segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Marina Basso Lacerda: Trump e a criação do modelo paleoconservador de projeção de poder

Ao contrário do que circula na memética da internet, em seu pronunciamento de 3 de janeiro sobre a captura de Nicolás Maduro, Donald Trump não mencionou uma única vez a palavra “democracia. Essa omissão marca diferenciação com o paradigma neoconservador, cujas intervenções – Iraque, Afeganistão e Líbia por exemplo – justificavam-se precisamente pela retórica de exportar direitos individuais.

Trump, no entanto, é um paleoconservador. E, como tal, inaugurou com a ação na Venezuela um novo modelo de intervenção externa: vendido como de risco zero (“nenhum americano foi morto”), justificado por um cálculo de retorno financeiro (“vamos receber recompensas” pelo petróleo) e, sobretudo, ancorado inteiramente na e pela política interna dos Estados Unidos.

Para decifrar essa mudança de paradigma, é necessário recuar às raízes da fragmentação da direita americana pós-Reagan e ao surgimento de duas correntes rivais: o neoconservadorismo e o paleoconservadorismo.

<><> A Cisão: Neoconservadores vs. Paleoconservadores

O neoconservadorismo emergiu como uma coalizão de intelectuais, empresários, a direita cristã e setores da classe média que elegeu Ronald Reagan em 1980. Sua plataforma fundia valores morais tradicionais ao neoliberalismo econômico, defendendo uma projeção externa assertiva dos EUA como potência dominante no combate à União Soviética.

Com o fim da era Reagan e a queda do Muro de Berlim, essa coalizão perdeu seu líder agregador e seu inimigo externo primordial. Com isso, ocorreu uma cisão, que marcou o início de uma disputa pela alma da direita americana.

Os neoconservadores, de um lado, passaram a advogar pela liderança global; os paleoconservadores, por sua vez, defendiam uma visão de país voltada para dentro, centrada na suposta na homogeneidade étnico-cultural e no cristianismo – uma reação ao que viam como um globalismo desenraizante.

<><> A consolidação do neoconservadorismo intervencionista

Os atentados de 11 de setembro deram impulso definitivo à “política externa com fins morais”, justificada com base em uma suposta missão civilizatória. Sob George W. Bush, figuras como Elliott Abrams e Paul Wolfowitz colocaram a “guerra ao terror” e a promoção ativa da democracia no centro da ação dos EUA – o que foi criticado como um imperialismo messiânico.

<><> O retorno da ‘Velha Direita’: raízes e princípios do Paleoconservadorismo

Do outro lado da cisão, os paleoconservadores se reivindicam herdeiros do “conservadorismo tradicionalista” ou “Velha Direita” pré-Segunda Guerra, inspirada em pensadores como Russell Kirk e Robert Nisbet.

Para pensadores dessa corrente, o multiculturalismo e o “politicamente correto” seriam expressões de uma “teocracia secular”, do globalismo e do marxismo cultural, hostis à identidade Ocidental americana. Essa visão se traduz em um anti-intervencionismo geopolítico e um nacionalismo cultural radical no plano doméstico.

Pat Buchanan, outro pilar do movimento, direcionou sua crítica à elite transnacional e ao livre-comércio, que teriam sacrificado a soberania nacional e deixado para trás os “americanos esquecidos” – a classe trabalhadora cujos empregos e comunidades foram erodidos pela globalização. Sua resposta era um nacionalismo econômico que restabelecesse a centralidade do trabalho americano.

É precisamente dessa tradição, como argumenta Gottfried (2020), que brota a genealogia intelectual do trumpismo e seu slogan “America First“. Trump dialoga diretamente com os “esquecidos” de Buchanan. Suas tarifas comerciais e sua retórica de “recuperação” industrial são a expressão prática do nacionalismo econômico paleoconservador.

<><> O sequestro de Maduro: a máquina jurídica e a lógica do negócio

A intervenção não se justificou por um proselitismo democrático, mas pela primazia da política interna, expressa em três vetores: a rejeição do custo humano das guerras tradicionais, o combate a ameaças domésticas e a lógica do retorno financeiro.

O primeiro vetor foi marcado pela ênfase obsessiva em que “nenhum americano foi morto” – a operação foi vendida como um ato de força sem risco. O segundo vetor definiu o modus operandi: não uma declaração de guerra, mas a captura de um “narcoterrorista”, enquadrado como criminoso comum em um processo do Distrito Sul de Nova York. A justificativa foi ancorada em índices domésticos de violência, conectando o inimigo externo às “gangues” que aterrorizam cidades americanas.

O terceiro vetor, porém, desnudou o cerne da intervenção paleoconservadora. Trump foi direto ao ponto: “Nós vamos administrar o petróleo”. Ao prometer que as riquezas venezuelanas trarão “recompensas” aos EUA, apresentou a ação como a recuperação de um patrimônio “roubado” e a gestão de um empreendimento lucrativo.

Dessa forma, Trump buscou legitimidade não perante uma comunidade internacional, mas perante um eleitorado definido por ressentimentos e inseguranças materiais. Sua linguagem falou diretamente aos que se sentem traídos pelo globalismo, transformando uma operação militar distante em uma resposta concreta – e potencialmente rentável – para suas aflições domésticas.

<><> A criação de Trump

O sequestro de Maduro revela um aparente paradoxo: como um movimento de raízes anti-intervencionistas como o paleoconservadorismo pode protagonizar uma ação militar tão ousada? A resposta é que Donald Trump não renegou a intervenção; reengenheou-a. Ele criou o modelo paleoconservador de projeção de poder: uma operação de “polícia global” conduzida pelo Departamento de Justiça justificada por uma narrativa estritamente doméstica e transacional.

Essa reinvenção, porém, é também um resgate histórico. Coerente com o resgate da “Velha Direita” pelos paleoconservadores – Trump resgata o intervencionismo hemisférico da era pré-Guerra Fria: é uma certa volta à “Diplomacia do Dólar” de William H. Taft – a defesa agressiva de interesses econômicos – e ao “Big Stick” de Theodore Roosevelt, agora executado com helicópteros de assalto e supremacia cibernética.

A operação consolida a paleoconservadorização da política externa dos Estados Unidos. O “America First” se converte no manual operacional de um novo (e antigo) paradigma. Trump não encontrou uma fórmula para acabar com as intervenções norte-americanas; encontrou, talvez, a fórmula para fazê-las, novamente, populares.

¨      Para evitar uma derrota histórica. Por Tiaraju Pablo D'Andrea

A exploração e exportação do petróleo durante todo o século XX transformou a Venezuela em um dos países com maior PIB da região. No entanto, a riqueza oriunda do petróleo nunca foi distribuída no país. Os recursos ficavam nas mãos da burguesia venezuelana, muito rica, que ia de jatinho passar os finais de semana em Miami.

Essa desigualdade provocou muita pobreza, com miséria no campo e surgimento de favelas nas grandes cidades. No plano político, dois partidos da burguesia dividiram o poder durante todo o século XX.

Em 1989 ocorreu o Caracazo, uma revolta popular que muda os rumos da história. A revolta começou a partir de protestos espontâneos contra o aumento da passagem de ônibus. Logo se transformou em levante popular contra a fome e a miséria.

O então presidente, Carlos Andrés Perez, reprimiu violentamente a população. Foi um banho de sangue nas ruas e favelas de Caracas. Até hoje não se sabe o número real de mortos. Algumas fontes dizem ser 300. Outras 1.500.

No entanto, a repressão ao Caracazo causou uma divisão dentro do exército. Muitos soldados afirmaram que não era papel das forças armadas atirar contra o próprio povo. O saldo de mortes, somado à pobreza da maioria da população, fez o descontentamento virar um movimento político dentro do próprio exército, organizado por Hugo Chávez, então militar. Chávez passa a ser uma figura política cada vez mais conhecida. Oriundo dos extratos populares, sabia falar com a população e entendia seus desejos.

Em 1998, ganhou a eleição presidencial por primeira vez, assumindo no começo de 1999. Foi presidente da Venezuela até o dia da sua morte, em 5 de março de 2013. Várias vezes reeleito, Hugo Chávez foi um dos presidentes mais populares da história da América Latina. Já em 2002 sofreu uma tentativa de golpe de Estado. O povo foi às ruas exigindo sua libertação. Chávez voltou aclamado e ainda mais forte.

Seus anos no governo foram muito importantes para a América Latina e o mundo. No plano interno, com total apoio popular, seu governo redistribuiu a renda do petróleo. Ao invés de financiar a ostentação da burguesia, esse recurso foi utilizado para uma série de políticas sociais. A educação melhorou. A saúde melhorou. Ampliaram-se as políticas habitacionais. A produção de alimentos aumentou e foi diversificada.

Outro avanço importante deu-se no âmbito cultural. O governo da Venezuela criou formas midiáticas e artísticas que valorizaram a cultura nacional e os povos originários, além de politizar sua população. A burguesia venezuelana nunca aceitou ter perdido o poder para o povo. Os Estados Unidos nunca aceitaram um país verdadeiramente livre na América Latina, ainda mais com reservas de petróleo.

Tendo Simón Bolívar como grande exemplo, Chávez foi também o maior impulsionador da unidade latinoamericana nas últimas décadas, liderando um processo que uniu experiências de vários países: a Bolívia de Evo, a Argentina dos Kirchner, o Uruguai de Pepe Mujica, o Paraguai de Lugo, o Brasil de Lula.

Infelizmente, muitos governos da América Latina não souberam aproveitar as oportunidades que a chamada “onda rosa” propiciou. Era necessário avançar muito mais em organização popular do que o que foi de fato realizado. A história cobra seu preço.

Após a morte de Chavez, em 2013, Nicolas Maduro, então vice, assumiu o cargo de presidente. De maneira evidente, com o passar do tempo, a experiência bolivariana cometeu equívocos, dividiu-se internamente, sofreu desgastes. Contudo, há que se lembrar que os mandatos de Maduro tiveram que lidar com o aprofundamento das campanhas de desestabilização organizadas pelos EUA com apoio da burguesia venezuelana.

Nos últimos anos, intensificaram-se diversos bloqueios econômicos contra a Venezuela, dificultando as condições de vida no país. No âmbito político, diversas campanhas de desestabilização dentro e fora do país instituíram uma narrativa falsa de que o país estava sob uma ditadura e que a miséria reinava.

Algumas figuras da direita venezuelana foram cruciais nesse plano diabólico de destruição do próprio país, dentre os quais Capriles, Guaidó e Corina Machado. A burguesia venezuelana preferiu aliar-se a uma potência estrangeira contra o próprio povo, tendo como objetivo retomar o poder que deteve durante todo o século XX (a direita brasileira faz a mesma coisa).

Há também que se ressaltar o papel vergonhoso da mídia corporativa do Brasil, que amplificou as diversas mentiras que se contou sobre a Venezuela. A mídia corporativa brasileira (e de outras partes do mundo) serviu como uma correia de transmissão dos interesses do imperialismo estadunidense. Bajulação pura!

Mesmo com tantas dificuldades, a experiência bolivariana perdura no tempo. Nesse âmbito, as comunas são o grande pilar do poder popular na Venezuela. É no bairro que as decisões são tomadas. É uma democracia direta que funciona de baixo pra cima. Essa força popular será crucial no decorrer dos acontecimentos, e toda periferia e favela no Brasil tem muito a aprender com a experiência territorial das comunas venezuelanas.

O segundo mandato de Donald Trump é marcado pelo terrorismo de Estado. De olho nas reservas de petróleo e no ouro da Venezuela, cercou e atacou militarmente o país, violando tratados internacionais e a própria Constituição dos EUA.

O recado de Trump vem sendo dado há um tempo: sua política imperialista e neocolonial não tem limites, e sua intenção é roubar riquezas naturais e subjugar povos.

Faz-se necessária uma reação potente dos BRICS e do que resta dos organismos internacionais. O povo dos Estados Unidos também precisa pressionar internamente. A Europa deve abandonar a vergonhosa posição que assumiu, de subserviência total aos EUA.

Mais do que nunca, os povos da América Latina devem se unir. A Venezuela é a experiência mais avançada de soberania e verdadeira independência. Sua derrota é também uma derrota histórica para a América Latina. 

¨      Sequestro de Maduro pelos EUA é ‘desculpa para intervenção imperialista’, diz especialista jurídico

O especialista jurídico norte-americano David Cole afirmou que o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro não foram “uma operação policial para aplicação da lei”, como alega o governo Donald Trump, mas sim “uma desculpa para uma intervenção imperialista” no país latino-americano.

Em entrevista ao programa Democracy Now, o professor de Direito e Políticas Públicas da Universidade de Georgetown lembrou que a intervenção norte-americana começou com “a execução sumária de mais de cem de pessoas em barcos, supostamente envolvidas com tráfico de drogas”.

Após as execuções extrajudiciais, “a situação escalou para o bombardeio de um porto de carga na Venezuela”, além de incluir “um embargo e bombardeio a navios”.

Segundo Cole, o sequestro de Maduro e da primeira-dama venezuelana, Cilia Flores, “foi a desculpa, e não a justificativa”. Para o professor, Trump deixou sua intenção “bem clara” ao declarar que Washington estava “governando a Venezuela”, “tomando controle de seu petróleo” e dando acesso às companhias petrolíferas norte-americanas.

Sobre as intenções dos EUA em relação ao petróleo venezuelano, Cole afirmou que “Trump diz o que todos pensam”. Ele lembrou que Washington já foi acusado “em muitas outras ocasiões de intervir em outros países por interesses econômicos e exploração”. Contudo, o que Trump fez foi “admitir, sem rodeios” essa intenção.

“Isso não é uma operação policial. Não é legítimo, sob nenhuma interpretação do direito internacional, do direito [norte-]americano, invadir outro país porque eles têm algo que queremos. Simplesmente não é assim que o mundo funciona”, reiterou.

Cole também repudiou a argumentação do governo Trump de que as ações contra a Venezuela visam “proteger” os cidadãos estadunidenses do suposto tráfico de drogas. “Não há sequer a pretensão de proteger os [norte-]americanos. Trata-se de proteger os interesses financeiros dos Estados Unidos, e em particular os interesses financeiros de seus produtores de petróleo. E isso ultrapassa todos os limites do direito internacional, da legislação americana e da moralidade básica”, reconhece.

Diante da ilegalidade das ações do governo Trump, Cole alertou para a necessidade de uma “condenação generalizada” e disse estar “muito preocupado com a omissão de países europeus”.

“Eles claramente temem Trump e suas táticas econômicas. Mas precisamos de uma condenação internacional por parte do Conselho de Segurança da ONU e de todos os países que respeitam a soberania”, alertou.

Segundo o especialista jurídico, também é urgente que o Congresso dos EUA “rejeite uma guerra em curso na Venezuela”. “Não deveríamos estar na Venezuela, ponto final. Portanto, o Congresso pode votar para pôr fim a isso”, concluiu.

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Fonte: Le Monde/Outras Palavras/Opera Mundi

 

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