos da estudante era intensa. "Eu treinava muito,
não só no cheerleader, mas também em levantamento de peso olímpico (LPO) e
musculação, aproximadamente seis vezes na semana. Eu treinava, pelo menos,
quatro horas por dia, somando tudo. Meu objetivo com a academia era justamente
prever lesões."
O
afastamento foi longo e doloroso. "Eu fiquei quatro meses sem poder
treinar nada e 10 meses afastada do esporte, então realmente fiquei muito
deprimida. Meu corpo mudou muito, minha ansiedade piorou demais, e todo meu
ciclo social era do esporte na época." O tratamento envolveu imobilização,
cirurgia e quase um ano de fisioterapia. "Primeiro, usei tala por três
semanas para curar o estiramento. Depois, fiz cirurgia, fiquei um mês sem
dobrar a perna direito e cerca de 10 meses em fisioterapia. Mas eu podia
colocar o pé no chão, não tive fratura de menisco, fiquei só de muleta."
Mesmo
após a recuperação, o medo permaneceu. "Eu nunca voltei para o esporte,
fiquei com muito medo de voltar a treinar. Atualmente, só treino musculação e
passei a tomar medicações para ansiedade, que não tomava antes", destaca.
Apesar de sempre ter se considerado cuidadosa, após o trauma ela tomou a
decisão de parar de participar de esportes com alto risco de lesão.
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Alerta aos riscos
Casos
como o de Luísa reforçam a importância da prevenção. De acordo com o personal
trainer Luiz Fernando Lukas, o uso inadequado de aparelhos de musculação está
entre as principais causas de lesões nas academias. Ajustes errados de banco,
excesso de carga e execução incorreta dos exercícios podem provocar sobrecarga
nas articulações, lesões musculares, problemas na coluna e até quadros mais
graves, como hérnias e rupturas. "Isso pode tirar o praticante da
atividade física por muito tempo ou para sempre e, até mesmo, levar à morte,
como vimos recentemente", alerta.
Outro
fator de risco é a falta de orientação profissional. Muitos iniciantes copiam
treinos vistos nas redes sociais sem considerar suas limitações individuais.
Segundo o especialista, "a presença de um profissional de educação física,
o uso correto dos aparelhos e o respeito aos limites do corpo são fundamentais
para garantir a segurança nas academias". Para treinar sem riscos, ele
destaca a importância da execução correta, da progressão gradual das cargas e
da consciência corporal.
Entre
os erros mais comuns estão o uso de cargas excessivas logo no início, postura
incorreta, regulagem inadequada dos aparelhos, execução rápida demais e uso de
impulso em vez da força muscular. A execução incorreta pode causar desde dores
musculares persistentes e inflamações nos tendões até distensões, rupturas
musculares, lesões nos ombros e joelhos, dores lombares e hérnia de disco. Com
o tempo, esses problemas podem se tornar crônicos e afastar o praticante dos
treinos.
Exercícios
que envolvem grandes cargas e múltiplas articulações exigem atenção redobrada,
como leg press, agachamento no smith, cadeira extensora, puxador e supino,
tanto em máquinas quanto com barra livre. "Algumas máquinas, por 'guiar' o
movimento, passam uma falsa sensação de segurança, o que leva o praticante a
exagerar na carga e ignorar limites individuais", explica Luiz Fernando.
Ajustar
corretamente a carga, o banco e a postura é decisivo para a segurança e os
resultados. "Uma carga acima do ideal aumenta o risco de lesões, o banco
mal regulado altera o eixo do movimento e sobrecarrega as articulações",
alerta. Além disso, quando a postura está incorreta, o músculo-alvo é menos
exigido, enquanto outras regiões acabam compensando. "Quando tudo está bem
ajustado, o exercício fica mais eficiente, o músculo certo é recrutado, o risco
de lesão diminui e os resultados aparecem com mais consistência. No treino,
segurança e resultado caminham juntos."
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Principais erros
Para o
personal trainer João Vitor Euriques Paulino, a execução errada não anula
totalmente os ganhos, mas compromete o desenvolvimento muscular. "Eu digo
que a 'execução errada' não anula o ganho de massa muscular, mas atrapalha o
resultado ou não desenvolve aquele grupamento muscular específico." Ele
observa que isso costuma acontecer em dois extremos: iniciantes e praticantes
muito experientes. "Geralmente, acontece com o público que acabou de
entrar na academia ou com a galera que está treinando há muito tempo e acha que
não precisa de informação nenhuma."
Outro
ponto fundamental é a respiração. "O controle da respiração é essencial
para que o aluno mantenha a frequência cardíaca sem tanta alteração, tenha
menos fadiga e melhore a execução do exercício." A recomendação é realizar
a expiração na fase concêntrica do exercício, na contração. "O famoso:
contrai e solta o ar." Negligenciar esse controle pode levar à queda de
performance, aumento da fadiga, enjoo e até desmaios em casos extremos.
Treinar
sozinho, sem orientação, também eleva os riscos. "Hoje, devido ao excesso
de informações nas redes sociais, confiança demais e falta de concentração são
combinações perigosas", afirma João Vitor. Acidentes costumam ocorrer por
excesso de carga, treinos em grupo sem priorizar a técnica ou simples falta de
atenção.
O corpo
costuma dar sinais quando algo está errado. "Um dos sinais são dores nas
articulações e a não ativação da musculatura pretendida. O indivíduo não sente
aquele músculo trabalhar ou acaba sentindo outro grupamento muscular."
Nessas situações, o mais importante não é insistir, mas interromper, ajustar o
exercício ou até substituí-lo. "O mais importante é ajustar ou trocar o
exercício", reforça.
Fonte:
Correio Braziliense

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