Por
que cabecear a bola em esportes como futebol pode ser tão perigoso e causar
danos ao cerébro
Para o
jogador de futebol, não há nada como saltar em direção à bola lançada na sua
direção em grande velocidade, cabeceá-la para as redes e marcar um gol para o
seu time.
Mas
estão surgindo cada vez mais evidências de que cabeceios frequentes podem gerar
danos ao cérebro que se manifestam décadas depois, na forma de mal de
Alzheimer, Parkinson e doença do neurônio motor.
Os
riscos dos esportes de contato, na verdade, são conhecidos há quase 100 anos.
Em
1928, o patologista americano Harrison Martland (1883-1954) publicou um artigo
científico, defendendo que, "há algum tempo, os fãs e promotores de lutas
reconheceram a ocorrência de uma condição peculiar entre os lutadores
profissionais que, na linguagem do ringue, é conhecida como punch drunk",
um termo em inglês usado para designar o atordoamento causado pelos golpes na
cabeça.
Os
sintomas incluem andar cambaleante e confusão mental. Eles eram mais comuns
entre "lutadores do tipo violento, que normalmente são maus boxeadores e
sofrem muitos golpes na cabeça".
Em
alguns casos, o atordoamento progrediu para um tipo de demência, classificada
posteriormente como "demência pugilística". Ela ocorre em boxeadores
que sofreram repetidos golpes na cabeça.
Inicialmente,
acreditava-se que este problema fosse restrito ao pugilismo. Mas, nas últimas
décadas, o conhecimento se expandiu.
O
jogador de futebol Jeff Astle (1942-2002), do time West Bromwich Albion e da
seleção da Inglaterra, morreu aos 59 anos de idade, após o diagnóstico de
demência precoce.
E, nos
Estados Unidos, o jogador de futebol americano Mike Webster (1952-2002) morreu
subitamente com 50 anos, depois de sofrer declínio cognitivo e outros sintomas
similares ao mal de Parkinson.
Nos
dois casos, o exame do cérebro dos astros demonstrou que eles morreram de
encefalopatia traumática crônica (ETC), uma designação mais moderna que
substituiu o diagnóstico de demência pugilística.
Surgiram
outros casos entre esportistas conhecidos nos anos seguintes.
No dia
17 de fevereiro de 2011, o ex-jogador do Chicago Bears David Duerson
(1960-2011) cometeu suicídio. Ele sofria de depressão e análises subsequentes
do cérebro mostraram que ele também tinha ETC.
No
Brasil, o pugilista Adilson "Maguila" Rodrigues (1958-2024) também
conviveu com a ETC. O ex-campeão mundial na categoria peso-pesado pela
Federação Mundial de Boxe morreu aos 66 anos de idade.
"A
ETC é uma forma muito específica de patologia cerebral degenerativa, que só
observamos em pessoas com histórico de lesões ou impactos na cabeça",
segundo o consultor em neuropatologia Willie Stewart, da Universidade de
Glasgow, no Reino Unido.
Esta
condição também é singular porque, se olharmos ao microscópio, veremos um
padrão específico de depósitos anormais de proteína no cérebro, denominados
tau.
"A
melhor forma de saber se alguém sofre de ETC é perguntar 'você já jogou
futebol?' ou 'você já jogou rugby?'", segundo Stewart.
"Porque,
se você for jogador de futebol profissional e tiver demência, suas chances de
ter ETC no cérebro são muito altas."
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O que dizem as pesquisas
Desde
2008, a professora de neurologia e patologia Ann McKee, da Faculdade de
Medicina da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, vem convidando
ex-atletas a participar de estudos para saber como diagnosticar e tratar a ETC.
Em
2023, McKee e seus colegas analisaram cérebros doados de 376 ex-jogadores de
futebol americano da liga nacional dos Estados Unidos (NFL). Eles descobriram
que 91,7% deles tiveram ETC.
Os
jogadores examinados incluíram o ex-quarterback do Philadelphia Eagles Rick
Arrington (1947-2021). Ele jogou pela equipe do Estado americano da Pensilvânia
entre 1970 e 1973.
Também
foi estudado o cérebro do ex-defensor do Kansas City Chiefs Ed Lothamer
(1942-2022), que disputou a primeira edição do Super Bowl.
O
resultado do estudo não representa o risco real de desenvolver ETC entre os
jogadores de futebol americano, já que as pessoas que suspeitam que podem ter a
condição podem ser mais propensas a doar seu cérebro para a ciência.
Mas,
para dar uma ideia, calcula-se que a incidência de ETC na população em geral
seja de menos de 1%.
McKee
também diagnosticou ex-jogadores de baseball, ciclistas e astros do hóquei
sobre o gelo com ETC. Em todos os casos, o denominador comum foram os golpes
repetidos na cabeça.
Mas não
se trata apenas desta condição. O cabeceio também está relacionado a outras
doenças degenerativas do cérebro.
Stewart
conduz um estudo em andamento chamado Influência do Futebol sobre a Saúde ao
Longo da Vida e o Risco de Demência (Field, na sigla em inglês).
Em
2019, ele e sua equipe examinaram o histórico de saúde de cerca de 8 mil
ex-jogadores de futebol profissional escoceses e os compararam com 23 mil
membros da população em geral.
"Pegamos
nossos futebolistas e os comparamos com pessoas da comunidade que nasceram no
mesmo ano e viveram aproximadamente na mesma região", explica Stewart.
"Para
cada jogador de futebol, tivemos três controles coincidentes. Com isso,
formamos uma boa ideia de como deve ser o envelhecimento e a saúde
normal."
Legenda
da foto,Em 2023, um estudo com cérebros doados por antigos jogadores de futebol
americano da liga NFL concluiu que mais de 90% deles mostravam sinais de
encefalopatia traumática crônica, uma condição relacionada à demência
O
estudo concluiu que ex-jogadores de futebol profissional apresentam propensão
cinco vezes maior a desenvolver mal de Alzheimer; quatro vez maior a sofrer de
doença do neurônio motor; e duas vezes mais probabilidade de desenvolver mal de
Parkinson, em comparação com pessoas da mesma idade na população em geral.
Ao
todo, ex-jogadores de futebol profissional apresentaram 3,5 vezes mais chance
de morrer por doenças neurodegenerativas que o esperado.
"O
risco é maior nas posições em que ocorre a maior parte das cabeçadas",
segundo Stewart.
"Por
isso, os defensores correm risco muito mais alto que os demais jogadores. E, se
você for goleiro, seu risco é mais ou menos o mesmo da população em
geral."
A
pesquisa de Stewart também demonstrou que, quanto mais tempo uma pessoa jogar
futebol profissional, maior é o risco. Ele varia de cerca do dobro para os
jogadores com carreira mais curta até cerca de cinco vezes nas carreiras mais
longas.
Ex-jogadores
de rugby também apresentam maior risco de desenvolver doenças
neurodegenerativas.
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Os motivos
Mas por
que cabecear uma bola causa tantos danos ao cérebro?
A ETC
só costuma ser diagnosticada após a morte, pois ela deixa emaranhados
denunciadores de uma proteína anormal chamada tau no córtex cerebral das
pessoas afetadas.
Mas o
professor de radiologia Michael Lipton, do Centro Médico Irving da Universidade
Columbia, nos Estados Unidos (CUIMC), utilizou ressonância magnética do cérebro
para detectar os primeiros sinais da condição em jovens jogadores de futebol
amador.
"Selecionamos
pessoas com mais de 18 anos, que jogam em algum tipo de grupo organizado",
explica Lipton. "Pode ser um time universitário, mas normalmente uma liga
recreativa."
"Temos
muitas pessoas que não cabeceiam a bola e outras que cabeceiam milhares de
vezes por ano."
A
pesquisa demonstrou que os jogadores que cabeceiam a bola com mais frequência
apresentam resultados inferiores em testes de memória e aprendizado, além de
demonstrarem sinais claros de lesões na parte do cérebro pouco atrás da testa,
conhecida como córtex orbitofrontal.
"É
a parte do cérebro logo acima da órbita ocular", segundo Lipton.
A
camada exterior do córtex orbitofrontal, composta de massa branca, parece ser
particularmente vulnerável.
"A
massa branca é como o cabeamento em rede do cérebro humano", explica ele.
"Ela é composta de filamentos muito finos chamados áxons, que transmitem
informações."
Estes
filamentos finos são muito vulneráveis à aceleração rápida por uma força
súbita.
A
mudança brusca da velocidade da cabeça durante o impacto faz com que o cérebro
ricocheteie dentro do crânio, estirando os áxons e prejudicando sua
conectividade.
"Se
você pensar no cabeceio, o impacto à cabeça é relativamente suave",
explica Lipton. "Ele não causa fraturas no crânio, nem sangramento no
cérebro, nem lesões óbvias, mas tem potencial de fazer com que as forças
trafeguem através do cérebro."
"Essas
forças fazem com que o cérebro dentro do crânio se movimente para longe do
local do impacto. E o cérebro é extremamente mole, quase com a consistência de
gelatina. Por isso, quando recebe um impacto como este, o cérebro irá se
comprimir, retorcer e deformar, causando tensão sobre os áxons."
Pesquisas
subsequentes de Lipton e seus colegas demonstraram que o espaço entre a massa
branca e a cinzenta no córtex orbitofrontal sustenta a maior parte das lesões
causadas pelo cabeceio.
Os
cabeceadores mais frequentes, com mais de 1 mil bolas tocadas de cabeça por
ano, apresentaram danos significativamente maiores naquela região.
Isso
provavelmente ocorre devido à diferença de densidade entre a massa branca e
cinzenta do cérebro, que faz com que elas se movimentem em velocidades
diferentes ao cabecear a bola.
Essa
diferença cria forças de cisalhamento entre os dois tipos de tecido. Mas ainda
não sabemos o que acontece em seguida.
"Nossas
pesquisas indicam que, nessas pessoas relativamente jovens e saudáveis, existe
algo acontecendo no seu cérebro, mas que não causa doença naquele
momento", segundo Lipton.
Alguns
desses indivíduos podem vir a desenvolver condições como ETC, mal de Alzheimer,
Parkinson ou doença do neurônio motor. Outros, não.
Além do
número de cabeceios ao longo da vida, talvez algumas pessoas sejam mais
vulneráveis que outras, devido a uma combinação de fatores genéticos ou de
estilo de vida.
Entre
as pessoas que desenvolvem doenças neurodegenerativas, uma hipótese é que
repetidos impactos ao cérebro possam danificar os vasos sanguíneos ou acionar
um processo de inflamação crônica, que leva à doença com o passar do tempo.
"Em
resposta às lesões das fibras e dos vasos sanguíneos, surge a inflamação como
reação de cura do cérebro para tentar reparar a situação", explica
Stewart.
"Pode
ser que os vasos, na verdade, não sejam adequadamente reparados e, por isso,
eles apresentem vazamentos crônicos que levam para o cérebro substâncias que
não deveriam estar ali. Ou, talvez, a inflamação nunca termine realmente como
deveria e você acabe com um processo inflamatório crônico."
Alternativamente,
aquela lesão talvez cause a degeneração e a morte dos neurônios, ocasionando
cada vez mais problemas ao longo do tempo.
"Provavelmente
se trata de uma mistura de todos esses fatores, gerando problemas de longo
prazo, mas é isso que estamos tentando identificar", afirma Stewart.
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Reduzir os cabeceios
O que
podemos fazer para proteger os atletas profissionais e esportistas amadores
contra a demência na idade avançada? Bem, a tecnologia pode ajudar.
Pesquisadores
da Universidade de Stanford, no Estado americano da Califórnia, estão
projetando capacetes para futebol americano com absorventes de choque líquidos
no seu interior. Afirma-se que eles reduzem os impactos à cabeça em cerca de
30%.
Cabecear
menos a bola também pode ajudar. No Reino Unido, devido à pesquisa de Willie
Stewart, as categorias inferiores de futebol eliminaram o cabeceio.
O grupo
do pesquisador também defende com sucesso a redução da quantidade de cabeceios
durante os treinos.
"Quando
conversamos com os jogadores de futebol, descobrimos que eles podem cabecear a
bola 70 mil vezes durante sua carreira", explica Stewart, "mas apenas
2 mil vezes durante os jogos."
"Ou
seja, são 68 mil impactos à cabeça durante os treinos, que ninguém observa. Por
isso, vamos eliminá-las ao máximo possível."
Mas,
como sempre acontece, a prevenção é a melhor cura.
"Se
simplesmente parássemos de bater nossas cabeças contra as coisas, o risco
cairia a zero", segundo o pesquisador. "Mas, em termos práticos, é
difícil convencer as pessoas a fazer isso."
Fonte:
BBC Future

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