Exploração
espacial: os cientistas querem transformar a Lua em um posto de combustível
De uma
forma ou de outra, os seres humanos estão voltando à Lua. E desta vez, eles vão
ficar. Tanto os Estados Unidos quanto a China planejam construir suas próprias
bases lunares no polo sul da Lua.
Essa
localização não é aleatória; acredita-se que ela contenha reservas preciosas de
água, seja na forma de gelo, água subterrânea ou ambos. Essas reservas poderiam
ser usadas para hidratar astronautas, cultivar plantações e fabricar
combustível para foguetes.
Essa
última aplicação, de produção de combustíveis, pode parecer surpreendente, mas
a química é bastante básica. Isso porque a água é composta por hidrogênio e
oxigênio. Quando liquefeitos, esses dois elementos podem inflamar-se e ser
usados para propulsionar naves espaciais de forma muito eficaz.
Se essa
alquimia funcionar na Lua, isso tornaria o polo sul lunar mais do que apenas um
posto de pesquisa científica. Ele se tornaria um depósito de combustível, capaz
de fabricar seu próprio propelente, em vez de ter que enviá-lo da Terra a um
custo elevado. E isso tornaria a viagem a Marte consideravelmente mais fácil.
“Os
benefícios da produção abundante de propelente na superfície lunar são
enormes”, afirma George Sowers, engenheiro mecânico da Escola de Minas do
Colorado. “A água é o petróleo do espaço.”
Nenhuma
das tecnologias necessárias para transformar água em combustível é fruto da
ficção científica; todas elas já existem de uma forma ou de outra, mas só foram
utilizadas adequadamente na Terra.
A baixa
gravidade e a natureza extrema do polo sul lunar são condições bastante
diferentes das do nosso planeta. “Não temos ideia se isso funcionará nessas
condições”, afirma Paul Zabel, pesquisador do Instituto de Sistemas Espaciais
DLR em Bremen, na Alemanha. E só há uma maneira de descobrir.
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Como encontrar água na Lua
O
primeiro passo será descobrir onde está escondida a água da Lua. Os astronautas
ainda não exploraram o polo sul lunar — e, embora evidências de sondas orbitais
da Nasa e da agência espacial indiana tenham determinado que ele contém água,
talvez não haja uma abundância dela.
Quando
atingida pela luz solar, a superfície lunar pode chegar a 121°C, enquanto na
escuridão pode cair para -245°C. Mesmo nas partes particularmente frias da Lua,
qualquer gelo se vaporiza e escapa para o espaço, pois não há atmosfera para
mantê-lo na superfície lunar.
Alguns
dos locais mais promissores são conhecidos como regiões permanentemente
sombreadas, partes da superfície lunar — muitas vezes crateras íngremes e
profundas — que nunca são expostas à luz solar e são alguns dos lugares mais
frios do universo. Essas áreas “são a melhor chance de encontrar grandes
quantidades de água que podem realmente ser usadas como recursos”, afirma Julie
Stopar, cientista sênior do Instituto Lunar e Planetário.
Mas
dentro desses abismos obscuros, não espere encontrar geleiras. “A água não está
realmente lá como uma pista de gelo. Ela está misturada ao solo”, diz Stopar.
“Há algumas evidências de geada na superfície, mas não será um volume muito
grande.”
Mesmo
que essas crateras de escuridão perpétua estejam cheias de água, elas seriam
locais altamente precários para os astronautas explorarem, mesmo com rovers
lunares de alta tecnologia transportando seus equipamentos científicos e de
mineração. “É questionável se podemos entrar lá com um rover”, diz Zabel.
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“Cozinhar” as rochas lunares para extrair água
No
entanto, se a água no solo lunar for acessível e abundante o suficiente, ela
poderá ser extraída. E há várias maneiras que os engenheiros propuseram para
fazer isso — a maioria delas envolve aquecer a rocha para expelir a água presa
nela.
“Se
houver gelo suficiente perto da superfície, então o calor pode ser aplicado
diretamente na superfície e o vapor capturado sob uma cúpula chamada tenda de
captura”, diz Sowers. O vapor é então coletado em um recipiente frio chamado
armadilha fria, onde se transforma em gelo utilizável.
Apesar
de ser um dos lugares mais frios do Cosmos, a superfície da Lua pode um dia ter
várias fontes de calor. A luz solar refletida é uma opção. Alternativamente,
tanto os Estados Unidos quanto a China também planejam colocar reatores
nucleares na Lua para não dependerem da energia solar — que pode ser um pouco
instável no polo sul lunar — para sustentar suas bases. As reações de fissão
que dividiriam os átomos para alimentar essas usinas também produzem excesso de
calor que poderia ser aproveitado para a extração de água.
Nos
últimos anos, agências espaciais e parceiros da indústria criaram diferentes
maneiras de usar o calor para recuperar o gelo lunar. Uma proposta seria
utilizar um motor de foguete, preso sob uma cúpula pressurizada, para escavar
crateras mais profundas e extrair mais água do que outros métodos permitiriam.
Embora
se concentre mais em Marte, a Nasa também tem seu próprio conceito de “poeira
para propulsão”, no qual robôs autônomos cavariam o solo extraterrestre,
transportariam para uma instalação de processamento e aqueceriam em fornos para
remover a água.
Uma das
tecnologias de extração de água mais promissoras é uma cortesia de um projeto
da Agência Espacial Europeia chamado LUWEX (abreviação de Lunar Water
Extraction, ou Extração de Água Lunar) — e já existe um protótipo funcional.
Robôs de mineração autônomos ou astronautas despejariam solo gelado na boca do
aparelho.
Zabel,
gerente do projeto LUWEX, explica que aquecer rochas lunares congeladas é
bastante difícil, devido à falta de atmosfera na Lua e às temperaturas
superficiais já assustadoramente baixas. É por isso que o cadinho do LUWEX
agita e gira o solo lunar, o que o grelha com mais eficiência e remove o gelo.
A
partir daí, uma armadilha fria captura a água liberada e a transfere para um
liquefator, pronta para ser usada. Bem, quase pronta: nesta fase, a água ainda
está poluída por partículas extremamente finas de poeira lunar, semelhantes a
vidro. “Tem uma aparência leitosa, como leite cinza”, diz Zabel. Felizmente, os
engenheiros que trabalham no projeto também projetaram um purificador que
parece fazer maravilhas. “Alcançamos a qualidade da água potável.”
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Transformando água em gases inflamáveis
Por
fim, a água precisa ser separada em hidrogênio e oxigênio por meio de um
processo conhecido como eletrólise, no qual correntes elétricas rompem as
ligações moleculares entre esses dois elementos.
Existem
várias versões desse processo que funcionam na Terra. No Espaço, houve menos
demonstrações dessa tecnologia, mas vários laboratórios a testaram em vácuos
superfrios — uma simulação da superfície lunar. E o experimento Moxie do rover
Perseverance da Nasa mostrou que é possível usar a eletrólise para separar o
oxigênio respirável do dióxido de carbono tóxico em Marte.
Mas
mesmo a água potável não é boa o suficiente para ser separada eletricamente em
hidrogênio e oxigênio; ainda há muitas impurezas químicas nela para produzir um
combustível limpo. Para o LUWEX, “precisaríamos adicionar outra etapa de
polimento”, diz Zabel. Ele observa que tecnologias de purificação de água
extremamente eficazes são comuns na Terra. “Só precisa ser transformada em
tecnologia para o espaço.”
Então,
quando você tiver sua água cristalina, poderá extrair o hidrogênio e o oxigênio
dela por meio de um processo de ionização. “Por fim, os gases são liquefeitos e
armazenados como propelentes de hidrogênio líquido e oxigênio líquido”, diz
Sowers.
Zabel
espera que, em alguns anos, a LUWEX chegue ao polo sul lunar. “Seria ótimo
produzir um litro de água na Lua como demonstração da tecnologia”, diz ele.
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O gás barato pode impulsionar a próxima corrida espacial
Ainda
estamos muito longe de ter o que seriam efetivamente postos de abastecimento no
polo sul lunar. Mas se a corrida espacial entre a China e os Estados Unidos
realmente esquentar, como se espera, então o rápido desenvolvimento tecnológico
não ficará muito atrás.
“Há
muita engenharia excelente e muitas ideias excelentes”, comenta Stopar. “Alguém
precisa dar o primeiro passo.”
Quando
as primeiras bases lunares forem instaladas e os astronautas passarem mais do
que apenas alguns dias ou semanas lá, a maior parte do que eles precisarão para
sobreviver será enviada da Terra. Mas, com o tempo, essas bases precisarão se
tornar autossustentáveis, porque lançar qualquer coisa da Terra custa uma
quantia enorme de dinheiro, devido à forte atração gravitacional do nosso
planeta e à necessidade de usar grandes quantidades de combustível de foguete
para escapar dela.
Mas a
Lua tem baixa gravidade e nenhuma atmosfera para atravessar. Portanto, lançar
foguetes de lá é mais fácil — e mais barato — do que lançar qualquer coisa da
Terra.
Por que
não usar o polo sul lunar como base para futuras explorações do Sistema Solar?
Principalmente porque isso exigiria consideravelmente menos combustível no
geral, “o custo de uma única missão tripulada a Marte pode ser reduzido em US$
12 bilhões usando propelente lunar”, diz Sowers.
E não
serão apenas os foguetes que usarão esse propelente à base de água. Você
poderia “colocá-los em células de combustível para alimentar os automóveis
rovers lunares”, afirma Zabel. Você poderia usá-los para sustentar máquinas que
consomem muito mais energia e que não podem ser alimentadas de forma confiável
por células solares ou de forma segura por reatores de fissão nuclear.
E o que
funcionar na Lua provavelmente também funcionará em outros lugares do Espaço.
Tornar a superfície lunar um ambiente autossustentável será útil. Mas, para que
os astronautas permaneçam no Planeta Vermelho, esse tipo de sistema será
essencial. “Toda a arquitetura da Lua a Marte depende de parte disso ser
demonstrado na superfície lunar”, diz Stopar.
Mas
mesmo que se torne possível fabricar água potável em massa e, por sua vez,
combustível para foguetes na Lua, isso deixa um problema bastante delicado sem
uma solução clara. “Os recursos não são infinitos”, comenta Zabel. É fácil
imaginar uma situação em que a China e os Estados Unidos estejam competindo
para encontrar e extrair essa água inestimável antes um do outro, no mesmo
canto apertado da Lua.
Fonte:
National Geographic Brasil

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