Trump
usa imagens de ação na Venezuela para recados políticos e controle narrativo
A
captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, completa 10 dias nesta
segunda-feira, 12 de janeiro. Mesmo com o repúdio das Nações Unidas e da
maioria dos países membros da Organização e do esforço do jornalismo local para
transmitir informações seguras, a realidade da Venezuela sem Maduro está
colocada, mesmo com a possível manutenção do chavismo.
É uma
realidade que trará impacto, pelo menos, a toda América Latina, e o Brasil está
começando a levantar riscos futuros. Após as mudanças, o que se firma no
imaginário são as imagens divulgadas da ação, principalmente nas redes sociais.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem demonstrado que sabe a
importância disso para seu futuro político.
Diante
dessas fotos e vídeos, o professor do curso de publicidade da Escola de
Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) Bruno Pompeu analisa
que eles não operam como simples registro dos fatos, mas como um conjunto de
signos que molda a percepção pública sobre eles.
Na
coletânea de signos, um Maduro vendado, algemado e titubeante contrasta com
salas americanas organizadas, cheias de telas e autoridades em ação. O que se
divulga é menos a operação em si e mais uma narrativa visual de vitória,
controle e legitimação do poder.
Pompeu
faz uma análise semiótica das postagens da Casa Branca, ou seja, analisa as
fotografias não como flagrantes neutros, mas como um “conjunto de signos” que
constrói sentidos. Ele chama a atenção para o tratamento técnico desigual entre
os dois conjuntos de registros.
As
imagens dos EUA apresentam maior nitidez, contrastes marcados e uma iluminação
“mais quente”, associada ao dramatismo cinematográfico. Já as de Maduro
aparecem menos elaboradas, de acabamento mais “tosco”, o que reforça a ideia de
precariedade e derrota.
“Maduro
aparece com os olhos vendados sendo levado para algum lugar, sendo transportado
sem ter a menor condição de saber para onde estava indo. Portanto, sem qualquer
projeção de futuro, sem ter qualquer controle sobre o que virá, sem ter
qualquer capacidade de nem sequer compreender o que está acontecendo. Já Donald
Trump aparece em diversas imagens cercado de signos, a meu ver, de expansão”,
diz Pompeu.
A
equipe de reportagem da Agência Pública levantou todas as imagens publicadas
pela Casa Branca na rede social X (antigo Twitter) entre 20 de outubro de 2025
e 8 de janeiro de 2026. No período, foram 639 postagens com imagens, que
tiveram, em média, 19,2 mil curtidas e 3,7 mil compartilhamentos por
publicação.
O post
com maior engajamento de todo o período foi justamente o que utiliza a imagem
da prisão de Nicolás Maduro — um repost da conta de Donald Trump na rede Truth
Social. Ele ultrapassou 416 mil curtidas, mais de 21 vezes a média do perfil no
período levantado. Também contou com 81 mil compartilhamentos, praticamente 22
vezes a média do canal.
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O que é Semiótica?
É a
ciência que estuda os signos, os símbolos e seus significados. Os signos podem
ser escritos, visuais, pictóricos, auditivos, ou qualquer produção humana
elaborada intencionalmente para ser interpretada por outra pessoa e
influenciá-la. A Semiótica é utilizada para desvendar os objetivos de
discursos, filmes, fotos e elementos multimídia. Para os estudiosos dessa
ciência, as produções podem utilizar diversas linguagens, e por isso a análise
deve considerar todos os elementos, como cores, cultura local, posicionamento
de objetos, entre outros, para entender quais as mensagens estão sendo emitidas
e recebidas naquele contexto.
“Trump
aparece também, como todos os outros que estão ao seu redor, de terno escuro,
bem cortado e impecavelmente passado, com linhas retas, como se fosse um
material sólido, lapidado, muito reto, muito forte, muito robusto e muito
organizado. Quando a gente compara com a figura do Nicolás Maduro, é muito
contrastante, porque ele está de moletom, de nylon, de tecidos que amassam
muito facilmente, tecidos que representam, culturalmente, a derrota”,
complementa o professor, citando o estilista Karl Lagerfeld, que chegou a dizer
que a roupa de moletom, simbolicamente, representa alguém que perdeu o controle
da própria vida.
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Por que isso importa?
Donald
Trump deixou claro que pretende controlar a produção e distribuição de petróleo
no país sulamericano, que tem a maior reserva de petróleo do mundo.
O
presidente dos EUA tem feito declarações onde defende outras invasões na
América Latina e na Groenlândia, território da Dinamarca.
“Ele
[Maduro] vira uma coisa que é de alguém. Tem esse processo fetichista de
coisificação do próprio Maduro, não só de subjugamento, de dominação, mas de
coisificação onde todos os elementos da humanidade foram retirados ou
intencionalmente construídos para serem retirados”, analisa a professora e
pesquisadora de semiótica no Departamento de Relações Públicas da ECA-USP
Clotilde Perez.
“Aquelas
fotos postadas tinham esse objetivo. Você tira a visão, tira a audição, ele tem
dificuldade para andar porque está algemado. Tem vários processos bastante
sádicos sendo colocados ali. […] Toda a parte sensível [do ser humano] é
extraída”, complementa Perez.
O
professor visitante da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Júlio Pinto,
chama atenção para outro aspecto central: a tradução visual da lógica de
polícia e bandido. Ele lembra que, nos Estados Unidos, o repertório cultural de
séries e filmes policiais tornou-se um código compartilhado com enorme
popularidade.
A
linguagem oficial da Casa Branca, segundo Pinto, associa sistematicamente o
presidente venezuelano à figura do “narcoterrorista”, fundindo crime e
terrorismo e legitimando respostas de exceção.
Para o
professor da UFPB, a imagem do corpo encurvado de Maduro, “um homem alto de
quase 1,90m”, potencializa o contraste entre “winner e loser”, categorias
profundamente enraizadas na cultura política americana. A mensagem que se
difunde ao público internacional, afirma, é dupla: os EUA aparecem como
vencedores e disciplinadores, enquanto a América Latina é reposicionada no
velho papel de espaço tutelado.
“Todo
esse sistema, que vem sendo construído desde Hollywood, […] em que se tem
sempre o mocinho versus o bandido, os brancos contra os índios. Sempre matando
os índios, os esquisitos, os diferentes. Esse conjunto simbólico funciona como
uma espécie de argumento, um dispositivo mental que controla, inclusive, as
interpretações que as pessoas vão ter”, avalia Pinto. Para o professor, a
fotografia de Maduro capturado ao lado de agentes estadunidenses “cria uma
mensagem simbólica para todo mundo que os Estados Unidos são o povo vencedor, e
ao mesmo tempo, [ainda gera] aplausos da extrema direita no Brasil”, argumenta.
Outro
post publicado pela Casa Branca, com Trump junto ao secretário de Estado, Marco
Rubio, durante a operação na Venezuela, alcançou 138 mil curtidas e 18 mil
compartilhamentos, ou seja, é sete vezes mais do que a média de curtidas da
conta e quase cinco vezes mais a média de compartilhamento.
Segundo
Perez, quando o presidente dos EUA aparece cercado por sua equipe, “homens
brancos, potencialmente héteros, de ternos azuis sobre mesas pretas, onde o que
aparece é a tecnologia, o celular, a tela do computador, [tudo] super
tecnológico”, o enquadramento reforça uma lógica de poder e comando e constrói
a ideia de uma “situação de guerra” em que Trump ocupa sempre a posição
central.
A
professora afirma que a geopolítica contemporânea se tornou
“mediático-performática”, um ambiente em que nenhuma imagem é neutra. Essa
intencionalidade, segundo ela, se apoia numa moralidade simplificadora, típica
da lógica adotada por Trump, que organiza a política a partir de dicotomias,
“como bem e o mal, o certo e o errado”.
Essa
narrativa provoca simultaneamente fascínio e medo, segundo Perez. O fascínio
está ligado à atração humana pelo poder e pela força; o medo, aos recados
implícitos dirigidos a adversários e países “não alinhados”. Na leitura dela,
as imagens dizem, de forma indireta, “ou você se alinha, ou esse pode ser o seu
destino”.
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Passar a mensagem é mais importante do que engajar
Embora
a estética performática — com Trump em destaque e uso recorrente do preto e
branco — apareça de forma consistente ao longo do período, ela não garante, por
si só, maior engajamento.
O que
os números mostram é menos um padrão contínuo e mais a existência de picos de
atenção concentrados em momentos específicos, quando essa linguagem visual é
acionada para narrar, de forma dramatizada, episódios de confronto, captura ou
vitória simbólica.
Quando
a Casa Branca postou fotos oficiais do encontro entre o norte-americano e o
presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a posição entre os dois seguiu a
mesma estrutura. Na primeira foto em que Zelensky aparece, o foco está mais em
Trump, reforçando a ideia de que o presidente dos Estados Unidos é mais forte
que os demais. As cores quentes, o posicionamento de câmera e a postura de
Trump, corroboram a visão expansionista relatada pelos especialistas ouvidos
pela Pública e a atual relação entre os dois países: um fortalecido, Estados
Unidos, e outro precisando de apoio, Ucrânia.
A foto
do encontro entre Trump e Zelensky, apesar de empregar recursos recorrentes da
iconografia trumpista, registrou cerca de 4 mil curtidas e 921
compartilhamentos, quase 5 vezes abaixo da média de curtidas do perfil. Este
post é um dos 37 que usa as fotos em preto e branco no período analisado.
Já a
foto em preto e branco publicada logo após a captura de Maduro, com um retrato
de Trump e a gíria FAFO, do termo em inglês Fuck Around and Find Out (que
significa para os norte-americanos algo como “procure e você vai achar”), teve
aproximadamente 10 vezes mais curtidas que a média do canal e oito vezes mais
que a de compartilhamento. Trata-se de mais um exemplo em que a análise
iconográfica mostra um Trump superior, além de reforçar a visão expansionista
dos EUA.
A Casa
Branca postou, em 31 de dezembro do ano passado, no X, uma retrospectiva das
frases do ano de 2025, e reutilizou a frase “Peace Through Strength” (paz
através da força, em tradução livre). A expressão ficou conhecida quando o
ex-presidente republicano dos Estados Unidos, Ronald Reagan, a adotou nos anos
80.
O post
teve mais de 380 mil visualizações, 9 mil curtidas e 583 compartilhamentos, o
que ficou abaixo da média de curtidas e compartilhamentos da Casa Branca. Não
foi a primeira vez que a frase apareceu no perfil da Casa Branca durante o
governo Trump. Em outubro, uma foto com o presidente Donald Trump levantando as
mãos e a frase, teve mais de 700 mil visualizações, 4,4 mil compartilhamentos e
23 mil curtidas, ultrapassando as respectivas médias do levantamento.
Segundo
Bruno Pompeu, o padrão — da figura de Donald Trump ocupando quase sempre o
centro da narrativa visual — revela uma personificação da instituição, em que
Trump se torna tão ou mais importante que a própria Casa Branca. Fotografado em
primeiro plano, frequentemente de baixo para cima ou com o fundo desfocado, o
presidente aparece maior que os demais, com postura rígida, ombros angulosos e
cercado por símbolos nacionais como a bandeira e a águia.
“Naquela
versão dele, como se fosse um super-herói, os ombros são amplificados ainda
mais. Por exemplo, na foto em que ele aparece com a primeira-ministra do Japão,
ele é muito maior do que ela. Os ombros dele estão acima, quase que acima da
cabeça dela, muito largos, muito angulosos. Tem essa ideia de engrandecer o
presidente”, avalia. “E sempre exaltando com um texto muito direto, muito
evidente, a importância dos Estados Unidos, e em alguns momentos com ironia,
quando se refere aos opositores”, acrescenta.
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A Mensagem política de Trump
A
relação imagética da captura de Maduro também reforça o posicionamento político
de Trump em torno do continente americano, para o doutor em Relações
Internacionais pela USP e professor na PUC-SP Arthur Murto. Segundo ele, “é uma
política externa não tão diferente daquela que os Estados Unidos empreenderam e
estão empreendendo historicamente, mas com essa novidade, uma comunicação
rápida, direta, profundamente explícita. Isso é uma novidade, e [é] feita para
chocar e para viralizar.”, descreve.
Já o
professor associado de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do
Paraná (UFPR) e vice-líder do Grupo de Pesquisa Comunicação Eleitoral da
universidade, Ary Azevedo Jr., ressalta que a fusão entre comunicação pública e
propaganda governamental existe desde a primeira gestão de Trump, mas
atualmente foi levada ao extremo. O professor nota a dramatização em preto e
branco, o enquadramento de baixo para cima para engrandecer lideranças. Os
textos sempre em vermelho funcionam como marcadores de gravidade e urgência.
O
perfil oficial da Casa Branca, logo após a notícia da captura de Maduro, no dia
3 de janeiro, postou em sua conta um vídeo editado, com mais de 4 milhões de
visualizações e 30 mil compartilhamentos. Com 163 mil curtidas, oito vezes mais
do que média, o vídeo mostra a potência militar dos Estados Unidos — com caças,
mísseis e bombardeamento na Venezuela.
A
produção também utiliza um discurso de Nicolás Maduro chamando Trump de
“covarde”. Além da comunicação direta, Murta descreve o vídeo como uma mensagem
clara aos demais países: “se você for desobediente com os Estados Unidos, nós
vamos lhe penalizar de alguma forma”, diz o professor.
Azevedo
Jr. avalia que o vídeo, montado no ritmo de videoclipe, aproxima
deliberadamente política externa e entretenimento. A gramática é a do
engajamento emocional: cortes rápidos, trilhas imponentes, cenas noturnas
verdes que evocam “front” militar, alternância entre bravatas e captura. Essa
linguagem, observa ele, “reduz a complexidade geopolítica a uma narrativa de
ameaça e salvação, ao mesmo tempo que faz eco à propaganda de guerra do século
20, agora remixada em redes sociais de grande alcance”, diz.
Não é
uma coincidência que Donald Trump, em entrevista à Fox News, concedida horas
depois da invasão à Venezuela, tenha declarado que acompanhou a captura de
Nicolás Maduro “ao vivo”, como se estivesse assistindo a um “programa de
televisão”.
A
declaração foi feita em Palm Beach, cidade do estado norte-americano da
Flórida, onde Trump passou o Natal e o Ano Novo. Em outro momento da
entrevista, o presidente afirmou que assistiu à ação em uma sala cercado por
generais, que “sabiam tudo o que estava acontecendo”. “Eu a vi literalmente
como se estivesse assistindo a um programa de televisão. Vimos em uma sala e
acompanhamos todos os aspectos”.
A
lógica de dominação de Trump tem ligação também com a atualização de doutrinas
passadas. Peter Hegseth, secretário de Defesa dos Estados Unidos, chegou a
retweetar em sua conta no X uma charge onde o Presidente Donald Trump está
pisando em cima da América Latina com um bastão escrito “Doutrina Donroe” – que
junta o nome “Doutrina Monroe” com o nome do presidente, Donald Trump. O post
já tem mais de 700 mil visualizações e 2,7 mil compartilhamentos. Já o
Departamento de Estado dos EUA, publicou na mesma rede social, uma imagem de
Trump editada em preto em branco com a frase, destacada em vermelho, “This is
Our Hemisphere” (Esse é o nosso Hemisfério, em tradução livre) A publicação
teve mais de 15 milhões de visualizações e 15 mil compartilhamentos.
Para
Arthur Murta, as duas postagens sinalizam de forma explícita uma reedição da
Doutrina Monroe, agora sob uma estética contemporânea e abertamente dominadora.
Esse enquadramento é reforçado por uma publicação da Casa Branca, com outro
vídeo compartilhado no X, onde venezuelanos comemoram as ações dos Estados
Unidos e agradecem ao presidente Donald Trump. O conteúdo teve mais de 32 mil
curtidas e 7 mil compartilhamentos, quase o dobro de suas respectivas médias.
Para
Murta, esse tipo de reação é mobilizado para legitimar intervenções, ao sugerir
que há setores na América Latina que desejam a presença norte-americana e
rejeitam a influência da China, da Rússia e de governos de esquerda.
Segundo
Clotilde Perez, o uso recorrente de símbolos como a águia revela um
autocentramento que atravessa a história e a cultura política dos Estados
Unidos. “Os Estados Unidos usam a águia, que é o signo milenar de dominação dos
impérios. O Império Romano usava a águia, o Império Bizantino usava a águia,
Hitler usava a águia. […] Então se você olha [historicamente], é um país
edificado culturalmente na dominação”, conclui.
Fonte:
Por Guilherme Cavalcanti e Wanessa Celina, da Agencia Pública

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