Marina
Basso Lacerda: Trump e a criação do modelo paleoconservador de projeção de
poder
Ao
contrário do que circula na memética da internet, em seu pronunciamento de 3 de janeiro sobre
a captura de Nicolás Maduro, Donald Trump não mencionou uma única vez a palavra
“democracia“. Essa omissão marca diferenciação com o paradigma
neoconservador, cujas intervenções – Iraque, Afeganistão e Líbia por exemplo –
justificavam-se precisamente pela retórica de exportar direitos individuais.
Trump,
no entanto, é um paleoconservador. E, como tal, inaugurou com a ação na
Venezuela um novo modelo de intervenção externa: vendido como de risco zero
(“nenhum americano foi morto”), justificado por um cálculo de retorno
financeiro (“vamos receber recompensas” pelo petróleo) e, sobretudo, ancorado
inteiramente na e pela política interna dos Estados Unidos.
Para
decifrar essa mudança de paradigma, é necessário recuar às raízes da
fragmentação da direita americana pós-Reagan e ao surgimento de duas correntes
rivais: o neoconservadorismo e o paleoconservadorismo.
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A Cisão: Neoconservadores vs. Paleoconservadores
O
neoconservadorismo emergiu como uma coalizão de intelectuais, empresários, a
direita cristã e setores da classe média que elegeu Ronald Reagan em 1980. Sua
plataforma fundia valores morais tradicionais ao neoliberalismo econômico,
defendendo uma projeção externa assertiva dos EUA como potência dominante no
combate à União Soviética.
Com o
fim da era Reagan e a queda do Muro de Berlim, essa coalizão perdeu seu líder
agregador e seu inimigo externo primordial. Com isso, ocorreu uma cisão,
que marcou o início de uma disputa pela alma da direita americana.
Os
neoconservadores, de um lado, passaram a advogar pela liderança global; os
paleoconservadores, por sua vez, defendiam uma visão de país voltada para
dentro, centrada na suposta na homogeneidade étnico-cultural e no
cristianismo – uma reação ao que viam como um globalismo desenraizante.
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A consolidação do neoconservadorismo intervencionista
Os
atentados de 11 de setembro deram impulso definitivo à “política externa
com fins morais”, justificada com base em uma suposta missão
civilizatória. Sob George W. Bush, figuras como Elliott Abrams e Paul Wolfowitz
colocaram a “guerra ao terror” e a promoção ativa da democracia no
centro da ação dos EUA – o que foi criticado como um imperialismo
messiânico.
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O retorno da ‘Velha Direita’: raízes e princípios do Paleoconservadorismo
Do
outro lado da cisão, os paleoconservadores se reivindicam herdeiros
do “conservadorismo tradicionalista” ou “Velha
Direita” pré-Segunda Guerra, inspirada em pensadores como Russell Kirk e
Robert Nisbet.
Para
pensadores dessa corrente, o multiculturalismo e o “politicamente correto”
seriam expressões de uma “teocracia secular”, do globalismo e do marxismo
cultural, hostis à identidade Ocidental americana. Essa visão se traduz em
um anti-intervencionismo geopolítico e um nacionalismo
cultural radical no plano doméstico.
Pat
Buchanan, outro pilar do movimento, direcionou sua crítica à elite
transnacional e ao livre-comércio, que teriam sacrificado a soberania
nacional e deixado para trás os “americanos esquecidos” – a classe
trabalhadora cujos empregos e comunidades foram erodidos pela globalização. Sua
resposta era um nacionalismo econômico que restabelecesse a
centralidade do trabalho americano.
É
precisamente dessa tradição, como argumenta Gottfried (2020), que brota a
genealogia intelectual do trumpismo e seu slogan “America First“. Trump
dialoga diretamente com os “esquecidos” de Buchanan. Suas tarifas
comerciais e sua retórica de “recuperação” industrial são a expressão prática
do nacionalismo econômico paleoconservador.
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O sequestro de Maduro: a máquina jurídica e a lógica do negócio
A
intervenção não se justificou por um proselitismo democrático, mas pela
primazia da política interna, expressa em três vetores: a rejeição do
custo humano das guerras tradicionais, o combate a ameaças
domésticas e a lógica do retorno financeiro.
O
primeiro vetor foi marcado pela ênfase obsessiva em que “nenhum americano
foi morto” – a operação foi vendida como um ato de força sem risco. O
segundo vetor definiu o modus operandi: não uma declaração de
guerra, mas a captura de um “narcoterrorista”, enquadrado como criminoso
comum em um processo do Distrito Sul de Nova York. A justificativa foi ancorada
em índices domésticos de violência, conectando o inimigo externo às “gangues” que
aterrorizam cidades americanas.
O
terceiro vetor, porém, desnudou o cerne da intervenção paleoconservadora. Trump
foi direto ao ponto: “Nós vamos administrar o petróleo”. Ao prometer que
as riquezas venezuelanas trarão “recompensas” aos EUA, apresentou a
ação como a recuperação de um patrimônio “roubado” e a gestão de um
empreendimento lucrativo.
Dessa
forma, Trump buscou legitimidade não perante uma comunidade internacional, mas
perante um eleitorado definido por ressentimentos e inseguranças
materiais. Sua linguagem falou diretamente aos que se sentem traídos pelo
globalismo, transformando uma operação militar distante em uma resposta
concreta – e potencialmente rentável – para suas aflições domésticas.
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A criação de Trump
O
sequestro de Maduro revela um aparente paradoxo: como um movimento de raízes
anti-intervencionistas como o paleoconservadorismo pode protagonizar uma ação
militar tão ousada? A resposta é que Donald Trump não renegou a
intervenção; reengenheou-a. Ele criou o modelo paleoconservador de
projeção de poder: uma operação de “polícia global” conduzida pelo Departamento
de Justiça justificada por uma narrativa estritamente doméstica e transacional.
Essa
reinvenção, porém, é também um resgate histórico. Coerente com o resgate
da “Velha Direita” pelos paleoconservadores – Trump resgata
o intervencionismo hemisférico da era pré-Guerra Fria: é uma certa volta
à “Diplomacia do Dólar” de William H. Taft – a defesa agressiva de
interesses econômicos – e ao “Big Stick” de Theodore
Roosevelt, agora executado com helicópteros de assalto e supremacia
cibernética.
A
operação consolida a paleoconservadorização da política externa dos
Estados Unidos. O “America First” se converte no manual
operacional de um novo (e antigo) paradigma. Trump não encontrou uma fórmula
para acabar com as intervenções norte-americanas; encontrou, talvez, a fórmula
para fazê-las, novamente, populares.
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Para evitar uma derrota histórica. Por Tiaraju Pablo
D'Andrea
A
exploração e exportação do petróleo durante todo o século XX transformou a
Venezuela em um dos países com maior PIB da região. No entanto, a riqueza
oriunda do petróleo nunca foi distribuída no país. Os recursos ficavam nas mãos
da burguesia venezuelana, muito rica, que ia de jatinho passar os finais de
semana em Miami.
Essa
desigualdade provocou muita pobreza, com miséria no campo e surgimento de
favelas nas grandes cidades. No plano político, dois partidos da burguesia
dividiram o poder durante todo o século XX.
Em 1989
ocorreu o Caracazo, uma revolta popular que muda os rumos da
história. A revolta começou a partir de protestos espontâneos contra o aumento
da passagem de ônibus. Logo se transformou em levante popular contra a fome e a
miséria.
O então
presidente, Carlos Andrés Perez, reprimiu violentamente a população. Foi um
banho de sangue nas ruas e favelas de Caracas. Até hoje não se sabe o número
real de mortos. Algumas fontes dizem ser 300. Outras 1.500.
No
entanto, a repressão ao Caracazo causou uma divisão dentro do
exército. Muitos soldados afirmaram que não era papel das forças armadas atirar
contra o próprio povo. O saldo de mortes, somado à pobreza da maioria da
população, fez o descontentamento virar um movimento político dentro do próprio
exército, organizado por Hugo Chávez, então militar. Chávez passa a ser uma
figura política cada vez mais conhecida. Oriundo dos extratos populares, sabia
falar com a população e entendia seus desejos.
Em
1998, ganhou a eleição presidencial por primeira vez, assumindo no começo de
1999. Foi presidente da Venezuela até o dia da sua morte, em 5 de março de
2013. Várias vezes reeleito, Hugo Chávez foi um dos presidentes mais populares
da história da América Latina. Já em 2002 sofreu uma tentativa de golpe de
Estado. O povo foi às ruas exigindo sua libertação. Chávez voltou aclamado e
ainda mais forte.
Seus
anos no governo foram muito importantes para a América Latina e o mundo. No
plano interno, com total apoio popular, seu governo redistribuiu a renda do
petróleo. Ao invés de financiar a ostentação da burguesia, esse recurso foi
utilizado para uma série de políticas sociais. A educação melhorou. A saúde
melhorou. Ampliaram-se as políticas habitacionais. A produção de alimentos
aumentou e foi diversificada.
Outro
avanço importante deu-se no âmbito cultural. O governo da Venezuela criou
formas midiáticas e artísticas que valorizaram a cultura nacional e os povos
originários, além de politizar sua população. A burguesia venezuelana nunca
aceitou ter perdido o poder para o povo. Os Estados Unidos nunca aceitaram um
país verdadeiramente livre na América Latina, ainda mais com reservas de
petróleo.
Tendo
Simón Bolívar como grande exemplo, Chávez foi também o maior impulsionador da
unidade latinoamericana nas últimas décadas, liderando um processo que uniu
experiências de vários países: a Bolívia de Evo, a Argentina dos Kirchner, o
Uruguai de Pepe Mujica, o Paraguai de Lugo, o Brasil de Lula.
Infelizmente,
muitos governos da América Latina não souberam aproveitar as oportunidades que
a chamada “onda rosa” propiciou. Era necessário avançar muito mais em
organização popular do que o que foi de fato realizado. A história cobra seu
preço.
Após a
morte de Chavez, em 2013, Nicolas Maduro, então vice, assumiu o cargo de
presidente. De maneira evidente, com o passar do tempo, a experiência
bolivariana cometeu equívocos, dividiu-se internamente, sofreu desgastes.
Contudo, há que se lembrar que os mandatos de Maduro tiveram que lidar com o
aprofundamento das campanhas de desestabilização organizadas pelos EUA com
apoio da burguesia venezuelana.
Nos
últimos anos, intensificaram-se diversos bloqueios econômicos contra a
Venezuela, dificultando as condições de vida no país. No âmbito político,
diversas campanhas de desestabilização dentro e fora do país instituíram uma
narrativa falsa de que o país estava sob uma ditadura e que a miséria reinava.
Algumas
figuras da direita venezuelana foram cruciais nesse plano diabólico de
destruição do próprio país, dentre os quais Capriles, Guaidó e Corina Machado.
A burguesia venezuelana preferiu aliar-se a uma potência estrangeira contra o
próprio povo, tendo como objetivo retomar o poder que deteve durante todo o
século XX (a direita brasileira faz a mesma coisa).
Há
também que se ressaltar o papel vergonhoso da mídia corporativa do Brasil, que
amplificou as diversas mentiras que se contou sobre a Venezuela. A mídia
corporativa brasileira (e de outras partes do mundo) serviu como uma correia de
transmissão dos interesses do imperialismo estadunidense. Bajulação pura!
Mesmo
com tantas dificuldades, a experiência bolivariana perdura no tempo. Nesse
âmbito, as comunas são o grande pilar do poder popular na Venezuela. É no
bairro que as decisões são tomadas. É uma democracia direta que funciona de
baixo pra cima. Essa força popular será crucial no decorrer dos acontecimentos,
e toda periferia e favela no Brasil tem muito a aprender com a experiência
territorial das comunas venezuelanas.
O
segundo mandato de Donald Trump é marcado pelo terrorismo de Estado. De olho
nas reservas de petróleo e no ouro da Venezuela, cercou e atacou militarmente o
país, violando tratados internacionais e a própria Constituição dos EUA.
O
recado de Trump vem sendo dado há um tempo: sua política imperialista e
neocolonial não tem limites, e sua intenção é roubar riquezas naturais e
subjugar povos.
Faz-se
necessária uma reação potente dos BRICS e do que resta dos organismos
internacionais. O povo dos Estados Unidos também precisa pressionar
internamente. A Europa deve abandonar a vergonhosa posição que assumiu, de
subserviência total aos EUA.
Mais do
que nunca, os povos da América Latina devem se unir. A Venezuela é a
experiência mais avançada de soberania e verdadeira independência. Sua derrota
é também uma derrota histórica para a América Latina.
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Sequestro de Maduro pelos EUA é ‘desculpa para
intervenção imperialista’, diz especialista jurídico
O
especialista jurídico norte-americano David Cole afirmou que o ataque dos
Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro
não foram “uma operação policial para aplicação da lei”, como alega o governo Donald Trump, mas sim “uma
desculpa para uma intervenção imperialista” no país latino-americano.
Em
entrevista ao programa Democracy Now, o professor de
Direito e Políticas Públicas da Universidade de Georgetown lembrou que a
intervenção norte-americana começou com “a execução sumária de mais de cem de
pessoas em barcos, supostamente envolvidas com tráfico de drogas”.
Após as
execuções extrajudiciais, “a situação escalou para o bombardeio de um porto de
carga na Venezuela”, além de incluir “um embargo e bombardeio a navios”.
Segundo
Cole, o sequestro de Maduro e da
primeira-dama venezuelana, Cilia Flores, “foi a desculpa, e não a justificativa”.
Para o professor, Trump deixou sua
intenção “bem clara” ao declarar que Washington estava “governando a
Venezuela”, “tomando controle de seu petróleo” e dando acesso às companhias
petrolíferas norte-americanas.
Sobre
as intenções dos EUA em relação ao
petróleo venezuelano, Cole afirmou que “Trump diz o que todos pensam”. Ele
lembrou que Washington já foi acusado “em muitas outras ocasiões de intervir em
outros países por interesses econômicos e exploração”. Contudo, o que Trump fez
foi “admitir, sem rodeios” essa intenção.
“Isso
não é uma operação policial. Não é legítimo, sob nenhuma interpretação do
direito internacional, do direito [norte-]americano, invadir outro país porque
eles têm algo que queremos. Simplesmente não é assim que o mundo funciona”,
reiterou.
Cole
também repudiou a argumentação do governo Trump de que as ações contra a
Venezuela visam “proteger” os cidadãos estadunidenses do suposto tráfico de drogas. “Não há sequer a
pretensão de proteger os [norte-]americanos. Trata-se de proteger os interesses
financeiros dos Estados Unidos, e em particular os interesses financeiros de
seus produtores de petróleo. E isso ultrapassa todos os limites do direito internacional,
da legislação americana e da moralidade básica”, reconhece.
Diante
da ilegalidade das ações do governo Trump, Cole alertou para a necessidade de
uma “condenação generalizada” e disse estar “muito preocupado com a omissão de
países europeus”.
“Eles
claramente temem Trump e suas táticas econômicas. Mas precisamos de uma
condenação internacional por parte do Conselho de Segurança da ONU e de todos
os países que respeitam a soberania”, alertou.
Segundo
o especialista jurídico, também é urgente que o Congresso dos EUA “rejeite uma
guerra em curso na Venezuela”. “Não deveríamos estar na Venezuela, ponto final.
Portanto, o Congresso pode votar para pôr fim a isso”, concluiu.
Fonte:
Le Monde/Outras Palavras/Opera Mundi

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